quinta-feira, 23 de janeiro de 2020

Poetas Populares: Silvino Pirauá Lima


SILVINO PIRAUÁ LIMA
(1848-1913)

Silvino Pirauá era natural de Patos. Foi discípulo de Romano, de quem era muito amigo. Tocava viola admiravelmente e foi repentista exímio. Foi o iniciador do romance em versos. Gostava das descrições geográficas e românticas.

São de sua autoria as ’ “História do Capitão do Navio”, das “Três Moças que quiseram casar com um só moço”, de “Zezinho e Mariquinha”, “A vingança do Sultão”, “Descrições da Paraíba”, do “Amazonas”, etc. etc.

Em companhia de seu discípulo Josué Romano, percorria anualmente os Estados do Nordeste, cantando ambulante.

Na seca de 1898, emigrou para o Recife, onde fixou residência.

Em Pernambuco, o grande menestrel acompanhado dos cantores José Duda, Antônio Batista Guedes e outros ilustrou com o estro do seu formidável talento o folclore regional.

E como todos os cantadores, era pobre; no dia em que faleceu a sua esposa, ele não tendo dinheiro, foi cantar, a fim de ganhar o necessário para fazer o enterro.

Quando foi atacado das varíolas que o mataram, em 1913 achava-se cantando na cidade de Bezerros.

Silvino Pirauá, foi depois de Romano, o maior cantador do Nordeste, nunca foi vencido, mas, venceu muitos cantadores.

Nas páginas a seguir, os leitores encontrarão algumas poesias desse grande cantador, que era chamado pelos seus colegas — o enciclopédico.

HISTÓRIA DE CRISPIM E RAIMUNDO

O caso que vou contar
No sertão aconteceu;
É a história de um conflito
Que entre dois homens se deu;
Um foi preso e processado,
O outro na luta morreu.

O primeiro se chamava
Crispim da Cunha Dourado,
Tinha muitos bons costumes,
Era homem ponderado;
Como bom pai de família,
Era então considerado.

O segundo se chamava
Raimundo Dias Valente,
 Era homem viciado,
Cachaceiro e imprudente;
Não respeitava ninguém,
Tinha fama de insolente.

Vindo Crispim do roçado
Encontrou casualmente
0 Raimundo que andava
A procura de aguardente;
Já um pouco prea-mar
Intimando de valente.

Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa,
Mandou Crispim segurar
No copo e beber primeiro
Com a condição de virar.

Crispim lhe disse: — Raimundo,
Tal ataque não me faça;
Para eu virar este copo
Devo encarar a desgraça:
O homem alcoolizado
A qualquer perigo abraça.

Raimundo disse; — Crispim,
Pegou no copo virou!
Bebe por bem ou por mal
Visto que nele pegou,
Se não já lhe mostrarei
No punhal o quanto sou!

Crispim lhe disse: — Raimundo,
Eu não bebo aguardente;
Para virar este copo
Caio logo de repente;
Mas para satisfazê-lo
Bebo um golpinho somente.

Raimundo foi a Crispim
Pegou-o pela cintura;
Disse: ou você vira o copo
Ou eu dou-lhe a sepultura;
Ferida de meu punhal
Não tem remédio nem cura.

Vendo Crispim que morria
No punhal do tai Raimundo,
Com a foice que trazia
Lhe deu um golpe profundo
Que ele em poucos minutos
Já estava no outro mundo.

Vinha chegando um inspetor
Achou Raimundo no chão,
Prendeu logo ao Crispim
Sem lhe prestar atenção.
Dizendo: Eu não admito
Crimes no meu quarteirão.

Seguiu o tal inspetor
Em busca do delegado,
Chegando na casa deste
Com Crispim preso e amarrado,
De chapéu na mão falou-lhe
Todo entusiasmado:

Ilustríssimo senhor,
Honradíssimo delegado.
Aqui está um criminoso
Que por mim foi capturado;
Matou um pai de família
Homem bem considerado.

Logo na cadeia pública
Foi Crispim encarcerado;
Depuseram as testemunhas,
Teve de ser processado,
Sem ser em nada atendido,
Foi logo pronunciado.

A pronúncia sustentando
O libelo oferecido,
Ficou fechado o processo
Sem Crispim ser atendido,
Só no Tribunal do Júri,
Podia ser decidido.

Havendo sessão do Júri,
Para Crispim ser julgado,
Pela forma do direito
Foi o Conselho formado;
O Juiz então perguntou-lhe
Se já tinha advogado.

Respondeu Crispim que tinha.
Visto lhe ser perguntado;
O juiz disse p’ra ele:
 — Diga lá o seu estado.
E se sabe por qual motivo
Vai agora ser julgado?

Tudo Crispim respondeu,
Com toda serenidade;
Fali ando com energia
Sem se arredar da Verdade;
 Assim mostrando que tinha
Alguma dignidade.

