sábado, 7 de novembro de 2020

Cocó (Conto), de Guy de Maupassant

 


Cocó

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

A fazenda dos Lucas era conhecida em toda a redondeza por "Granja". A razão por que assim se chamava não se saberia dizer. Os camponeses ligavam, sem dúvida, àquela palavra uma ideia de riqueza e de grandeza, porque a fazenda em questão era certamente a maior, a mais opulenta e a mais organizada da região.

O pátio, imenso, rodeado de cinco filas de árvores, magníficas para abrigaram contra a violência do vento, a planície plantada de árvores de frutos carnudos e delicados continha extensas construções cobertas, divididas em tulhas para conservar as forragens e os grãos de diversas espécies, belos estábulos construídos em sílex, cavalariças para trinta cavalos, e uma casa de habitação em ladrilho vermelho, que parecia um pequeno castelo.

 O estrume ostentava-se em abundância; os cães de guarda habitavam nos seus nichos; uma população de aves domésticas circulava na erva abundante. Todos os dias, ao meio dia, quinze pessoas, patrões, criados, e trabalhadores da casa, tomavam lugar em redor de uma comprida mesa de cozinha onde fumegava uma sopa no grande vaso de faiança de flores azuis.

Os animais, cavalos, vacas, porcos e carneiros estavam gordos, bem tratados e limpos; e o tio Lucas, um homem corpulento e um tanto rotundo, fazia a sua ronda três vezes por dia, zelando tudo e pensando em tudo.

Conservavam por caridade, no fundo da cavalariça, um cavalo branco muito velho que a dona casa queria que fosse sustentado até que ao pobre animal chegasse a morte natural, porque fora adestrado por ela e por ela sempre conservado como objeto de suas antigas e felizes recordações.

Um rapaz de quinze anos, chamado Isidoro Duval, e a quem tratavam simplesmente por Zedoro, era quem tomava conta daquele inválido, dando-lhe, durante o inverno, a ração de aveia e a forragem, e devia ir, quatro vezes por dia, de verão, tirá-lo do lugar onde se achava preso, a fim de o levar a pastar onde houvesse abundância de erva fresca.

O animal, quase entrevado, levantava a custo as pesadas pernas, grossas nos joelhos e inchadas por cima dos cascos. Os pelos, que há muito não faziam caso de limpar, tinham o ar de cabelos brancos, e as pestanas, muito compridas, davam a seus olhos um aspecto triste.

Quando Zedoro o levava à erva, precisava de lhe puxar pele cabresto, tanta era a lentidão com que o animal caminhava; e o garoto, curvado, arquejante, praguejava contra ele, exasperando-se por ter de cuidar daquele velho quadrúpede.

As pessoas da fazenda, vendo aquela cólera do garoto contra Cocó, divertiam-se à sua custa, falando incessantemente do cavalo do Zedoro, para o fazerem enfurecer. Os camaradas, troçavam-no. Na aldeia chamavam-lhe o Cocó-Zedoro.

O garoto enraivecia-se, sentindo nascer em si o desejo de se vingar do cavalo. Era um rapaz magro, alto, de pernas compridas, muito sujo, de cabeleira russa, espessa e eriçada. Parecia estúpido, falava gaguejando, com uma dificuldade infinita, como se as ideias não se houvessem podido formar na sua alma espessa de bruto.

Havia já muito tempo que ele se admirava de que conservassem Cocó, indignando-se de ver perder tempo e alimento com aquela besta inútil. Uma vez que já não trabalhava, parecia-lhe injusto que comesse, parecia-lhe revoltante que assim estragassem a aveia que custava tão cara, com aquela pileca tão rançosa. E muitas vezes até, apesar das ordens do tio Lucas, economizava na comida do cavalo, não lhe dando mais que meia ração, poupando na palha que havia de gastar na cama, e no feno. E crescia-lhe um ódio no seu espírito confuso de criança, um ódio de camponês rapinante, de camponês preguiçoso, feroz, brutal e cobarde.

Quando chegou o verão, o garoto teve de ir tirar o animal do lugar onde se encontrava, a fim de levá-lo para a pastagem. Era longe. O garoto, mais furioso cada manhã, partia com o seu passo pesado através dos trigais. Os homens que trabalhavam nas terras gritavam-lhe, por gracejo:

— É, Zedoro, hás de dar lá os meus recados ao Cocó.

Ele não respondia; mas colhia de passagem uma vara de alguma planta e, desde que desprendia o cabresto do cavalo, deixava-o começar a pastar; aproximando-se às escondidas, cingia-lhe com a vara as pernas. O animal tentava fugir, escoicear, escapar-se às pancadas, girava no extremo do cabresto como se estivesse fechado dentro de uma redoma. E o garoto açoitava-o com raiva, correndo atrás dele, encarniçadamente, com os dentes cerrados pela cólera.

