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6/10/2019

Mais uma (Conto), de Conde de Ficalho


Mais uma

O caminho, trilhado pelos carros sobre as terras lavradas, subia docemente para a ermida caiada. De vez em quando, via-se lá no alto uma nuvenzinha branca, formada no céu azul; e, instantes depois, ouvia-se estalar um foguete. Aos lados, os campos estendiam-se a perder de vista em ondulações quase insensíveis, amarelando no tom claro dos restolhos, brutalmente feridos pelo sol de julho, que inundava tudo. Apenas, de longe em longe, algumas oliveiras enfezadas punham sobre o caminho poeirento estreitas nesgas de sombra. E a sombra magra, tênue, caindo da árvore pálida, onde as cigarras entoavam o seu hino ao calor; a sombrazita leve parecia ainda mais quente do que o resto.

Mas, apesar do calor, a estrada ia já cheia de gente. As moças do povo, muito sécias nos seus lenços novos puxados à testa, nos seus vestidos de chita clara, que faziam parecer mais negras as suas mãos queimadas, caminhavam num passo firme, indiferentes à torreira do sol, como quem ceifou na véspera, e tem de ceifar no dia seguinte. E, atrás das moças, mais rudes, mais lorpas do que elas, levados pelo beiço, iam os rapagões de trabalho, afogueados, quentes também por dentro com alguns quartilhos de vinho, os chapéus na nuca, e as largas cintas vermelhas, as mangas brancas das camisas, reluzindo na luz intensa.

Um cocheiro gritou aos grupos, que se afastaram, saindo para o restolho, deixando passar a carruagem. Alguns homens levaram a mão ao chapéu, lentamente, de má vontade. Era a caleche do Sr. João Cardoso, o rico, que ia à festa ver as moças, com o delegado e o José Carlos da botica.

Atrás da carruagem, no passo mais lento das mulas velhas, vinha agora um carro alentejano, sem toldo, trazendo dentro um ramalhete de sorrisos frescos, de saias claras e refesteladas, de lenços garridos, azuis como a flor do almeirão, escarlates como as papoulas, amarelos como os malmequeres — todas as cores fortes do meio-dia, faiscando na luz meridional. Vinham ali a Josefa Vila Verde, e as duas Lameças, e a Chica Sirgueira, e a Anica do Corro, e, atrás, no pior lugar, a Rita Camacha — porque o carro era dela, e a rapariga, ufana da sua superioridade, fazia as honras às amigas.

Eram bonitos de lei, os vinte anos da Rita Camacha. No seu narizito um pouco levantado, e na sua boca graciosa brilhava ainda um sorriso alegre de criança; mas os cabelos pretos, pesados, e os olhos grandes, de um tom castanho, a que os laivos verdes davam transparências fundas de ágata, modificavam-lhe a expressão, tornando-a mais mulher, involuntariamente provocante. E o que havia de singular naqueles olhos da Rita, eram as pestanas negras e bastas, tão negras e tão bastas, que os olhos pareciam pintados, artisticamente jeitos a lápis preto por uma atriz francesa.

Mesmo as suas rivais confessaram depois, que ela, nesta tarde, ia: “Muito bem composta” — muito elegante no seu vestido novo, com um lenço de seda na cabeça, e outro lenço grande, vermelho e amarelo, cruzado sobre os seios já fortes. Direita no carro, segurava-se ao taipal com a mão pequena, apenas queimada; porque a Rita pouco trabalhava no campo. Saía às vezes à azeitona, quase por chic, para ir com as outras, e mondava na sua seara; mas aos trabalhos duros, às ceifas, ao mato, nunca ia. O pai dela, o João Camacho, estava bem. Tinha ricas fazendas; e, com as suas quatro parelhas, ganhava muito bom dinheiro nos carretos de trigo para a estação, e para os moinhos da ribeira.

E justamente neste dia da Festa das Moças, a Rita ia alegríssima; alegre porque se sentia bonita e bem vestida; porque ia no seu carro; porque adiante do carro, num rancho de rapazes, ia o Zé Severo, que de dois em dois passos se voltava para a ver.

A chegada do carro ao terreiro da ermida, foi um triunfo. Vinham ali as moças mais elegantes — o beijinho; e apenas as raparigas saltaram para o chão, compondo os beiços, endireitando as pregas das saias, foram arrebatadas para o baile pelos pares que as esperavam.

Ficaram horas no baile, andando à roda num passo vagaroso, cantando em coro as modas lentas, entoadas em terceiras, prolongadas em sonoridades singulares e doces. A cada volta havia um changez de dames; e as moças calculavam já de longe quando chegava o namorado. Mas, depois, mostravam-se indiferentes, sonsas, muito sérias, deitando-lhes apenas o rabinho do olho, respondendo levemente à pressão terna das mãos calosas e suadas.

Já tarde, quando a luz horizontal passava roçando nos restolhos ruivos, e a sombra da ermida se alongava sem fim pelo campo queimado, a Rita deixou o baile; e, com a Chica Sirgueira, foi tomar ar, espairecer em volta da ermida. Pararam um momento a ver a vila, embaixo, saindo clara do cinzento terroso dos farrejais: as casas brancas do arrabalde, rosadas agora na luz do poente; as árvores dos quintais, recortando-se em pequenas manchas escuras; os últimos raios do Sol, batendo de chapa nos vidros novos do prédio alto do Cardoso. Isto interessou-as.

— Olha! parece que está a arder — disse uma delas.

Mas seguiram, enlaçadas, os braços à roda das cinturas, mascando nos dentes uns raminhos de alecrim, cochichando confidências amorosas. Na volta, quando passavam diante do adro, o João Cardoso destacou-se de um grupo de ricos, que ali estavam fumando, e veio falar-lhes:

— Olá, Ritinha! Cada vez mais linda. Que boa que tu estás hoje!

A Rita quis passar sem responder. Detestava “o bruto do Cardoso”. Mas ele atravessou-se no caminho. Estava ignóbil na virilidade sanguínea e bem mantida dos seus quarenta e cinco anos, gordo, o beiço caído, o branco do olho raiado de sangue, as mãos fundamente plantadas nos bolsos das calças, quebradas em pregas velhas. E, cinicamente, sem se importar que a Chica ouvisse:

— Olha lá, Rita, em querendo é dizê-lo. Ainda que seja uma vez só, hás de andar aí vestida de sedas, metendo as outras todas num chinelo.

Perante a injúria, daquela oferta bruta de compra, a Rita sentiu-se corar até à raiz do cabelo. Os olhos encheram-se--lhe de lágrimas de raiva. Procurou uma resposta, uma palavra com que açoitasse as faces do homem; mas só soube dizer:

— Deixe-me passar.

E fugiu com a Chica para o baile.

Dançaram o meio. Os moços e as moças, de mãos dadas, formavam uma larga roda, andando mais depressa, cantando num ritmo vivo; e dentro de cinco ou seis pares pulavam — uma polca especial, pulada, valente, batida no chão pelos sapatos grossos. A Rita viu o Zé Severo, e foi tirá-lo oferecendo-se, com os braços abertos. Foram ao meio; e, encostada ao peito do namorado, enlaçada pelo seu braço robusto, pela sua mão dura que lhe magoava as costelas, a rapariga ficou mais contente, instintivamente protegida pela honestidade rude daquele abraço, vingada do bruto Cardoso.

***

Quando a Rita chegou a casa, já depois das nove horas, o pai ainda não recolhera, e a mãe, a Benta, começava a estar inquieta; mas a rapariga tranquilizou-a: “O pai tinha ido com as duas parelhas buscar uma mó à Pedra Furada para a levar ao moinho da Vargem. Eram mais de três léguas de caminho; e, com uma mó em cima do carro, as parelhas não podiam andar, como se levassem cinquenta alqueires de trigo... primeiro que chegassem à beira... que descarregassem a mó... que voltassem. Por ora não tardava.”

Tinha-se sentado junto da porta, procurando fresco, esbraseada ainda do dia, o lenço da cabeça desatado, o pescoço úmido, vendo, lá fora, uma nesga de campo preto, e, por cima, o céu estrelado — porque a casa dos Camachos ficava ao sair da vila, mesmo no fim da rua.

Dentro, a mãe punha a mesa para a ceia; e, estendendo a toalha, colocando os pratos, perguntou-lhe pela festa.

— Estava muito bonita, um balho bom, quase todas as moças da vila — disse a rapariga.