Perguntou-lhe o Juiz se houve
Um motivo imperioso
Para ele matar Raimundo
Ficando assim criminoso,
Por ter cometido um crime
Tão medonho e horroroso?

 — Que o matei, falo a verdade,
Não posso contradizer:
Fui agredido por ele
Sem poder me defender;
Em minha defesa própria,
Matei para não morrer!...

Nas declarações do réu,
O Juiz não achou excesso;
Ficou o Júri sabendo
Que ele era réu confesso;
O escrivão deu começo
A leitura do processo.

Depois da leitura finda
O tal processo seguiu
Para as mãos do Promotor,
Que sobre a mesa o abriu;
Tendo pedido a palavra,
A acusação proferiu:

 — Senhores, tenho nas mãos
Um processo volumoso;
Vede o que diz o libelo.
Contra este criminoso;
É um assassino confesso
Autor de um crime horroroso.

Senhores, o Réu presente
Dominado de paixão.
Matou um pai de família.
Sem lhe assistir a razão:
No processo está provado
A sua mal intensão.

O Réu matou a Raimundo
Por sua livre vontade,
Deixando a família dele
Na maior necessidade;
A mulher na viuvez
E os filhinhos na orfandade.

O Réu assim procedendo
Mostrou ser muito malvado;
Do processo se colige
Que foi de caso pensado,
Que ele quis cometer
Um crime tão reprovado.

O Réu cometeu um crime
Em tudo repugnante.
Qualificado na Lei
Como delito agravante;
Em seu favor não existe,
Nem um só atenuante.

A viúva com os filhos
Envoltos em negro véu.
Estão sem ter um consolo,
Com os olhos fitos no céu,
Pedindo justiça a Deus.
E a condenação do Réu.

Chorando todos lamentam
O ser amado perdido,
Os filhinhos por seu pai
A mulher por seu marido;
Estão pedindo justiça
Para o crime cometido.

Senhores, o Réu presente
É um monstro da natureza;
Matou o seu semelhante
Somente por malvadeza;
Quem mata sem ter razão,
Nem devia ter defesa.

Senhores, um crime tal,
Só o pratica um incréu,
Que não respeita a justiça
E nem deseja ir ao Céu;
Em nome da Lei eu peço
A condenação do Réu.

Como pede no libelo
No artigo destinado;
Cento e noventa e dois
Grau máximo confirmado.
Faça o conselho justiça
A este Réu acusado.

Terminada a acusação
Por parte do Promotor,
O processo foi entregue
Ao nobre defensor
Para fazer a defesa
Do Réu, com todo valor.

Então o advogado
Se levantou da cadeira.
Principiou a defesa
Por uma boa maneira;
Descrevendo claramente
A história verdadeira.

Meus senhores, eu lamento
Não ser bom advogado,
Para defender o Réu
E ter um bom resultado;
Fazendo ver as razões
Que tem o meu Querelado.

Com toda a minha franqueza,
Atenção a todos peço,
Para mostrar a verdade,
É em que mais me interesso
Contra a ilegalidade
Que vejo neste processo.

O primeiro ponto é,
Sobre a causa do delito;
Não foi de caso pensado
Que se deu o tal conflito;
Foi um fato casual
No qual eu muito medito.

Contra meu constituinte
A justiça se tornou
Muito severa de m ais;
Pela culpa que formou,
O que era mais necessário
Esquecido então ficou.

Vindo Crispim do roçado,
Sucedeu casualmente
Encontrar-se com Raimundo
Que vinha ligeiramente.
Nessa mesma ocasião
A procurar aguardente.

Como eram conhecidos.
Seguiram juntos então,
Crispim um mau pensamento
Não tinha no coração;
Raimundo, provavelmente.
Já vinha com má tenção.

Chegaram em uma venda,
Raimundo mandou botar
Dessa vez meia garrafa
E logo sem demorar
Deu a Crispim p’ra beber
Com a condição de virar.

Crispim lhe disse: — Raimundo,
Eu não costumo beber;
Para virar este copo
Saiba que não pode ser;
Apenas bebo um pouquinho
Para lhe satisfazer.

Raimundo lhe respondeu
De um modo desleal;
 — Camarada o nosso encontro
Hoje tem que acabar mal:
Ou você bebe ou morre
Na ponta de meu punhal.

E tendo o punhal em punho
Pegou Crispim na cintura,
Este com medo e antevendo
Abrir-se-lhe a sepultura.
Deu um golpe em Raimundo,
Quase em estado de loucura.

Matar o seu semelhante
É um crime horroroso,
Mas sendo em defesa própria
Não se torna criminoso;
Se quem mata tem virtude
Crispim é um virtuoso.

A lei acusa a quem mata
Se matar por malvadeza;
Da mesma forma defende
Quem mata em própria defesa;
Deve defender Crispim
Que matou sem ter certeza.

Existindo no libelo
Circunstâncias agravantes,
Contra o meu querelado
As provas não são bastantes,
E eu para destruí-las
Sobram-me os atenuantes.

