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5/31/2019

Vocação contrariada (Conto), de Xavier Marques



Vocação contrariada
Mas vás destinais à religião aquele que nasceu para cingir a espada, e fazeis um rei de quem devia ser missionário: assim é que marchais fora do caminho.
Dante — Paraíso —6:VIII.

Andava na voga quem tinha a sua filharada convertê-la em chusma de padrecas.
Não havia outra carreira que tanto seduzisse; as esposas, em sentindo-se grávidas, principiavam a pedir a Deus um varão, que assim tinham garantidas suas aspirações: um filho padre. Era o ideal de todas as mulheres. Vejamos de uma.
Adélia, que havia um ano apenas trocara os ócios de solteira pelo ménage da esposa, beijava de um modo insaciável, sacudindo-o como louca entre as mãos, o seu risonho nenê, um adorável entezinho rotundo e polposo, cujos olhos pareciam duas estrelas cintilantes de alegria e cujos labiosinhos apenas deixavam escapar com algum fio de bala o instintivo brnu das crianças.
— Este menino há de ser coisa um dia, dizia entusiasmada a mãe do Artur.
— E Deus que me conceda anos de vida e saúde para vê-lo, secunda-a a avó. O pai:
— Há de ser um médico distinto ou então um engenheiro.
— Tem paciência, atalhava Adélia que primava pelo seu espírito de devoção, eu o quero ver no altar, como ministro da Igreja. E há lá porventura mais bonita posição? Que glória não é para uma mãe ver seu filho ordenado!...
— Não vejo tanta... Enfim, ele decidirá... conforme a inclinação que mostrar...
Com apenas variantes, acrescendo por vezes um pouco mais de calor e entusiasmo, devido a alguns cálices de velho Porto, era essa a forma das palestras em que à mesa, durante as refeições, discutia-se o futuro do Artur.
Compreende-se quanto desvantajosa devia ser a situação do fleumático esposo, único representante ali do elemento pensador e prudente, a pretender dissuadir as duas do seu propósito.
— O menino há de ser engenheiro, gritou ele um dia um pouco mais alto que de costume.
Boca que tal disseste... As duas línguas caíram como dois raios, fulminando a asserção do pobre homem; eram duas víboras a morder, a fustigar aqui e ali, a torto e a direito, a irreligião do Francisco e a classe dos engenheiros, a impiedade dos homens da época e o governo que condenou os bispos.
A velha já um tanto hipocondríaca lembrava-se das chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo e por elas jurava que o neto seria padre.
Como Artur crescia e requeria outros cuidados, foi mister pôr ponto a essas discussões. Não foi todavia senão depois de um tiroteio de objeções mais pias que razoáveis, porém incessantes, que o bom do Francisco rendeu-se à discrição. Afinal ele não era homem para lutas, e jamais com sua mulher e sua sogra, que apesar de muito dedicada à observância dos mandamentos divinos não poupava o seu próximo na pessoa do genro.
Ficou pois assentado: o menino, apenas atingisse a idade de oito anos, entraria para o seminário de preparatórios.
Entretanto os anos transcorriam; a criança tinha um crescimento espantoso, ao mesmo tempo que manifestava precoce desenvolvimento de certas faculdades do espírito. Não era mais o gordo e inocente nenê de outrora; perdera aquela rotundidade de formas, aquela fartura de bochechas. Às carnes flácidas e muito frescas sucedia uma musculatura mais consistente, posto que ainda tenra. Não mais engatinhava, andava; não só andava, corria e saltava como um cabrito. O entezinho alegre e rechonchudo desdobrava-se em um rapazete nervoso, magro e um tanto carrancudo, engalispando-se à menor contrariedade. Traquinas e buliçoso, já merecia de quando em quando alguma palmadinha da extremosa mamã e produzia acessos de mau humor no pachorrento pai.
Isso contrariava seriamente a avó, que desde então viu-se obrigada a iniciar um curso de preleções pedagógicas, no intuito de bem dirigir o espírito do neto. Consistiam essas preleções em boa dose de conselhos e meia dúzia de histórias em que nunca faltava um menino que morreu por ser mal ouvido e um padre que pelo muito morigerado que o foi em vida ficou santo depois de morto. Com essas imbecilizantes historietas acreditava a velha que corrigiria o traquinas e formaria o beato. Não durou muito o engano. O pequenote acolhia os contos da avó com carantonhas e risadas à tripa forra.
Efetivamente, era malhar em ferro frio. E sabe Deus com que amargos de boca punha-se ela a considerar numas palavras que lera certo dia no "Emílio" de Rousseau: — tudo é bom ao sair das mãos do Criador, tudo degenera entre as mãos dos homens. A revelhusca pedagoga esteve quase a resignar-se às palavras do francês, quando uma nova energia trouxe-lhe à alma os efeitos do regime analéptico nos convalescentes, E disse de si para si: — aquilo que entre as mãos dos homens degenera pode entre as mãos da mulher regenerar-se.
