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4/02/2018

História do Brasil: Tiradentes (Ensaio), de Rocha Pombo


O Tiradentes



Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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1 - É o Conde de Resende, o mais acabado tipo do tiranete colonial, que vem dirigir toda a ação da alta justiça contra os inconfidentes. Assumira ele o governo no dia 9 de junho de 1790.

Já estavam prontos os autos das devassas. Concluídas, porém, as diligências para a formação da culpa, teve-se de esperar ainda muitos meses pelo juiz e adjuntos da alçada. Só pelos fins de 1790 é que chegaram do reino esses juízes. Integrou-se, então, o tribunal, fazendo o Vice-Rei outras nomeações que se tornaram necessárias.

Levam-se ainda mais de seis meses em novos interrogatórios e acareações. Até que enfim, no dia 21 de outubro (1791), foram vinte e nove réus notificados da acusação, assinando-se-lhes, a cada um, o prazo de "cinco dias para dizerem de fato e de direito".

Nomeou-se para os defender, o advogado da Santa Casa de Misericórdia, Dr. José de Oliveira Fagundes, que seria também curador dos três réus falecidos na prisão.

A defesa é um documento muito curioso daqueles tempos. Resumia-se em confessar tudo o que se apurava das devassas, isto é, que alguns dos réus tinham com efeito "conversado sem horror" sobre a conjuração; mas que não havia um sequer que se tivesse feito criminoso tentando por em prática o planeado levante.

Mas bem se vê que tudo era inútil. A justiça real já estava perfeitamente orientada, e sabia o que tinha de fazer.

Na noite de 16 para 17 de abril (1792) foram onze dos pronunciados transferidos para a cadeia pública. Os juízes, reunidos, gastaram todo o dia 18 e grande parte da noite em lavrar o acórdão.

No dia 19 (uma quinta-feira), pela manhã, entrava na prisão o escrivão da alçada; e no meio de grande silêncio e de todo o aparato que se deu à cena, fez grave, pausadamente a leitura da sentença.

Como "primeiro cabeça" da projetada revolução, foi o réu Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, condenado à forca, "devendo a sua cabeça ser levada à Vila Rica, e exibida num poste alto no lugar mais público da vila; o corpo seria dividido em quatro pedaços, que seriam expostos nos sítios onde tinha tido o réu suas "práticas infames", no caminho das Minas; a casa onde ele morara em Vila Rica seria arrasada, e salgado o lugar onde estivera, para que nunca mais ali se edificasse; e no mesmo chão se levantará um pilar, que recorde as culpas e o castigo do abominável réu. Os bens do réu seriam confiscados, e seus filhos e netos declarados infames".

2 - Os réus Francisco de Paula Freire de Andrada, José Alvares Maciel, Inácio José de Alvarenga Peixoto, Domingos de Abreu Vieira, Francisco Antônio de Oliveira Lopes e Luís Vaz de Toledo Pisa foram condenados às mesmas penas, só não se lhes esquartejando os corpos. — Mais quatro réus (Salvador Carvalho do Amaral Gurgel, José de Resende Costa, pai, José de Resende Costa, filho, e Domingos Vidal de Barbosa) seriam também enforcados, não se lhes mutilando, porém, os corpos, nem arrasando as casas, mas confiscando-se-lhes os bens, e declarados infames os filhos e netos. Pena igual à destes teve Cláudio Manuel da Costa, que se suicidará na prisão. Tomás Antônio Gonzaga (com mais quatro) foi condenado a degredo perpétuo, e a confiscação dos bens.

Outros réus tiveram a pena de degredo temporário. Dois réus houve que tiveram de sofrer, além da de galés, a pena de açoites: não, no entanto, pelo crime de conspiração, mas pelo de falso testemunho.

Alguns dos pronunciados foram absolvidos.

Havia cinco padres implicados na conjuração: o cônego Luís Vieira da Silva, o vigário Carlos Correia de Toledo e Melo. o padre Manuel Rodrigues da Costa, o padre José da Silva de Oliveira Rolim, e o padre Lopes de Oliveira.

