sexta-feira, 31 de maio de 2019

Vocação contrariada (Conto), de Xavier Marques



Vocação contrariada
Mas vás destinais à religião aquele que nasceu para cingir a espada, e fazeis um rei de quem devia ser missionário: assim é que marchais fora do caminho.
Dante — Paraíso —6:VIII.

Andava na voga quem tinha a sua filharada convertê-la em chusma de padrecas.
Não havia outra carreira que tanto seduzisse; as esposas, em sentindo-se grávidas, principiavam a pedir a Deus um varão, que assim tinham garantidas suas aspirações: um filho padre. Era o ideal de todas as mulheres. Vejamos de uma.
Adélia, que havia um ano apenas trocara os ócios de solteira pelo ménage da esposa, beijava de um modo insaciável, sacudindo-o como louca entre as mãos, o seu risonho nenê, um adorável entezinho rotundo e polposo, cujos olhos pareciam duas estrelas cintilantes de alegria e cujos labiosinhos apenas deixavam escapar com algum fio de bala o instintivo brnu das crianças.
— Este menino há de ser coisa um dia, dizia entusiasmada a mãe do Artur.
— E Deus que me conceda anos de vida e saúde para vê-lo, secunda-a a avó. O pai:
— Há de ser um médico distinto ou então um engenheiro.
— Tem paciência, atalhava Adélia que primava pelo seu espírito de devoção, eu o quero ver no altar, como ministro da Igreja. E há lá porventura mais bonita posição? Que glória não é para uma mãe ver seu filho ordenado!...
— Não vejo tanta... Enfim, ele decidirá... conforme a inclinação que mostrar...
Com apenas variantes, acrescendo por vezes um pouco mais de calor e entusiasmo, devido a alguns cálices de velho Porto, era essa a forma das palestras em que à mesa, durante as refeições, discutia-se o futuro do Artur.
Compreende-se quanto desvantajosa devia ser a situação do fleumático esposo, único representante ali do elemento pensador e prudente, a pretender dissuadir as duas do seu propósito.
— O menino há de ser engenheiro, gritou ele um dia um pouco mais alto que de costume.
Boca que tal disseste... As duas línguas caíram como dois raios, fulminando a asserção do pobre homem; eram duas víboras a morder, a fustigar aqui e ali, a torto e a direito, a irreligião do Francisco e a classe dos engenheiros, a impiedade dos homens da época e o governo que condenou os bispos.
A velha já um tanto hipocondríaca lembrava-se das chagas de Nosso Senhor Jesus Cristo e por elas jurava que o neto seria padre.
Como Artur crescia e requeria outros cuidados, foi mister pôr ponto a essas discussões. Não foi todavia senão depois de um tiroteio de objeções mais pias que razoáveis, porém incessantes, que o bom do Francisco rendeu-se à discrição. Afinal ele não era homem para lutas, e jamais com sua mulher e sua sogra, que apesar de muito dedicada à observância dos mandamentos divinos não poupava o seu próximo na pessoa do genro.
Ficou pois assentado: o menino, apenas atingisse a idade de oito anos, entraria para o seminário de preparatórios.
Entretanto os anos transcorriam; a criança tinha um crescimento espantoso, ao mesmo tempo que manifestava precoce desenvolvimento de certas faculdades do espírito. Não era mais o gordo e inocente nenê de outrora; perdera aquela rotundidade de formas, aquela fartura de bochechas. Às carnes flácidas e muito frescas sucedia uma musculatura mais consistente, posto que ainda tenra. Não mais engatinhava, andava; não só andava, corria e saltava como um cabrito. O entezinho alegre e rechonchudo desdobrava-se em um rapazete nervoso, magro e um tanto carrancudo, engalispando-se à menor contrariedade. Traquinas e buliçoso, já merecia de quando em quando alguma palmadinha da extremosa mamã e produzia acessos de mau humor no pachorrento pai.
Isso contrariava seriamente a avó, que desde então viu-se obrigada a iniciar um curso de preleções pedagógicas, no intuito de bem dirigir o espírito do neto. Consistiam essas preleções em boa dose de conselhos e meia dúzia de histórias em que nunca faltava um menino que morreu por ser mal ouvido e um padre que pelo muito morigerado que o foi em vida ficou santo depois de morto. Com essas imbecilizantes historietas acreditava a velha que corrigiria o traquinas e formaria o beato. Não durou muito o engano. O pequenote acolhia os contos da avó com carantonhas e risadas à tripa forra.
Efetivamente, era malhar em ferro frio. E sabe Deus com que amargos de boca punha-se ela a considerar numas palavras que lera certo dia no "Emílio" de Rousseau: — tudo é bom ao sair das mãos do Criador, tudo degenera entre as mãos dos homens. A revelhusca pedagoga esteve quase a resignar-se às palavras do francês, quando uma nova energia trouxe-lhe à alma os efeitos do regime analéptico nos convalescentes, E disse de si para si: — aquilo que entre as mãos dos homens degenera pode entre as mãos da mulher regenerar-se.
