segunda-feira, 10 de junho de 2019

A pesca do sável (Conto), de Conde de Ficalho



A pesca do sável

Foi um reboliço infernal na venda da Clara, naquela noite em que o José Bento deu a facada no Joaquim das Águias. Não tinha havido provocação — nem uma palavra trocada entre os dois.

Era um domingo — a venda estava entulhada de trabalhadores e de criados das lavouras. De vez em quando abria-se a porta, e eles entravam, aos dois, aos três, trazendo consigo de fora a sensação gelada e úmida da noite chuvosa. Dentro fazia calor. Das mantas molhadas levantava-se um vapor brando e enjoativo, que se misturava com o fumo espesso dos cigarros. E as conversas repisadas, pastosas, carregadas já de vinho, fundiam-se num ruído contínuo, acompanhadas pelo gesto lento e cansado do homem de trabalho.

O Joaquim das Águias estava muito tranquilo, lá ao fundo, encostado a um pote de tinto, quando de repente, na luz escassa da candeia, viu diante de si os olhos do cabreiro, brilhando sob o cabelo inculto. Instintivamente levantou o braço esquerdo, desviando ainda a faca, que lhe escorregou ao longo da clavícula, indo tanchar-se nos músculos do ombro. A mão direita do Joaquim pegou então com tanta força no pulso do cabreiro, que este gemeu, e, dobrando as pernas fracas e tortas, caiu de joelhos. Toda a venda estava de pé, precipitando-se para o lado dos dois; mas o Joaquim afastou-os a todos num gesto largo, dizendo:

— Deixem lá... deixem... deixem-no sair, este cão nem um pontapé merece...

E largou-lhe o pulso.

O cabreiro ficou um instante de joelhos, depois levantou do chão o seu chapéu velho, e, cambaleando como se estivesse bêbedo, saiu a porta. Um grupo rodeava agora o Joaquim, a quem a Clara abria a camisa ensanguentada, para lhe lavar a ferida. Em volta os comentários começavam.

— Ora o diabo do cambaio ir-se meter com o Joaquim, que o enrola com um dedo! — disse o velho boieiro das Zorrelras.

— Aquilo é por via da Catrina — explicou o ajuda das porcas do Dr. Silva.

— Quais Catrina?

— A Catrina do Juncal.

— Ah! aquela moça alta.

— Pois essa! A moça anda agora metida com o Joaquim, e pros modos isso não faz bom comer lá ao Zé Bento.

— Pois o diabo do cambaio também? — perguntou o boieiro.

— Parece — respondeu laconicamente o ajuda.

O José Bento tinha saído, sem ninguém o seguir. Tomou rua abaixo, num passo incerto, encostando-se por vezes às paredes. Quando desembocou para os farrejais, deixando atrás de si o último candeeiro de petróleo da iluminação municipal, respirou. O vento sul trouxe-lhe de longe um vago cheiro dos seus estevais da serra, que lhe fez companhia — antes, entre as casas, sentia-me só e tinha medo.

A noite estava escuríssima. A chuva miudinha, pouco mais de um nevoeiro, gotejava em largos pingos das grandes oliveiras encharcadas. O cabreiro não via um palmo da estrada; mas seguia-a com a segurança do hábito e do instinto, sem nisso pensar. No seu cérebro estreito revolvia-se uma ideia única, que voltava e voltava, sempre na mesma forma, numa obstinação monótona e estúpida;... “Não o matei!”

É que, a resolução de dar aquela facada tinha sido o seu pensamento constante durante meses. Durante meses ele vira tudo e calculara tudo: vira o Joaquim das Águias, morto, de costas, com a larga navalha espanhola plantada no coração; vira-se a si preso, degredado para África. Não sabia o que era a África, e pouco lhe importava — África, fosse o que fosse, contanto que o Joaquim ficasse morto. Meses a fio, nas longas horas da guarda, deitado ao sol nos vales, ou de pé no alto dos cerras, rodeado pela cabrada vermelha, ele vira o Joaquim das Águias, morto, de costas, com a larga navalha espanhola plantada no coração. Calculara tudo; menos o que sucedeu, menos aquele golpe jogado a medo; menos o Joaquim de pé, tendo-o a ele ajoelhado diante de si. E agora, na noite escura e chuvosa, ao longo da estrada lamacenta, a mesma ideia voltava e voltava sempre: “Não o matei.”