Estes não figuram na sentença; pois, de acordo com as instruções da corte, deviam ser processados à parte. Não se sabe que pena tiveram, nem mesmo se chegaram a ser julgados aqui. Foram remetidos para Lisboa: e lá ficaram quatro anos na fortaleza de São Julião da Barra, tendo, ao cabo de algum tempo de prisão, falecido o último deles. Os sobreviventes passaram depois para diversos conventos. Mais tarde foram sendo postos em liberdade. Três deles voltaram ainda ao Brasil. O padre Manuel Rodrigues da Costa, que a todos sobreviveu, "foi um dos mais ardentes promotores da nossa independência em Minas. Por aquela província foi eleito para a Constituinte, e depois para a legislatura de 1826". Veio a falecer nonagenário.

3 - Mas voltemos às solenidades da alçada. Vem agora a farsa do tribunal sinistro, com os seus escarmentos sacrílegos. Cerrando a torva catadura, fará tremer a pobre alma da terra, vencida e apavorada.

Tinham desde muito, aqueles juízes, a carta de clemência com que a majestade desagravada se antecipava a conter a impiedade dos algozes. Mas o espetáculo de onze execuções, com todas as pompas daquela infanda justiça, devia ser um bom sinal e aviso naquele crepúsculo, em que se agitavam consciências à espera da manhã.

Para isso prepara-se tudo. A lúgubre encenação vai ser de efeito maravilhoso.

A sentença havia já caído sobre aquelas almas, lançadas fora do mundo. Já se haviam tomado todas as providências para a cerimônia da execução daquelas onze criaturas humanas, "que não vivem mais porque estão entre a vida e a morte".

Na rua, pela frente da cadeia, passam a todo instante, furtivamente, algumas pessoas do povo, impulsionadas, talvez, menos de curiosidade que desse instinto de misericórdia que nunca morre no coração dos humildes. Essas pessoas veem de soslaio, e ouvem, passando, o que vai de horrível "naquela câmara ardente".

Já no Largo da Lampadosa se erguia "uma forca nova, de grossos madeiros, e de altura desmarcada, como convinha para indicar a gravidade do crime".

De tudo isso "resultava um terror universal"...

Pela manhã de 20 de abril, depois de terem ouvido missa os condenados, "abriram-se com estrondo as portas da prisão, e apareceu o escrivão da alçada com a ratificação da sentença".

Novos embargos, logo depois, são também recusados.

Era admirável a coragem com que aqueles juízes se apraziam de ver os desventurados contorcendo-se nas amarguras daquele tormento dantesco!

Esperava-se ainda pelo último recurso — o da Irmandade da Misericórdia — quando, pela meia hora da tarde, se encaminha de novo, apressadamente, para o oratório "aquele mesmo ministro (o escrivão do tribunal) que tantas vezes tinha levado para ali resoluções de morte. A aceleração de seus passos causou grande alvoroço. O seu rosto vinha como transfigurado; e ninguém poderia fitar os olhos nele sem sentir a terrível majestade da justiça real. Abriu os autos e leu: "Sem embargo dos embargos, que não recebem por sua matéria, vistos os autos, cumpra-se o acórdão embargado".

Nada mais havia a esperar. Aquelas palavras "caíram sobre os condenados como garras de abutres. Um mortal suor os banhou, e tragaram a última gota de fel...".

4 - Fez então, o ministro, uma pausa, como se saboreasse a expectação daqueles mortos... E depois, leu uma carta régia. Era essa carta, da rainha, datada de 15 de outubro de 1790: já estava, portanto, no Rio, havia dezoito meses. Tudo o que se fazia, pois, destinava-se a amargurar os míseros condenados, e a produzir escarmento entre o povo.

À vista dessa carta régia, lavrou-se novo acórdão, que o escrivão leu em seguida: "Em observância da Carta da dita senhora, novamente junta, mandaram que se execute inteiramente a pena da sentença no infame réu Joaquim José da Silva Xavier, por ser o único que na forma da dita carta se faz indigno da real piedade da dita senhora. Quanto aos mais réus a quem deve aproveitar a clemência real, hão por comutada a pena de morte na de degredo perpétuo".

Ouvidas estas palavras, um vasto alarido se fez, dentro e nas vizinhanças da cadeia.

