sábado, 7 de novembro de 2020

O pai (Conto), de Guy de Maupessant

 

O pai

Pesquisa e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2020)

Como habitasse em Batignolles e fosse empregado no ministério da instrução pública, tornava todas as manhãs úteis o ônibus, para dirigir-se à repartição. E, cada manhã, viajava até ao centro de Paris, defronte de uma moça por quem se apaixonou.

Ela dirigia-se ao seu armazém, todos os dias, à mesma hora. Era uma trigueirinha, dessas trigueiras cujos olhos são tão negros, que têm assim como o ar de duas nódoas, e cuja pele tem reflexos de marfim. Ele via-a sempre aparecer ao canto da mesma rua; e ela largava a correr para apanhar a pesada carruagem. Corria com um arzinho apressado, leve e gracioso; e saltava para o estribo, antes que os cavalos houvessem parado. Depois, entrava resfolegando um pouco, e, após assentar-se, olhava em redor de si.

A primeira vez que a viu, ele, Francisco Tessier, sentiu que aquele rostinho lhe agradava infinitamente. Por vezes encontramos destas mulheres, que sentimos vontade de apertar loucamente nos braços, assim que as vemos. Ela, aquela moça, correspondia aos seus desejos íntimos, às esperanças secretas que ele tinha sobre a mulher, a essa espécie de ideal de amor que temos sem saber, no fundo do coração.

Ele olhava-a obstinadamente, mesmo que a não quisesse olhar.

 Constrangida com aquela contemplação, ela corava. Ele dava por isso, e desejava desviar os olhos; mas apenas o tentava fazer eles voltavam-se de seguida e a todo o momento para ela, embora ele cada vez mais se esforçasse por fitá-la em qualquer outra parte.

Ao fim de alguns dias, conheceram-se, sem se terem falado. Ele cedia-lhe o seu lugar quando a carruagem estava cheia, e subia para a imperial, muito embora isso o desolasse. Ela agradecia-lhe então com um sorrisinho; e, embora baixasse sempre os olhos quando ele a olhava, por sentir o seu olhar muito intenso, não parecia enfadar-se com aquela insistente contemplação.

Acabaram por conversar. Estabeleceu-se entre ambos uma espécie de rápida intimidade, uma intimidade de meia hora por dia. E era aquela decerto, a mais encantadora meia hora da vida dele. Ele pensava nela todo o mais do tempo, via-se incessantemente, durante o tempo, — tão comprido! — que passava na repartição, apressado, insofrido, invadido por essa imagem flutuante e persistente, que um rosto de mulher amada deixa entre nós. Parecia-lhe que a posse completa daquela pequenina pessoa seria para ele uma louca ventura, uma coisa quase acima das realidades humanas.

Ela dava-lhe, agora, em cada manhã, um aperto de mão, e ele guardava até à noite a sensação daquele contato, a recordação da sua carne, daqueles dedos pequeninos; parecia-lhe, a ele, que conservava as marcas deles sobre a pele.

Ele esperava ansiosamente que passasse o tempo que sem ela viajava naquela curta viagem em ônibus. E os domingos pareciam-lhe aflitivos. Ela amava-o também, sem dúvida, porque aceitou, em um sábado de primavera, o ir almoçar com ele, a Maisons-Laffitte, no dia seguinte.

Ela foi a primeira a esperá-lo na estação. Ele ficou surpreendido, mas ela disse-lhe:

— Antes de partir, preciso de lhe dizer uma coisa. Temos vinte minutos: ainda nos sobra tempo.

Tremia, apoiada ao braço dele, de olhos baixos e faces pálidas. Continuou:

— É preciso que o senhor não se iluda a meu respeito. Sou uma moça honesta, e só irei consigo se me prometer, se me jurar que... que não me faz nada... que não seja... que não seja... sério... E tornou-se de repente mais vermelha que uma papoula. Calou-se. Ele não sabia que responder, ao mesmo tempo feliz e desapontado. No fundo do seu coração, preferia que ela fosse assim; e no entanto... deixara-se embalar, aquela noite, por sonhos que lhe tinham posto fogo nas veias. Amá-la-ia muito menos, certamente, se soubesse que ela era leviana, mas desse modo seria tão bom, tão delicioso para ele! E todos os cálculos egoístas do homem em matéria de amor lhe trabalhavam no espírito.

Como ele não dissesse nada, ela continuou a falar numa voz comovida, com lágrimas aos cantos das pálpebras:

— Se não promete respeitar-me em toda a extensão da palavra, volto já para casa.

Ele apertou-lhe ternamente o braço e respondeu:

— Prometo; a menina só fará o que quiser.