Mas subitamente, corada, toda raivosa, não se teve mão, que não contasse à mãe o que lhe sucedera com o Cardoso. Então a Benta parou, com um prato na mão, indignada:

— Pois ele disse-te isso! Pois, olha, livre-se ele que teu pai o saiba, que lhe há de partir a cara. Não lhe há de valer lá o seu dinheiro... há de lhe partir a cara. Ora o condenado!... O alma do diabo!...

Estavam tão acesas as duas mulheres, tão entretidas na conversa, que não ouviram, fora, um passo rápido na areia da estrada; e quando o almocreve, que tinha ido com o João Camacho, entrou a porta, tiveram um sobressalto. O moço vinha alterado, branco, e apenas pôde balbuciar estas palavras:

— Oh! Tia Benta, não se assuste... foi uma desgraça... uma desgraça... mas oh! Tia Benta, não se assuste.

A mulher escutava imóvel, sem perceber, sem perguntar; e a Rita de pé, pálida, as mãos postas, não se atrevia a dizer uma palavra. Então o rapaz explicou confusamente:

— Foi aquela cabra da mula vermelha que se furtou numa sobroda, mesmo já às quedas da ribeira... o carro voltou-se... e a mó apanhou o Tio João, que nunca mais deu acordo de si... foi uma grande desgraça... mas oh! Tia Benta, não se assuste... o Tio João talvez esteja melhor, desde o meio do caminho que não geme.

Lá fora, na noite límpida, serena, estrelada, começava a ouvir-se o andar compassado de homens que traziam um fardo. Uma voz baixa dava instruções:

— Devagar moços, devagar, com cuidado.

E agora, aparecia entre portas a extremidade de uma escada, segura adiante por dois moleiros, todos brancos de farinha, suados, estafados. Vinham assim, às varas da escada, desde a ribeira — seis quilômetros. Sobre a escada traziam o
João Camacho, coberto por uma manta alentejana, que pendia aos lados, em pregas moles, como o pano de um ataúde.

De repente, ao vê-lo, a Benta levou as duas mãos à cabeça, arrancando o lenço, desgrenhando-se, exclamando:

— Ai! que mo mataram!

E sem saber porquê, nem contra quem, começou a gritar:

— Aqui-del-rei! aqui-del-rei, que me mataram o meu homem!

Os moleiros entraram cuidadosamente. Queriam passar para o quarto interior, mas a porta era estreita, a escada não cabia. Alguém lembrou:

— Tragam daí um colchão.

A Rita, enfiada, alumiava; um dos moleiros foi lá dentro, arrancou o colchão de uma cama, veio estendê-lo na casa de fora. E, com muitas cautelas, passaram o Camacho para o colchão. Aos gritos da Benta, a casa enchia-se de gente. Toda a vizinhança estava ainda levantada, sentada pelas portas naquela noite quente de Julho. Ao fundo da casa, os moleiros, tirando o chapéu, passavam os lenços de cor sobre as testas, escorrendo suor. E, em volta do colchão, à roda da Benta, que não cessara de gritar, as mulheres aglomeravam-se, condoídas e curiosas, num burburinho de exclamações e de choros. Mas todos ficavam hesitantes, como medrosos, sem se atreverem a tocar no Camacho, absolutamente imóvel, aparentemente morto. O regedor, que entrara indagando o que tinha sucedido, foi o primeiro a lembrar:

— É preciso chamar o médico.

— Já lá foi o Zé Russo a correr — disse um dos rapazes.

Pouco depois, ouvia-se uma voz forte na rua, dizendo:

— Deem licença. Deixem passar... fazem favor.

E o Dr. Sousa entrou, sem tirar o seu grande chapéu de abas largas, abrindo os grupos, perguntando:

— Onde está o ferido?

Antes de ouvir a resposta, viu o homem estendido ao meio da casa; e foi rapidamente ajoelhar junto do colchão, dizendo ao acaso para um dos rapazes que ali estavam de pé, aparvalhados numa contemplação idiota:

— Dá cá daí essa luz.

E, enquanto o rapaz, tremendo, segurava a candeia, o Sousa debruçou-se sobre o Camacho, rasgou-lhe a camisa ensanguentada, pondo a descoberto o braço esquerdo, partido em duas bandas, e o tronco horrivelmente ferido, como esmagado pela pancada da mó. Fez-se então um grande silêncio. A Benta mesma se calara. Todos estendiam os pescoços; e, sob as abas largas do chapéu, viam-se brilhar os vidros dos óculos fixos do médico, tocados pela luz da candeia. O exame durou pouco, e o Sousa disse alto:

— Não há nada a fazer... está morto há perto de uma hora.

Ao levantar-se deu com os olhos no regedor.

— Ah! boas noites, Sr. Pedreira, não o tinha visto quando entrei. Isto foi um acidente?

— Voltou-se-lhe o carro, segundo dizem.

— Bem, então não sou necessário. Mandem buscar a certidão, que eu lá lha encho mesmo em casa.

Quando saía, passou junto da Benta que soluçava, e, mudando de tom, disse-lhe:

— Adeus, Sra. Benta... coitada!... coitada...

E, pondo a mão No ombro da Rita, que ali estava de pé, hirta, pateta:

— Tu, rapariga, vê se tiras daqui a tua mãe... Boas noites, Sr. Pedreira... Deixem passar, fazem favor.

Pouco a pouco, o Pedreira fez sair a gente, ficando apenas com as duas mulheres cinco ou seis vizinhas mais íntimas. E no silêncio, que se estabeleceu na grande casa vazia, houve uma sensação de fim, de se ter acabado tudo na desgraça irreparável. Acocorada junto do colchão, a Benta lamentava-se alto, amparada por duas vizinhas. A Rita, esquecida, medrosa, foi sentar-se mais longe numa cadeira baixa. Chorava devagarinho. As lágrimas corriam-lhe aos cantos da boca, com um sabor a salgado, levemente amargo, caindo uma a uma, orvalhando o seu lenço de festa, vermelho e amarelo. Não fixava bem as ideias, não tinha consciência do que sucedia — chorava, abalada pela comoção da cena, pelas lamentações da mãe, pelo terror que lhe inspirava o pai mutilado, estendido naquela colchão branco, que parecia tão fúnebre, visto à luz mortiça das candeias.

As vizinhas começavam já os arranjos, arredando móveis, colocando uma mesa ao fundo. A Gaudência, que dirigia, consultava as outras em voz muito baixa:

— Fica melhor aqui, não lhe parece, comadre? Mais decente.

Abrindo a porta, chamou um dos rapazitos, que estavam lá fora nos grupos:
— Ouve cá; sabes onde mora o prior?

— Sei sim senhor.

— Então vai lá, e dize à Sra. Maria dos Remédios, que lhe mando eu pedir — a Ana Gaudência, percebes? — que lhe mando eu pedir um crucifixo e dois castiçais, que é para casa do João Camacho, que morreu.


E, enquanto o rapaz partia, muito inchado pela súbita importância que lhe dava aquela missão de confiança, a Gaudência voltou para dentro, e, indo junto da Rita, perguntou-lhe baixo:

— Oh! filha, tens uma toalha de rendas?

— Na arca, Tia Gaudência.— respondeu a rapariga por entre lágrimas.

E ficou quieta, pasmada na sua contemplação inconsciente, seguindo com os olhos a Gaudência que trastejava, assistindo a todos os preparos tristes da morte, naquela promiscuidade da casa pequena, do povo, às vezes tão dolorosa.

Ao lume, aquecia ainda a ceia do João Camacho, e, como a panela levantasse fervura, a Rita ergueu-se maquinalmente, foi arredar o testo, espumou a panela e voltou para a cadeira. Sentia-se muito quebrada, da aflição e da festa. Tinha um esvaimento, um cansaço fundo, até aos ossos: daquele dia passado no sol ardente; do banho de luz crua, refletida nos restolhos amarelos e nas paredes caiadas da ermida; das longas voltas em roda, ao som das cantigas arrastadas; dos bailes ao meio, com os rapagões brutos, que lhe apertavam a cintura nas mãos fortes, duras dos cabos das enxadas e das rabiças dos arados. E todas estas imagens, de sol, de lenços claros, de cintas encarnadas, de caras alegres e boçais dos pares, lhe dançavam diante dos olhos na casa sombria, onde a Gaudência continuava nos seus fúnebres arranjos. Voltavam-lhe agora as cantigas: uma moda nova muito lenta, ou o estribilho rápido de um baile ao meio, sacudido e alegre:

Pra matar, malar, malar,
Pra malar lima saoidade...

Mas a Gaudência, veio dizer-lhe:

— Oh! Rita, não acho os lençóis novos.