É indescritível o que se passa então. A cidade inteira sentiu-se como de súbito aliviada do pesadelo que a oprimia. Prorrompeu toda a população desafogada em gritos como de loucura. Partiram próprios para Minas, a espalhar a boa nova, lá na terra dolorosa... As famílias mais devotas, em lágrimas, abriram os oratórios, cantando terços em ação de graças.

Mas é entre os condenados — aqueles espectros da morte que ressuscitam agora! — que se passam os lances mais tocantes. Abalados da mesma comoção, uns choravam, outros riam convulsamente. Enquanto se lhes tiravam as correntes e os grilhões, abençoavam eles os oficiais, abraçando-os em seguida, beijando-lhes as mãos... como famintos de viver.

No meio de todas as alegrias daquela ressurreição, só o Tiradentes continuou "ligado de mãos e pés", testemunhando, lá da sua penumbra, o milagre daquela mudança. Era o único, por desvalido e humilde, que os juízes não julgaram digno da piedade da soberana.

Ia ser o bode expiatório de toda a maldade daquela geração.

5 - Vem agora o epílogo da tragédia, com aquela cena de monstruosa selvajaria, que é preciso deixar sempre muito viva na consciência da posteridade, para que sirva de estímulo a todos os que detestam a tirania e confiam na justiça. Assistindo em espírito àquele espetáculo, teremos, muito clara, pelo menos a medida da distância, de pouco mais de um século, que já nos separa daquele regime sacrílego e brutal.

É preciso recordar que o homem que vai para o patíbulo, até a última hora se mostrou tão corajoso como contrito; e respondeu ao diretor que o confortava: "que ia morrer, agora, cheio de prazer, pois não arrastava consigo tantos infelizes...".

— Amanheceu aquele 21 de abril de 1792, um belo sábado de sol glorioso.

Tinha ordenado o Vice-Rei que tudo se fizesse para tornar aparatosa a execução do Tiradentes. Chegou-se a atrair para a lúgubre cerimônia o concurso da população, ameaçando-a de que incorreria no desagrado da rainha quem se abstivesse de assistir àquele espetáculo edificante.

Convocou-se toda a tropa disponível, sem esquecer a própria guarda pessoal do Vice-Rei. Estenderam-se os vários regimentos em alas pelas ruas por onde tinha de desfilar o préstito sinistro.

Trajava toda a soldadesca o uniforme de gala, ornado de festões de flores. Os cavalos montados pelos ajudantes, oficiais, ouvidores e mais autoridades, tinham as ferraduras rematadas de laços cor-de-rosa. No meio de toda esta pompa, andavam os "irmãos da bolsa, com suas capas e salvas de prata, a esmolar dentre o povo para o sufrágio da alma do irmão padecente...".

A cidade parecia em festa desusada. Pelas janelas era imenso e alvoroçado o mulherio, e tinha um aspecto de alegria e arruído das crianças e o bulício das ruas engalanadas.

6 - Num certo momento, aquela cena toda se agita mais estranhamente. Soam clarins, rufam caixas de guerra. Ouve-se o estridente rodar da artilharia, o tropel dos cavalos, o tinir das armas, "sem que a serenidade de alma da vítima se ressentisse desses rumores, sem que o mais ligeiro sinal de susto lhe alterasse a fisionomia". Estava perfeitamente confortado das suas orações. Dir-se-ia que o cárcere, que por tanto tempo o isolara do mundo, lhe tinha mudado aquela índole vivaz e irrequieta. Não fala: abisma-se na sua meditação. O que só deseja, diante dos algozes, é mostrar, na hora do sacrifício, que sabe dar testemunho da grande causa que lhe custara a vida. Valeram-lhe a fé e a resignação "essa coragem que a tantos heróis tem faltado na hora suprema".

Pelas sete e meia da manhã, entrava na prisão o algoz. Ia vestir-lhe a alva de sacrificando, e "atar-lhe o baraço ao colo". Pedindo-lhe, como de costume, o perdão da morte, placidamente voltou-se ele para o carrasco, dizendo-lhe: — "Oh meu amigo! deixe-me beijar-lhe as mãos, e também os pés". E fez isso com tanta humildade e contrição, que o carrasco, tão afeito a semelhantes lances, "chegou a comover-se, e deixou escapar uma lágrima".

Ao despir-se para vestir a alva, tirou também a camisa, dizendo que por ele "morrera também Jesus assim".