O cabreiro ia devagar. Deixava já atrás de si os olivais que rodeiam a vila. A estrada seguia por entre largas terras lavradas, invisíveis na funda escuridão. O vento sentia-se mais vivo, vindo de longe, sobre a grande planície, desafogada e nua. À esquerda viu o clarão de um lume de pastores, alastrado na névoa, e ouviu o ladrar, compassado e grave, de dois rafeiros. Distraiu-se um momento, pensando: “E o rebanho do morgado... “ Mas logo a mesma ideia voltou: “Não o matei.”

Acudia-lhe agora um tropel de reminiscências, indistintas e confusas, que mal formulava. Lembrava-se da primeira manhã em que vira a Catarina, uma moça forte, muito negra do sol, com os peitos duros e um largo riso bruto, que lhe descobria os dentes esplêndidos, branqueados pela água da serra. Sabia que a moça tinha má reputação. Diziam que estivera com um coiteiro do morgado, depois com um guarda da alfândega, depois com outros — com quem lhe dava um empurrão. Mas estas facilidades ainda mais o intimidavam a ele, rude, pequeno, quase contrafeito. Apesar disso procurou-a, sem saber bem para quê. Via-a muitas vezes, no caminho da fonte, ou lavando no pego da ribeira, com as saias entaladas, e as pernas grossas, metidas na água, que punha uns tons vermelhos do frio na alvura da pele. Agora já lhe falava. Um dia trouxe-lhe timidamente um feixe de rosas albardeiras, colhidas do mato; e ela, ou fosse bom coração ou capricho perverso, atirou-o a rir para cima de umas urzes, e, debruçando-se sobre ele, deu-lhe longamente na boca um beijo fundo. Depois fugiu, e de longe gritou-lhe:

— Olha Zé, pra semana, quando vieres de Serra Grande, vem aqui ao vale.

O José Bento, pobre, feio, meio selvagem, criado desde pequeno com as cabras, envergonhado das suas pernas tortas, e do seu fato roto e envernizado pelas estevas, tinha chegado aos vinte e cinco anos sem tocar em uma mulher. Aquele primeiro beijo quente de fêmea, queimou-lhe o sangue. Durante toda a semana, nas vastas solidões da Serra Grande, de pé pelos cabeços, olhando para as largas pregas do terreno, que se desenrolavam até ao horizonte, vestidas de esteval sombrio, rodeado das suas cabras, que, escondidas no mato, se denunciavam apenas pelo som do chocalho ou pelo oscilar das ramas, o José Bento pensou sem cessar no beijo. Quando fechava os olhos, via o sorriso provocante da Catarina, e sentia o contato molhado e quente dos seus beiços grossos. À noite, enquanto os lobos uivavam à roda do curral de pedra, e os cães furiosos remetiam à porta, ele distraído, sem se importar com os lobos, repetia milhares e milhares de vezes: “...Zé, quando voltares, vem aqui ao vale.”

Nessa semana chegou da praça o filho do malhadeiro das Águias. Vinha de Beja, onde estivera os seus três anos no dezessete. Quando o José Bento voltou com as cabras, e foi ao vale procurar a Catarina, ela deu-lhe na cara uma risada de escárnio, dizendo:

— Olha o parvo!

No dia seguinte, viu-a detrás de uns medronheiros, abraçada com o Joaquim das Águias. Começou então para o cabreiro uma existência horrível. Não sabia se gostava da moça, nem sabia o que era gostar: sabia só que ela lhe dera um beijo, e que dava agora beijos assim... melhores, no outro rapaz, alto e esbelto. Ao pensar nisto tinha ataques de ciúme feroz. Quando, de longe, os via juntos, espojava-se no chão, rasgando-se e mordendo-se como uma raposa chumbada. E quanto mais sofria, mais os espionava; mas eles nem se escondiam. O Tio João do Juncal havia muito tempo já que renunciara a guardar a filha; e ela entregava-se agora aos seus novos amores, com o impudor bruto e a liberdade ampla de um animal bravo. Como uma cerva na brama, chamava o Joaquim do alto dos cabeços, naquela modulação cantada da serra, que se ouve de tão longe; e vinham encontrar-se nos vales escusas, largamente banhados de sol, onde o mato denso de urzes e alecrim lhes formava grandes leitos perfumados.

