terça-feira, 19 de maio de 2020

As "Canções desta Negra Vida" (Resenha)


Eugênio de Castro: As "Canções desta Negra Vida"

Dos meus tempos de Coimbra, da lendária Coimbra acastelada num outeiro com sua graça medieva, com sua patina nas pedras das casas acotoveladas nas ruas estreitas, — guardo da convivência com o grande poeta Eugênio de Castro os melhores momentos da minha vida.

Eugênio de Castro mantêm em Coimbra patriciado incontestado entre os rapastes que dos recantos da província deságuam, desejosos de plasmar na velha e douta disciplina universitária a ânsia encantadora do saber e da sensibilidade.

O cenário de Coimbra é maravilhoso e nas imaginações novas, frescas como barro a modelar, o seu encanto sugestivo, afeiçoa as almas, rememora-as e vivifica-as.

Os choupos hirtos marginam o Mondego — uma fita cristalina de águas rumorosas.

Os olivedos vestem a terra do burel pardacento — hábito monástico que torna as colinas místicas, erguendo preces, à hora ao sol pôr, à rosácea decorativa e maravilhosa do céu.

Os recantos de Coimbra são bordados de lenda. As Eras, com seus dedos ágeis e femininos, tangeram os bilros do encantamento e da beleza.

Nenhuma paisagem de Portugal me dá como a de Coimbra, recortada e expressiva, — pedaços luminosos que o passe-partout da nossa imaginação emoldura.

É nesse ambiente de passado vivo, nesse gabinete maravilhoso de trabalho que o poeta Eugênio de Castro vem realizando a sua obra de elevados, espiritualíssimos intuitos artísticos.

Em pleno simbolismo, nunca Eugênio de Castro foi estrangeiro em sua terra. Na sua obra brilha o esmalte policromo da língua, a alma portuguesa canta como flâmula sobre um mastro alto, a doçura lírica, tão da raça, rumoreja o seu rumo discreto.

Entre os desvarios da escola nascente, a sua profunda e sólida educação clássica salva o Mestre e — inda que pareça estranho — sobre o bailado das imagens e dos ritmos, paira um claro pensamento de equilíbrio, um doce e sábio espírito de ordenação e regra.

Eugênio de Castro é um exemplo típico de saúde intelectual, herdeiro de aqueles velhos escritores que, apertados entre as quatro paredes da cela, como operários pacientes, encantados da obra, escreviam ao ritmo da areia, de ouro da ampulheta o memorial de suas almas, fazendo peregrinar os vocábulos sobre o pergaminho, com espírito, com firmeza, com a graça e o donaire.        

Nenhum poeta em Portugal como Eugênio atingiu uma tão máscula e espontânea fidalguia de expressão, dum português encanto.

A nossa língua, sonora e meiga, serpenteia nos versos de Eugênio como fita d'água buliçosa por entre margens verdes, gorjeando.

Brilha e rebrilha em imagens como estranho caleidoscópio, pulsa e geme, desdenha-se em traços nítidos e sóbrios, musicaliza-se em vagos sons de quimera.

Eugênio é o artista a quem a preocupação da forma não esfriou o élan-interior, a labareda da emoção.

O seu novo livro Canções desta negra vida, coloca definitivamente o poeta na clássica, escorreita simplicidade da Arte.

As suas Canções são lenços policromos, são as bandeiras soltas ao vento do lindo arraial da sinceridade. Tremulam aos nossos olhos, são decorativas como panos de arrás, são espirituais e cheias de emoção como boca rosada, a desfolhar-se em pétalas de cantigas.

Ouçam a ternura da Canção do Carpinteiro, tocada de tão humano simbolismo:

Sendo novo, fiz um dia
Um bercinho de embalar;
Quando acabei de o fazer
Sentei-me... e pus-me a chorar...

Anos depois fiz um leito
Para uns noivos lá deitar;
Quando acabei de o fazer,
Sentei-me e pus-me a cismar...

Há dias fiz um ataúde
Para um morto se enterrar;
Quando acabei de o fazer,
Sentei-me... e pus-me a cantar...

E a bela Canção da nobre Pompeia louvor da gata:

Minha pelugem de seda
Vence as ágatas mais belas,
E em meus olhes de esmeraldas,
Passam regatas de estrelas.


A Canção da Oliveira Seca duma toada religiosa, dum enlevo cristão:

Nasci tristonha e sisuda,
Ao invés da laranjeira,
Mas se Deus me não fez bela,
Criou-me trabalhadeira.

Tenho veia de poeta,
Compus ingênuos versinhos,
Louvando Deus nas alturas
Pela boca dos meus ninhos.

Os meus frutos eram negros
Como a sombra duma cruz,
Mas de torturados,
Sendo negros, davam luz.

E a tristeza resignada da Canção da Donzela Envelhecida:

Sá sua carreira o tempo
Tudo leva e desbarata:
Meus longos, finos cabelos
Eram de ouro e estão de prata.

Fanaram-se os jasmins alvos
Que me treparam pelo seio
O espelho em que eu me revia,
Para me não ver, enterrei-o.

E a Canção das três virtudes teologais, com o seu ar sóbrio de apólogo:

Pendentes duma pulseira
E objetos de ostentação,
Somos três berloques de ouro,
Cruz, âncora e coração.

— Eu, cruz, abrindo os meus braços
Ofereço aos pobres guarida,
E, árvore seca da morte,
Dou frutos de eterna vida.

— Eu, âncora, em quieto porto,
Por noites negras, sem luar,
Prendo os barquinhas enquanto
Rugem leões no alto mar!

— Coração, sei quanto tinha,
Tudo dei, à doida, a esmo...
Partindo-me aos bocadinhos,
Vou dar-me agora a mim mesmo...

Uma canção inédita de São Francisco de Assis é um painel dum primitivismo cristão, onde a alma do santo de Assis floresce na universal ternura pelas coisas e pelos bichos. O santo canta o Ouriço caixeiro:

Uma vez vindo da esmola,
Com a alma em Jesus Cristo,
Vi uma coisa a meus pés
Como inda não tinha visto,

Toda eriçada do espinhas
Essa coisa repelia
Pela sua lealdade...
Mas palpitava o sofria!

Sofria... Bastava! Então
Curvei-me humilde; e ligeiro
Do chão ergui nestas mãos
Um pobre ouriço caixeiro.

Agonizava o infeliz
Em tremuras dolorosas!
Beijei-o e picou-me, enchendo
A minha boca do rosas.

Morreu o pobre cm meus braços,
Triste, para mim sorrindo...
Nunca vi um ser tão feio,
Nunca tive um irmão tão lindo!

É assim torto o livro, cheio de emoção e beleza, um bailado de ritmos sobre o tapete bizarro das imagens.

Os próprios títulos tas Canções são sugestivos: a Canção da Mão esquerda, a Canção da Borboleta chamuscada, a Canção do Avisado Craveiro, a Canção das Seis Marias, a Canção da Jumentinha do Presépio, a Canção da camisa do no noivado e tantas outras. O livro termina pela Canção dos meus seis amoras, um pequeno e delicioso poema de ternura filial; em que o admirável poeta que cantou os filhos em admiráveis sonetos,de novo os canta no ritmo breve de redondilha, — linda cantiga para embalar seis quimeras.

Em Eugênio renasce o nosso medievalismo lírico, espelho da Lusitânia, coração de Portugal.

---
CARLOS LOBO DE OLIVEIRA
Março de 1923.
Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2020).
Ilustração: Correia Dias.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sugestão, críticas e outras coisas...