Batiam oito horas nas torres da cidade, quando se deu o sinal do saimento.

Tomou a vanguarda um regimento de cavalaria com a sua fanfarra. Seguiam-se o clero; a Irmandade da Misericórdia, levando erguido o seu estandarte; e os Religiosos de São Francisco, que rodeavam o padecente, repetindo os salmos próprios de tais cerimônias. "Após o padecente, caminhava o executor, ladeado de seus ajudantes, e segurando as pontas da corda que cingia o pescoço da vítima, e que o prendia entre a vida e a morte".

Rodava atrás de todo o acompanhamento, arrastada por doze galés, a carreta que devia voltar cora o cadáver do supliciado, reduzido a postas.

— Algemado, tendo entre as mãos a imagem de Cristo, marchava o padecente. Tinha as faces abrasadas, caminhava apressado e intrépido, e monologava com o Crucifixo, que trazia à altura dos olhos, e que só deixou de fitar com estremecimento por duas vezes em que levantou extático a fronte para o céu.

Nunca se vira "tanta constância e tamanha consolação em transe tão angustioso! Não foi menor em toda a assistência a admiração e o pasmo".


7 - Soavam onze horas quando chegou o padecente ao campo, entrando, com as pessoas da justiça, no recinto formado por três regimentos. Subiu ligeiro, e a passos firmes, os vinte e quatro degraus do patíbulo. Deu então, ao algoz, lugar para o fatal preparo, pedindo-lhe apenas, por três vezes, que abreviasse aquele transe.

E como se até esta última graça lhe quisessem recusar, subiu neste momento alguns degraus do cadafalso o guardião do convento de Santo Antônio (um fr. José do Desterro) e dali, dirigindo-se aos espectadores, improvisou, muito inflamado, uma prática, prolongando assim as angústias do padecente. Depois, rezava o símbolo dos apóstolos, à medida que ia descendo; até que se sumiu a sua voz... e a um frêmito da turba, que os tambores abafaram, destacou-se no espaço, suspenso de uma das traves, o corpo em convulsões.... até que o carrasco fez o seu ofício.

O povo, em silêncio de consternação, começou a dispersar; desfez-se o triângulo, metendo-se em coluna os regimentos, ao som das caixas. Mandou, então, o comandante fazer alto, e ler uma fala às tropas, sobre a fidelidade devida aos soberanos, e engrandecendo a clemência da rainha...

Como está invariavelmente na índole de todos os despotismos, a torpíssima cena do espostejamento do cadáver tem de acabar com sinais de regozijo público, para que se sinta bem que tudo aquilo se liga ao esplendor da régia majestade; e longe de ser um excesso repugnante de crueza, é uma forma da grande justiça que desce dos tronos.

No mesmo dia, logo após a execução, reuniu-se o Senado da Câmara, e deliberou convidar, por editais afixados pela cidade, todos os habitantes a "deitarem luminárias por três dias", esperando que "não fosse necessário punir os que o contrário praticassem"...

E as festas foram celebradas com toda pompa, e tanto aqui como em várias localidades de Minas.

— E, no entanto, não havia meio de disfarçar que essas demonstrações nada significavam mais que simples manobras do torvo espírito do regime. Tudo aquilo é comum a todas as sociedades políticas em fases de transição, quando um poder ou uma instituição que morre, ou que pressente a morte, se encontra com os primeiros sinais dos novos tempos. O choque é sempre temeroso; pois, antes de tudo, desperta, nos que representam e guardam a instituição combalida, as maiores anomalias morais, as enormidades mais absurdas e estranhas, que pareciam já relegadas para o fundo das eras, mas que ressurgem da noite como em grande alarma, a ver perigos em toda parte, e pretendendo loucamente retardar a inevitável eclosão do dia nascente.

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Imagens:
Acervo da Biblioteca Nacional Digital do Brasil
http://memoria.bn.br

História do Brasil: Conjuração de Vila Rica (Ensaio), de Rocha Pombo



Conjuração de Vila Rica



Extraído do livro "História do Brasil", publicado no início do século XX. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2018)

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1 - Àquele primeiro grupo de conjurados foram juntando-se grande número de pessoas das mais consideradas, tanto em Vila Rica, como nos outros vários municípios da capitania. Toda a gente que tinha alguma importância pela fortuna ou pela cultura, interessou-se mais ou menos solicitamente naquela aspiração, que era afagada por todo mundo, embora nem todos tivessem o mesmo desassombro. Um só sentimento estava em todos os corações; mas o rigor das leis, o medo do castigo só não reprimia esse sentimento nos mais indômitos e altivos.