Ela pareceu aliviada e perguntou sorrindo:

— Veja lá se fala verdade!

— Juro-lhe!

— Então, compremos os bilhetes — disse ela.

Durante o trajeto nada puderam conversar, porque o vagão ia repleto.

Chegados à Maisons-Laffitte, dirigiram-se para a margem do Sena.

O ar tépido amolecia a carne e a alma. O sol dando em cheio no rio e sobre as folhas e os relvedos depunha mil reflexos de alegria nos corpos e nos espíritos. Eles lá iam, de mãos dadas, ao longo da margem, olhando para os peixinhos que deslizavam em cardume debaixo d'água. Eles lá iam, inundados de ventura, como que soerguidos da terra, numa indescritível felicidade.

— O senhor há de dizer que eu sou uma doida.

Ele perguntou:

— E porque razão?

Ela tornou:

— Pois não será uma loucura o vir assim, em companhia apenas do senhor?

— Pelo contrário, acho até muito natural.

— Não! não! não é natural — para mim — porque não desejo pecar — e é assim que a gente peca. Mas se o senhor soubesse! é tão triste a minha vida! é sempre a mesma coisa, todos os dias do mês, e todos os meses do abo. Vivo completamente só com a mamã. E como ela tem muitos desgostos não é alegre. Eu faço o que posso. Faço a diligência de rir, apesar de tudo; mas nem o chego a conseguir. Em todo caso, fiz mal em vir. Mas o senhor não me quer mal por isso, pois não?

Como única resposta, ele beijou-a intensamente na orelha. Mas ela afastou-se dele, com um movimento brusco; e subitamente enfadada:

— Oh! senhor Francisco! não foi isto o que o senhor me jurou.

E tornaram para Maisons-Laffitte.

Almoçaram no Petit-Havre, uma casa baixa, enterrada sobre quatro árvores enormes, à borda da água. O ar livre, o calor, o vinhito branco e a perturbação de sentirem-se um ao lado do outro tornava-os ruborizados, oprimidos e silenciosos.

Mas depois do café, acometeu-os uma alegria brusca e, tendo atravessado o Sena, caminharam ao longo da margem, em direção à aldeia de La Frette.

De repente ele perguntou:

— Como se chama a menina?

— Luísa.

Ele repetiu: "Luísa", e não disse mais nada.

O rio, descrevendo uma comprida curva, ia banhar, ao longe, uma fila de casas brancas que se miravam na água, de cabeça para baixo. A moça colheu margaridas, fez um grande ramo campesino, e ele, cantava a plenos pulmões, possuído da embriaguez que sente um cavalo novo que, pela primeira vez se vê no pasto.

À sua esquerda, uma encosta plantada de vinhas seguia a corrente. Mas Francisco, de repente, parou, e ficando imóvel de admiração:

— Oh! repare — disse ele.

As vinhas haviam cessado, e toda a encosta, que ora se via, achava-se coberta de lilases em flor. Era um bosque violeta! uma espécie de grande tapete estendido sobre a terra, que chegava até a aldeia, lá ao longe, a dois ou três quilômetros.

Ela quedou também, extática, comovida. Murmurou:

— Que bonito!

E, atravessando um campo, dirigiram-se, correndo, para aquela maravilhosa colina, que fornece, cada ano, todos os lilases que se veem transportados através de Paris, nos carrinhos dos vendedores ambulantes.

Havia um estreita trilha que se perdia sob os arbustos. Tomaram por ela e, encontrando uma pequena clareira, sentaram-se.

Legiões de moscas sussurravam por cima deles, lançando no ar um rufiar manso e contínuo. E o sol, o forte sol de um dia sem brisa, abatia-se ao longo da encosta florida, fazendo sair daquele bosque de ramalhetes um aroma estonteante, um imenso bafo de perfumes, esse suor das flores.

Um sino tocava ao longe.

E, muito docemente, os dois beijaram-se, depois estreitaram-se, estendidos sobre a erva, sem consciência de nada a não ser do seu beijo. Ela fechara os olhos e continha-o a plenos braços, estreitando loucamente, sem um único pensamento, com a razão perdida, entorpecida da cabeça aos pés numa expectativa apaixonada. E dava-se completamente, sem saber o que fazia, sem mesmo compreender que se tinha entregado a ele.

Despertou na precipitação das grandes desgraças, e desatou a chorar, gemendo de dor, com o rosto escondido entre as mãos.

Ele tentava consolá-la. Mas ela queria partir quanto antes, voltar imediatamente para casa. E repetia sem cessar, caminhando a largos passos:

— Ah! meu Deus! meu Deus!

Ele dizia-lhe:

— Luísa! Luísa! fiquemos, peço-te.