Daí por diante tão desabrido era o seu proceder com o Artur, que a própria Adélia mais de uma vez julgou-se lesada nas suas atribuições de mãe.
Mas a natureza, afrontada com semelhantes violências, insultada por aquelas enrilhadas mãos que pretendiam torcê-la ao seu despótico querer, manifestava-se mais e mais imperiosa, obstinada e indócil. Torturavam-na; ela vingava-se, reagindo como um cavalo desembestado. Uma prova de que a natureza corrige-se, chega-se mesmo a dobrá-la, mas aos poucos, com jeito, como quem endireita o ramo torto de uma planta; um tanto como o carpinteiro empena a tábua para acomodá-la ao bojo da embarcação: uma flexão agora, outra logo, o fogo e a água concorrendo para o efeito desejado. Processo análogo devia seguir o educador, empregando em iguais proporções o rigor e a amenidade. Educa-se do mesmo modo que se convence. O melhor sistema de educar é uma cópia do melhor meio de convencer. A boa educação é para as índoles rebeldes o que é a persuasão para certa espécie de incrédulos. Nem se desarraigam maus instintos como se foram cancros; matam-se lentamente com a palavra e com o exemplo, que são os bisturis dos vícios.
Essas reflexões vêm a propósito do meio posto em prática pela avó do Artur, a fim de chamá-lo à regra do bom proceder.
Na impaciência pelos resultados do seu ensinamento, querendo à viva força chamar o gosto do neto para o sagrado e ao mesmo tempo receando nele um sacerdote capaz do — não sou padre, não sou nada — achou a boa da velha que o meio eficaz de encaminhar a vocação do menino e convencê-lo de que devia ser padre era recorrer à lógica das cipoadas. Assim toda a vez que o Artur desacertava as benzeduras ou destoava da norma de conduta que lhe era traçada, ela tocava-lhe o ripanço de doer.
Foi com esses argumentos a fortiori que o desventurado viu certo dia aziago fecharem-se às suas costas as portas pesadas do seminário.
Aí, é fácil prever, foi sempre o estudante madraço e calaceiro; emperrado e triste nas aulas, desaforado no recreio. Amiudamente repreendido, mal se podia conter; era um doido dentro da camisola de força. Livros e mais livros. O pai já não podia... Aquilo não era estudante, era uma traça.
Arrastado por empenhos, chegou ao seminário maior, onde mostrou mais aplicação ao estudo, especialmente à filosofia.
Todavia não lhe cheirando o Santo Agostinho, muniu-se clandestinamente doutros compêndios de filosofia mais livre, menos atascada na escolástica dos padres. Estudou muito, conseguindo depois do exame a seguinte observação do mestre: "Mais ortodoxia, meu moço; mais restrições." No exame de moral, disse que a honra era um óbice que tolhia o passo ao livre arbítrio. Era fazer jus, com demasiado merecimento, a um reverendíssimo r.
Todavia isso não desacoroçoou a avó desse livre-pensador que vestia sotaina, muito embora a prevenção com que para diante o olhavam os padres-mestres desconfiados.
A palavra do reitor pôs termo às desconfianças, e o Artur foi galgando as ordens menores e chegou ao último grau hierárquico de receber a tonsura presbiteral e poder enfiar a casula.
Que alegrão para os pais no dia em que o reverendo Artur dava a mão a beijar aos fiéis, depois de ter celebrado a missa nova...
— Agora agradece-me a mim, dizia no mesmo dia, todos à mesa, a avó do reverendo, agradece-me a posição cm que te achas hoje.
— Muito ser-lhe-ei reconhecido, minha avó — obtempera ele, empinando o terceiro copo de excelente Figueira.
E saboreava aquilo com aviamento de garganta e estalidos de língua tais, que não parecia uma criatura obrigada a usar do vinho no sacrifício da missa, como puro sangue de Cristo.
Até aqui, porém, ainda a missa não chegou a Santos. No dia seguinte o jovem tonsurado em lugar de dirigir-se ao palácio arquiepiscopal, foi ao espetáculo. Daí a dias achou-se em um baile onde dançou muito com toda galanteria de um profano.
E prosseguiu numa série de deslizes, intemperanças e coisas que não praticaria o mais levantadiço senhor de Sade.
— Que escândalo! murmuravam todos.
— Que doidices! clamavam Adélia e a mãe.
Mas o prelado, pouco atencioso para com essa espécie de doidos, respondeu com uma suspensão imediata.
O padre, achando a ocasião azada, atirou para um lado a batina, deixou encabelar-se a coroa e caiu no século.