Entre estes, a figura mais estranha é o alferes de cavalaria de linha Joaquim José da Silva Xavier, por alcunha o Tiradentes. Era este homem, nascido na terra de Minas, um tipo singular de criatura que se encontra com o mundo numa grande ânsia de ter o seu papel. A condição modesta em que se sentiu ali, no meio da riqueza, serviu-lhe de estímulo forte nos primeiros passos da vida. Experimentou várias profissões; de todas desenganou-se. Dir-se-ia que de todas as vicissitudes lograra apenas um proveito: sentira quanto o mundo era doloroso. Revolta-se então contra o seu meio, e contra o seu tempo.

Há naturezas assim, que parecem vir antes da sua hora e, por isso mesmo, sem saber como é que vêm...

E desde que se desgarra do seu caminho, o que tinha de suceder era fatal: pondo-se em contraste consigo mesmo, as complicações em que entra, só amparado da sua índole, deviam levá-lo ao sacrifício.

Já passava pelas regiões mineiras um vago sussurro precursor da tormenta que vinha, quando resolve o Tiradentes vir ao Rio, a pretexto de negócios. Já havia visitado a capital da colônia, e conservava dela, ainda, a mais viva impressão.

Mas o que ele procura agora, saindo para um centro mais vasto, não é a sua fortuna pessoal. Nunca teve, aliás, a dirigi-lo na vida, nenhuma preferência pelo seu próprio interesse. Tinha mesmo fama de abnegação, e desapego de bens materiais, ao ponto de ser tachado, se não de descuidoso, pelo menos de indiferente a confortos, nunca revelando impaciências por adquirir.

O que ele deseja agora é ter uma parte mais ativa, e entrar com um concurso mais eficaz na obra que se vai fazer na terra das Minas.



2 - É este o pensamento que o absorve quando se põe a caminho para o Rio, um pouco antes talvez de 1788, depois de haver obtido a necessária licença.

Vinha radiante de esperanças; e assim que chegou aqui apresentou-se ao Vice-Rei; e sem dar muito pela indiferença com que o recebera Luís de Vasconcelos, passados alguns dias, foi levar-lhe uns planos de melhoramentos que projetara fazer na cidade.

Parece que o Vice-Rei não deu muita importância ao que lhe requeria aquele simples alferes, que não dispunha de recursos nem de valimento para obras de certa monta; e que parecia mais um maníaco, meio estouvado e aventuroso, do que um legítimo especulador ou homem de negócios. Em todo caso, entendeu que não havia motivos para deixar de remeter os papéis do requerente para a corte.

Em Lisboa tomou-se mais a sério o que se propunha o peticionário executar; tanto assim que o Conselho Ultramarino devolveu os papéis, a fim de que sobre a matéria deles informasse o Vice-Rei.

Enquanto simulava preocupar-se com estas coisas, ia o Tiradentes, com muita prudência, sondando os ânimos, tanto nos quartéis, como entre o público em geral.

Estava ainda no Rio, quando passou para Minas o Visconde de Barbacena. Uns três meses depois chegava também da Europa o Dr. José Alvares Maciel, com quem se encontrou logo o conjurado. É fácil imaginar o que se passou entre aqueles dois corações incendidos da mesma fé, um falando das misérias da terra; outro, das grandezas que vira no estrangeiro.

Segue o Dr. Maciel para Minas, e vai lá encontrar as provas de quanto lhe dissera o Tiradentes. Os povos da capitania estavam todos como em grande alarma: as condições em que ali se vive há longos anos, parece que vão tocar agora ao seu extremo. Viera o Visconde de Barbacena encarregado especialmente de reparar os prejuízos que desde muito vem sofrendo a Real Fazenda; e trazia ordens formais de arrecadar, por meio de derramas e execuções, todas as dívidas em atraso.

