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6/03/2019

A raposa e o lobo (Fábula), de Ana de Castro Osório



A raposa, o pescador e a pérola

Ia certa raposa, de caminho por uma praia do mar, sempre atrevida e lampeira, olhando e farejando, para descobrir e caçar qualquer presa, como é seu costume. Trotou horas a fio, sem nada encontrar que lhe matasse a fome. Até que, num relance, viu, mesmo à borda de água, uma coisa que lhe pareceu um bom pedaço de carne metido numa concha.

Sem mais cuidados, saltou-lhe em cima e avançou o focinho para ferrar o dente guloso no manjar que a sorte lhe deparara. Mas a sorte nem sempre serve os atrevidos.

Aquele pedaço de carne era uma ostra muito grande, que, por qualquer acaso arrancada ao rochedo onde estava presa no fundo do mar, as ondas tinham arrastado para a praia.

Mal o focinho da raposa lhe tocou, a ostra fechou-se, tão de repente e com tanta força, que lhe prendeu as ventas entre as duas conchas.

A raposa aflita, respirando a custo, fez quanto pôde para se desembaraçar daquele cadeado. Mas por mais que, no seu desespero, batesse com o focinho ferido na areia e nas rochas, não conseguia libertar-se.

Por fim morreram ambas, a raposa atrevida e a ostra que não mais quis abrir-se.

Mais tarde passou ao longo da praia um pobre pescador, que por ali andava na sua faina. Viu de longe o corpo da raposa morta. Abeirou-se remando, e saltou para a praia, pensando esfolar a raposa e ficar-lhe com a pele, pois já seria bom e não esperado ganho da labuta daquele dia.

Com muito espanto viu o focinho da raposa preso nas conchas de uma grande ostra. Então abriu esta com todo o cuidado, para de qualquer modo a aproveitar. Imagine-se a alegria do pobre pescador, quando, abertas as conchas da ostra, deparou com uma formosa pérola. Sem querer saber de mais nada, soltou a pérola que a sorte lhe dera, e levou-a consigo para a vender na mais próxima cidade.

A pérola vendida fez a sua fortuna e aumentou a riqueza do mercador que lha comprou.

Guardado está o bocado para quem o há de comer. E nos caminhos da sorte se encontra a vida e a morte.




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Fonte:
Ana De Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa

A raposa e o lobo (Fábula), de Ana de Castro Osório



A raposa e o lobo

Era uma vez uma Raposa... Ora as raposas têm-se na conta de muito espertas.

E todos o creem, dizendo-se até que ninguém as vence em manhas e finuras.

Tinha ela uma ninhada de raposinhos que achava umas formosuras, mesmo umas estampas! — quando afinal, se há animais de mau focinho, são as raposas pequenas, benza-as Deus! Mas era mãe, e as mães só veem perfeições nos seus filhos.

A Raposa tremia de susto quando saía da toca, não fosse lá bicho inimigo dar-lhe cabo da filharada. Noites de sossego nunca mais tivera, e até a caça, que lhe costumava correr tão bem, era feita como que a medo, quase sem proveito.

Ora esta Raposa tinha por compadre um Lobo de boas maneiras e falinhas mansas, que era o terror da região. Com ele vivia em boa harmonia, mas, pelo sim pelo não, vá de não se fiar de todo na sua bondade. Não o dava a mostrar, mas lá de si para si tinha o Lobo na conta — merecida afinal — do pior maroto da vizinhança.

Temendo a Raposa pela vida dos filhos, pensou desviar qualquer ideia sinistra do Lobo com respeito aos seus pobres cachorrinhos. E que havia de imaginar?

Foi procurá-lo e disse-lhe:

— Caro amigo e compadre, sei de uma Cadela que tem uma ninhada de cachorros que estão mesmo a calhar para uma boa merenda para ti.

— Dize lá onde mora, que vou já de caminho. A caça agora não é muita, e eu ando atrasado em paparoca.

— Digo-te onde é, mas com a condição de não comeres os meus filhos.

— Está dito. Não sabia que tinhas agora filhos... Mas fica certa que eu hei de respeitá-los como teus e não lhes tocarei.

Diz-me onde encontrar os cachorros da Cadela e, se vivem perto dos teus, como hei de eu diferençá-los.

— Ora essa! (redarguiu, não pouco escandalizada, a senhora Raposa) como hás de diferençá-los?! Muito facilmente! Onde tu, compadre Lobo, vires uns monstruzinhos muito feios e trombudos, tens certo o banquete que eu te vim cá descobrir. Os meus filhos, esses, são lindos como os amores!...

— Está bem!... Fico-te obrigado, e farei como dizes.

E foi-se o Lobo, todo lépido, em cata dos cachorros, enquanto a Raposa, já tranquila sobre o destino dos filhos, foi também dar o seu giro pelo mato.

De volta ao covil, a comadre Raposa ia matutando na partida que fizera. Orgulhosa da sua obra, esfregava as patas de contente. Que lhe importava a sorte dos filhos da pobre Cadela?! O que queria era salvar os seus! Este egoísmo não é para admirar nos brutos — se há tanta alma cristã que padece do mesmo pecado!

Ao chegar à toca, ficou assombrada não vendo nem rastro dos filhos.

Correu tudo, chamou em altos gritos soluçados, mas nada! Lembrou-se então de ir ao pouso da Cadela saber alguma coisa. Lá estavam os cãezinhos, sãos como uns peros. A mãe, muito contente, dava-lhes o leite a mamar, mas quando a Raposa lhe perguntou se sabia dos seus, respondeu, contristada:

— Não sei, não. Mas olha que por aqui andou o Lobo a rondar. Quando voltei da caça encontrei os meus cachorros cheios de susto.

— Foi o Lobo, não há que ver, que me comeu os filhos! (gemeu a Raposa);

E correu a procurar o Lobo.

— Então que fizeste (clamou ainda a distância), malvado sem coração nem palavra?! Os meus filhos não os encontro, e os da Cadela estão ainda vivos...

— Que fiz? Comi uns cachorros muito feios, de focinhos agudos... Gordos e tenrinhos, lá isso estavam! E os teus lá os deixei como os vi, muito espertalhotes e finos. Dou-te os parabéns, pois que são lindos a valer.

— Pobre de mim, (gritou a Raposa arrepelando-se) que vim meter os meus filhos na boca do Lobo!

E fugiu para a caverna, a esconder a sua dor e a sua vergonha.

Aquela espertalhona levou assim o castigo de querer fazer mal aos outros para se livrar a si de qualquer perigo ou desgraça.




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Fonte:
Ana De Castro Osório: “Contos, fábulas, facécias e exemplos da tradição popular portuguesa” (editado a partir da edição da Bibliôtronica Portuguesa)