Ela agora tinha as faces rubras e os olhos fundos. Logo que se acharam na estação de Paris, ela partiu sem mesmo dizer-lhe adeus

***

Quando a tornou a encontrar, no dia seguinte, no ônibus, pareceu-lhe mudada, emagrecida. Ela disse-lhe:

— Preciso de lhe falar; desceremos o boulevaird.

E assim que se acharam sós na calçada:

— É forçoso despedir-me do senhor — disse ela. — Não posso vê-lo depois do que se passou.

Ele balbuciou:

— Mas por quê?

— Porque não posso. Sou culpada. Não o torna-rei a ser.

Então ele implorou, suplicou, torturado de desejos, tresloucado da necessidade de a possuir por completo, no abandono absoluto das noites de amor.

Ela respondia obstinadamente:

— Não, não posso. Não, não posso.

Mas ele animava-se, excitava-se cada vez mais Prometeu desposá-la. Ela disse-lhe ainda:

— Não.

E deixou-o.

Durante oito dias, Francisco não a viu. Não a conseguiu encontrar, e, como não sabia a sua direção, julgou que a perdera para sempre.

Ao nono dia, à noite, estando em sua casa, ouviu que tocavam à campainha. Foi abrir. Era ela. Lançou-se lhe nos braços, e não resistiu.

Durante três meses, foi sua amante. Depois, ele principiava a aborrecê-la, quando ela lhe noticiou que estava grávida. Então, só uma ideia se lhe meteu na cabeça: romper com ela custasse o que custasse.

Como não o podia fazer, por não ter pretexto para isso, não sabendo como chegar a tal solução, doido de inquietação, com medo daquela criança que crescia, tomou um partido supremo. Uma noite mudou de casa e desapareceu.

O golpe foi tão grosseiro, que ela nem procurou aquele que assim a havia abandonado. Lançou-se no regaço de sua mãe, confessando-lhe a sua desgraça; e, alguns meses mais tarde, deu à luz um pequenito.

Passaram anos. Francisco Tessier envelhecia sem que mudança alguma se fizesse na sua vida. Levava a existência insípida e monótona dos burocratas, sem esperanças e sem aspirações. Levantava-se todos os dias à mesma hora, seguia pelas mesmas ruas, passava pela mesma porta, por diante do mesmo porteiro, entrava na mesma repartição, sentava-se na mesma cadeira, e desempenhava a mesma tarefa. Estava só no mundo, só, de dia, no meio dos seus colegas indiferentes, só, de noite, no seu alojamento de rapaz. Economizava cem francos por mês para a velhice.

Aos domingos, dava uma volta pelos Campos Elíseos, a fim de ver passar o mundo elegante, as carruagens e as mulheres bonitas.

E dizia no dia seguinte ao seu colega de carteira:

— O passeio pelo bosque ontem estava encantador;

Ora, um domingo, por acaso, tendo seguido pelas ruas novas, entrou no parque de Monceau.

Era numa límpida manhã de verão. As amas e as mamãs assentadas ao longo das aleias, olhavam pelas crianças que brincavam perto delas.

De repente Francisco Tessier estremeceu. Passava uma mulher, levando pela mão duas crianças: um rapazinho de cerca de dez anos e uma menina de quatro. Era ela.

Ele deu ainda uma centena de passos, depois deixou-se cair num banco, sufocado pela comoção. Ela não o reconhecera. Então ele voltou, procurando vê-la mais uma vez. Ela havia se sentado. O pequeno conservava-se muito quieto, a seu lado, enquanto que a pequenita, brincando com a terra, fingia com ela fazer pastéis. Era ela, era bem ela. Tinha um ar sério de senhora, uma roupa simples e um porte seguro e digno.

Ele olhou-a de longe não ousando aproximar-se. O pequeno ergueu a cabeça. Francisco Tessier sentiu-se estremecer. Era o seu filho, decerto. Examinou-o, reconhecendo-se como se fosse ele próprio, tal como era num retrato tirado em criança.

Francisco conservou-se escondido atrás de uma árvore, esperando que ela se fosse, para a seguir. Na noite seguinte não pôde dormir. A ideia da criança era sobretudo o que o molestava. O seu filho! oh, se ele o tivesse sabido com certeza! mas que teria feito dele?

Como a acompanhou de longe até a casa, informou-se. Soube que ela fora desposada por um vizinho, um homem honesto, de costumes sérios, que se comovera com a angústia dela.

Aquele homem, sabendo da sua falta perdoou-Iha, chegando mesmo a reconhecer a criança, o filho dele, Francisco Tessier.

Ele voltou então ao parque de Monceau todos os domingos.