O enorme ativo acumulado punha já os contribuintes, e demais devedores ao erário, em situação de absoluta insolvência. Só o quinto do ouro ascendia a perto de 540 arrobas. E isso fora dívidas de outras origens. Englobando só os compromissos do quinto, dos dízimos e das entradas, andava o alcance dos colonos, na capitania, em perto de seis mil contos.

3 - Assim que se empossou do cargo, cuidou Barbacena, com muita habilidade, de preparar o espírito geral para a escabrosa tarefa de que tinha de dar conta. Começaria por uma derrama com que se cobrisse o déficit do exercício corrente, até que da corte viessem ordens terminantes quanto aos atrasados.

E então não se imagina o que se dá em toda a capitania. O susto, o desvario, o terror em que caem aquelas populações, não se descrevem. No meio dos clamores, os alvitres mais absurdos, expedientes cada qual mais impraticável, todos os recursos do desespero se sugerem, com os quais se aumentam as aflições de todo o mundo. Aventou-se até a ideia "de fugir à desgraça por um êxodo geral, por uma retirada em massa para o fundo dos sertões, até onde não chegasse aquela voz terrível da derrama".

O núcleo de conjurados de Vila Rica, que não cessara de agir, entra agora numa fase decisiva. Só mesmo a revolução é o único apelo que resta na conjuntura em que se encontra todo o povo.

De volta do Rio, aparece por aqueles dias, na capital das Minas, o alferes Tiradentes (fins de 1788). Ao chegar, procura logo os companheiros; e nem reassumiu o seu posto no regimento, pretextando moléstia.

É agora que se organiza a conspiração, e que tomam corpo num projeto definitivo as ideias que agitavam aquelas almas.

Tratou-se primeiro de assegurar o concurso do chefe da força pública, que era o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrada, homem circunspeto e de grande influência na capitania.

A entrada desta figura na conjuração deu-lhe a garantia de uma vitória infalível, e arredou todas as dúvidas e receios. Nas casas dos vários chefes, e até mais ordinariamente na do próprio Freire de Andrada, faziam-se os conciliábulos. Aí tratava-se da revolução quase abertamente, como se ninguém mais sentisse necessidade de conservar em segredo uma causa de sucesso seguro, e que só aguarda o seu dia.

Tinha-se já certeza do socorro da França e dos Estados Unidos, desde o momento em que se levantasse o grito da independência. Quando às outras capitanias, nem era possível que por sua vez não se insurgissem com o exemplo da de Minas. E afinal, bastaria que, ao mesmo tempo que em Vila Rica, se proclamasse a separação no Rio de Janeiro e em São Paulo (como se espera), para que toda a colônia rompesse os laços que a prendem a Portugal.

4 - Ideou-se logo a nova república, dando-se-lhe como símbolo a figura de um gênio despedaçando grilhões. A bandeira seria toda branca, e nela se inscreveria como lema parte de um verso de Virgílio (da I écloga) — Libertas, quae sera tamen. A capital da república seria São João d'El Rei. Criar-se-ia logo uma Universidade em Vila Rica. Confiscar-se-iam, para o Estado, todos os valores que estivessem no erário, declarando-se extintas as dívidas dos contribuintes em atraso. Declarar-se-ia livre a entrada nos distritos mineiros e isentos de direitos os produtos das lavras. Fundar-se-iam fábricas de todos os artigos que até ali se importavam da metrópole. Reconhecer-se-ia o direito à proteção especial do Estado em favor dos pais que tivessem mais de cinco filhos. Abolir-se-ia a escravidão, dentro de certos limites ou condições. Criar-se-iam escolas para instrução do povo.

Por princípios de 1789, na chácara do Cruzeiro, residência de Freire de Andrada, concertou-se o plano do levante. Fez-se o inventário das forças de que se dispunha, e distribuiu-se a cada conjurado o seu papel. Não se marcou dia para o rompimento, ficando entendido que seria aquele em que se começasse a efetuar a derrama. O aviso seria dado a todos por meio de uma senha ("É tal dia o balizado").

No dia em que a Junta de Fazenda lançasse a derrama, deviam acudir à Vila Rica os conjurados, que por ele esperariam nas vizinhanças; e à noite entrariam em tumulto pelas ruas, aos gritos de — Viva a liberdade! Sairia então Freire de Andrada com as suas tropas sob o pretexto de abafar o motim, dissimulando as suas intenções até receber notícia de estar preso o Governador.

