sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Amigo fiel (Conto), de Oscar Wilde


Amigo fiel, de Oscar Wilde

Tradução publicada no jornal "A Noite", em sua edição de 25 de fevereiro de 1941. A pesquisa, a transcrição e a adaptação ortográfica é de Iba Mendes.

Era uma vez um jovem trabalhador e honesto... Chamava-se Hans. Vivia em uma pobre e pequena casa de campo e todos os dias trabalhava em seu jardim.
Em todo o povoado não havia jardim tão bonito quanto o seu. Encontravam-se aí as mais variadas espécies de flores que cresciam ao lado das mais lindas rosas.
O pequeno Hans tinha muitos amigos, mas o seu maior amigo, o "amigo fiel" era Hugo, o rico moleiro. Realmente, o rico moleiro era tão amigo de Hans que não visitava nunca o seu jardim sem inclinar-se sobre os craveiros para admirá-los de perto, ou sem colher um bom punhado de flores que levava para casa.
— Os amigos verdadeiros repartem tudo entre si — costumava dizer o rico moleiro.
E o pequeno Hans colhia aquelas palavras com um sorriso nos lábios, sentindo-se orgulhoso e feliz por ter um amigo que pensava tão nobremente.
Às vezes, porém, os vizinhos achavam estranho que o rico moleiro nunca concedesse coisa alguma ao pequeno Hans. Conquanto possuísse cem sacos de farinha armazenados em seu estabelecimento comercial, seis vacas leiteiras e uma boa criação de galinha, jamais compensava o pequeno Hans pelas flores que colhia de seu lindo jardim. O jovem, no entanto, jamais se preocupava com isso.
Nada o encantava tanto como ouvir as belas coisas que o moleiro costumava dizer sobre a solidariedade dos verdadeiros amigos.
Assim, pois, o pequeno Hans cultivava o seu jardim. Na primavera, no verão e no outono, sentia-se muito feliz; mas quando chegava o inverno e ele não tinha flores para levar ao mercado, chegava a sofrer frio e fome, deitando-se, à noite, muitas vezes, sem nada ter comido durante o dia.
Além disso, no inverno, sentia-se muito só, porque o rico moleiro jamais o visitava durante essa estação.
— Não convém visitar o pequeno Hans enquanto dure o inverno — dizia, às vezes, o rico Moleiro a sua mulher. — Quando uma pessoa está em apuros, não devemos atormentá-la com visitas. Essa é a minha opinião, e estou certo de que tenho razão. Por isso, esperarei a primavera e, então, tornarei a visitar o meu amigo. Poderá dar-me um cesto de flores e o alegrará muito.
— És realmente muito bom, querido — afirmava sua mulher, sentada em um cômodo divã perto de um bom fogo de lenha. — Gosto imensamente de te ouvir falar sobre a amizade. Estou certa de que o padre da comarca não diria sobre ela tão belas coisas como tu.
— E não poderia convidar o pequeno Hans a vir à nossa casa? — perguntava o filho do moleiro. -- Se o pobre homem está em dificuldade, dar-lhe-ei metade do que é meu, e, assim, já não sofrerá fome:
— Como és tolo! — exclamou o moleiro. — Na verdade, não sei para que serve mandar-te para a escola. Parece que não aprendes nada. Se o pequeno Hans viesse cá, e visse o nosso bom fogo, e comesse da nossa excelente comida, e tomasse do nosso ótimo vinho tinto, poderia sentir inveja. E a inveja é uma coisa terrível que prejudica os melhores caracteres. Realmente, eu não poderia consentir em que o caráter de meu grande amigo se prejudicasse. Estarei sempre atento para que o pequeno Hans não se desvie do bom caminho. Além disso, se ele viesse cá, poderia pedir-me um pouco de farinha, e eu não a poderia dar. A farinha é uma coisa e a amizade é outra; não devem confundir-se, portanto.
— Que inteligente és, querido! Como falas bem! — disse a mulher do moleiro, servindo-lhe um grande copo de cerveja. — Sinto-me tão bem quando falas como quando estou na igreja.
— Muitos sabem agir --- replicou o moleiro. -- Poucos, porém, sabem falar com elegância e aprumo, o que prova que falar bem é não só mais difícil do que agir, como mais bonito.
E fixou tão severo olhar no filho que este sentiu vergonha de si mesmo, baixando a cabeça e chorando baixinho.
Era tão jovem, que bem podem vocês desculpá-lo!
Logo que passou o rigor do inverno e os botões começaram a abrir-se em rosas, o moleiro disse a sua mulher que já era tempo de visitar o pequeno Hans.
— Ah, que bom coração tens! — exclamou a mulher. — Estás sempre pensando nos outros. Não te esqueças de levar o cesto grande para trazeres as flores.
O moleiro, então, desceu à colina com a cesta no braço.
— Bom dia, Hans — disse o moleiro.
— Bom dia — respondeu Hans, todo sorridente e feliz.
— Como passaste o Inverno?