Cada domingo que a via, um desejo louco irresistível o empolgava, o de tomar o seu filho nos braços, de o cobrir de beijos, de o levar, de o roubar.

Sofreu horrivelmente no seu isolamento miserável de solteirão sem afeições: sofria uma tortura atroz, dilacerado por uma ternura paternal feita de remorsos, de inveja, de ciúme, e dessa necessidade de amar os filhos que a natureza pôs nas entranhas dos seres.

Quis enfim fazer uma tentativa desesperada, e, aproximando-se dela, um dia, ao vê-la entrar no parque, disse-lhe, pondo-se no meio do caminho, lívido, com os lábios trêmulos de emoção:

— Não me conhece?

Ela levantou os olhos, encarou-o, soltou um grito de espanto, um grito de horror, e, pegando pelas mãos às duas crianças, fugiu, arrastando-as atrás de si.

Ele dirigiu-se à casa para chorar.

Dois meses se passaram ainda. Ele não mais a viu. Mas sofria dia e noite, amargurado, devorado pela sua ternura de pai.

Para poder beijar seu filho teria dado a vida, teria matado, seria capaz de ter feito todos os trabalhos, corrido todos os perigos, tentado todos os passos, ainda os mais audaciosos.

Escreveu-lhe, a ela. Ela não lhe respondeu.

Depois de haver escrito vinte cartas, compreendeu que não podia esperar que ela se comovesse. Tomou então uma resolução desesperada, dispondo-se a meter uma bala no coração se tanto fosse preciso. Dirigiu ao marido dela um bilhete com algumas palavras:

"Senhor,

Bem sei que o meu nome deve causar-lhe horror. Mas eu sinto-me tão miserável, tão torturado pela angústia, que só no senhor tenho esperança.

Venho pedir-lhe somente uma entrevista de dois minutos.

De Vossa Excelência, etc.".

No dia seguinte recebeu a resposta:

"Senhor,

Espero-o terça-feira às cinco horas".

Trepando a custo a escada, Francisco Tessier parava de degrau em degrau, tanto era o bater do seu coração. No seu peito havia um ruído precipitado, um como que galope de fera, um ruído surdo e violento. Por fim, já não podia respirar sem esforço, segurando-se ao correrão para não cair.

Chegado ao terceiro andar, tocou. Uma criada veio abrir.

Ele perguntou:

— O senhor Flamel?

— É aqui, sim. Faz favor de entrar.

Penetrou numa sala burguesa. Ficou só; esperava consternado, como em meio de uma catástrofe.

Abriu-se uma porta e apareceu um homem. Era alto, sério, um tanto forte, trajando sobrecasaca preta. Apontou uma cadeira com a mão.

Francisco Tessier assentou-se, depois, em voz arquejante:

— Senhor... senhor... não sei se conhece o meu nome... não sei se sabe...

O senhor Flamel interrompeu-o:

— É inútil, senhor, eu sei. Minha mulher falou-me do senhor.

Aquele que falava tinha o tom digno de um homem bondoso que quer ser severo, e uma superioridade burguesa de homem honesto. Francisco Tessier continuou:

— Pois bem, senhor, o meu caso é este: morro de angústia, de remorso, de vergonha. E quereria, uma vez ao menos, uma única vez, beijar... o pequeno...

O senhor Flamel levantou-se, aproximou-se do fogão e carregou no botão da campainha. A criada apareceu. Ele disse:.

— O Luís que venha cá.

A criada saiu. Eles ficaram frente à frente, mudos, nada mais tendo a dizer um ao outro, esperando.

E, de repente, um rapazinho de dez anos precipitou-se na sala, e correu ao encontro daquele que tinha como seu pai. Mas parou, confuso, ao ver ali um estranho.

O senhor Flamel beijou-o na testa, depois disse-lhe:

— Agora, vai beijar aquele senhor, meu querido.

E a criança foi, gentilmente, olhando para aquele desconhecido.

Francisco Tessier tinha-se levantado. Deixou cair o chapéu das mãos, sentindo se também prestes a cair. Contemplava o seu filho.

O senhor Flamel, por delicadeza, tinha-se soltado, e olhava, pela janela, para a rua.

A criança esperava, surpreendida. Apanhou o chapéu e entregou-o ao estranho. Então, Francisco, tomando o pequeno nos braços, pôs-se a beijá-lo loucamente por todo o rosto, nas faces, na boca, nos cabelos.

O pequeno, intimidado com aquela saraivada de beijos, procurava evitá-los, desviava a cabeça, evitando com as suas mãos pequenas os lábios glutões daquele homem.

Mas Francisco Tessier, bruscamente, polo no chão e gritou:

— Adeus l adeus!

E fugiu como um ladrão.

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