Dizem por aí que anda a representar comédias não sei em que remota província. E até um seu antigo colega de seminário afirma ter lido em um jornal, há tempos, que o Artur estreara-se na comédia Os maçons e o bispo.

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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

A lavadeira (Conto), de José Veríssimo



A lavadeira
Era a flor das lavadeiras de...
Chamava-se Raimunda da Outra-banda.
Outra-banda do rio — pois lá nascera.
Conhecia-a assim:
Um dia eu levantei-me cedo.
Abri a janela do meu quarto e olhei para a terra e para o céu.
O dia estava belíssimo. O céu azul e rosa, a terra alegre. Os passarinhos trinavam nas árvores e o vento agitava de leve as franças das palmeiras.
Respirei ávido os perfumes da floresta que traziam as brisas da manhã.
Por debaixo da minha janela passaram duas mulheres: pareciam mãe e filha.
A mãe não me atraiu a atenção: era uma velha vulgar.
A filha era mais bonita do que a manhã.
Era de estatura meã. Tinha a fronte breve como a de Vênus pagã, cabelos pretos, olhos também negros, gordinha, cara alegre, o nariz pequeno e um tanto achatado na ponta.
Trazia na cabeça um balaio cheio de roupa, o que fazia-a corada.
Tinha atrás da orelha um pequeno ramalhete de jasmins, isso tornava-a sedutora.
Vestia uma saia amarela com florezinhas azuis sobre a camisa branca como a pena da garça, debruada por uma renda larga que deixava ver-lhe o soberbo colo.
Tirei os olhos dela e olhei para o dia, a manhã era belíssima.
Olhei para a lavadeira, ela era mais bela que a manhã.
Depois ela voltou uma esquina e desapareceu.
As auras trouxeram-me ainda em seu regaço um aroma dos jasmins de seus cabelos.
Quanto tempo levei a respirar esse aroma, não sei.
Entretanto de novo no meu quarto, vi a minha espingarda a um canto.
Maquinalmente vesti-me, tomei os preparos de caça, pus a espingarda ao ombro e saí.
Nunca havia acertado um tiro, essa espingarda era um luxo campestre; um pretexto para gozar dos encantos das florestas.
Parti.
Segui o caminho que levara a lavadeira. Havia nele ainda o perfume dos jasmins dos seus cabelos negros.
Segui-o distraído.
A suçuarana — a rainha da mata virgem — podia atravessar-se-me no caminho, sem que eu me lembrasse que trazia uma espingarda.
Leitor, se algum dia tu fores a... e te disserem que há aí um lago, não crê. É uma mistificação.
Houve, é verdade, em outras eras, um lago aberto, grande, franco, belo, a acariciar com suas pequenas ondas a fina e branca areia das suas margens.
Hoje a aninga, as ninfeias, e outras plantas aquáticas, como o mururé e o capim, cobrem totalmente a sua superfície.
Somente aqui e ali se forma uma bacia de que se aproveitam os banhistas e lavadeiras de... para lavarem a roupa e o corpo.
Mas, apesar disso, convido-te, leitor, caso fores a... a não deixares de ir visitar o lago ou antes, as diversas bacias que ele forma: há aí paisagens de uma perfeição acabada.
Esse caminho levava ao lago.
Segui-o.
Foram primeiro infrutíferas as minhas pesquisas.
Com a cabeça pendida, voltava — sonhando mil sonhos da mocidade — quando um delicioso cheiro de jasmim e uma risada argentina me fizeram, como a um cão de caça, levantar a cabeça e dilatar as narinas.
Procurei por todos os lados. Por entre a folhagem vi como um lençol prateado e nele alguma coisa que se movia.
Aproximei-me e olhei.
Ela estava ali.
As águas do lago formavam nesse lugar uma bacia.
O fundo era de areia alva como a pétala do bogarim.
As bordas eram formadas pelas magníficas esmeraldas das folhas do mururé, coroadas por suas garbosas flores.
Junto à margem, com as águas a lamber-lhe o tronco, espalhando sua sombra nas águas de cristal da bacia, elevava-se airosa uma palmeira miriti.
Em uma das palmas do miriti um caraxué cantava.
Mais longe erguia-se uma grande árvore, de cujos ramos pendiam os ninhos arboriformes dos japins, que saltavam de galho em galho, soltando aos ares os seus alegres cantares.
O japim é o garoto dos pássaros; seu canto é irônico, galhofeiro e, às vezes, insolente.
O sabiá cantava no miriti e um canto semelhante partia do meio dos japins.
O sabiá exasperava-se, sacudia frenético as asas e arrancava da garganta as suas mais belas notas.