— Bem, bem — contestou, prontamente, o jardineiro.  — Muito obrigado pelo seu interesse. Houve alguns momentos duros, mas, agora, chegou a primavera e sinto-me quase feliz... — Ademais, as flores estão muito bonitas.
— Em casa, falamos muito a teu respeito, Hans — disse-lhe o moleiro. — Pensávamos no que seria de ti, em pleno inverno.
— Quanta amabilidade — exclamou Hans. — Pensei que me tivessem esquecido.
— Hans! Francamente... Como podes falar desta maneira?... — disse o moleiro. — Na verdadeira amizade não há esquecimento. É isso que há de mais admirável; temo, porém, que não compreendas a poesia da amizade... Mas, voltando às flores, que belas estão!
— Sim, estão muito bonitas — replicou Hans. — Vou levá-las ao mercado, onde as venderei à filha do burgo-mestre e com esse dinheiro comprarei outra vez o meu arado.
— Queres dizer que o vendeste, então? Foi uma tolice.
— Certamente. Mas o fato é que me vi obrigado a fazê-lo. O inverno foi muito rigoroso... e eu fiquei sem dinheiro para comprar pão. Vendi, primeiramente, os botões de prata de meu trajo dos domingos; depois, me desfiz da corrente de prata que recebi do vovô e, em seguida, vendi a minha flauta. Por último, vendi o meu arado. Agora, porém, vou resgatar tudo.
— Hans — disse o moleiro — dar-te-ei o meu arado. Não está em muito bom estado. Um dos lados está precisando de reparo, mas, apesar disso, te darei. Sei que é muita generosidade de minha parte e que a muita gente isso parecerá ama loucura, mas não sou como os outros. Estou em que a generosidade é a essência da amizade e, além disso, comprei um arado novo. Portanto, podes ficar tranquilo... dar-te-ei o meu arado.
— Obrigado, você é muito generoso — disse o pequeno Hans. — Posso concertá-lo muito bem porque tenho aqui uma tábua.
— Uma tábua! — exclamou o moleiro. — Muito bem! Isso é juntamente o que necessito para o teto do meu estábulo. Há uma brecha que é preciso tapar. Muito bem, eis uma bela oportunidade de me prestares um serviço. Realmente, uma boa ação é sempre bem recompensada. Dei-te o meu arado e, agora, dás-me a tua tábua. É claro que o arado vale muito mais que a tábua, mas a amizade sincera não olha estas coisas. Dá-me, pois, a tua tábua e hoje mesmo concertarei o teto do meu estábulo.
— Não é muito grande — disse o moleiro, examinando-a; — creio que só dará para o reparo do teto do estábulo; não sobrará madeira para concertares o arado, mas, é claro que a culpa não é minha... E, agora, que te dei o meu arado, penso que me poderás dar em troca umas flores. Aqui tens o cesto; procura enchê-lo quase por completo.
— Quase por completo?! — perguntou aflito, o pequeno, vendo que o cesto era muito grande e, se o jardineiro o enchesse, não teria mais flores para levar ao mercado.
— Francamente! — exclamou o moleiro. — Uma vez que te dou o meu arado, não julguei que fosse muito pedir-te algumas flores. Talvez eu esteja equivocado, mas acreditava que a amizade, a verdadeira amizade, estava isenta de toda classe de egoísmo.
— Meu bom amigo, meu maior amigo — protestou o pequeno Hans — todas as flores do meu jardim estão à tua disposição.
E correu a colher os cravos perfumosos e encher a grande cesta do moleiro das mais lindas flores de seu jardim.
— Adeus, Hans — disse o moleiro, subindo novamente a colina com a sua tábua ao ombro e a costa cheia de flores ao braço.
— Adeus — respondeu o pequeno Hans.
E pôs-se a cavar alegremente: estava tão contente de possuir um arado!
***
Na manhã seguinte, quando novamente estava cultivando o seu jardim, ouviu a voz do moleiro que o chamava da estrada. Trazia ao ombro um grande saco de farinha.
— Hans — disse o moleiro — queres levar-me este saco de farinha ao mercado?
— Oh, é pena — disse Hans; — mas estou hoje muitíssimo ocupado. Tenho de regar ainda todo o jardim, de podar muitas roseiras, enfim, de fazer ainda quase todo o serviço.
— Francamente! — exclamou o moleiro. — Acreditava que, em consideração a te haver dado o meu arado, não te negarias a fazer-me um favor.
— Oh, sim! não me nego! — protestou o pequeno Hans; — jamais deixarei de agir como um verdadeiro amigo.
E correu a buscar o seu gorro, partindo, em seguida, com o grande saco ao ombro.
Era um dia de calor e a estrada estava muito poeirenta. Antes de alcançar o posto que marcava a sexta milha, Hans já estava tão cansado que teve de sentar-se para poder continuar depois. Chegou ao mercado, vendeu toda a farinha e voltou quase contido à casa, porque temia encontrar-se com algum salteador, se se demorasse pelo caminho.
