quarta-feira, 20 de maio de 2020

O desalento em Fagundes Varela (Resenha)



O desalento em Fagundes Varela

Minh'alma é como um deserto,
Por onde o romeiro incerto,
Procura uma sombra em vão;
E como a ilha maldita,
Que sobre as vagas palpita,
Queimada por um vulcão!

A vida de Fagundes Varela, diz Agripino Grieco, foi tão poética quanto os seus versos. "Foi a vida de um lírio desvairado, de um contemplador de nuvens, de um pescador de estrelas na água.  Mas, quanta poesia há nesse homem, quanta humanidade nesse poeta!" Mas, quanta resignação daqueles olhos amortecidos pela insônia se resumia toda angústia humana:

Tornei-me o eco das tristezas todas,
Que entre os homens achei...

No "Cântico do Calvário" aflora, dolorida, desilusão do poeta de "Noturnas":

Ai! doido sonho!...  Uma estação passou-se
E tantas glórias, tão risonhos planos
Desfizeram-se em pó...

E noutra parte, ele, que no dizer de alguém, fora "bela figura loura, afável e comunicativa," começa a pensar como:

Tudo é dúbio e trevoso, tudo é falso;
Uma cousa há real — ninguém o nega —
É a morte somente!

Edgard Cavalheiro, na magnífica biografia de Fagundes Varela, estuda o meio social, a época; mostra a Pauliceia do século passado, com seus estudantes, seus poetas, sua garoa; mostra a Faculdade de Direito de São Paulo, com uma mocidade inquieta, pronta a todas as inovações, disposta a todos os sacrifícios — essa Faculdade onde a sombra capenga de Byron no decênio de 60 a 70 pairava ameaçadora e fatal...

Poeta na mais pura expressão da palavra, Fagundes Varela, de emotividade dolorosa que era, foi o dono da mais poderosa sensibilidade do grupo byroniano. Compunha com uma facilidade assombrosa, como de improviso, não tinha tempo para corrigir as suas produções. O poeta do "Evangelho nas Selvas" esbanjou a mocidade, gastou perdulariamente a vida, deixando obra um tanto irregular.

Sílvio Romero diz que não sabe o que mais admirar em Varela, se o lirismo de fantasiar vago, dolente, aéreo e humano, cheio de doçuras e sonoridades, alguma coisa de impalpável e quimérico, de vaporoso e dúbio, como os sonhos de um espírito alheado da realidade, ou o poeta cristão, ou o descritivo ou, ainda, a forma de seus versos brancos, os mais belos da língua portuguesa.

Para Clovis Leite Ribeiro, Fagundes Varela, com seus versos brancos rigorosamente melódicos, com seus versos seguros no valor pictórico dos vocábulos e ricos de imagens, marca o momento de transição entre o romantismo e o parnasianismo.

 Fagundes Varela não foi apenas o paisagista vigoroso e firme, não foi apenas o lírico da dúvida e do pessimismo influenciado por Musset e Byron; atingiu também com o seu lirismo regionalista modulações surpreendentes pela brasilidade das imagens em versos como:

Pelas rosas, pelos lírios,
elas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá!

No "Evangelho nas Selvas", Varela atinge o máximo do colorido, de movimento, de luz e de riquezas fônicas, como se vê quando:

O ministro de Deus, medita e ora
Na sossegada ermida; um velho padre.
De longa barba e descorado rosto,
Antigo companheiro, hoje de volta,
Sentado à porta sobre dura pedra,
Folheia grossa Bíblia.  De joelhos
A seu lado, Naída, atenta e muda,
Considera as gravuras primorosas.

Divorciado, pode-se dizer, da vida, diz José Teixeira de Oliveira, o autor de "Cantos do Ermo e da Cidade" passava longos meses desaparecido em excursões solitárias por lugarejos e fazendas do interior, o que explica de certo modo o seu gosto pela natureza:

Como é suave o aroma das florestas!
Como é doce das serras a frescura!