Dir-se-ia que no bando de japins havia um sabiá, porque um canto idêntico, de notas tão belas, respondia ao cantor pousado na rama do miriti.
E assim continuavam esses mimosos duelos à face da natureza.
A roupa havia sido lavada e estendia-se agora sobre a macia relva que bordava a praia. A lavadeira estava no banho. Viam-se no chão seus vestidos.
A saia amarela com raminhos azuis devera ter sido solta de uma só vez da cintura e caíra, formando um círculo, aos pés de sua dona. Com ela e por baixo dela caiu também a anágua. A camisa essa estava atirada à beira da praia, bem perto d'água, onde, com medo de molhar-se — a ingrata — teria abandonado aquela cujo corpo cobria.
Sobre a saia repousava — e sentia-se que ali fora posto com todo amor — o ramo de jasmins.
Do regaço líquido das águas surgia um corpo trigueiro e esbelto.
O que se via primeiro era uma cabeça emoldurada por uns cabelos negros e lustrosos como as asas da araúna, a espalharem-se úmidos sobre o colo e ombros;
Em seguida o pescoço roliço e belo como o da garça, entroncando-se no colo soberbo, moreno e aveludado;
Depois os seios esféricos, túmidos, de uma admirável pureza de linhas, terminando em ponta aguda, desafiando desejos e pedindo beijos;
Dois braços torneados e bem feitos acabando por umas mãozinhas microscópicas, que cobriam os seios com esse pudico recato da mulher bonita.
Tudo isto, todas estas belezas, envoltas no manto líquido formado pelas águas, cobertas de pingos d'água onde o sol irradiava fingindo diamantes, fazia-me pensar na iara da lenda indígena e a mim mesmo perguntava se não era eu o mancebo da lenda, a quem a mãe-d'água aparecia com todos os seus encantos para seduzir.
Foi na taba dos Manaus.
"Um dia um moço tapuio, filho do tuxaua, seguiu em uma igara o igarapé que banha a ponta do Tarumã.
Era o mais valente, o mais forte e o mais belo da tribo.
Na ponta de sua flecha pairava certeira a morte.
O seu tacape era o terror da onça e do mundurucu.
E um dia, em uma igara, o moço seguia o igarapé que banha a ponta do Tarumã.
A tarde ia linda, e o sol, mergulhando por detrás da colina, onde se erguia a floresta, dourava as águas do rio Negro.
E a igara, impelida pelo braço robusto do moço manau, cortava ligeira, como a seta do seu arco, as águas do riacho.
De noite, alta noite, o moço voltou.
Estava triste e não dormiu.
A mãe dele chorou por ver a tristeza de seu filho e quis conhecer o motivo de suas mágoas.
O moço falou assim:
Ouve, mãe, ouve, porque só a ti posso contar a dor que me vai n'alma.
Era uma moça linda... como nunca vi nem entre as filhas dos Manaus, nem dos Mundurucus. Quando a igara vogava, ouvi um canto longínquo, mais doce do que o do caraxué, mais terno que o arrulho da juriti. Era dela. Estava sentada à margem do rio. Tinha os cabelos cor da pedra amarela e nele enlaçadas flores do mururé e cantava como jamais ouvi cantar. Depois seus olhos, verdes como a pedra das icamiabas, fitaram-se em mim.
Um momento olhou-me e em seguida estendeu-me os braços, e... o seu corpo, esbelto como o açaizeiro, mergulhou nas águas do igarapé, que resvalaram-lhe pelo dorso branco como as penas da garça.
E o moço calou-se.
A velha ouviu, chorou e disse:
Não voltes, filho, não voltes ao igarapé do Tarumã. Essa virgem é a iara, a mãe-d'água. Seu sorriso mata como a flecha do guerreiro e sua voz é traidora como a pepeúa que se oculta nas folhas. Filho, por Tupã, não voltes ao igarapé do Tarumã.
A cabeça do moço inclinou-se sobre o peito e ele ficou mudo.
E no dia seguinte, quando o sol se punha, a igara cortava ligeira as águas do Tarumã.
O moço manau nela ia e não voltou mais à taba de seus pais.
Não souberam mais dele.
Ousados pescadores contavam à noite, junto ao fogo da oca, que, ao passarem de volta de suas pescarias pelo igarapé do Tarumã, quando a noite vai alta, viam ao longe o vulto de uma mulher que cantava, e junto dela o de um guerreiro moço.
E se alguém mais atrevido se aproximava, as águas do rio abriam-se e os vultos desapareciam nelas."
Esta poética lenda dos filhos de Tupã estava-me na memória.
E ao ver banhando-se a linda lavadeira de... lembrei-me da iara.
Apesar de sozinha, a gentil lavadeira não estava sossegada.
