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4/26/2025

"Nos Bastidores da História" (Livro), de Paulo Setúbal


As páginas que seguem são a coletânea de várias colaborações em jornal. Tinham elas o destino certo de morrer soterradas nas coleções. Não sonhavam, jornais, viver um dia a vida do livro.

Mas os editores, como é notório, são raça insaciável. Nada há que os contente. Andam todos os dias atrás do escritor, famintos por originais. É um pedir livros sem cessar. É um atropelar o romancista sem dó. Que fazer? A gente, para se ver livre deles, corre às coisas velhas, cata-as, ajunta-as, e com um uff! entrega-as aliviado às mãos dos tais.

Eis a razão deste livro.

São Paulo, 1928.
PAULO SETÚBAL 


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4/20/2025

A maioridade (Conto histórico), de Paulo Setúbal


A MAIORIDADE

Período fundamente característico da nossa história, período proceloso, efervescente de bravias lutas parlamentares, foi o daqueles dias ásperos em que se discutiu e se decretou, como medida de salvação publica, a maioridade de D. Pedro II. É curioso e útil relembrá-lo.

A regência não conseguira sopitar de vez o desabalado espírito revolucionário que então sacudia o país. Havia, por toda a parte, forte anseio de fragmentação. O Brasil tentava, por mil formas, quebrar-se em pedaços autônomos, esboroar-se.

Feijó, apesar da sua voluntariedade rija, não arrancara da alma das massas aquele insidioso estopim de rebelião, que a toda hora se mostrava pronto para explodir. Prova-o, com eloquência, a subida do regente Araújo Lima. Mal assumira o poder, quando ainda os adversários do padre de ferro festejavam a reviravolta política, as províncias, sem razões sérias, já se punham a rebelar-se com armas na mão. Estouraram motins no Rio Grande. Nas Alagoas. Em Goiás. Na Paraíba.

Mais do que simples motins, revoluções de caráter temeroso, revoluções com chacina e fúria, explodem na Bahia e no Maranhão.

Que significava aquilo? Por que tão rubro descontentamento?

É que os regentes tinham um feitio acentuadamente partidário. Eram eles o fruto de correntes políticas triunfantes.

Os vencidos, os que iam para o ostracismo, esses não suportavam de cara alegre a vitória dos que subiam. Daí aquele ininterrupto arrebentar de revoltas. Viu--se claro, no meio da tormenta, que só havia um remédio de apaziguar a fervedura: era pôr nas mãos onipotentes de um só homem, e de homem que estivesse acima dos partidos, um poder centralizador absoluto.

Foi então que surgiu a ideia de se criar uma ditadura legal.


DITADURA LEGAL

Naqueles tempos, diante daquela rajada de fatos subversivos, já se pensou (o que hoje muita gente pensa e apregoa!) que a salvação do Brasil estava num ditador forte. Estava numa individualidade masculinizada, absorvente, que piloteasse o país, com mãos de ferro, à Mussolini. Nem se diga que isso ficou em meras palavras. Não! No parlamento, em mais de uma sessão, discutiu-se gravemente a possibilidade do ditador legal.

Martim Francisco, o velho e ardoroso Martim, que tornara a entrar na política, é quem combate com mais violência a ditadura:

"É uma idéa disparatada! Tanto mais disparatada quanto se sabe que são os amigos do throno os que a inculcam e defendem!"

Mas o deputado Barreto Pedroso discorda. Vem à tribuna. E defende, desassombrado, a necessidade de um ditador. Vale a pena, neste passo, ler os anais:

O Sr. Barreto Pedroso: "Para provar que existia o pensamento de se querer uma dictadura, foi trazido aqui um artigo, no qual se dizia que as circumstancias do paiz reclamavam medidas fortes, excepcionaes. O autor do artigo, diante disso, não tinha duvida em acceitar a dictadura legal". Que quer isso dizer? Que o autor do artigo reconhecia bem que os nossos males publicos não se podiam curar com as leis que temos, com essas nossas leis fracas e brandas. O epiteto legal unido á palavra dictadura, exclue tudo o que possa haver de odioso nessa materia. Ora, senhor presidente, eu confesso, sem medo, que é isso exactamente o que eu quero... (Grande sussurro na sala. Cruzam vozes). Direi aos senhores deputados: eu quero a dictadura legal! Quero a dictadura legal para evitar a dictadura despotica, a dictadura militar! (Continua o sussurro; muitos apartes. Varios deputados pedem a palavra...)"