Então a rapariga levantou-se, para os ir buscar à casa de dentro; e, ao passar junto do cadáver do pai, as lágrimas rebentaram-lhe de novo, rápidas e quentes. Mas, depois de entregar os lençóis à mulher, veio outra vez sentar-se; e as imagens da festa voltaram insistentes, numa alucinação que a distraía.

Lembrava-se agora de tudo o que tinha sucedido: das risadas da Chica e da Josefa no caminho, quando o carro dava solavancos; da cena com o Cardoso, o bruto do Cardoso, atrevido, que lhe vinha oferecer vestidos de seda, a ela, uma rapariga honrada a quem ninguém tinha nada que dizer. Lembrava-se também do seu Zé Severo, alegre, bem vestido, com a cinta escarlate, as mangas da camisa muito brancas. E, sem ser por mal, arrastada pela sucessão inconsciente das ideias, começava a fazer planos de futuro diante do cadáver do pai. Ia casar com o namorado... a mãe ficava rica... decerto não se opunha...

E, estonteada e chorosa, com as lágrimas ainda úmidas nas faces, sorria, parecendo-lhe ouvir a voz valente do Zé Severo a cantar o estribilho:

Pra malar, matar, matar,
Pra matar uma saoidade.


***

Na rua, os amigos do Camacho esperavam a hora do enterro, vestidos de briche, cobertos pelos pesados capotes das solenidades, indiferentes ao calor de Julho. Havia muita gente — o João Camacho era popular, e aquela morte súbita, por uma desgraça, fizera impressão. Mesmo, lá mais acima, viam-se alguns grupos de pessoas graúdas da vila, corretas nas suas sobrecasacas pretas de pano lustroso, nos seus chapéus altos, luzidios, um pouco fora de moda. Em frente da porta, na nesga de sombra de um muro, o velho escrivão Salgueiro conversava com o Costa da loja, um homem novo na vila, mas que julgara do seu dever vir ao enterro.

— A viúva e a filha ficam muito bem, segundo ouvi? — disse o Costa, continuando a conversa.

— Bem! — respondeu o Salgueiro, no tom de superioridade de quem conhece todas as coisas por dentro. — Bem! A comadre Benta, coitada, fica a pedir esmola.

— Ora essa! Diz que tinham muito boas fazendas.

— Pois lá isso tem. Tem as courelas do Sesmo, que são boas; tem alguns quatro ou cinco olivais às Águas Quentes; tem...

O Salgueiro interrompeu a enumeração para acender o cigarro, abrindo o fósforo de pau nas mãos magras, muito curvadas, esperando tranquilamente que o enxofre acabasse.

E, depois de tirar duas fumaças:

—... tem perto de vinte milheiros de vinha. Mas quê, tudo isto está hipotecado aos Farias.

— Aos Farias, oh! diabo! — exclamou o Costa.

— Pois é assim mesmo. O compadre João meteu-se nuns negócios de trigos e de farinhas que deram cabo dele. A comadre Benta não tira das fazendas nem um real; e o mais que aí tem, a casa, as parelhas, vai-se embora nas outras dívidas.

Olhe, só ali ô Chincha da diligência — e mostrava um gordo, todo vestido de preto, que conversava num dos grupos próximos — tem ele uma letra de trezentos e cinquenta mil réis... fora o mais. A comadre Benta, coitadita, fica a pedir esmola.

— Pobre mulher! — disse o Costa, comovido; e acrescentou: — A filha é uma rica moça!

Mas como o prior descesse a rua, precedido pelo sacristão, o velho Salgueiro apertou cuidadosamente o cigarro entre os dedos amarelos, meteu a ponta apagada na algibeira do colete, e foi tomar o seu lugar no acompanhamento.

Tudo quanto o escrivão disse ao Costa da loja era a pura essência da verdade. Passados poucos dias, a Benta recebeu um recadinho dos Farias, dizendo-lhe: “Que sentiam muito incomodá-la, que lhe não queriam fazer mal; mas que, enfim, necessitavam do seu dinheiro; havia já três anos de juros em dívida; e, demais, as ordens para a execução estavam dadas mesmo em vida do Camacho.”

A Benta sabia dos negócios do marido; mas não os conhecia a fundo, em toda a sua realidade desoladora. Este recado consternou-a. Deitou um xale aos ombros, pôs na cabeça o seu lenço de luto de chita preta, e foi consultar o Salgueiro, que era seu compadre de águas bentas.

Quando a mulher entrou, o velho escrivão, sentado à mesa profissional, coberta de oleado preto, tendo em volta a clássica saia de baetilha verde muito amarelada já do sol, copiava pachorrentamente uns documentos, fumando um cigarro.

E, em volta dele, sobre o oleado da mesa, no tinteiro de latão, por entre os papéis, no chão de ladrilho da casa, havia um número incalculável de fósforos de pau ardidos, e de pontinhas velhas de cigarros, fumados até à última. Levantou os óculos para a testa, reconheceu a Benta, e acolheu-a com um desconsolado:

— Ah! é você, comadre! Já cá a esperava. Sente-se... sente-se.

Mas era difícil saber onde; e ele então ergueu-se, alcanchinado na curva daquela vida abancada, tirando de cima de uma cadeira dois registros de tabelião, e o vestido de me ri no de uma das filhas, orlado embaixo de lama, conseguindo acomodar a mulher. E, antes que ela falasse, prevenindo-se:

— Olhe, comadre, você vem mal. Eu hei de lhe fazer tudo o que puder, absolutamente tudo; mas o meu tudo é quase nada. Como escrivão estou amarrado ao que me mandam; e como homem, você bem sabe, que o que aí se ganha nem sempre chega para o pão dos filhos.

A comadre Benta sabia-o muito bem; várias vezes alguns sacos de farinha tinham vindo por empréstimo de casa do Camacho para casa do Salgueiro. Mas ela queria sobretudo um conselho; que a esclarecessem; que dirigissem a sua ignorância desarmada e fraca. O escrivão explicou-lhe o negócio, atenuando um pouco com dó dela; mas, no fundo, dizendo-lhe toda a verdade. E como ela hesitasse, querendo ainda pegar-se a uma esperança, acabou por lhe mostrar esta coisa misteriosa e temerosa entre todas; esta coisa que pode ser uma doação, uma quitação, uma escritura de compra, a fortuna; mas que tantas vezes também representa a dívida, a penhora iminente, a ruína e a miséria — mostrou-lhe um caderno de papel almaço azul, selado, escrito de ponta a ponta, corretamente cosido a linha branca. Do caderno resultava tintim por tintim, com todas as formas em direito necessárias, que as courelas do Sesmo, e os olivais, e a vinha, estavam irremediavelmente perdidos:

—...a não ser, comadre — terminou o Salgueiro que tinha seus laivos de erudição sagrada... — a não ser que Deus toque no coração dos Farias, o que me parece muito mais difícil do que curar o paralítico, ou mesmo do que ressuscitar Lázaro.

A viúva não percebeu esta referência aos Sagrados Evangelhos; nem percebeu as complicações jurídicas no negócio; mas ficou sabendo o bastante para sair mais chorosa do que tinha entrado. Não lhe lembrou recorrer diretamente aos Farias; tinha a certeza de receber uma resposta doce e inexorável. Foi bater a outras portas, e por toda a parte encontrou protestos de amizade, afirmações de simpatia condoída, promessas vagas de auxílio, nenhum apoio eficaz. Teve, porém, um oferecimento, que nem esperara, nem solicitara.

Um dia entrou-lhe em casa a senhora Joaquina da Cruz, magra como um cabide, embrulhada no seu xale preto, avermelhado pelos sóis dos últimos vinte anos, e que dava a impressão aflitiva de que se ia furar nos ombros, tão fina se havia tornado a sua trama, e tão agudos eram os ossos da mulher: “Vinha ver a senhora Benta. Já devia ter vindo há muitos dias, se não estivesse tão doente que se não podia bulir. Mas nem por isso deixara de tomar parte no seu desgosto. Aquela morte do João Camacho tinha-lhe feito lembrar tanto a do seu homem, morto também de uma desgraça, sucedida no trabalho” — a verdade era, que o matou um castelhano com duas facadas numa barraca da feira da Vidigueira — “deixando-a sem amparo, uma pobre de Cristo. Ai! ninguém sabia melhor do que ela o que eram desgostos e trabalhos... Por isso não seria ela que abandonasse quem estava na desgraça. Mas tinha a sorte de lhes trazer uma boa notícia. Naquele mesmo dia, logo de manhã, tinha-a mandado chamar o Sr. João Cardoso”...