Ora seu corpo cortava airoso como o da irerê as águas claras da bacia sobre as quais boiavam seus negros cabelos, quando não repousavam úmidos no dorso lustroso.
Ora fazia de uma folha, que a sua mãozinha travessa ia buscar aqui ou ali, uma canoazinha, que punha-se a impelir com o sopro de sua boca mimosa até ela ir ao fundo. E quando se dava este naufrágio, como se ele a divertisse muito, seus lábios arroxeados abriam-se em um riso alegre e ruidoso, deixando ver duas ordens de dentes pequenos, apontados e alvos como os jasmins que usava em seus cabelos.
E o brinquedo continuava.
Brincava e ria sozinha como as aves suas companheiras que cantam na solidão.
Como era bela assim!
E o sabiá cantava e ela escutava-o.
O pássaro notou essa atenção e estimulado soltou uma escala nítida, estridente, argentina, clara.
Depois começou uma ária, melodiosa, sublime, em que a sua voz alcançava todos os tons com uma clareza e perfeição dignas de reparo, sobre os motivos talvez de alguma Lúcia dos bosques.
Às vezes o canto tomava uns acentos clássicos, que recordavam Haendel ou Mozart; outras, havia nele uma melodia terna, que lembrava Verdi.
Os japins escolheram o seu melhor cantor para zombar da ave-rei das matas. Ele fez fiasco. Não conseguiu arremedá-lo. O chilro do pássaro passava do lírico ao épico, do épico ao bucólico. Ora era pastoril, terno, apaixonado. Ora era altivo, arrogante, heroico. Havia algumas notas que pareciam uma risada. Tinham seu quê de chacota. Offenbach misturava-se com Rossini.
Os japins estavam mudos, corridos de vergonha.
E a gentil lavadeira parara de folgar e escutava, com a bela cabeça erguida, o canto do caraxué.
Eu também escutava-o e olhava-a. De repente estremeci.
Por detrás da linda lavadeira apareceu, primeiro uma cabeça, e depois um corpo, redondo, negro, luzidio, asqueroso.
Era a sucuri.
Tinha a boca aberta e deslizava branda e cautelosa sobre as folhas verdes do mururé. E aproximou-se.
Alongou o pescoço, esmagou com a repugnante cabeça uma flor, escancarou as fauces e...
E a horrível cobra ia morder no colo airoso da Raimunda da Outra-banda.
Levantei a espingarda e, rápido, trêmulo, precipitado, atirei.
O réptil estorceu-se, girou sobre si mesmo e caiu com a cabeça esmigalhada sobre o mururé.
A lavadeira deu um grito, correu para a margem, envolveu-se instintivamente nas roupas e fitou os olhos pasmos na serpente, com as mãos amparando o seio ofegante, como se o coração lhe quisesse saltar fora. Foi esse o primeiro tiro que acertei. O povo da minha terra crê que ninguém erra um tiro, em cobra.
Voltei à cidade.
Perguntei pela lavadeira.
Disseram-me seu nome e contaram-me quem era.
Era casta e pura como a Mani da lenda indígena.
Passaram-se dois anos.
Eu voltei...
Uma tarde estava sentado no parapeito do alpendre da linda capelinha do Bom Jesus, edificada em uma risonha colina.
Do sol apenas uns raios tênues vinham bater nas paredes brancas da capela.
Era Ave-Maria.
As lavadeiras, com seus balaios na cabeça, voltavam do lago e passavam em minha frente no lado oposto da praça.
Lembrei-me então da gentil lavadeira que eu vira outrora banhando-se nas águas do lago.
Meu amigo A... estava aí.
Perguntei-lhe pela Raimunda da Outra-banda.
Respondeu-me: Morreu!
Eu estremeci e, com esse acento de quem não quer crer uma verdade dolorosa, tornei-lhe:
— Morreu!?... Como?...
— Vive hoje com um regatão, comerciando nos lagos de Faro.
Disse e calou-se.
Alguma coisa oprimiu-me o coração. Era o toque plangente de Ave-Maria no sino da capela.


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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

O crime do coronel (Conto), de Ranulfo Prata


O crime do coronel
Depois de longos e dilatados anos, conseguiu, afinal, o Amaro Moreira o seu nada ambicionado diploma de bacharel em ciências jurídicas e sociais. Custara-lhe os olhos da cara, o tal canudo!
Mas qual seria a relutância que havia de vencer a vontade firme e inabalável de seu pai? Lutara muito a princípio. Que não, que não queria ser doutor, que não tinha cabeça para se meter em livralhada, que preferia a fazenda muito querida, onde o seu guapo e desempenado corpo ficaria à vontade, e o seu espírito, liberto das aperturas da meditação e do estudo, ganharia livremente os descampados...
