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8/23/2016

Filosofia de Pecado



Filosofia de Pecado

O pecado é tão efêmero quanto a paixão dos namorados. Enquanto num belo dia de primavera acordam entre beijos e juras de amor eterno, numa noite fria de inverno despedem-se entre insultos e maldições. O que ontem foi consequência da astuta ação do diabo, hoje é o simples e virtuoso resultado do progresso.  

Conta-se que, quando o guarda-chuva fora introduzido nos hábitos dos ingleses, a igreja manifestou ferozmente sua repulsa ao indigno objeto, justificando que seu uso era uma afronta aos santos desígnios de Deus, pois impedia que a chuva, benção divina, caísse naturalmente dos céus sobre as suas criaturas. Aqui no Brasil, durante o período da chamada “época de ouro do rádio”, a conhecida Igreja Evangélica Assembleia de Deus proibia terminantemente seus membros de ouvir o “mundano aparelho”, alegando tratar-se um veículo maligno que fazia despertar nas pessoas o desejo pelo pecado. Hoje, não apenas a rádio como também a televisão tornaram, para a referida denominação, numa poderosa e abençoada ferramenta para promoção do Reino de Deus na terra.

Tempos atrás dediquei-me a uma interessante tarefa de pesquisar os estatutos doutrinários de algumas denominações evangélicas. No que concerne especificamente ao modo como o homem deveria manter sua aparência física, o resultado mostrou-se ridiculamente interessante. Na primeira delas, dizia-se que era expressamente proibido ao membro raspar a barba e fazer o bigode; na segunda, proibia-o de realizar ambas as coisas; na terceira, permitia-se, no máximo, apenas deixar crescer o bigode; e, por último, a mais liberal delas, deixava tal prática viril ao critério pessoal do membro. Por trás de tais proibições impõe-se o estigma do pecado, cuja marca no homem é o sentimento torturante de culpa ou delito.

O termo pecado, do grego hamartios (hebraico hattah; latim peccatum) significa, ao pé da letra, “errar o alvo”. Teologicamente é explicado como uma transgressão deliberada e consciente às leis de Deus.  Até aqui a questão é sumária e de fácil compreensão. A grande questão, porém, reside na multiplicidade de conceitos que essas denominações constroem em torno do que é pecado.   

Dependendo da personalidade e da vivência social pregressa do seu fundador, o pecado pode adquirir as mais bizarras tonalidades. Se tal indivíduo nasceu numa família com características conservadoras e machistas, a doutrina de sua igreja fatalmente culminará em regras mais austeras para as mulheres, as quais serão proibidas de usar calça, bijuterias, cosméticos e outros utensílios considerados por ele como malignos ou mundanos.   O perfil psicológico deste líder exercerá assim uma enorme influência no viver cotidiano de seus membros, os quais, por medo de pecar, serão submetidos a grandes sacrifícios.

Antes de se converterem, muitos destes líderes-fundadores viveram em grande devassidão, praticando os mais pornográficos pecados. Ao impor um padrão doutrinário mais rígido para as mulheres, com a proibição de determinados tipos de roupas e outros objetos típicos da vaidade feminina, eles na verdade estão preocupados em evitar o pecado de si próprios e não com as santas “virtudes” delas. Explico: por se sentirem fortemente inclinados aos desejos libidinosos da carne, torna-se mais fácil estabelecer um padrão de vestes à mulher do que controlar seus desejos latentes. Creem que, quanto menos sobressair a beleza feminina (sua natural sensualidade) menos custoso será dominar seus apetites devassos. O pecado não está, portanto, na conduta supostamente pecaminosa da mulher, mas no excesso de testosterona deles.  O conceito de “pecado” revela-se assim num instrumento de dominação, de castração, de opressão... 

Daqui a cem anos os pecados serão outros... se ainda houver pecados!


É isso!


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Por: Iba Mendes (Agosto, 2016)

8/18/2016

A sabedoria do Midrash


A sabedoria do Midrash
Para quem não conhece, Midrash (plural midrashim) é um termo cuja origem vem de uma raiz hebraica que significa: estudar, examinar, explicar, elucidar. Refere-se a um gênero de literatura rabínica que se desenvolveu a partir do século V, perdurando até o fim do século XVI. Na prática trata-se de interpretações minuciosas de passagens bíblicas, compiladas em antologias, junto com lendas e contos do folclore judeu, porém, com a devida reverência ao texto original.
Como exemplo de interpretação do Midrash, farei um brevíssimo comentário de uma passagem bíblica em que Deus ordena a Abraão que conduza seu filho Isaque a uma montanha onde deveria sacrificá-lo. Vejamos...
“E disse: Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi. / Ao terceiro dia levantou Abraão os seus olhos, e viu o lugar de longe” (Gn. 22:2, 4).
Por qual razão Deus indicou um local tão distante? Por que não uma montanha mais próxima, a qual pudesse ser alcançada em um dia em vez de três, por exemplo? Não havia nas proximidades da habitação de Abraão um local propício para um ato sacrifical?
É claro que sim. Mas, então, por que a três dias de distância?
Pobre Abraão! Além de conduzir o próprio filho ao cruel sacrifício, teria que suportar ainda tão prolongado remorso! Por quê?
Bom. Segundo interpretação do Midrash, Deus agiu assim a fim de dar tempo suficiente para Abraão pensar. Ou seja: quanto maior fosse a distância mais tempo ele teria para mudar de ideia e voltar atrás de seu propósito. Deus não queria que ele agisse pelo impulso do momento, mas que meditasse mais longamente acerca do que lhe fora incumbido fazer.
Ademais, diz a Midrash, o fato de Abraão ter tido três dias para desobedecer ao mandado de Deus, mostra o quanto Ele é justo. O Criador, quando pede alguma coisa, sempre oferece a possibilidade do livre arbítrio, isto é, do domínio absoluto das próprias ações.

É isso! 


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Por: Iba Mendes (2002)