Estava Barbacena quase sempre no palácio da Cachoeira do Campo, distante umas três léguas da vila. Iriam ali prendê-lo os que estavam dessa diligência encarregados. A menos que tentasse resistir com risco para a escolta, seria ele conduzido até a fronteira das Minas, dizendo-se-lhe que se retirasse para Portugal, porque o povo mineiro já sabia governar-se. Se quisesse reagir, pagaria então, com a cabeça, semelhante veleidade.

Qualquer que fosse a notícia que se recebesse da Cachoeira, proclamar-se-ia a república em Vila Rica, decretando-se logo a pena de morte contra aqueles que à nova ordem de coisas não aderissem prontamente.

5 - Estava, pois, tudo previsto e ordenado no sentido de garantir o sucesso da conspiração. Tão segura confiança tinham no triunfo os conjurados, que não faziam mistério de coisa alguma.

Além de muito certos do golpe preparado, sabiam já que o Governador não era homem capaz de aguentar-se num grande momento. A sua têmpera de déspota, estúrdia como a de todos os áulicos, é a mais avessa possível ao sacrifício. Nem eram as da administração e do bem público as funções que estavam em correspondência com o seu caráter, e muito menos com os intuitos que o haviam trazido à América. Bem sabia ele o que é que se costumava buscar no Brasil; e não seria o exercício normal e tranquilo daquele cargo que havia de recomendá-lo perante a corte.

É assim que logo de começo parece a todo mundo um homem fechado e misterioso, esquivo e quase sinistro, metendo-se no seu retiro fora da vila.

Se se não esquece que devia ter vindo bem informado quanto a certos fatos ocorridos ali na terra das Minas, e muito prevenido contra a fama de turbulentos, atribuída lá no reino aos mineiros, é lícito suspeitar que Barbacena muito de propósito ficou ali, retruso, de atalaia, à espera do seu dia... Para confirmar esta suspeita, é só ver como se ufanou da sua "glória de haver descoberto a tempo e atalhado a grande maldade" como dizia ele próprio para a corte.

Aos olhos dos conjurados, porém, aquela circunstância de afastar-se da capital é antes um indício de negligência ou desapercebimento que lhes é favorável.

Chega-se, pois, ao momento em que só se espera pelo dia da derrama. Sem isso não se faria unânime a insurreição. Houve até quem procurasse apressar o lançamento; pois dessa medida agora depende tudo.

É por este tempo, seguro de que a revolução está iminente, que, de acordo com os outros chefes, resolve o Tiradentes vir outra vez ao Rio, na ânsia de levantar, simultaneamente com as de Minas, as populações da grande metrópole colonial.

Saiu de Vila Rica apenas acompanhado de um mulato, seu escravo, e certo de que vinha ser um núncio da grande nova que todos anseiam.

Mais ou menos por aqueles mesmos dias, no entanto, entrava Barbacena no "segredo" da conspiração. Dissimulado e ardiloso, cuidou antes de tudo de eliminar a medida que se considerava como o principal motivo do levante planeado: suspendeu a derrama, dando para esse ato razões muito naturais, de modo a não espantar os conjurados, e poder assim segurá-los todos.

Sem sair da Cachoeira, pôs em ação os próprios delatores: enquanto, sem açodamentos, ia cortando aos conjurados todas as veredas.

6 - A suspensão da derrama logo impressionou a muitos, que viram assim burlado todo o plano. Dentro de alguns dias, tinha-se plena certeza de que o Governador já estava agindo. E então é que se viu como naquelas mesmas almas, que há pouco se incendiam pelo nobre ideal, vai acordar a miséria dos instintos.

E, entrando francamente no seu papel, ufano daquele amplo horizonte que lhe abre o seu destino, sai agora Barbacena do seu mistério. Manda chamar à sua presença o primeiro delator; e Joaquim Silvério dos Reis, num grande terror de consciência, escreve e assina a denúncia formal.

Em seguida, entendeu o Governador que era tempo de dar conta de tudo ao Vice-Rei; e como soube da partida do Tiradentes para o Rio, fez imediatamente seguir para aqui também o próprio Joaquim Silvério, com ofícios para Luís de Vasconcelos.