A este nome, a Rita, que ao fundo da casa embainhava uma saia de luto, levantou a cabeça, escutando com atenção.

A Joaquina continuou:

— Ai! que santo homem é o Sr. Cardoso. Mandou-me chamar logo de manhã e disse-me... formais palavras: “Vossemecê, Sra. Joaquina, há de ir a casa das Camachas”, assim se diz na ausência; “quero que elas saibam, que eu estou pronto a fazer tudo para se não venderem as fazendas. Quatrocentos ou quinhentos mil réis, ou isso que for, aqui estão às suas ordens...”

— Nós ficamos muito agradecidas ao Sr. Cardoso... — ia a dizer a Benta.

— Ai! e tem razão — atalhou a Joaquina. — Que rico homem! E tão amigo da menina Rita! Ele não vê outra coisa neste mundo. Nem vossemecê sabe o que ele era capaz de fazer por ela...

Ao ouvir estas palavras, a Rita levantou-se de repelão, derrubando a cadeira, dirigindo-se para a porta do quintal.

Aquele gesto violento acordou a Benta, fê-la sair da sua hesitação. E agora, de pé, excitando-se, reagindo contra as insinuações da mulher, talvez contra as cumplicidades vagas do seu pensamento íntimo:

— Olhe, Sra. Joaquina, dê-se vossemecê por muito feliz de não estar aqui quem Deus tem; talvez as coisas não acabassem assim. Pode dizer ao Sr. Cardoso que estamos muito agradecidas ao seu favor; mas que esta é uma casa honrada, não está acostumada às visitas de... mulheres do seu ofício.

Mas a Joaquina ficou impassível, encolhendo os ombros, como se decididamente desta vez quisesse furar o xale com as pontas dos ossos. Ergueu-se devagarinho, muito tolhida do reumático, dizendo tranquilamente:

— Ai! Sra. Benta, vossemecê lá se entende. Cada: um sabe de si... E cá a mim não me descandaliza; estou muito avezada a receber maus pagos, pelo bem que quero fazer.

Quando a Joaquina saiu, as duas mulheres ficaram silenciosas, embaraçadas. Aquela visita humilhava-as. A velha tocara numa questão, que se não discute entre mãe e filha. E, depois, já não tinham a cólera desdenhosa com que semanas antes se aplaudiam de repelir as ofertas do Cardoso. Hoje, na sua recusa havia reticências. A Benta sentia um remorso sutil de ter cumprido o seu dever. Por que, enfim, aquele auxílio podia ser a salvação; e... quem sabe, talvez fosse desinteressado? Mas, perdido ele, estava tudo acabado. Desajudadas e sós, naquela honestidade que ninguém lhes agradecia, tinham diante de si a miséria.

E a Benta fixava tristemente os olhos da filha, que ficara na saída para o quintal, de costas voltadas. No quadro luminoso da porta, sobre o azul-claro e rosado do céu de Verão, desenhava-se em negro a figura esbelta da rapariga, com a cabecinha graciosamente pousada sobre os ombros, coroada pela massa espessa dos seus cabelos opulentos. Em volta dela brilhava uma auréola de beleza robusta e sã, de mocidade em folha, que já agora... era todo o seu capital.

Os dias corriam. As courelas do Sesmo, vendidas em praça, arrematadas pelos Farias, mal tinham dado para a hipoteca. Estava anunciada a venda dos olivais e da vinha. O Chincha da diligência, na liquidação da letra e de outras continhas, ficava com os carros e as parelhas. Levava mesmo aquela cabra da mula lazã, que tinha causado a morte do Camacho. E várias dívidas mais pequenas surgiam de todos os lados. O Estado entrava também no rol dos credores. Nos últimos tempos, o Camacho, atrapalhado, não pagava nada; e agora apareciam as contribuições, relaxadas, engrossadas pelos três por cento, e pelos seis por cento, e pelas custas, e por outros seis por cento. Em casa da viúva choviam avisos, mandados, citações, contrafés — uns papelinhos impressos, cheios depois com hieróglifos manuscritos.

A mulher não percebia os papelinhos. Nem os hieróglifos, porque nunca ninguém os percebeu; nem mesmo o impresso, porque não sabia ler. Quando lhos liam, quando lhos explicavam, continuava a não perceber. E esta incompreensão aumentava o seu terror. Sentia pesar sobre si uma coisa inexplicável e vaga, como a fatalidade antiga. Julgava-se condenada, perdida — metida em justiça. Esta palavra justiça, tão desviada do seu sentido primitivo, aterrava-a, tomava para ela a significação de uma grande máquina, impessoal e dura, contra a qual é impossível lutar; de uma engrenagem, que pega nos pobres e nos pequenos, triturando-os, laminando-os, deixando-os sem fato e sem pele. E, sucumbida, aniquilada, sentada na cadeirinha baixa, as mãos no regaço, via as suas coisas partir uma a uma.

A Rita não sofreu tanto. Reagiu com a sua mocidade alegre e descuidosa. Começou a ir regularmente aos trabalhos do campo; e, nas conversas picantes do rancho, nas noites dormidas de um trago, depois do cansaço do dia, quase não tinha tempo para pensar. Teve, porém, dois grandes desgostos. Um deles foi o abandono do José Severo; um abandono gradual, sem crise e sem explicações. Também, o Severo não lhe devia nada, era apenas um namorado, que pouco a pouco deixou de rondar a rua, e de se demorar na esquina em descantes noturnos. A rapariga não gostava muito dele; teve mais ferro do que pena de ser abandonada; mas teve um grande ferro, sobretudo quando uma amiga bem-intencionada a veio prevenir de que o rapaz arrastava agora a asa à Chica Sirgueira.

Mas um desgosto mais fundo do que o abandono do Severo, foi o da venda das suas argolas de ouro. Eram umas argolas grandes, bonitas... muito lindas! que o pai lhe trouxera da feira de Évora. Ninguém as tinha assim na vila, nem as filhas dos ricos. Já no Inverno, depois de vendidas as fazendas e as casas, as Camachas tiveram de vender as argolas, para pagar a renda de uma casita pequena, onde se recolhessem. E a Rita passou uma noite inteira a chorar, soluçando, molhando o travesseirinho com as lágrimas grossas. Gostava muito das suas argolas. Sabia que lhe ficavam bem. Tinha saudades daquelas curvas brilhantes de ouro, acompanhando gentilmente as faces, onde, adiante da orelhinha rosada, a pega do cabelo forte se esbatia e descia em penugem fina.

Depois, a venda das argolas era o seu sacrifício pessoal. Nunca percebera bem a quem pertenciam as fazendas. Julgava-as da mãe. Mas as argolas eram suas. Ao vendê-las sentiu pela primeira vez o toque direto da pobreza. Viu-se, de repente, descer ao nível das moças mais pobres do rancho, daquelas que tinham tombas nas botas, e remendos nas salas.

***

Uma tarde do fim de janeiro, a Benta, sentada ao lume, vigiando a panela onde ferviam os grãos para a ceia, esperava pela Rita. A chuva caía tesa, repenicando da calçada deserta; apenas alguns moços subiam a rua, voltando da lavoura com as parelhas pela arreata, embrulhados nas mantas, abaixando a cabeça na refrega. Escurecia já, naquele chegar rápido das noites de Inverno, apressado pelo véu cinzento da água, que encurta o horizonte. E, das portas entreabertas, as candeias, que se acendiam, começavam a pôr linhas de reflexos vermelhos nas paredes lustrosas. Ouviu-se agora um ruído de passos, vozes de raparigas despedindo-se; e a Rita entrou a porta, batendo os pés molhados no ladrilho, inclinando para diante o chapéu, donde correu um fio de água.

— Vens molhada? — perguntou-lhe a mãe.

— Encharcada! — respondeu a rapariga de mau humor.

— Leve o diabo a alma à azeitona, mais o tempo que faz.

E, tirando o xale dos ombros, deitando o chapéu para cima da arca, veio sentar-se ao lume. Ficaram caladas. A Rita enxugava-se; levantava as saias até às ligas, pondo no calor da chama as pernas finas e robustas, apertadas nas meias de linha azul, donde começaram a levantar-se pouco a pouco pequeninas nuvens de vapor. Em frente, a Benta, imóvel, olhava para a filha numa hesitação; e, de repente, cobrando ânimo:

— Sabes quem esteve cá hoje?... o Sr. João Cardoso.