— Que trabalho árduo! — disse consigo mesmo ao deitar-se, à noite. — Mas estou contente por não me haver negado, porque o moleiro é o meu melhor amigo e, ademais, vai dar-me o seu arado.
Na manhã seguinte, muito cedo, o moleiro chegou para receber o dinheiro do saco de farinha, mas o pequeno Hans estava tão fatigado que ainda não havia deixado a cama.
— Palavra! — exclamou o moleiro. — És muito preguiçoso. Quando me lembro de que te dei o meu arado, acho que devias trabalhar com mais ardor.
— Sinto-o muito — respondeu o pequeno Hans. — Eu estava tão fatigado que pensei que me havia deitado há pouco. Agora, porém, já me sinto bem.
— Bravos! — exclamou o moleiro, dando-lhe uma palmada no ombro. — Preciso que faças o reparo no teto do estábulo.
O pequeno Hans tinha grande necessidade de trabalhar no seu jardim, porque havia dois dias que não regava as suas flores, mas não quis negar-se a fazer a vontade do moleiro, que era o seu melhor amigo.
Vestiu-se, apressadamente, e acompanhou o rico moleiro ao estábulo.
Trabalhou o dia todo. Ao anoitecer, o moleiro veio verificar como iam as coisas.
— Terminaste o serviço? — perguntou ele, alegremente.
— Está quase pronto.
—  Não há trabalho melhor do que o que se faz por outro! — exclamou o moleiro. — E agora que reparaste o teto do estábulo, é melhor que voltes para casa, a fim de descansares, pois amanhã necessito de que leves os meus carneiros à montanha.
No dia seguinte, quando o pequeno Hans voltou da montanha, estava tão cansado que adormeceu em uma cadeira.
— Que tempo bom para as minhas flores — pensou ele, ao acordar. E ia trabalhar quando chegou o moleiro e lhe pediu que fosse trabalhar no seu cercado, que precisava ser cultivado. O pobre jardineiro lembrou-se de suas flores; precisava tanto de trabalhar no seu jardim... Mas acompanhou o moleiro, consolando-se em pensar que ele era o seu melhor amigo.
— Além disso — dizia consigo mesmo — vai dar-me o seu arado.
O pequeno Hans continuou trabalhando para o moleiro, e este dizia muitas coisas belas sobre a amizade, coisas que Hans copiava em seu livro verde e que relia à noite, pois amava a leitura.
***
Certa noite, estava o pequeno Hans sentado janto ao fogo, quando bateram à porta.
 A noite era negríssima. O vento soprava forte. Era intenso o frio.
— Será algum pobre viajante? — disse consigo Hans, e correu a abrir a porta.
Era o moleiro que estava com uma lanterna em uma mão e sustinha com a outra, as rédeas de seu belo cavalo.
— Querido Hans — gritou ele. — Estou muito aflito. Meu filho caiu da escada. Está ferido. Preciso do médico. Mas ele mora tão longe daqui e a noite está tão escura, que me lembrei de que era melhor que você fosse em meu lugar.
— Certamente — exclamou o pequeno Hans. — Alegra-me muito que se tenha lembrado de mim. Irei imediatamente. Peço-lhe apenas a lanterna, pois está tão escuro que eu temo cair em algum pântano.
— Sinto-o muitíssimo — respondeu o moleiro. — Mas é a minha lanterna nova e seria uma grande perda se você voltasse sem ela.
— Bem, não falemos mais nisso! Irei sem lanterna.
A noite era tão negra que o pequeno Hans quase nada via. No entanto, depois de caminhar durante cerca de três horas, chegou à casa do médico, batendo à porta.
— Quem bate? — gritou o doutor.
— Sou eu, doutor! Hans!
— E que desejas, Hans?
 — O filho do moleiro caiu de uma escada e machucou-se. Por isso, é necessário que o doutor vá até lá.
— Muito bem — replicou o médico.
Montou o seu cavalo e dirigiu-se à casa do moleiro, sendo seguido por Hans, que caminhava a pé.
Começou a chover, porém Hans já nada via. Finalmente, perdeu o caminho. Vagou pelo terreno baldio. A chuva aumentava mais e mais. Havia muitos lugares, pantanosos e, na escuridão, Hans caiu em um pântano, afogando-se.
Todo o mundo assistiu ao enterramento de Hans porque ele era muito querido.
— Era eu o seu melhor amigo — dizia o moleiro. — E justo, pois, que também assista a tudo. A morte do pequeno Hans é, sem dúvida, uma grande perda para todos nós — e acrescentava baixinho — sobretudo para mim. Na verdade, fui muito generoso ao oferecer-lhe o meu arado velho e agora não sei o que fazer com ele. Está em tão mal estado que de nada me serve. Também não encontrarei a quem vendê-lo. — E voltando-se para os amigos, afirmou: — E eu que lhe havia prometido o meu arado! Asseguro-vos que, para o futuro, jamais darei nada a alguém. Pagam-se sempre as consequências de se ter sido generoso...

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