Não houve, porém, pedido nem lamúria que demovessem o coronel da realização do seu mais caro desejo: fazer o filho doutor, o seu único filho, a esperança fagueira da família. Ele que era por assim dizer o dono de Fartura, o homem que não temia rivais políticos num vasto círculo de dezenas de léguas, que até ali jamais fora contrariado, nem encontrara calor que fundisse o aço de sua vontade, não havia de ser em coisa tão simples que cederia. Pegou do filho, engasgado de soluços, e levou-o para S. Paulo. Tivera nesse proceder o apoio de toda a família, menos o do mano Justiniano, que lhe dissera um dia, ao saber da terceira reprovação do sobrinho:
— Anacleto, aceita o meu conselho: tira o Amaro do estudo, o menino não tem jeito pra coisa. Entrega-lhe a fazenda "Floresta" que terás mais lucro e satisfarás o rapaz, que tem chorado nos meus braços para salvá-lo da tal Academia. Isto de doutores, mano, não é para quem quer, e sim para quem é. Bacoreja-me que vais perder o menino... Olha, mano Anacleto: mais vale um bom peão do que um mau doutor!
O coronel ouviu tudo muito contrafeito, de testa enrugada. E parando de cofiar o bigode, respondeu nervosamente, com a superioridade que lhe davam os seus haveres e a qualidade de mais velho:
— Deixa-me, Justiniano, deixa-me! Tenho muito que administre a "Floresta" e peço ao mano que não se intrometa cá nesta questão. Ou Amaro estuda ou largo-o de mão! Que vá tudo para os diabos, o que quero, quero!
Justiniano recebeu na cara a malcriação, arrependeu-se de ter falado, e deixou, cabisbaixo e enfiado, o palacete do irmão. Quando entrou em sua modesta casa, ainda com a grosseria a arder-lhe no rosto, chegou-se-lhe a sua Juvência, indagando do que acontecera. Justiniano, como se não notasse ninguém em torno, a modo de quem fala consigo mesmo, perdido em funda meditação, resmungou," tragando uma saborosa fumaça do seu cigarro de palha:
— Pobre Amaro!
Juvência fitou-o com acrimônia e despeito e falou, retomando os seus afazeres, como a pensar em voz alta:
— Ah! já sei! É zanga com o irmão por causa do Amaro!
E dirigindo-se a ele:
— Você afinal é um homem muito atrasado, meu marido! O que você deve estar é muito satisfeito porque vai ter uma pessoa que enxergue na família, um doutor! Na minha graças a Deus, eles não faltam í Ai! um doutor!. não há como um doutor!... Se eu tivesse tido juízo...
Mas se Justiniano desaprovava, Anacleto tinha para apoiá-lo a família inteira e Fartura em peso. Muitos dos seus correligionários e amigos, quando queriam lisonjeá-lo, era naquele ponto que batiam. Gabando-se-lhe o filho, os favores caíam-lhe das mãos aos punhados.
Quando Amaro se achava ainda no primeiro ano do curso, o pai já lhe havia traçado o programa de vida, delineado bem a trajetória brilhante que ele tinha de percorrer. Em primeiro lugar começaria advogando, para depois enveredar pelo campo farto e promissor da política. Da câmara de Fartura chegaria facilmente à estadual, passando-se em seguida para a federal, e, se as coisas corressem bem, dessa última para a presidência do Estado. Aí, então, estaria de voo alçado... Nada de magistratura! Que futuro podia ter um rapaz de talento metido na magistratura do interior? Viver anos e anos numa pasmaceira estúpida e de irritar! Não, nada de inércia nem de obscuridade! Olhar a vida frente a frente, com o desassombro de quem está cônscio do próprio valor e crê na certeza da vitória.
Os que ouviam o coronel falar assim, de rosto aceso de alegria, o coração a pulsar forte pelo filho único e extremado, desciam as cabeças numa aprovação 'unânime. Merecia respeito aquela exaltação.
Amaro custara muito chegar ao fim. Não tiveram número as reprovações, apesar dos empenhos com deputados amigos e de decisiva influência no magistério da capital. O pai, entretanto, que não fazia conta da demora, achando que todo tempo era tempo, metia grandes somas nas mãos do filho, que se regalava em boas rapaziadas. Um dia, estava certo, havia de tê-lo em casa, prontinho, sobraçando o canudo.
Receios de ruína não os tinha. Só o café que possuía em Santos daria para educar quatro Amaros, afora as duas fazendas de criar, que prendiam mais de duas mil reses! Desse jeito tentou, pertentou e venceu. Nada como a alçaprema do dinheiro!
***
Fartura toda engalanada vibrava de entusiasmo. Acabava de chegar o senhor doutor Amaro Moreira.
Houve, como sempre, o encontro, discursos, música, mesas lautas, baile, etc...