O Joaquim das Águias tinha retomado rapidamente os seus antigos hábitos. Já de bigode rapado, a longa espingarda ao ombro, e, às costas, a velha mochila, negra do visco das estevas e do sangue seco dos coelhos, parecia não ter saído da serra. Nem por ali havia melhor caçador e pescador; ninguém rastejava mais cuidadosamente um porco, ninguém lançava com maior valentia uma tarrafa, abrindo-a num círculo bem horizontal antes de bater na água. O cabreiro, que o odiava profundamente, tinha medo dele — um destes medos físicos e instintivos de animal inferior. Dezenas de vezes o esperou, e dezenas de vezes ficou imóvel no mato, tremendo, enquanto o Joaquim passava de cabeça levantada, no seu andar cadenciado.

Depois, o cabreiro não tinha espingarda, nem meio de a obter. Comprara apenas uma navalha espanhola, e passava horas a contemplá-la, vendo como a folha brilhava ao sol, passando o dedo no gume bem afiado, abrindo-a lentamente, fazendo soar, uma um, os três estalinhos da mola. À força de ruminar a sua vingança, o José Bento teve uma ideia... Não podia matar o Joaquim na serra... decididamente não podia... não tinha ânimo; mas ia matá-lo à vila, quando estivesse descuidado, rodeado de muita gente. Depois prendiam-no. Pouco se lhe dava disso; não tinha medo da prisão, nem do degredo, nem da forca, tinha só medo do Joaquim — um medo profundo e terrível. Mas apanhando-o daquele modo, descuidado, dava-lhe um golpe só, bem dado, à altura do coração! E nas sovereiras da serra escolhia a altura, ensaiava o golpe.

Passou assim meses, em crises de desespero e de hesitação. Quando abrandava, com medo do Joaquim, encontrava os dois enlaçados em algum vale, ou ouvia o grito cantado da Catarina, chamando o seu rapaz, e voltava-lhe toda a resolução feroz. Até que enfim naquela manhã viera para a vila, com a navalha preciosamente guardada no seio; andara todo o dia, ao acaso, de venda em venda, sem beber; depois fora à venda da Clara. E... e... e não o matei! — terminava ele.

O cabreiro ia seu caminho, mais devagar, cansado já, molhado até à pele, pela chuva que lhe repassava o fato pobre e no fio. Deixava atrás de si as terras de lavoura e as lamas fundas e tenazes dos barros. A estrada entrava na serra. Subia e descia em declives rápidos. Sentia-a mais seca debaixo dos pés, traçada na areia fina e lascada dos xistos desfeitos. O escuro da noite era profundo, mais talvez que à saída da vila; mas o cabreiro agora via distintamente os sítios familiares por onde passava, como nós vemos os móveis do quarto, depois de apagada a luz. Podia apontá-los com o dedo: era lá embaixo, à esquerda, na encosta, o monte do Juncal e o barranco descendo para o vale, onde a Catarina lhe dera o beijo; era em frente, no cerro, a casita branca da malhada das Águias, com as três azinheiras grandes; e ao fundo, ainda longe, o seu curral das cabras, metido nos matos altos. Evocada pela memória tenaz do homem do campo, toda a paisagem saía da funda escuridão, nítida, com os mais pequeninos acidentes, iluminados pela visão interna.

Aquele canto de serra áspera e matagosa era todo o universo para o José Bento — o círculo em que se passara a sua vida miserável, em que acordara a sua bruta paixão. Ao chegar ali sentiu-se um momento aliviado. Achava-se na sua pátria, na segurança da sua casa. Mas logo, a proximidade do Juncal suscitou a imagem da Catarina, e o ciúme animal que o torturava. E depois veio-lhe o novo sentimento que dominava todos os outros, mesmo o seu ciúme, mesmo o seu ódio — veio-lhe um terror abjeto do Joaquim. A ideia, que o perseguira durante todo o caminho, acudia-lhe mais amargamente: “Não o matei!” E, lembrando-se dele na venda da Clara, destemido e ereto, sentindo ainda no pulso dorido a pressão dos seus dedos fortes, completava-a pensando: “... E não sou capaz de o matar!”

Quando o cabreiro chegou ao seu curral ia extenuado. Foi-se estender no fundo da choça, e para ali ficou até ser dia claro, sem manta e sem lume, enroscado como um cão, batendo o queixo de medo e de frio.

O Joaquim não fez grande caso da facada. A ferida, bem vista, não passava de uma arranhadura. Disse a quem o quis ouvir:

— Se o cabreiro se chega outra vez para o pé de mim, racho-o de meio a meio!