A Rita ergueu os olhos para ela, e, sem responder, baixou-os lentamente para o lume. Nas brasas via agora o Cardoso tal qual o vira no Verão, na Festa das Moças, gordo, bruto, o beiço pendente, os olhos injetados. Mas a Benta continuou devagar, embaraçada na sua explicação difícil:

— Passou aí já depois do meio-dia... e entrou. Coitado... ele é bom homem. Diz que lhe dava lástima ver a gente assim... tu a trabalhares... sem estares avezada. Queria levar a gente pro monte dele... pra Raposeira. Diz que nos semeava lá a seara... que nos não haverá de faltar coisa nenhuma...

A Rita nunca despregou os olhos das brasas, ouvindo uma a uma as palavras da mãe. Sabia muito bem o que elas significavam — sabia-o claramente, na sua ciência rude e completa de rapariga do campo. Não estranhou que a mãe, a sua própria mãe, lhas dissesse; já não tinha as indignações prontas e altivas do Verão. Estava cansada, muito farta de trabalhar, de molhadelas, de ceifas pobres, de grãos duros, malcozidos com um fio de azeite. Tinha um quebramento de tudo, uma cobardia, que lhe ia dei indo as repugnâncias e os escrúpulos.

Mas sentiu dentro de si uma resistência — toda a sua mocidade intacta e fresca protestando num calafrio revoltado dos sentidos. Teve como um apego ao ar, ao sol, às festas alegres, onde fosse de cabeça levantada. Pareceu-lhe, de repente, melhor o trabalho, o apanho da azeitona nas grandes encostas lavadas de luz, ouvindo os varejadores cantar, em cima das oliveiras. Lembrou-se do Zé Severo, o ingrato que ia casar com a Chica Sirgueira; e de um moço que ultimamente a namorava, um belo mocito, muito pobre, que andava lá no varejo.

E ficou ali quieta, calada, fitando as brasas. Instintivamente olhou para si: para a saia de batido, rota já, toda esfiada embaixo; para as mangas das roupinhas de chita preta, velhas e ruças, molhadas ainda, coladas sobre o seu bonito braço redondo, esfumado de finos pelos negros. Viu-se então, como estava naquele dia de festa, muito sécia, muito bem composta. Teve saudades dos lenços de seda, que lhe iam tão bem; e das suas argolas de ouro, vendidas para pagar a renda da casa. Voltou-lhe de repente a pena das suas argolas... muito lindas! uma pena funda de criança a quem quebravam um bonito, tão funda ainda que lhe trouxe de novo as lágrimas aos olhos. Sabia que os lenços, e as argolas, e mais argolas, e vestidos, e cordões, podiam voltar... o Cardoso era muito rico, e muito generoso.

A velha questão surgia ali diante da rapariga, dançava na chama oscilante do lume pobre, luzia nas pequeninas brasas vermelhas, brilhantes no branco das cinzas... Vender-se! Vender-se para não trabalhar, para comer bem, para ter coisas bonitas, lenços de sedas ou diamantes.

Somente a Rita não sabia o que eram diamantes; e não sabia também que a questão era velha, mil vezes debatida em prosa e em verso, que o seu caso era comum, que ela era apenas... Mais uma! Nem chegava a estabelecer a questão na sua fórmula crua — vender-se. Simplesmente a coisa repugnava-lhe. Vinha-lhe agora um terror de andar nas bocas da gente; do que haviam de dizer; de lhe chamarem a amiga do Cardoso.

Recuava diante esta palavra... a amiga do Cardoso. Voltavam-lhe os escrúpulos de moça honrada. Sentia impulsos de independência arisca. Não... antes trabalhar! Mais valiam os dias chuvosos da azeitona, com o fato repassado na umidade gelada; ou as madrugadas ensonaradas das ceifas, quando às duas horas é necessário saltar para o chão, toda quebrada ainda do cansaço da véspera...

Mas depois começou a pensar nas raparigas suas conhecidas, que viviam bem, nas tolerâncias complacentes da província. Na Zabel Carrasca, que estava com o Sr. Fernandes, muito à sua vontade, na sua casa. E todos a cumprimentavam, todos lhe tiravam o chapéu. Até, as semanas passadas, a tinham ido convidar para madrinha de um casamento. Na Joana Guerreira, que estava com o doutor Carvalho, um homem casado, e já velho. Justamente, na antevéspera, recolhendo mais cedo da azeitona, tinha encontrado a Joana Guerreira, que voltava do Freixial — a horta do Carvalho.

Vinha muito bonita, no seu xale de lã preta fina, um lenço de seda azul na cabeça, acompanhada pela sua moça, que lhe trazia um cesto de tangerinas. As raparigas do rancho foram-lhe falar, familiares, respeitosas quase, vendo-a tão senhora, com a sua criada.

Pouco a pouco tranquilizava-se. Arquitetava uma moralzinha prática, errada e fácil, feita de maus exemplos. — Era tola! Que lhe haviam de dizer a ela? Nada! Isso era bom para as desgraçadas, como a Gertrudes, que tinha arranjado um filho com um guarda. Mas ela, era diferente — ia para casa do Sr. Cardoso, dez vezes mais rico do que o Fernandes, vinte vezes mais rico do que o Carvalho. E vinha-lhe um respeito instintivo pela riqueza. Obscura e confusamente começava a sentir a força do dinheiro: via os pobres sempre dependentes, sempre inferiores; ouvia aquela frase, tantas vezes repetida num tom de deferência: — Está muito bem!

Como contraste com a sua existência miserável de privações e de trabalho, teve a visão de um futuro, que, para ela, realizava todos os sonhos da opulência: viver no seu monte, servida pelas suas moças, como uma lavradora. Quando viesse à vila, havia de vir no seu carro, muito bem vestida. Talvez encontrasse então a Chica Sirgueira, casada com o Zé Severo, um almocreve, que afinal não passava de um criado de servir. Esta ideia de humilhar a Chica fê-la sorrir para o lume, descobrindo os dentes brancos, em que as brasas puseram uns reflexozinhos vermelhos, cor de sangue.

Pela primeira vez, levantou os olhos e encarou a mãe. Viu-a curvada sobre o lume, rapidamente envelhecida, como apatetada pelos desgostos. E foi ela, a rapariga, quem quebrou o silêncio pesado:

— E vossemecê, mãe, que lhe disse ao Sr. Cardoso?

A velha pareceu acordar, sem perceber a princípio; mas depois:

— Que lhe haveria eu de dizer... nada. Ele diz que passava aí amanhã.

Então a Rita, lentamente, decidida:

— Pois diga-lhe que sim.


----Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Os cravos (Conto), de Conde de Ficalho



Os cravos

— Pois a minha aventura é bem mais simples do que todas essas — disse o João de S., que nos ouvira calado, estendido no canapé, com as duas mãos cruzadas sob a nuca. — Nem foi, a dizer a verdade, uma aventura; foi apenas uma impressão de momento, uma dessas sensações mil vezes mais fugitivas do que o raio de sol que doura uma nuvem, mil vezes mais intangíveis do que o perfume do rosmaninho, evolvendo-se em manhã de orvalho. E, no entanto, de todas as minhas recordações femininas, é a única esta que me flutua ainda na memória tão fresca como na primeira hora; a única de que me não ficou remorso, nem azedume; a única em que o tédio ou a desilusão nunca puseram a sua mancha.

O ano passado tive de ir a M... no pino do Verão. Por que e para quê, não vem ao caso. Achei-me ali preso bastantes dias, com um destes calores alentejanos de que vocês por cá nem fazem ideia, e tendo muito pouco em que me ocupar. Logo no dia seguinte à chegada, a pessoa com quem ia tratar o meu negócio levou-me à botica, onde alguns ricaços da vila passavam as tardes em doce cavaco. Mas nunca mais lá voltei, afugentado pelo cheiro das drogas, que se exacerbava em trinta e nove centígrados — à sombra! — e pelas discussões de política local, de que não percebia uma única palavra. Privado assim do recurso da botica, eu ia todas as tardes passear pelos arredores da vila, sozinho, com um cigarro entre os dentes, e a minha bengalinha lisboeta na mão.

Ao sair da hospedaria, tomava à esquerda uma ruazita estreita, tortuosa, mal calçada, encaixada entre casarias altas de aspecto mourisco, que levava às muralhas da vila. Na rua havia já sombra — uma sombra muito clara, toda cheia de reflexos das paredes caiadas; mas lá no fundo, a velha porta, rasgada na muralha negra, abria-se para um deslumbramento. Léguas e léguas de terreno se estendiam sem fim, banhadas pelo Sol já baixo, indistintas na luz demasiado intensa, como se as cobrisse um pó fino de ouro incandescente. E, aos meus pés, caía para o vale o arrabalde, com os seus muros caiados, com os seus telhados denegridos, com os fumozitos tênues das suas chaminés.