Deduz-se claramente que a opinião, para chegar a esse extremo exagero de pedir um ditador, é porque não via na Regência, com o seu partidarismo e personalismo, o aparelhamento capaz de manietar as erupções que se desencadeavam sanhudas pelas Províncias. Urgia solucionar a situação. Pensou-se em dar à princesa Januária, que completara os dezoito anos, as atribuições de dirigir o Império até que o príncipe herdeiro alcançasse a idade legal. Mas era uma solução fragílima. Não agradara a ninguém. Como poderia uma menina, sem o menor trato dos negócios públicos, deslindar uma situação que reclamava pulsos de gigante?

"Nesse caso, exclamavam, em logar da princeza, façamos logo o principe sentar-se no throno! É rapaz ainda, não ha duvida. Tem quasi quinze annos: mas quinze annos solidos e desempenados! É um rapaz varonil! Decretemos, portanto, a maioridade delle; façamol-o imperador desde já!"


O CLUBE DA MAIORIDADE

A ideia alastrou-se. Toda a gente acreditou que, com a maioridade de D. Pedro, o país entraria num período menos arrepiado, sem aquele crivo de motins e rebeliões.

Sem mais delongas, segundo nos conta a interessantíssima memória de Araripe Júnior, "Noticia sobre a maioridade", fundou-se no Rio um clube secreto para impulsionar e realizar o plano. Pertenceram a esse clube os nomes mais fulgurantes do parlamento de então. Basta citar os de Antônio Carlos, Martim Francisco, Montezuma, Clemente Pereira, Hollanda Cavalcanti, José Mariano, Alencar, Limpo de Abreu. Esses homens foram os que, na sombra, tramaram a grande medida política. Era um caso melindroso e dos mais perigosos: ia a maioridade deitar por terra o Regente, isto é, o homem culminante, o todo-poderoso da hora.

Mas os conjurados não se atemorizavam. Aliciaram quase todos os seus colegas de representação. Trabalharam à socapa, com ardor.


Um dia, enfim, numa sessão memorável da Câmara, o deputado Montezuma lançou e defendeu o ruidoso, o célebre projeto:

"O Congresso Nacional decreta:

Art. unico: S. M. o Imperador D. Pedro II é reconhecido maior, desde já".

Aquilo foi como fogo em palha. O decreto atiçou labaredas. As sessões tornaram-se agitadíssimas.

Rolou, durante dias, aos escachoos, toda aquela oratória flamante dos parlamentares do tempo. Houve um deputado que fez loucuras a favor da maioridade. Foi o deputado Navarro. Discutiu. Gritou. Disse desaforos. Tornou-se durante um minuto, o nome apoteosado da arraia-miúda carioca.


O DEPUTADO NAVARRO

Navarro era uma rajada. A violência destemerosa, e pouco urbana, dos seus discursos, arrancava aplausos delirantes às galerias.

A paixão que ele pôs em defender a maioridade foi realmente sem peias. É profundamente pitoresca a página dos seus rebuliços. Eis os anais:

"Sr. Navarro: Commissão? Qual commissão, senhor presidente! Vamos proclamar a maioridade já! Acabemos com isso... (pedem vozes que o presidente o chame á ordem; o snr. Navarro com desplante). Não ha força para isso! Continuo... Todos estamos dominados pelo enthusiasmo que se tem apoderado de nós na questão da maioridade do Snr. D. Pedro II. E isso porque, como todos sabem, é com manobras e artificios que uma camarilha perfida quer subjugar-nos. Quem não vê que este resto corrompido e infame de ministerio... (grandes protestos, vozes, o presidente declara que o orador está fora da ordem). Estou na ordem; estou falando sobre a urgencia, mas ás vezes escapam expressões fortes. Continuo...

Porventura, senhores, ainda temos governo? Não temos governo. Nem é mais possivel um arranjo ministerial com o actual regente. Os amigos o atrahiçoam. (E virando-se para Carneiro Leão). Ouvistes? Vós o atrahiçoaes! Vós já o atrahiçoastes para cumulo da vossa infamia! (Vozes, protestos, o presidente soa o timpano). Sim, (continua Navarro, aos berros) agora? o que nos resta, senhores? Uma coisa só: a maioridade. Sim, a maioridade do Snr. D. Pedro II (barulho e vivas na galeria, o presidente pede ordem), o Sr. Navarro:

Fora a camarilha! Viva a maioridade de D. Pedro II! (Os espectadores dão vivas, agitam lenços. Navarro avança para Carneiro Leão, os deputados agarram-n'o. Continuam vivas. No meio do tumulto ecoa, muytas vezes, a voz do presidente ordem! Silencio!").