Não consta desse processo
Haver premeditação;
Ou emboscada que fosse
Em lugar de solidão;
De perpetração do crime
Não houve tal intenção.

Disse o nobre promotor,
Que este infeliz querelado,
Por ser um homem perverso.
Matou de caso pensado;
Peço a ele que me mostre
Aonde isto está provado.

A gravidade do crime
Existe na intensão,
Certeza de praticá-lo
Com furiosa paixão;
Havendo caso pensado
Para ter execução.

No ilustrado Conselho
Existe a competência
De absolver a Crispim
Com justiça e consciência;
Quando a verdade triunfa,
É dispensada ciência.

Confiado no Conselho
Pela forma do direito.
Terá o meu querelado
Um justo e feliz conceito;
Tendo a absolvição
Picando assim satisfeito.

O Conselho de sentença
Vendo que toda a razão
’Stava ao lado de Crispim,
Com a devida aptidão,
Em face da mesma lei,
Lhe deu a absolvição.

Levantou-se o juiz e disse
Com sua austera presença:
Em vista da decisão
Do Conselho de sentença
Dou ao réu a liberdade
Que a Justiça lhe dispensa.

***

E TUDO VEM A SER NADA

Tanta riqueza inserida
Por tanta gente orgulhosa,
Se julgando poderosa
No curto espaço da vida;
Oh! que ideia perdida,
Oh! que mente tão errada.
Dessa gente que enlevada
Nessa tingida grandeza
junta montões de riqueza,
E tudo vem a ser nada.

Vemos um rico pomposo
Afetando gravidade,
Ali só reina bondade.
Nesse mortal orgulhoso,
Quer se fazer caprichoso.
Vive de venta inchada.
Sua cara empantufada,
Só apresenta denodos
Tem esses inchaços todos
E tudo vem a ser nada.

Trabalha o homem, peleja
Mesmo a ponto de morrer,
É somente para ter.
Que ele se esmoreja,
As vezes chove e troveja
E ele nessa enredada,
Alguns se põem na estrada
À lama, ao sol ao chuveiro,
A juntam muito dinheiro,
E tudo vem a ser nada.

Temos palácios pomposos
Dos grandes imperadores.
Ministros e senadores,
E mais vultos majestosos;
Temos papas virtuosos
De uma vida regrada.
Temos também a espada
De soberbos generais.
Comandantes, Marechais,
E tudo vem a ser nada.

Honra, grandeza, brasões;
Entusiasmos, bondades;
São completas vaidades
São perfeitas ilusões.
Argumentos, discussões;
Algazarra, palavrada,
Sinagoga, caçoada,
Murmúrios, tricas, censura,
Muito tem a criatura,
E tudo vem a ser nada.

Vai tudo numa carreira
Envelhece a mocidade,
A avareza e a vaidade
É quer queira ou não queira;
Tudo se torna em poeira,
Cá nesta vida cansada
É uma lei promulgada
Que vem pela mão Divina,
O dever assim destina
E tudo vem a ser nada.

Formosuras e ilusões.
Passatempos e prazeres;
Mandatos, altos poderes;
De distintos figurões,
Cantilenas de salões;
E festa engalanada,
Virgem-donzela enfeitada
No gozo de namorar.
Mancebos a flautear,
E tudo vem a ser nada.

Lascivas, depravações
Na imoral petulância,
São enlevos da infância,
São infames Corrupções;
São fingidas seduções
Que faz a dama enfeitada
Influi-se a rapaziada
Velhos também de permeio.
E vivem nesse paleio,
E tudo vem a ser nada.

Bailes, teatros, festins.
Comedia, drama, assembleia,
Clube, liceu, epopeia;
Todos aguardam seus fins,
Flores, relvas e jardins.
Festas com grande zoada.
Outeiro e Campinada
Frondam, copam e florescem.
Brilham, luzem, resplandecem;
E tudo vem a ser nada.

O homem se julga honrado.
Repleto de garantia,
De brasões e fidalguia.
É ele considerado,
Mas, quanto está enganado
Nesta ilusória pousada
Cá nesta breve morada.
Não vemos nada imortal
Temos um ponto final;
E tudo vem a ser nada.

Tudo quanto se divisa
Neste cruento torrão.
As árvores, a criação,
Tudo em fim se finaliza,
Até mesmo a própria brisa,
Soprando a terra escarpada,
Com força descompassada
Se transformando em tufão,
Deita pau rola no chão,
E tudo vem a ser nada.

Infindo só temos Deus,
Senhor de toda grandeza,
Dos céus e da natureza.
De todos os mundos seus.
Do Brasil, dos Europeus,
Da terra toda englobada
Até mesmo da manada
Que vemos no arrebol:
Nuvem, lua, estrela e sol,
Tudo mais vem a ser nada.


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Fonte:
Francisco Chagas Batista: “Cantadores e Poetas Populares” (1929)
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020)

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