terça-feira, 11 de maio de 2021

Um raio de sol (Conto Popular) de Figueiredo Pimentel


Um raio de sol

Uma formosa manhã de maio, limpa, alegre, fresca, perfumada, é um dos maiores encantos da natureza.

Em uma dessas lindas manhãs de primavera, bem cedo, ainda à hora em que o sol se faz anunciar pelos seus primeiros raios, Helena, ainda dormia! Como sorri em algum sonho alegre! Ainda ninguém entrou no quarto dela, e apesar disto, a Heleninha já hoje recebeu um beijo. Quem foi então, que lho deu? Algum passarinho que entrasse pela janela? Não; a janela está fechada. Foi um raio de sol que, penetrando por uma fenda, passou nos lábios de Helena, e ficou todo espantado por encontrar uma menina ainda a dormir. Mas, de repente, Helena acorda, esfrega os olhos, relanceia a vista por todos os lados para ver quem a acordou, e dá com o raio de sol.

— Raiozinho brilhante, disse-lhe ela, tiveste muito juízo em me vires visitar. Aposto que estás levantado há muito tempo; quem sabe mesmo se já trabalhaste muito esta manhã?

— É verdade que sim, respondeu o raio, já hoje trabalhei muito. Quando meu pai me despede não dá licença que me divirta, e tem razão, porque eu, quando estou mais contente, é quando trabalho.

— Teu pai? Mas quem é teu pai?

— É o sol. Mora lá em cima, muito alto, no céu. É tão grande, tão grande, que não poderia vir à terra; por isso manda os filhos em seu lugar. Os filhos são os raios do sol meus irmãos, que à minha semelhança, alumiam e aquecem a terra.

— Mas, tornou Helena, teus irmãos poderiam entrar contigo no quarto?

— De modo nenhum; a fenda era estreitíssima. Só eu pude passar. Os outros raios ficaram lá fora, estão alumiando a fachada da casa. Agora, se tu quiseres abrir a janela, entrarão contentíssimos no teu quarto.

— Ainda não, disse Helena, eu queria que tu, antes disso, me contasses tudo o que tens feito e o que viste no teu passeio esta manhã.

— Oh! já vi muitas coisas. Não tas posso contar todas; mas, se gostas dir-te-ei algumas. Quanto rompi da montanha, entrei numa floresta, e dei claridade a uma família de cotias que se recolhiam à toca, e pareciam alegríssimas; naturalmente tinham dançado toda a noite nalgum gramado. Na mesma floresta alumiei um ninho de sabiás negros. A mãe, mal me viu, acordou o marido, depois os filhinhos, e todos a um tempo, principiaram a cantar. Interei aluminar também um besouro muito velho, mas escondeu-se logo debaixo de uma folha, por me não querer ver. Por volta das cinco horas entranhei-me numa sebe à borda da estrada e fiz desabrochar uma formosa trepadeira, cor-de-rosa e branca. Quando cheguei, ainda estava toda fechada, mas apenas a aqueci, logo se abriu, eu fiquei alegríssimo ao observá-la. Na mesma sebe alumiei uma aranha que estava a tecer a teia; espero que ninguém lha destrua, porque levou muito tempo, e teve muito trabalho, em a tecer. Mesmo ao pé, fiz brilhar as gotas de orvalho suspensas nas vergônteas das ervas, ajudei uma pitanga amadurecer e aqueci uma mosca. Ainda fiz muitas mais coisas; amanhã tas contarei. Agora, já é tarde, é mais que tempo de te levantares.

— Oh! por quem és, conta-me ainda mais alguma coisa, disse a pequenina. Não vistes crianças esta manhã?

— Ora, se vi! e muitas! Levantaram-se bem cedo. A Luizinha, ainda não eram seis horas, já estava a dar de comer às galinhas, ao mesmo tempo que a leiteira saía para a cidade. O Joãozinho levava as cabras para o pasto, em companhia do pai, que ia ceifar erva! Ah! já me esquecia dizer-te que muitas vezes trabalho ajudado pelos meus irmãos; sozinho não poderia muito. Agora, uns com os outros, amadurecemos os trigos e as frutas todas, de que tu gostas tanto; aquecemos as costas da avó da Luizinha, que estava assentada no pátio, e secamos uma camisa e uma touca, que estão penduradas na corda. Ai! Ai! Que tenho falado muito! é tempo e retempo, de te vestires e de te pores a trabalhar mas sempre te confessarei com franqueza que, se os raios do sol se devem dar por felizes por prestarem luz aos trabalhadores, não gostam muito de aluminar os preguiçosos.

—Lindo raio, obrigada por tantas coisas boas que hoje me ensinaste. Se voltares amanhã, à mesma hora, eu te prometo que não me hás de encontrar na cama; aproveitarei a tua formosa luz para continuar a minha tarefa.

Dizendo isto, Helena levantou-se e foi abrir a janela de par em par. Os raios de sol entraram todos ao mesmo no quarto, e encheram-no de luz. Helena, preparou-se, almoçou, e deu princípio ao seu dia, com a firme tenção de se tornar numa boa trabalhadorazinha.

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Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2021)
 

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