Essa página, como se vê, pinta a tempestade que a maioridade desencadeou no Congresso. Durante dois dias a discussão estrondejou, fragorosa. O regente Araújo Lima viu que a ondada era grossa demais. Teve apenas uma saída: lavrou um decreto mandando adiar as sessões do Congresso para daí a seis meses.


O DECRETO

Estavam os congressistas na Câmara quando entrou o oficial do paço com o decreto do adiamento. O secretário leu-o. Os deputados viram bem que aquilo era um golpe de força. Araújo Lima não tinha maioria para evitar a sua queda. Usara então, no caso, de uma violência rasteira. Mas os deputados não se conformaram com ela. E rompem gritos de todas as bocas:

Governo conspirador! Regência inepta! Traição! Violência!

Álvares Machado, representante paulista, brada da tribuna:

Protesto contra esse ato praticado por um governo ilegal, intruso, usurpador, ao qual é lícito a todo o brasileiro resistir: vamos para o campo!

As galerias fremem. A indignação sacoleja a todos. Antônio Carlos declara:

Não reconheço, como legal, este ato do governo. O regente é um usurpador desde o dia 11 de março. É um traidor! É um infame o atual ministério! Quero que estas palavras fiquem gravadas como protesto.

O delírio chega ao auge com as palavras candentes do Andrada. O tumulto engrossa. Nisto, em meio ao alarido, toma-se a deliberação de ir ao senado. Lá, junto com os senadores, os deputados deliberariam.

Antônio Carlos ergue-se. E com tonitruância:

Quem for patriota e brasileiro, siga comigo para o Senado! Abandonemos esta câmara prostituída!

O povo inteiro, incendiado pela patriotada, tocou a caminho do Senado.


D. PEDRO II

O Senado também se revoltou com o decreto da regência. Novos tumultos e alaridos. Para solucionar a questão, alvitrou-se, enfim, que se mandasse a D. Pedro uma deputação de cinco senadores e três deputados. Antônio Carlos redigiu uma mensagem ao futuro soberano.

A comissão partiu rumo de S. Cristóvão. O herdeiro do trono atendeu-a prontamente. Ouviu a deputação com forte interesse.

Nisto, enquanto os emissários falam, o mordomo-mor, interrompendo-os, vem avisar a D. Pedro que Araújo Lima está no salão contíguo. O regente quer dizer com urgência uma palavra a S. Alteza.

D. Pedro pede licença. Vai ter com o regente. É que Araújo Lima, ao saber da deputação, precipitara-se também à cata do Imperador. E ali, com muita política e jeito:

 Alteza! Mandei adiar as sessões do Congresso, é verdade. Mas não para impedir a maioridade de V. Alteza; nunca! Mandei adiar as sessões somente com este fim: o de preparar, com solenidade, as festas para reconhecimento da maioridade de V. Majestade, a 2 de dezembro. Quer V. Majestade, por acaso, entrar no exercício das suas funções antes disso?

Dizia a tradição da época que o Príncipe respondera ao regente, com firmeza:

Quero já!

Negou D. Pedro, mais tarde, que houvesse retorquido a Araújo Lima com essa cortante rudeza. Mas isso importa pouco. O fato é que D. Pedro e o regente concordaram ali, sem mais protelação, na medida proposta pelo congresso: a maioridade imediata!

O Príncipe voltou para o salão. Declarou, aos deputados e senadores, a deliberação que havia já tomado com o regente. Foi um júbilo só: o congresso vencera a cartada!


23 DE JULHO DE 1840

A sessão do parlamento foi brilhantíssima. Todos os senadores presentes. Todos os deputados. As galerias atulhadas de povo. E o presidente, de pé, diante da assembleia também de pé:

Eu, como órgão da representação nacional, em assembleia geral, declaro desde já maior a S. M. I. o Sr. D. Pedro II, e no pleno exercício dos seus direitos constitucionais.

E ao mesmo tempo, com ênfase:

Viva o Sr. D. Pedro II!

Foi, pela assembleia um viva fragoroso.


IMPERADOR!

Nesse mesmo dia, às três horas da tarde, estrondam à porta do Senado clarins e rufos. Ouve-se o estacar seco de um coche. João Taylor agarra a portinhola. Abre-a. Salta de dentro um moço claro, muito galhardo.