Às festas não deixou de comparecer o Justiniano, que, para logo, notou a mudança que o uso do anel fizera no sobrinho. O moço simples, dado e bondoso, que tanto gostava de amestrar os potros folhões da "Floresta", estava transformado num janota cheio de galanices, de gestos estudados e ares soberbos. Fora na ocasião do baile. Justiniano, no vão de uma das janelas, observava-o a derramar gentilezas no regaço cândido de uma menina que sorria, esperançosa... Fartando-se, afinal, de olhá-lo, virou-se para a rua deserta, onde tremeluziam espaçados focos elétricos, e repetiu mentalmente o que dissera, treze anos atrás:
— Pobre Amaro!
***
Após o acostumado tempo de repouso, utilizado por todos os cem doutores para o refazimento das energias perdidas no estudo acurado de muitos anos, o coronel fez ver ao filho que já era tempo de aparecer no campo da vida prática, para honra e glória da família Moreira. Que se anunciasse e instalasse o seu escritório de advogado.
Feriu-se uma luta tremenda no íntimo de Amaro. E ele que, por um fenômeno intelectual digno de registro, se conhecia a si mesmo, teve ímpetos de confessar ao pai que nada entendia de direito, e que nos anos da capital só aprendera a fazer coisas tortas. Mas nada disse, porque a vaidade apontou do outro lado da cachola, protestando contra tal procedimento.
Amaro deu-lhe ouvidos e anunciou que aceitava questões, não só no crime como no cível.
Os amigos do coronel incumbiram-se da propaganda, lançando aos quatro ventos de Fartura e municípios vizinhos, o nome do novo advogado.
Não tardou, pois, que lhe viesse ter às mãos questão importante, e da qual era uma das partes pessoa de destaque da localidade, amigo do peito de seu pai.
Amaro teve um estranho e doloroso estremecimento no ato de receber a procuração para dar andamento à causa. Colocou-a na rica pasta, que trazia, em letras de ouro, o seu monograma e pôs as mãos à cabeça, apalpando as têmporas para ver se atinava com um meio qualquer de livrar-se, sem desdouro do seu anel, daquela rascada. A situação era premente: ser ou não ser.
Depois de matutar horas a fio, a arrepelar-se, numa aflição de arrancar lágrimas dos livros que tinha defronte, resolveu devolver a procuração.
Em caminho da casa do constituinte, porém, topou com um amigo, que, depois de cumprimentá-lo sorridente e amável, disse-lhe jubiloso:
— Estamos à espera do tombo do Guedes! Dá-lhe uma lição de mestre, meu caro doutor! Descompõe-no nos autos, para de outra vez ele só se meter com gente de sua laia!
Guedes era um rábula temido, inimigo político do coronel e advogado da parte contrária.
As palavras daquele homem detiveram o filho de Anacleto no gesto desairoso para os Moreiras, cujo apelido ele tinha obrigação de lustrar.
Meteu mãos à obra, num supremo esforço de ousadia e coragem.
Foi um desastre! O prejuízo do seu cliente, que já se julgava garantido mesmo por aqueles que nada entendiam de leis, pois a razão estava claramente vista, foi total. Vencera o Guedes, o mulato.
Diante de fracasso tão notório e escandaloso, Amaro caminhou para o pai e disse-lhe, com um azedume que o responsabilizava, que não mais trataria de questões.
O coronel, encandeado ainda com as luzes do saber do filho, relutou e quis convencê-lo de que o começo era mesmo assim, todos principiavam daquele jeito, depois, sim, viria a prática, o traquejo. Aquilo eram asperezas que o tempo acepilhava.
Amaro não se demoveu.
Estavam as coisas nesse pé, quando vagou o cargo de promotor público da comarca. Anacleto, apesar de sua repulsa à magistratura, obteve do juiz a nomeação interina do filho.
Foi Amaro forçado a aceitar, sem deixar de pensar, contudo, na sessão do júri que se aproximava. Aí foi que rolaram na areia das ruas os créditos do doutor. Logo no início, na primeira acusação, excitado e trêmulo, atrapalhou-se na citação dos artigos do código, e depois da leitura do libelo, feito pelo seu antecessor, regougou algumas palavras e sentou-se a suar frio. A defesa, na pessoa mulata do Guedes, ficou à vontade, conseguindo uma absolvição unânime para o réu, criminoso de morte sem justificativa.
O doutor, desorientado e sem tino, queixou-se de doente, pediu demissão e viajou para "Floresta".
Fartura inteira comentou o caso, surdamente, para que os murmúrios não ferissem os ouvidos do coronel. Os inimigos dos Moreiras rejubilaram. Que era muito bem feito tudo aquilo, para diminuir um pouco o orgulho da família: que o coronel andava cego e não via que o filho não dava pra coisa, etc...
