5/22/2020

Aspectos da poesia de Eugênio de Castro (Resenha)



Aspectos da poesia de Eugênio de Castro
Eugênio de Castro é, predominantemente, um artista, um escritor de imagens. No seu espírito, todas as impressões e todos os reflexos do mundo e da vida revestem, de preferência, valores picturais e rítmicos. É o próprio de um artista. E a poesia participa de toda a Arte. Não é apenas, porém, um notador de impressões diretas, um registro vivo de percepções próximas. Atinge, como poeta, um grau superior da representação mental, de concepção geral.
Essas duas qualidades explicam-lhe a obra; que por seu lado, as prova; devendo acentuar-se, contudo, que mesmo as suas representações mentais de grau superior se reduzem e transpõem, ordinariamente, em imagens vivas, em vez de se exteriorizarem por meios de linguagem abstrata; o que confirma, ampliando-a, a observação já feita acima.
Por isso que um pintor e um simplionista tenderá sempre a traduzir as suas emoções em som e cor.
Por isso que é um representativo de generalidade passará, naturalmente e de bom grado, da contemplação e realização de motivos belos, concretos e dispersos à contemplação e invenção da Beleza, secundo uma concepção idealista. E, assim, devia realmente exercer, como exerce, as aptidões excepcionais que possui no sentido da criação sintética (aliando sempre a intenção do detalhe artístico). E é ver: a sua composição é quase sempre quase voluntariamente simplificada; elimina, de ordinário, o documento local, a particularidade cronológica, o traço miudamente individuante; liberta-se, como de estorvos, das condições do espaço e do tempo.
Com semelhante aptidão e tendência de composição genérica, com uma tal forma de invenção, teria sido, noutro tempo, um clássico — tomando a palavra na acepção e sob o ponto de vista em que deve aqui tomar-se: como correspondendo à tendência de redução ao universal. E viriam reforçar-lhe e completar-lhe essa tendência as suas qualidades, bem latinas, da clareza, do gosto, da harmonia ordenada, assim como a sua reconhecida predileção pelas personagens e figuras de espécie nobre, de casta dominadora e prestígio hierático.
No nosso tempo, não deve admirar que ele obedecesse, sob outra forma, a uma tendência, de invenção generalizadora e universalista — uma vez que ela fosse sugestiva de produção artística e plástica. Explica-se também, portanto, a ação exercida no poeta por essa corrente do espírito moderno, que representa, talvez, um alargamento do universal clássico. Explica-se a influência exercida na sua obra pelo Cosmopolitismo (que — para desenhar todo inteiro este traço — terei de considerar conjugado com a noção de cronopolitismo); pois se o espírito cosmopolita não oferece, como o classicismo, uma integração de ideias comuns, uma categoria ou seriação de caracteres normalmente belos oferece, no entanto, na própria multiplicidade dos aspectos, um largo interesse de objetividade humana e física. Enfim, é ainda pelas duas ordens de qualidades, logo de princípio apontadas, que podemos explicar em Eugênio de Castro a fase simbolista.
Se por acaso o Simbolismo significou para o nosso poeta a conciliação de duas disposições, cujo antagonismo constitui um traço curioso — a conciliação dessa faculdade de idealização no universal e da sua fantasia pessoalmente caprichosa, individualmente insubmissa — e, deste modo, lhe fez, afinal, dos seus personagens humanos, das suas estilizações da Espécie, personificações das próprias ideias e sentimentos; o que, no fundo, significa para o crítico é, sempre, a afirmação brilhante e decisiva da sua espécie de imaginação sensitiva, de seu poder de invenção e realização plástica e rítmica. Se não, pergunte-se: o que distingue, o particulariza o seu simbolismo? É exatamente a sua beleza, de esplendor evidente, em que se aliam a síntese de expressão e a notação do detalhe intencional (que não devemos confundir com o detalhe característico — local e cronológico); é todo o real segredo de sugestão, que se encerra sobretudo no prestígio decorativo das figuras; é, finalmente, o seu virtuosismo tão extenso.
A sua arte literária, com efeito, combina e realiza um caso curioso, um exemplo notável do que só poderei chamar — processão em som e cor.
Não deverei também fazer notar aqui que Eugênio de Castro tem um seguro e delicado ouvido musical, que revela aptidão excepcional para a pintura, e que possui qualidades raras de decorador? Não me parece indiferente mencionar esta circunstância. Mas, não obstante o predomínio daquele primeiro traço, faz-se mister realçar os aspectos e qualidades da sua lírica.
— Nesta espécie mesmo, na própria poesia de expressão direta, revelação contínua do revelado — é ainda o artista que sobrenada e transparece.
Realmente, as suas líricas são uma confirmação e um reflexo desse modo de ser: na riqueza da imagem e na elasticidade viva do ritmo; são a prova decisiva de que ele possui, como poucos, o poder de transposição da ideia num equivalente material. Ideias e sentimentos veem corporizar-se-lhe com toda a cor, com todo o vigor da vida, como se nele as sensações primitivas das coisas, ao tornarem-se simples imagens mentais, ainda lá guardassem todas as vibrações do mundo físico.
Por isso as suas páginas nos fulguram aos olhos, e nos cantam no ouvido.

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MANUEL DA SILVA GAIO
Coimbra, 25 de fevereiro de 1902.
Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020).

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