Romântico, paisagista, havia nele sempre um traço inequívoco da terra e da gente brasileira.

No "Evangelho nas Selvas" há sentimento, vida íntima, sinceridade; há notável colorido de cenários, perfil de caracteres e, sobremodo, unção piedosa. Vai da invocação à Cruz até a morte de Anchieta, passando pela estrela guiadora dos Magos, a pintura do Batista, a tentativa de Satanás, o arrependimento de Madalena, o sonho e a morte de Naída, o festim de Herodes, as cenas do Pretório, a ressurreição de Jesus, com a força do encanto e do gênio.

Se foi o maior poeta cristão daquela época, seu cristianismo, observa Agripino Grieco, é bem de "um tom ingenuamente popular, de rezas, de procissões, de romarias e nada encerra de asperamente teologal de transcendências de escolástica". Compôs versos em forma de cruz e entre delírio e mistério, enxergou símbolos da paixão divina nos ornamentos da flor do maracujá.

Politicamente, não foi estranho à sua época, afirmando:

O passado e o futuro são dois pontos
Que o presente examina, estuda e marca.

Em "Mauro, o escravo", os seus versos tem a força do libelo.

"Noturnas", "Cantos do ermo e da Cidade", "Cantos e fantasias", "Vozes meridionais", "Pendão auriverde" e "Anchieta" ou "Evangelho nas Selvas" são obras que possuem o lampejo do gênio. No dizer de alguém, Fagundes Varela estudou pouco, mas produziu muito, fez boemia intensa e casou-se.

No "Cântico do Calvário" chorou a perda do filho, deixando-nos um poema que há de viver na memória e no coração de quantos amam o belo e se condoem do infortúnio de um pai amantíssimo.

Oh! filho de minh'alma, último lume
Que neste céu nublado aparecia!

E noutro lugar, vemo-lo como a nos lembrar um pouco Edgar Allan Poe, quando evoca novamente o filho querido:

Eras na vida a pomba predileta,
Que sobre um mar de angustiai conduzia
O ramo da esperança!...

Dias mais sombrios de desespero vieram à alma do poeta, entregando-se este, como refúgio, cada vez mais ao álcool, consumindo o calor da mocidade nas tavernas.

O álcool se apresenta nessa vida, diz Edgard Cavalheiro, como um acidente funesto para o homem, mas sem fundas consequências para o artista. Sua poesia, serena, com vagos tons de pastoral jamais será turvada por ele. Ela nasce, apesar do álcool; nunca por causa dele.

Fagundes Varela nasceu a 17 de agosto de 1841, na Fazenda de Santa Rita do Rio Claro, Estado do Rio. Aos 19 anos, depois de inúmeras viagens pelo interior de nossa pátria, em companhia do pai, que era juiz de direito, chega à capital paulista. Ao matricular-se na Faculdade de Direito fora saudado com entusiasmo pela mocidade acadêmica, apesar de sua tristeza ingênita, que mais tarde aparece nos seus versos. Ainda no primeiro ano, casa-se com Alice de Loande, jovem formosíssima. Antes de um ano, o filho do casal, Emiliano, morre. Tempos depois deixando a esposa em Rio Claro, transfere-se para Recife, quase perdendo a vida em naufrágio perto da Bahia. Morre-lhe a jovem amada de tuberculose. Desgostoso, abandona os estudos, voltando para a fazenda, em Rio Claro. Por insistência dos pais, casa-se novamente com sua prima Belisária Lambert, mas, não muito depois, a 18 de fevereiro de 1875, com 34 anos de idade, em Niterói, é encontrado agonizante, caído na rua, completamente alcoolizado, para se levantar tão somente com a glória de ter sido um dos gênios da poesia nacional.

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DANTE ALIGHIERI VITA
Revista do Professor, fevereiro de 1952.

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