Mas não o procurou, e continuou tranquilamente nas suas caçadas, e nos seus amores com a Catarina. O cabreiro também tinha desaparecido, levantando com o fato das cabras para o sul, direito à ribeira de Alfamar, e às vertentes do Guadiana. Ficou por lá três ou quatro semanas, mais miserável que antes, combatido pelo seu terror profundo de se encontrar com o Joaquim e por um desejo intenso de ver a Catarina.

Uma manhã veio ele dando volta pelos matos dos Russins, até dar vistas ao Guadiana, por cima da pedra dos Grifos. O dia estava claro; e na luz ampla e forte o vale parecia ainda mais desolado e triste. O Guadiana ia baixo, deixando quase a descoberto o seu vasto leito de pedra" rasgado, roído, lavado pelas águas. Nas margens, nem uma árvore, nem uma nesga de várzea relvada — a corrente levara tudo, terra e areia, ficando só a rocha nua, e as manchas cinzentas dos calhaus, dos grandes quartzos rolados, entre as quais passava a fita azulada e brilhante do rio. Pelas moitas pobres do loendro escuro e de tamugem ruiva, os palhiços secos, travados, marcavam o nível da última cheia.

Uma solidão absoluta.

Apenas agora, as cabras vermelhas do José Bento vinham aparecendo, uma a uma, entre o mato da encosta, com as orelhas fitas e as cabecinhas finas de animais quase selvagens. Em cima, no azul pálido, dois grifos descreviam num voo sereno as suas órbitas intermináveis.

As cabras vieram descendo, em filas, pelos carreirinhos, e o José Bento desceu com elas. Ao dobrar um cabeço descobriu o Pulo do Lobo: todo o rio que se encerrava no canal estreito, tomando uma velocidade louca; as águas que se apertavam, atropelando-se em veias sobrepostas; depois a fenda na rocha, tragando tudo; e, por detrás, a água, pulverizada na queda, elevando-se num nevoeiro branco, que o sol irisava nos bordos, dando-lhe tons de opala.

O José Bento foi seguindo a margem, até ao sítio em que o rio se despenhava, desaparecendo na funda bacia. Mais adiante, já para além da queda, viu solidamente atada a uma saliência da rocha, uma corda forte de linho, que passava por cima da aresta e pendia para o abismo.

— Olha! está cá um, pescando o sável! — disse ele consigo.

Teve curiosidade de ver, aproximou-se, e, deitando o chapéu no chão, lançou-se de bruços, passando a cabeça além da borda. A parede de xisto, irregularmente fraturado, descia a pique. Embaixo, a água espumava e fervia na queda; agitava-se, ainda sentida, em largas ondulações; e, tranquilizando-se pouco a pouco, tomava os tons denegridos das rochas que a cercavam.

Lá no fundo, na ponta da corda, um homem atado pela cintura, com os tentos da rede na mão, esperava a pancada do sável. O José Bento ficou imóvel, depois abriu a boca num largo riso silencioso, e, recuando lentamente, tirou a navalha da algibeira, e começou a cortar a corda — o homem, que embaixo pescava, era o Joaquim das Águias.

O cabreiro já não tinha a sua boa navalha espanhola, que ficara na venda da Clara; serrava lentamente com uma navaIhita velha, com que costumava cortar o pão para as migas. Quando ia a meio da sua tarefa teve uma ideia, que o fez rir outra vez. Chegou-se à borda e chamou o Joaquim, gritando-lhe que a corda estava cortada. O Joaquim das Águias voltou-se, não percebeu o que lhe diziam, porque o ruído da queda abafava as vozes, mas viu a cara feroz do cabreiro, que fazia o gesto de cortar.

Era um homem valente e decidido, largou a rede, e, empunhando a corda, começou a subir rijamente, ajudando-se com os pés na rocha. Então o cabreiro recuou, e, num ataque de terror indescritível, precipitou-se sobre a corda, serrando violenta, febrilmente, sem despregar os olhos da borda, onde a cada momento esperava ver aparecer a cabeça do Joaquim. A velha navalha tremia e oscilava no cabo; mas as tranças de linho iam cedendo pouco a pouco sob o fio embotado. Os restos da corda tendiam-se agora aos sacões; as fibras estalavam já por si, adelgaçando-se nuns fios tênues, que ainda resistiam.

Um último golpe... do abismo veio um grito de agonia, dominando o ruído da água; e o José Bento ficou de gatas, na postura de um animal, com os olhos esgazeados, e as unhas cravadas na terra.


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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