Eu descia lentamente. O Sol: tocava no horizonte — muito vermelho, esbraseando o céu, anunciando para o dia seguinte um calor ainda mais forte. No largo campo torrado, todo amarelo, nas grandes restolhiças amarelas, nas pastagens secas e amarelas, os olivais formavam manchas escuras, que principiavam a esbater-se" dissolvendo-se na luz já mais fraca. Não corria vento; a campina dormia, extenuada e lassa, acordando a custo daquela longa sesta, dormida sob o sol implacável. E muito longe, para os lados da serra, os fumos grossos das queimadas subiam perpendiculares no ar parado.

As moças da vila começavam a descer para o poço em pequenos riachos, às duas, às três, às quatro, com as suas bilhas — as suas infusas, como lá se diz — vazias, atravessadas sobre a cabeça. Algumas vinham já de volta, com as infusas cheias, molhadas de mergulharem no poço, esguias e bem aprumadas. Subiam num passo firme, envolvidas nos grandes xales escuros de lã, com os lenços de chita traçados na boca, naquele abafo tão singular e tão característico do nosso povo do meio-dia.

Pareciam assim mais altas, alongadas pela curva da infusa e pelas pregas retas e caídas dos xales. Ao cruzarem-me, via-lhes apenas os olhos bem fendidos, assombrados pelas pestanas negras; e elas, sem voltarem a cabeça, sem um gesto, diziam-me baixo, no tom lento de uma saudação grave:

— Tenha muito boas tardes.

Aquelas figuras negras, envoltas e quase veladas, atravessando as linhas daquele país árido e pálido, levavam-me o pensamento para longe e para trás. Podia julgar-me em alguma vilazita dos confins do Sara, em El-Aguat ou In-Salá, onde, ao sol-posto, as raparigas muçulmanas, veladas e misteriosas, descem a encher os cântaros no poço do oásis, sob a folhagem rígida das palmeiras, enquanto, à volta, as sombras azuladas vão invadindo lentamente as longas colinas de areia. E pensava que estas moças eram do mesmo sangue; desciam ao poço como desceram as suas avós, e as avós das suas avós, desde as raparigas berberes, que passaram o estreito com os exércitos de Tárique.

Perante o encanto, triste mas tão penetrante, destas coisas e destes hábitos velhos, destas coisas que são porque já foram, eu sentia uma pena funda — a pena de que tudo aquilo acabasse mais dia menos dia, destruído pela nossa civilização reles e niveladora. Porque era fatal, dentro de dois, de três, ou de dez anos, viria uma municipalidade ilustrada, louvada em artigos de fundo pelos jornais de dez réis, que dotasse a vila com os melhoramentos materiais indispensáveis. E então, encanada a água, postos marcos fontenários nas esquinas das ruas, as moças deixariam de vir ao poço como vieram as suas avós, e as avós das suas avós, desde os antigos tempos de Tárique.

Pensando nestas coisas eu ia descendo a estrada, orlada de grandes piteiras glaucas. Deixava atrás o poço, e seguia até uma das hortas do vale, termo habitual dos meus passeios. Entrara na horta uma tarde por acaso, e agora vinha ali todos os dias.

Àquela hora, a horteloa e a filha tomavam o fresco, sentadas em cadeiras baixas, num terreirinho varrido diante da casa. Eu era já um amigo da família. A rapariga ia-me buscar uma cadeira; o hortelão largava a enxada da rega, soltava a mula velha da nora, e vinha também para ali, em mangas de camisa, com o colarinho desabotoado. Conversávamos tranquilamente... Daqueles fortes calores que iam queimando a uva toda, da novidade de laranja que prometia, do peco que tinha dado nos abrunhos.

Presos sob uma figueira, dois carneiros pretos miravam-nos seriamente com os seus olhos de ouro pálido, como se se interessassem na conversa. Lá no alto da colina, os reflexos do poente tingiam ainda de vermelho as muralhas altas da vila; mas na horta a luz do crepúsculo ia-se morrendo. O grande laranjal viçoso formava uma mancha absolutamente negra. Dos canteiros do meloal, regados de fresco, orlados de milho em flor, levantava-se pouco a pouco uma umidade tênue que adoçava o ar morno da noite. E, no azul fino, muito claro ainda, começavam a acender-se uma a uma as pequeninas luzes frias das estrelas.

Era a hora em que a filha do hortelão regava os seus craveiros. Levantava-se para ir encher a infusa na pia da nora; e, quando voltava pelo carreirinho com a infusa à cabeça, eu via a sua figura fina, de adolescente apenas mulher, recortada no céu pálido, todo picado já de estrelas. Depois, curvada, com a infusa pesada nos braços, começava a regar os vasos, alinhados sobre o alegrete de ladrilho. A curva da sua cinta flexível era tão graciosa e ao mesmo tempo tão robusta, o seu gesto era tão forte, que ela parecia derramar em volta de si uma sensação de vida intensa e plena. A sensação da vida corria dela naturalmente, como da sua infusa corria a vida sobre os craveiros emurchecidos.

Terminada a rega vinha sentar-se, debruçada, com os braços apoiados sobre os joelhos, e o lenço da cabeça descaído para os ombros. À luz das estrelas via-lhe indistintamente as ondas lustrosas dos cabelos negros, o oval fino, os olhos grandes, atentos à minha conversa com o pai. Pelas nove horas hora da ceia — despedia-me, e subia para os horrores da hospedaria, pensando que na tarde seguinte voltaria à horta ver a rapanga regar os seus craveiros.

E voltava — todas as tardes, sem faltar uma. Ela começava a familiarizar-se comigo; perguntava-me coisas de Lisboa, daquele mundo estranho e distante de que fazia uma ideia tão vaga e tão falsa. Mas, se lhe dirigia mais diretamente a palavra, calava-se num retraimento arisco. Tinha a confiança, cortada de sustos, de um pequenino animal selvagem que principia a domesticar-se.

Às vezes ficávamos sós, quando a mãe ia lá dentro tratar da ceia, e o pai dava uma volta pela cavalariça a ver se a mula levantava a ração. Ficávamos calados. Na horta soavam as leves bulhas misteriosas da noite; ao fundo do laranjal, uma luca soltava a sua nota fina, regularmente espaçada; de quando em quando um sopro brando passava na folhagem, dando-lhe um frêmito doce, como uma festa na pele; e, na obscuridade quase completa, eu já a não via, mas sentia os seus olhos fitos nos meus.

Os negócios que fora tratar estavam terminados. Creio mesmo que demorei a sua conclusão mais três ou quatro dias do que era absolutamente necessário; mas enfim uma tarde vim à horta despedir-me dos meus amigos, e anunciar-lhes que partia no dia seguinte para Lisboa. A rapariga ficou calada, com uma vaga expressão de tristeza nos olhos.

Quando veio regar os craveiros, aproximei-me do alegrete; e ela, ao pousar a infusa, colheu dois cravos — dois pobres cravitos ordinários — e deu-mos sem dizer uma palavra. Colhi também um cravo vermelho; e, brincando, quis-lho pôr na cabeça. Enquanto forcejava peito plantar na massa espessa dos seus cabelos negros, vi-a corar, como se o vermelho do cravo se diluísse e descesse, tingindo-lhe as faces e o pescoço; e assim, tão junto dela, senti-a tremer entre os meus braços. Foi uma sensação de uma suavidade infinita.

— E depois? — perguntou um de nós.

— Depois, mais nada.

— O quê, mais nada! — exclamamos todos em coro.

— Absolutamente mais nada. E que mais queriam vocês?

Ela dera-me nessa sensação tão fugitiva, e por isso mesmo tão fresca, o que tinha de mais precioso; o que nos, dá a flor que respiramos sem a colhermos; a borboleta que passa na nesga de sol, sem que um toque brutal venha a macular o pó dourado das suas asas; dera-me a primeira vibração da sua
virgindade que acordava.

— E nem soubeste dela depois?

— Nunca mais. Deve ter casado com algum cabreiro, ou com algum vaqueiro; mas que me importa?

E o João de S., indignado com o nosso materialismo, cruzou as mãos sob a nuca e estirou-se ao comprido no canapé, sem dizer mais uma palavra.




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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A pesca do sável (Conto), de Conde de Ficalho



A pesca do sável

Foi um reboliço infernal na venda da Clara, naquela noite em que o José Bento deu a facada no Joaquim das Águias. Não tinha havido provocação — nem uma palavra trocada entre os dois.