Por todo o caminho do Rio, vinha agora, o Tiradentes, como um arauto do novo dia que vai suceder à longa noite colonial. Em toda parte, pelas fazendas, pelas casas de negócio, pelas estalagens, pelas estradas, ergue a voz desassombrado, proclamando a boa nova, como um visionário em delírio. A sua palavra inflamada espanta a toda gente. Os que o ouvem, ou ficam tomados de terror, ou vencidos da mesma insânia.

Como fizesse muitas digressões pelo caminho, foi a viagem muito retardada. Pôde, por isso, alcançá-lo Joaquim Silvério, conquanto muito depois dele tivesse partido de Vila Rica. Adiantou-se-lhe, no entanto, o Tiradentes na rota depois do encontro, e chegou ao Rio alguns dias antes dele.

Na capital da colônia não teve o revolucionário mais prudência e cautela que durante a viagem. Esqueceu-se de que no Rio as condições do ânimo geral eram muito diferentes do que em Minas. Aqui, mais do que lá, está-se mais perto da pessoa do soberano; e é, portanto, mais forte o supersticioso terror da autoridade. Aqueles mesmos com quem contava procuram evitá-lo.

Joaquim Silvério, que chegara depois do Tiradentes, apresentou-se logo ao Vice-Rei. Não quis Luís de Vasconcelos convencer-se da gravidade daqueles fatos que julgava exagerados. Por não parecer, no entanto, em caso de tal natureza, menos escrupuloso e solícito que o seu colega de Minas, deu a Silvério as instruções que devia este seguir para trazer sempre à vista o pobre alferes.

7 - Desesperava o Tiradentes vendo correr o tempo sem nenhum sinal do levante que deixara em vésperas de romper em Minas. Começou logo a ter suspeitas de que andava sendo seguido e vigiado. Deliberou então, ocultar-se até que viesse algum aviso. Deixou, pois, a casa onde se hospedara, e escondeu-se em outra que se lhe abriu na rua dos Latoeiros (hoje Gonçalves Dias). Tinha já tudo preparado para sair da cidade no caso em que o rompimento em Minas não se desse por aqueles quatro ou cinco dias.

Ao saber que o alferes havia subitamente desaparecido, alarmou-se o Vice-Rei. Expediu imediatamente aviso para Minas, e espalhou patrulhas pela cidade e por todos os bairros vizinhos.

Não custou descobrir o esconderijo do Tiradentes: ofereceu este próprio ao Vice-Rei o fio de Ariadne; e é afinal o mesmo Joaquim Silvério (como se andasse disputando tenazmente o seu triste lugar na história) quem entrega a vítima ao algoz.

Com grande aparato de força, efetua-se a prisão do conspirador, que é metido num dos calabouços preparados na ilha das Cobras.

Enquanto isto se passava no Rio, lá na terra das Minas ia Barbacena fazendo prender os chefes da abortada conspiração, sendo o primeiro que lhe caiu nas mãos o desembargador Tomás Antônio Gonzaga. Em seguida: Domingos de Abreu Vieira; o Dr. Inácio J. de Alvarenga Peixoto; o padre Carlos Correia de Toledo e Melo; o irmão deste, Luís Vaz de Toledo Pisa; o cônego Luís Vieira da Silva; o Dr. Cláudio Manuel da Costa; Francisco Antônio de Oliveira Lopes, e muitos outros, à medida que vai a devassa desvendando nomes.

No seu grande afã de descobrir "monstros de perfídia", emulam Barbacena e Vasconcelos, ao ponto de se porem logo em conflito de jurisdição, cada qual mais suscetível, e mais cioso do seu papel.

Entramos agora na fase dolorosa da Inconfidência. Desde o momento em que a desgraça se ergueu, como um fantasma, diante daquelas criaturas, abateu-se-lhes aquela mesma alma que andara rugindo e protestando; e em vez de sentir o velho inimigo contra o qual se haviam aliado, hostilizam-se agora e acusam-se mutuamente, julgando cada qual que tem a salvação na perda dos outros todos.


A insânia sagrada daquela causa esquecida refugiou-se apenas no coração de um homem — o Tiradentes! — a carregar, agora, com o repúdio de toda uma geração!