Depois afastava-se vagarosamente, enquanto que o cavalo o via partir com olhar ansioso, as costelas salientes, sufocado por ter trotado. E não tornava a mergulhar na grama a sua cabeça ossuda e branca senão depois de ter visto desaparecer ao longe a blusa azul do garoto.

Como as noites eram quentes, deixavam Cocó dormir ao relento, lá longe, à borda da ravina, por detrás do bosque. Só Zedoro lá o ia ver.

O rapaz divertia-se então a atirar-lhe pedras. Sentava-se à distância de dez passos do animal, sobre um aterro, e ficava ali uma boa meia hora, atirando de tempos em tempos uma pedra pontiaguda à besta, que se conservava de pé, amarrada diante do seu inimigo, e olhando-o incessantemente, sem ousar comer enquanto ele não partisse.

E sempre aquele pensamento se demorava no espírito do garoto: "Por que razão dariam de comer a um cavalo que já não fazia nada?" Parecia-lhe que aquela miserável quadrúpede comia o alimento que era dos outros, comia as posses dos homens, os bens do bom Deus, e roubava a ele próprio Isidoro, a ele que trabalhava. Então, pouco a pouco, todos os dias, o garoto diminuía a comida que dava ao cavalo, adiantando a estaca de pau em que estava amarrada a corda.

O animal jejuava, emagrecia, aniquilava-se. Muito fraco para que pudesse quebrar a corda que o prendia, estendia o pescoço para a comprida erva verde e luzidia, de que tão perto estava, e cujo cheiro lhe chegava sem que nela pudesse tocar.

Uma manhã, Zedoro teve uma ideia: não mais conduziria o Cocó. Valia lá a pena ir tão longe por uma tal carcaça?

Entretanto sempre foi, mas para saborear a sua vingança. O animal inquieto olhava-o. Naquele dia não lhe bateu. Andou em redor dele, de mãos nas algibeiras. Chegou mesmo a fingir que o ia mudar de lugar, mas enterrou a estaca justamente no mesmo buraco, e foi-se encantado com a sua conspiração.

O cavalo, vendo-o partir, relinchou chamando-o: mas o garoto pôs-se a correr, deixando-o só, completamente só, no vale, bem preso e sem um único pé de erva ao alcance dos dentes.

Esfomeado, o animal, tentava chegar à espessa grama que apenas conseguia tocar com o extremo das narinas. Pôs-se de joelhos, estendendo o pescoço, alongando os grandes lábios cheios de baba. Tudo foi em vão. O pobre animal, esgotou-se todo o dia, em esforços inúteis, em esforços terríveis. A fome devorava-o, fome que se tornava ainda mais afrontosa à vista de toda aquela quantidade de comida que se estendia ante seus olhos pelo horizonte.

O garoto não tornou ao local naquele dia. Vagabundeou pelos bosques, em cata dos ninhos.

Só apareceu no dia seguinte. Cocó, extenuado, deitara-se. Levantou-se ao ver a criança, esperando ser afinal transferido de lugar.

Mas o garoto nem mesmo chegou a tocar na estaca que se achava no meio da relva. Aproximou-se, olhou para o animal, atirou-lhe ao focinho um torrão que se esboroou no pelo branco e partiu assobiando.

O cavalo ficou de pé, tanto tempo quanto o pôde ainda avistar; depois, sentindo bem que as suas tentativas para alcançar a erva vizinha seriam inúteis, estendeu-se novamente de flanco e fechou os olhos.

No dia seguinte, Zedoro não voltou.

Quando se aproximou, no outro dia, do Cocó, que continuava estendido, viu que estava morto. Então ficou de pé, olhando-o; satisfeito da sua obra, e admirado ao mesmo tempo de que aquilo tivesse já acabado. Bateu-lhe com o pé, levantou-lhe uma das pernas, deixou-a cair, sentou-se-lhe em cima, e ficou ali, com os olhos fitos na erva e sem pensar em nada. Voltou à fazenda, mas teve o cuidado de não dizer nada sobre o acontecido, porque desejava vagabundear ainda algumas horas mais, aquelas em que, de ordinário, ia mudar de lugar o cavalo. No dia seguinte foi ver. Os corvos voaram à sua aproximação. As moscas, inumeráveis, passeavam por sobre o cadáver, sussurravam ao redor.

Ao voltar a casa, Zedoro anunciou o caso. O animal estava tão velho que ninguém estranhou. O patrão disse aos criados:

— Tomem as pás, façam uma cova justamente onde ele está, e enterrem-no.

E os homens enterraram o cavalo, justamente no lugar onde ele morrera de fome. E a erva brotou espessa, verdejante, vigorosa, alimentada por aquele pobre corpo.

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