O povo uiva. Há vivas atordoantes. Clarins e tambores não cessam. Um popular, destacando-se, faz, no meio do rebuliço, uma saudação fogosa. O moço entra. Palmas. Músicas. Flores tombando em chuva das galerias.

A comissão condu-lo à mesa da presidência.. Aí, com a mão sobre os evangelhos, D. Pedro, a voz límpida e fresca, presta, diante da assembleia, o juramento protocolar:

Eu, Pedro II, imperador constitucional do Brasil...

Assim, na sessão memorável, subia ao trono brasileiro aquele adolescente de menos de quinze anos. Era ele, o rapaz desempenado, quem iria, com fulgores únicos, nortear o país por cinquenta anos a fio.

 
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Um projeto de:
Iba Mendes Editor Digital. São Paulo, 2025.

Mulheres na vida do patriarca (Conto histórico), de Paulo Setúbal

MULHERES NA VIDA DO PATRIARCA

Mulheres na vida do Patriarca? Sim, senhor! Inútil arregalar assim os olhos. É isso mesmo: mulheres na vida de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência. Eu sei que a coisa é de melindre. Muita gente não há de querer acreditar-me E com razão!

José Bonifácio, naqueles soltos desbragamentos do primeiro império, destaca-se nítido pela rija austeridade de costumes. Não houve tempo de moralidades mais fáceis do que os pitorescos nove anos de Pedro I. A corte dava um exemplo alto. D. Pedro, enrolado no seu manto de tucano, enchia o Império com o fragor das suas aventuras picarescas.

No meio daquela estúrdia, nota chocante, surge a personalidade carrancuda do Patriarca. José Bonifácio é a Severidade. É a Intransigência. É a Moralidade. É, numa palavra, a Virtude.

O Imperador e o Patriarca, por isso mesmo, avultam num contraste rudíssimo. A gente sente em D. Pedro o filho de D. Carlota Joaquina, a erótica, a rainha desbragada. A gente sente em José Bonifácio o velho sangue honestíssimo do paulista, o homem pacato, em cuja vida nunca floriu uma pecadora novela de coração.

Mas o velho Andrada, como todos os homens , não teria também a sua hora sentimental? Não teria também o seu caso de amor? Talvez... Talvez tivesse tido, não o seu caso de amor, mas os seus casos de amor. Pois são dois os nomes de mulheres que perpassam, levemente, na vida seca daquele grave homem d'Estado.

* * *

Desterrado do Brasil, José Bonifácio foi viver em França. Asilou-se, pobre e em plena desgraça, numa casota de campo ao pé de Talance. Aí compunha os seus versos. Aí refundia os seus trabalhos notabilíssimos sobre mineralogia. Aí escrevia, quase diariamente, cartas ao seu melhor, ao seu mais certo amigo. Era ele, como toda a gente sabe, o conselheiro Vasconcelos Drummond.

Fora Drummond o diretor do "Tamoio" o famoso, o violentíssimo defensor da Constituinte. Por esse motivo, nem houve nunca outro, D. Pedro também o desterrara.

Drummond instalou-se em Paris. E é em Paris que recebia aquelas preciosas cartas de Talance. Nelas, nesses documentos vivos de intimidade, o Patriarca despia a alma, punha-a nua em frente ao amigo. Que cartas! Fagulham nessas letras as iras do homem público. Fervem aí ironias farpadíssimas. Borbulham os mais causticantes comentários. E acima de tudo, mais do que tudo, andam por elas saudades desesperadoras do Brasil. O assunto predileto é política. Assim: "Hoje revesti-me de resolução estoica e ahi vão estas desconcertadas regras. Principiemos por politica, já que ella nos deve interessar muito, visto o nosso estado..

Não há fato público do Brasil que não receba uma flechada de Talance. Não escapa coisa alguma. Lá vem sempre o veneno:

"Porque sabiria do ministerio o bambo mulato, pesadão e basbaque? Quem ficará afinal com a pasta?"

Ou, então:

"Que novidades ha no Brasil? Como vão e que fazem as Camaras? Que é feito da nomeação dos novos'diplomatas? Só se resolveu confiar o Pedra-Parda em encarregado de negocios e Antonio Telles em levar a Gran-Cruz para o Francisco burro?"

E mais além:

"Ainda não sei da lista dos novos deputados da Provincia. Mas se foram tão bem escolhidos como os do Rio, adeus Imperio! O que valerá é que são poltrões e bestas...”