Era um domingo — a venda estava entulhada de trabalhadores e de criados das lavouras. De vez em quando abria-se a porta, e eles entravam, aos dois, aos três, trazendo consigo de fora a sensação gelada e úmida da noite chuvosa. Dentro fazia calor. Das mantas molhadas levantava-se um vapor brando e enjoativo, que se misturava com o fumo espesso dos cigarros. E as conversas repisadas, pastosas, carregadas já de vinho, fundiam-se num ruído contínuo, acompanhadas pelo gesto lento e cansado do homem de trabalho.

O Joaquim das Águias estava muito tranquilo, lá ao fundo, encostado a um pote de tinto, quando de repente, na luz escassa da candeia, viu diante de si os olhos do cabreiro, brilhando sob o cabelo inculto. Instintivamente levantou o braço esquerdo, desviando ainda a faca, que lhe escorregou ao longo da clavícula, indo tanchar-se nos músculos do ombro. A mão direita do Joaquim pegou então com tanta força no pulso do cabreiro, que este gemeu, e, dobrando as pernas fracas e tortas, caiu de joelhos. Toda a venda estava de pé, precipitando-se para o lado dos dois; mas o Joaquim afastou-os a todos num gesto largo, dizendo:

— Deixem lá... deixem... deixem-no sair, este cão nem um pontapé merece...

E largou-lhe o pulso.

O cabreiro ficou um instante de joelhos, depois levantou do chão o seu chapéu velho, e, cambaleando como se estivesse bêbedo, saiu a porta. Um grupo rodeava agora o Joaquim, a quem a Clara abria a camisa ensanguentada, para lhe lavar a ferida. Em volta os comentários começavam.

— Ora o diabo do cambaio ir-se meter com o Joaquim, que o enrola com um dedo! — disse o velho boieiro das Zorrelras.

— Aquilo é por via da Catrina — explicou o ajuda das porcas do Dr. Silva.

— Quais Catrina?

— A Catrina do Juncal.

— Ah! aquela moça alta.

— Pois essa! A moça anda agora metida com o Joaquim, e pros modos isso não faz bom comer lá ao Zé Bento.

— Pois o diabo do cambaio também? — perguntou o boieiro.

— Parece — respondeu laconicamente o ajuda.

O José Bento tinha saído, sem ninguém o seguir. Tomou rua abaixo, num passo incerto, encostando-se por vezes às paredes. Quando desembocou para os farrejais, deixando atrás de si o último candeeiro de petróleo da iluminação municipal, respirou. O vento sul trouxe-lhe de longe um vago cheiro dos seus estevais da serra, que lhe fez companhia — antes, entre as casas, sentia-me só e tinha medo.

A noite estava escuríssima. A chuva miudinha, pouco mais de um nevoeiro, gotejava em largos pingos das grandes oliveiras encharcadas. O cabreiro não via um palmo da estrada; mas seguia-a com a segurança do hábito e do instinto, sem nisso pensar. No seu cérebro estreito revolvia-se uma ideia única, que voltava e voltava, sempre na mesma forma, numa obstinação monótona e estúpida;... “Não o matei!”

É que, a resolução de dar aquela facada tinha sido o seu pensamento constante durante meses. Durante meses ele vira tudo e calculara tudo: vira o Joaquim das Águias, morto, de costas, com a larga navalha espanhola plantada no coração; vira-se a si preso, degredado para África. Não sabia o que era a África, e pouco lhe importava — África, fosse o que fosse, contanto que o Joaquim ficasse morto. Meses a fio, nas longas horas da guarda, deitado ao sol nos vales, ou de pé no alto dos cerras, rodeado pela cabrada vermelha, ele vira o Joaquim das Águias, morto, de costas, com a larga navalha espanhola plantada no coração. Calculara tudo; menos o que sucedeu, menos aquele golpe jogado a medo; menos o Joaquim de pé, tendo-o a ele ajoelhado diante de si. E agora, na noite escura e chuvosa, ao longo da estrada lamacenta, a mesma ideia voltava e voltava sempre: “Não o matei.”

O cabreiro ia devagar. Deixava já atrás de si os olivais que rodeiam a vila. A estrada seguia por entre largas terras lavradas, invisíveis na funda escuridão. O vento sentia-se mais vivo, vindo de longe, sobre a grande planície, desafogada e nua. À esquerda viu o clarão de um lume de pastores, alastrado na névoa, e ouviu o ladrar, compassado e grave, de dois rafeiros. Distraiu-se um momento, pensando: “E o rebanho do morgado... “ Mas logo a mesma ideia voltou: “Não o matei.”

Acudia-lhe agora um tropel de reminiscências, indistintas e confusas, que mal formulava. Lembrava-se da primeira manhã em que vira a Catarina, uma moça forte, muito negra do sol, com os peitos duros e um largo riso bruto, que lhe descobria os dentes esplêndidos, branqueados pela água da serra. Sabia que a moça tinha má reputação. Diziam que estivera com um coiteiro do morgado, depois com um guarda da alfândega, depois com outros — com quem lhe dava um empurrão. Mas estas facilidades ainda mais o intimidavam a ele, rude, pequeno, quase contrafeito. Apesar disso procurou-a, sem saber bem para quê. Via-a muitas vezes, no caminho da fonte, ou lavando no pego da ribeira, com as saias entaladas, e as pernas grossas, metidas na água, que punha uns tons vermelhos do frio na alvura da pele. Agora já lhe falava. Um dia trouxe-lhe timidamente um feixe de rosas albardeiras, colhidas do mato; e ela, ou fosse bom coração ou capricho perverso, atirou-o a rir para cima de umas urzes, e, debruçando-se sobre ele, deu-lhe longamente na boca um beijo fundo. Depois fugiu, e de longe gritou-lhe:

— Olha Zé, pra semana, quando vieres de Serra Grande, vem aqui ao vale.

O José Bento, pobre, feio, meio selvagem, criado desde pequeno com as cabras, envergonhado das suas pernas tortas, e do seu fato roto e envernizado pelas estevas, tinha chegado aos vinte e cinco anos sem tocar em uma mulher. Aquele primeiro beijo quente de fêmea, queimou-lhe o sangue. Durante toda a semana, nas vastas solidões da Serra Grande, de pé pelos cabeços, olhando para as largas pregas do terreno, que se desenrolavam até ao horizonte, vestidas de esteval sombrio, rodeado das suas cabras, que, escondidas no mato, se denunciavam apenas pelo som do chocalho ou pelo oscilar das ramas, o José Bento pensou sem cessar no beijo. Quando fechava os olhos, via o sorriso provocante da Catarina, e sentia o contato molhado e quente dos seus beiços grossos. À noite, enquanto os lobos uivavam à roda do curral de pedra, e os cães furiosos remetiam à porta, ele distraído, sem se importar com os lobos, repetia milhares e milhares de vezes: “...Zé, quando voltares, vem aqui ao vale.”

Nessa semana chegou da praça o filho do malhadeiro das Águias. Vinha de Beja, onde estivera os seus três anos no dezessete. Quando o José Bento voltou com as cabras, e foi ao vale procurar a Catarina, ela deu-lhe na cara uma risada de escárnio, dizendo:

— Olha o parvo!

No dia seguinte, viu-a detrás de uns medronheiros, abraçada com o Joaquim das Águias. Começou então para o cabreiro uma existência horrível. Não sabia se gostava da moça, nem sabia o que era gostar: sabia só que ela lhe dera um beijo, e que dava agora beijos assim... melhores, no outro rapaz, alto e esbelto. Ao pensar nisto tinha ataques de ciúme feroz. Quando, de longe, os via juntos, espojava-se no chão, rasgando-se e mordendo-se como uma raposa chumbada. E quanto mais sofria, mais os espionava; mas eles nem se escondiam. O Tio João do Juncal havia muito tempo já que renunciara a guardar a filha; e ela entregava-se agora aos seus novos amores, com o impudor bruto e a liberdade ampla de um animal bravo. Como uma cerva na brama, chamava o Joaquim do alto dos cabeços, naquela modulação cantada da serra, que se ouve de tão longe; e vinham encontrar-se nos vales escusas, largamente banhados de sol, onde o mato denso de urzes e alecrim lhes formava grandes leitos perfumados.

O Joaquim das Águias tinha retomado rapidamente os seus antigos hábitos. Já de bigode rapado, a longa espingarda ao ombro, e, às costas, a velha mochila, negra do visco das estevas e do sangue seco dos coelhos, parecia não ter saído da serra. Nem por ali havia melhor caçador e pescador; ninguém rastejava mais cuidadosamente um porco, ninguém lançava com maior valentia uma tarrafa, abrindo-a num círculo bem horizontal antes de bater na água. O cabreiro, que o odiava profundamente, tinha medo dele — um destes medos físicos e instintivos de animal inferior. Dezenas de vezes o esperou, e dezenas de vezes ficou imóvel no mato, tremendo, enquanto o Joaquim passava de cabeça levantada, no seu andar cadenciado.