Cabia, porém, aos íntimos açular o fogo sagrado do entusiasmo paterno. O próprio juiz confessou ao coronel que não pudera tomar pé no poço fundo do saber do Amaro, que o batia em qualquer matéria. Com o tempo havia de ver... O moço só precisava de mais anos...
Anacleto, não desesperançou. Deixou que os dias passassem, e trazendo, afinal, o filho da fazenda, quis obrigá-lo a aceitar novas acusações. Amaro desta vez, sentindo no rosto o calor das duas vergonhas que sofrera, rebelou-se, dizendo ao pai que agora só tinha na vida um desejo: era ser delegado.
Essa ideia nascera-lhe na fazenda. Nela vira não só uma profissão compatível com os seus méritos, mas também o único meio de deixar Fartura e libertar-se do predomínio do pai. O coronel, se não desaprovou nem se opôs, foi por causa do tom decidido e firme, em que lhe falara o filho. Contudo aquela resolução de Amaro não lhe mataria os planos e intentos. Qualquer caminho chegaria ao mesmo fim. Antes de tudo, porém, era preciso satisfazer o rapaz.
***
Chegou Amaro a Rio Bonito como um Roldão furioso. Atrabiliário e insensato, deu logo de criar medidas absurdas, interpretando mais as leis, e as executando debaixo de violências. Implantou o regime da perseguição e aboliu o respeito e a deferência aos cidadãos, transformando-se em temido opressor. Rompeu com elementos diretores da política local, porfiando em demonstrar independência e autoridade. No entretanto, todos os papéis que lhe caíam nas mãos, passavam logo para as de seu escrivão, que era, na realidade, um serventuário muito prático e entendido do ofício.
O que mais aprazia, ao filho do coronel Anacleto, que estudara filosofia e várias espécies de Direito, era apalpar os quadris alheios, em cata da arma proibida.
Ele próprio executava esse serviço, fazendo deste modo uma rigorosa profilaxia do crime, que, não houve dúvida, deu de diminuir com tão grande carência de instrumentos.
Os políticos, temendo aquele moço desabrido e sem juízo, começaram logo a trabalhar para removê-lo. Mas o que faziam por um lado, o coronel desmanchava pelo outro.
Quando Amaro viu mesmo que o pai triunfara na luta surda e intensa, redobrou de fúria, entrando a praticar atos de se ficar pasmado. Surrava pobres diabos com uma impiedade de louco ou de selvagem; prendia, injustificadamente, por dias e dias, cidadãos pacatos e ordeiros; realizava terríveis diligências pelos distritos vizinhos, donde regressava com braçadas de armas apreendidas, e o punho cansado de açoitar borrachos e rameiras reles.
Rio Bonito, espumante de ódio, estrebuchava sob o tacão da bota do jovem zelador da ordem pública.
***
Certa manhã estava o coronel Anacleto no alpendre da casa de fazenda a sorver o seu café sossegadamente, em companhia do mano Justiniano, quando lhe foi entregue um telegrama. Leu-o apressadamente e caiu para frente, nos braços do irmão, acometido de um vagado. O despacho telegráfico chamava-o a Rio Bonito, onde o filho, vítima de uma agressão, agonizava.
Horas depois o coronel, como que alucinado, atirava-se no trem especial. Justiniano acompanhou-o.
Na noite deste mesmo dia entrava, entalado de soluços, na câmara mortuária do seu desventurado Amaro. Velavam o corpo cinco ou seis pessoas, quase todas fardadas.
Os pecados do coronel foram todos purgados naquela noite de vigília. Na manhã do dia seguinte estava trôpego e alquebrado, parecendo ter noventa anos. Sentia ria boca um sabor estranho. Era o coração que sangrava.
Não teve forças de acompanhar o filho até o cemitério.
Momentos depois do enterro regressou a Fartura, de cabeça caída sobre o peito, numa postura dolorosa de demente.
No silêncio da sua casa, com os olhos intumescidos de chorar, foi que compreendeu, então, o erro que cometera. Caiu-lhe sobre os ombros o peso descomunal de uma grande dor, estranhamente torturante; invadiu-lhe a alma lanhada um grande desespero. Parecia ensandecer. A imagem do filho morto cercado de soldados não lhe saía dos olhos, raiados de betas sanguinolentas. Quando apareceu o Justiniano, ele lançou-se-lhe nos braços, bradando alto e em pranto aflitivo:
— Matei meu filho, Justiniano, matei o meu Amaro!
E Justiniano, sem respeitar a angústia do alanceado pai, sentou-se-lhe ao lado e calmamente falou, fitando-o com dó e lástima:
— Eu não te disse, Anacleto! Olha: mais vale um bom peão do que um mau doutor!


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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)