Quando, a 12 de outubro de 1826, apareceram os célebres decretos de D. Pedro, elevando a altas nobrezas uma chusma de servidores vulgares, veio, entre as mercês, o título de Viscondessa de Santos à senhora D. Domitila de Castro.

José Bonifácio não se conteve. Pulou! Aquilo foi um ferrão de vespa na sua vaidade. E lá desabafou ao amigo:

"Quem julgaria possível que, nas actuaes circumstancias, havería a Gran-Pata por tantos ovos duma vez, como 19 viscontes e 22 barões? Nunca o João pariu tanto na plenitude do poder autocratico! E quem sonharia, então, que a mixella Domitila seria Viscondessa de Santos? Viscondessa da patria dos Andradas! Que insulto mais desmiolado!"

O nome de Domitila vem sempre à tona. Esvoaça impertinente pelas cartas do velho Andrada. O político não perde vasa.

"Bem feito que o Carneiro fallisse em dois milhões e o orangotango Simplicio extorquisse trinta contos... Que faz D. Pedro em tudo isto? Creio que está enfeitiçado pela mãe da Domitila que em S. Paulo sempre passou por bruxa".

Ou então:

"A morte da Imperatriz penalizou-o assaz. Pobre criatura! Mas estes successos devem trazer consequencias ponderosas á Domitila...”

Foi nessas cartas, tão íntimas, onde o velho Andrada se transbordava com encantadora simplicidade, onde vinham à luz as suas zangas de homem d'Estado, onde fervilhavam os seus velhos ódios, que perpassaram, num lampejo fugaz, secreto desafogo de alma, os dois nomes de mulher que talvez enfeitassem por um momento aquela existência de homem virtuoso.

Quem são elas? Uma francesa e uma brasileira. Bonitas? Não sei. Feias? Não sei. Sei apenas que uma foi Mademoiselle Fanchette; a outra Elisa, tutelada de Madame Delaunay.

Mademoiselle Fanchette...  É o primeiro nome que extravasa naquelas intimidades. Parece ter sido amizade velha, coisa de mocidade. Vasconcelos Drummond topou a criatura em Paris. Estava infelicíssima. Quase na miséria. E ela, ao que se deduz, falou ainda com quentura do Andrada. Daí o enternecimento do velho, o desejo violento de querer amparar-lhe a desdita. Lá está o tópico:

"Passemos agora a coisas menos eventuaes e enigmaticas. Agradeço-lhe immenso o ter se avistado com a "minha antiga Fanchette". Está muito velha? Não o mostra a imaginação acalorada. Pobrezinha! Eu sou ainda muito sensivel ao amor que me conserva...”

E logo, em outro trecho, muito penalizado:

"Si Fanchette está na miseria, realmente, queira, meu amigo, dar-lhe cem francos e desculpar-me com as minhas acanhadas circumstancias. Verei com o tempo si poderei fazer mais. Dê-lhe mil saudades e deite agua fria na fervura, para que não faça alguma doidice que me inquiete. Seu, muito amigo, Andrada".

Bem se vê, por esses transbordamentos, a afeição que ligava o ermitão de Talance à sua Fanchette.

Há nele sincero desespero em não poder ajudá-la na desdita. Este desespero punge-o. E o Andrada exclama na carta seguinte:

"Passemos á tua carta de 18. A sorte da boa Fanchette que tanto interessou á sua sensibilidade tambem me tem melancolizado muytissimo. Pobre mulher! Porque o meu destino cruel não me ha de permitir mostrar-lhe toda a minha amizade? Socegue, meu amigo, a sua imaginação exaltada e diga-lhe que não creia vir a correspondencia della alterar a bôa harmonia domestica. Não sei qual será o meu futuro! Si poderei voltar ao Brasil ou ir para a outra parte da America; em todo caso, farei todos os esforços para a apertar ainda uma vez nos meus braços..."

Quem era essa Fanchette?

Que há de amoroso neste caso? A correspondência não o diz. Nem mesmo elucidam se José Bonifácio foi a Paris "apertá-la ainda uma vez nos seus braços". Apenas, na carta de 27 de agosto, põe ele a Vasconcelos Drummond uma pergunta ansiada:

"E Fanchette? Recebeu os cem francos?"