Daí por diante tão desabrido era o seu proceder com o Artur, que a própria Adélia mais de uma vez julgou-se lesada nas suas atribuições de mãe.
Mas a natureza, afrontada com semelhantes violências, insultada por aquelas enrilhadas mãos que pretendiam torcê-la ao seu despótico querer, manifestava-se mais e mais imperiosa, obstinada e indócil. Torturavam-na; ela vingava-se, reagindo como um cavalo desembestado. Uma prova de que a natureza corrige-se, chega-se mesmo a dobrá-la, mas aos poucos, com jeito, como quem endireita o ramo torto de uma planta; um tanto como o carpinteiro empena a tábua para acomodá-la ao bojo da embarcação: uma flexão agora, outra logo, o fogo e a água concorrendo para o efeito desejado. Processo análogo devia seguir o educador, empregando em iguais proporções o rigor e a amenidade. Educa-se do mesmo modo que se convence. O melhor sistema de educar é uma cópia do melhor meio de convencer. A boa educação é para as índoles rebeldes o que é a persuasão para certa espécie de incrédulos. Nem se desarraigam maus instintos como se foram cancros; matam-se lentamente com a palavra e com o exemplo, que são os bisturis dos vícios.
Essas reflexões vêm a propósito do meio posto em prática pela avó do Artur, a fim de chamá-lo à regra do bom proceder.
Na impaciência pelos resultados do seu ensinamento, querendo à viva força chamar o gosto do neto para o sagrado e ao mesmo tempo receando nele um sacerdote capaz do — não sou padre, não sou nada — achou a boa da velha que o meio eficaz de encaminhar a vocação do menino e convencê-lo de que devia ser padre era recorrer à lógica das cipoadas. Assim toda a vez que o Artur desacertava as benzeduras ou destoava da norma de conduta que lhe era traçada, ela tocava-lhe o ripanço de doer.
Foi com esses argumentos a fortiori que o desventurado viu certo dia aziago fecharem-se às suas costas as portas pesadas do seminário.
Aí, é fácil prever, foi sempre o estudante madraço e calaceiro; emperrado e triste nas aulas, desaforado no recreio. Amiudamente repreendido, mal se podia conter; era um doido dentro da camisola de força. Livros e mais livros. O pai já não podia... Aquilo não era estudante, era uma traça.
Arrastado por empenhos, chegou ao seminário maior, onde mostrou mais aplicação ao estudo, especialmente à filosofia.
Todavia não lhe cheirando o Santo Agostinho, muniu-se clandestinamente doutros compêndios de filosofia mais livre, menos atascada na escolástica dos padres. Estudou muito, conseguindo depois do exame a seguinte observação do mestre: "Mais ortodoxia, meu moço; mais restrições." No exame de moral, disse que a honra era um óbice que tolhia o passo ao livre arbítrio. Era fazer jus, com demasiado merecimento, a um reverendíssimo r.
Todavia isso não desacoroçoou a avó desse livre-pensador que vestia sotaina, muito embora a prevenção com que para diante o olhavam os padres-mestres desconfiados.
A palavra do reitor pôs termo às desconfianças, e o Artur foi galgando as ordens menores e chegou ao último grau hierárquico de receber a tonsura presbiteral e poder enfiar a casula.
Que alegrão para os pais no dia em que o reverendo Artur dava a mão a beijar aos fiéis, depois de ter celebrado a missa nova...
— Agora agradece-me a mim, dizia no mesmo dia, todos à mesa, a avó do reverendo, agradece-me a posição cm que te achas hoje.
— Muito ser-lhe-ei reconhecido, minha avó — obtempera ele, empinando o terceiro copo de excelente Figueira.
E saboreava aquilo com aviamento de garganta e estalidos de língua tais, que não parecia uma criatura obrigada a usar do vinho no sacrifício da missa, como puro sangue de Cristo.
Até aqui, porém, ainda a missa não chegou a Santos. No dia seguinte o jovem tonsurado em lugar de dirigir-se ao palácio arquiepiscopal, foi ao espetáculo. Daí a dias achou-se em um baile onde dançou muito com toda galanteria de um profano.
E prosseguiu numa série de deslizes, intemperanças e coisas que não praticaria o mais levantadiço senhor de Sade.
— Que escândalo! murmuravam todos.
— Que doidices! clamavam Adélia e a mãe.
Mas o prelado, pouco atencioso para com essa espécie de doidos, respondeu com uma suspensão imediata.
O padre, achando a ocasião azada, atirou para um lado a batina, deixou encabelar-se a coroa e caiu no século.
Dizem por aí que anda a representar comédias não sei em que remota província. E até um seu antigo colega de seminário afirma ter lido em um jornal, há tempos, que o Artur estreara-se na comédia Os maçons e o bispo.

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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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