Depois, o cabreiro não tinha espingarda, nem meio de a obter. Comprara apenas uma navalha espanhola, e passava horas a contemplá-la, vendo como a folha brilhava ao sol, passando o dedo no gume bem afiado, abrindo-a lentamente, fazendo soar, uma um, os três estalinhos da mola. À força de ruminar a sua vingança, o José Bento teve uma ideia... Não podia matar o Joaquim na serra... decididamente não podia... não tinha ânimo; mas ia matá-lo à vila, quando estivesse descuidado, rodeado de muita gente. Depois prendiam-no. Pouco se lhe dava disso; não tinha medo da prisão, nem do degredo, nem da forca, tinha só medo do Joaquim — um medo profundo e terrível. Mas apanhando-o daquele modo, descuidado, dava-lhe um golpe só, bem dado, à altura do coração! E nas sovereiras da serra escolhia a altura, ensaiava o golpe.

Passou assim meses, em crises de desespero e de hesitação. Quando abrandava, com medo do Joaquim, encontrava os dois enlaçados em algum vale, ou ouvia o grito cantado da Catarina, chamando o seu rapaz, e voltava-lhe toda a resolução feroz. Até que enfim naquela manhã viera para a vila, com a navalha preciosamente guardada no seio; andara todo o dia, ao acaso, de venda em venda, sem beber; depois fora à venda da Clara. E... e... e não o matei! — terminava ele.

O cabreiro ia seu caminho, mais devagar, cansado já, molhado até à pele, pela chuva que lhe repassava o fato pobre e no fio. Deixava atrás de si as terras de lavoura e as lamas fundas e tenazes dos barros. A estrada entrava na serra. Subia e descia em declives rápidos. Sentia-a mais seca debaixo dos pés, traçada na areia fina e lascada dos xistos desfeitos. O escuro da noite era profundo, mais talvez que à saída da vila; mas o cabreiro agora via distintamente os sítios familiares por onde passava, como nós vemos os móveis do quarto, depois de apagada a luz. Podia apontá-los com o dedo: era lá embaixo, à esquerda, na encosta, o monte do Juncal e o barranco descendo para o vale, onde a Catarina lhe dera o beijo; era em frente, no cerro, a casita branca da malhada das Águias, com as três azinheiras grandes; e ao fundo, ainda longe, o seu curral das cabras, metido nos matos altos. Evocada pela memória tenaz do homem do campo, toda a paisagem saía da funda escuridão, nítida, com os mais pequeninos acidentes, iluminados pela visão interna.

Aquele canto de serra áspera e matagosa era todo o universo para o José Bento — o círculo em que se passara a sua vida miserável, em que acordara a sua bruta paixão. Ao chegar ali sentiu-se um momento aliviado. Achava-se na sua pátria, na segurança da sua casa. Mas logo, a proximidade do Juncal suscitou a imagem da Catarina, e o ciúme animal que o torturava. E depois veio-lhe o novo sentimento que dominava todos os outros, mesmo o seu ciúme, mesmo o seu ódio — veio-lhe um terror abjeto do Joaquim. A ideia, que o perseguira durante todo o caminho, acudia-lhe mais amargamente: “Não o matei!” E, lembrando-se dele na venda da Clara, destemido e ereto, sentindo ainda no pulso dorido a pressão dos seus dedos fortes, completava-a pensando: “... E não sou capaz de o matar!”

Quando o cabreiro chegou ao seu curral ia extenuado. Foi-se estender no fundo da choça, e para ali ficou até ser dia claro, sem manta e sem lume, enroscado como um cão, batendo o queixo de medo e de frio.

O Joaquim não fez grande caso da facada. A ferida, bem vista, não passava de uma arranhadura. Disse a quem o quis ouvir:

— Se o cabreiro se chega outra vez para o pé de mim, racho-o de meio a meio!

Mas não o procurou, e continuou tranquilamente nas suas caçadas, e nos seus amores com a Catarina. O cabreiro também tinha desaparecido, levantando com o fato das cabras para o sul, direito à ribeira de Alfamar, e às vertentes do Guadiana. Ficou por lá três ou quatro semanas, mais miserável que antes, combatido pelo seu terror profundo de se encontrar com o Joaquim e por um desejo intenso de ver a Catarina.

Uma manhã veio ele dando volta pelos matos dos Russins, até dar vistas ao Guadiana, por cima da pedra dos Grifos. O dia estava claro; e na luz ampla e forte o vale parecia ainda mais desolado e triste. O Guadiana ia baixo, deixando quase a descoberto o seu vasto leito de pedra" rasgado, roído, lavado pelas águas. Nas margens, nem uma árvore, nem uma nesga de várzea relvada — a corrente levara tudo, terra e areia, ficando só a rocha nua, e as manchas cinzentas dos calhaus, dos grandes quartzos rolados, entre as quais passava a fita azulada e brilhante do rio. Pelas moitas pobres do loendro escuro e de tamugem ruiva, os palhiços secos, travados, marcavam o nível da última cheia.

Uma solidão absoluta.

Apenas agora, as cabras vermelhas do José Bento vinham aparecendo, uma a uma, entre o mato da encosta, com as orelhas fitas e as cabecinhas finas de animais quase selvagens. Em cima, no azul pálido, dois grifos descreviam num voo sereno as suas órbitas intermináveis.

As cabras vieram descendo, em filas, pelos carreirinhos, e o José Bento desceu com elas. Ao dobrar um cabeço descobriu o Pulo do Lobo: todo o rio que se encerrava no canal estreito, tomando uma velocidade louca; as águas que se apertavam, atropelando-se em veias sobrepostas; depois a fenda na rocha, tragando tudo; e, por detrás, a água, pulverizada na queda, elevando-se num nevoeiro branco, que o sol irisava nos bordos, dando-lhe tons de opala.

O José Bento foi seguindo a margem, até ao sítio em que o rio se despenhava, desaparecendo na funda bacia. Mais adiante, já para além da queda, viu solidamente atada a uma saliência da rocha, uma corda forte de linho, que passava por cima da aresta e pendia para o abismo.

— Olha! está cá um, pescando o sável! — disse ele consigo.

Teve curiosidade de ver, aproximou-se, e, deitando o chapéu no chão, lançou-se de bruços, passando a cabeça além da borda. A parede de xisto, irregularmente fraturado, descia a pique. Embaixo, a água espumava e fervia na queda; agitava-se, ainda sentida, em largas ondulações; e, tranquilizando-se pouco a pouco, tomava os tons denegridos das rochas que a cercavam.

Lá no fundo, na ponta da corda, um homem atado pela cintura, com os tentos da rede na mão, esperava a pancada do sável. O José Bento ficou imóvel, depois abriu a boca num largo riso silencioso, e, recuando lentamente, tirou a navalha da algibeira, e começou a cortar a corda — o homem, que embaixo pescava, era o Joaquim das Águias.

O cabreiro já não tinha a sua boa navalha espanhola, que ficara na venda da Clara; serrava lentamente com uma navaIhita velha, com que costumava cortar o pão para as migas. Quando ia a meio da sua tarefa teve uma ideia, que o fez rir outra vez. Chegou-se à borda e chamou o Joaquim, gritando-lhe que a corda estava cortada. O Joaquim das Águias voltou-se, não percebeu o que lhe diziam, porque o ruído da queda abafava as vozes, mas viu a cara feroz do cabreiro, que fazia o gesto de cortar.

Era um homem valente e decidido, largou a rede, e, empunhando a corda, começou a subir rijamente, ajudando-se com os pés na rocha. Então o cabreiro recuou, e, num ataque de terror indescritível, precipitou-se sobre a corda, serrando violenta, febrilmente, sem despregar os olhos da borda, onde a cada momento esperava ver aparecer a cabeça do Joaquim. A velha navalha tremia e oscilava no cabo; mas as tranças de linho iam cedendo pouco a pouco sob o fio embotado. Os restos da corda tendiam-se agora aos sacões; as fibras estalavam já por si, adelgaçando-se nuns fios tênues, que ainda resistiam.

Um último golpe... do abismo veio um grito de agonia, dominando o ruído da água; e o José Bento ficou de gatas, na postura de um animal, com os olhos esgazeados, e as unhas cravadas na terra.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)