A história para aí. O nome da francesinha, naquelas páginas políticas, zune como uma abelha doirada. Zune e passa. E a gente fica imaginando apenas, com surpresa, que houve, na existência do homem carrancudo, uma afeição romanesca. Afeição tão doce, tão macia, que teve o milagroso condão de fazer vibrar, com os seus cabelos brancos, aquele coração de ministro duríssimo.

* * *

Elisa... Quem é? Uma pessoa vaga. Pessoa, no entanto, metida seriamente na vida íntima do Patriarca. Parece, contudo, que há nesta história coisas melindrosas. Uma aventura mais grave, de consequências mais comprometedoras. As referências ao caso são poucas.

Mas vêm com tanto mistério, são tão sibilinas, que embasbacam a gente. Assim, numa carta de 1837, lança José Bonifácio um "post-scriptum". Aí, dentro dum largo parêntesis, em letras grande, isto: "Reservado". Que será? Logo, com a imaginação esporeada, a gente corre a ver que diabo será esse "reservado". E dá com isto:

"Queira mandar esta a Madame Delaunay e procure ver com attenção a uma senhora que foi com ella visital-o cuja idade é de trinta e quatro annos e se chama Elisa. Veja se tem as feições que se pareçam com as minhas, ou com as de minha familia. Mas tudo isto deve ser feito com dissimulação e melindre". Offereça de minha parte a Madame Delaunay cem francos, que tudo será embolsado quando cá chegar".

Eis um reservado beliscante. José Bonifácio manda dar dinheiro a uma senhora e ao mesmo tempo manda analisar, com disfarce e melindre, as feições de uma tal Elisa moça que vive com essa senhora a fim de verificar se esta moça tem "as feições dele, José Bonifácio, ou as de sua família"... Que mistério é esse? Que significa isto? Será que o Patriarca tinha uma filha bastarda? Impossível dizer.

O próprio Vasconcelos Drummond não conseguiu, por carta, uma elucidação do mistério. O Patriarca só pôde responder-lhe:

"O negocio, meu amigo, é delicado; e o romance muitissimo complicado".

No entanto, a fim de bem estudar as feições de Elisa, insistia com o amigo:

"Traga-me o retrato de Elisa. Quero vel-o! £ um retrato que madame Delaunay prometteu enviar-me".

Eis que, nesse ínterim, chegam a Talance certas cartas, de que o Patriarca logo manda notícia a Vasconcelos Drummond:

"Recebi uma carta da Delaunay. Recebi, tambem, outra de Elisa. A de Elisa é muito bem escripta e com muita ternura e sizo. Diga-lhes que espero, apenas, pela chegada de V.  Mercê para responder-lhes melhor".

As mulheres, porém, não esperaram a resposta. Meteram-se no comboio e tocaram para Talance. Aboletaram-se nos arredores da terreola. Deixaram-se ficar longo tempo ao lado do Patriarca. E ele escrevia a Drummond:

"Diga-me aqui: como vae de amores? E a proposito: cá veio ter madame Delaunay e aqui está ha perto de um mez. Porém eu tenho guardado silencio absoluto sobre o romance de Elisa"...

 

Eis tudo. Ninguém mais penetrou nas intimidades dessa aventura.

Vasconcelos Drummond não recebeu, por escrito, uma única linha esclarecedora. Talvez o amigo só viesse a saber dos detalhes dessa novela em Talance. E isto naquele dia em que o velho Andrada, muito bem humorado, mandou-lhe um convite para comerem juntos, em amorável tête-a-tête, o tutu de feijão dos nossos avós. O convite dizia graciosamente:

"Nhonhô Antonio:

Eu fico hoje sosinho. Si mecê, meu sinhozinho de França, prefere comer pirão e feijão com toicinho, aos quitutes do grandissimo senhor dom Luiz de las Panreas, cá o espero; sinão Deus ajude a Mecê.

Seu moleque, ANDRADA".

Nesse jantar, tão brasileiro, comido no exílio, num cantinho ignorado da França, de certo José Bonifácio narrou ao amigo o romance complicado da Delaunay. O Conselheiro Drummond, diante de tutu de feijão, de certo ter-se-ia inteirado das razões por que o Patriarca tanto ansiava saber se Elisa tinha parecença com ele ou parecença com gente de sua família. Mas Vasconcelos Drummond, se ouviu a confidência, foi a única pessoa que soube do romance. A posteridade não conseguiu desvendar o mistério. Ficou, apenas, conhecendo essa obscura página romântica da vida do Patriarca.

E quem diria que o Patriarca, na sua vida, tivesse tido páginas românticas?


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