sexta-feira, 23 de setembro de 2016

O Eremita (Conto), de Oscar Wilde



O Eremita, de Oscar Wilde

Tradução publicada na revista "Fon-Fon", em sua edição de 4 de abril de 1936. A pesquisa, a transcrição e a adaptação ortográfica é de Iba Mendes.

Fora, desde a infância, como que um ser dotado do perfeito conhecimento de Deus, e, sendo ainda adolescente, muitos santos, assim como certa mulher pura que habitava na cidade livre onde nascera, foram tocados de grande admiração pela grave sabedoria de suas respostas.
E quando os pais o investiram da túnica e do anel da virilidade, ele os beijou e atirou-se pelo mundo, para falar de Deus ao mundo. Pois muitos havia então no mundo que dele só tinham conhecimento incompleto, ou idolatravam falsos deuses que habitavam em florestas e não cuidavam de seus fiéis.
E ele expôs o cabeça ao sol e fez jornada caminhando descalço, como caminham os santos, e levando presa ao cinturão uma sacola de couro e uma bilha de argila cozida.
E, seguindo pela estrada, sentia-se cheio de alegria que vem do perfeito conhecimento de Deus, e, sem descanso, erguia preces a Deus; e passado algum tempo, atingiu uma estranha terra, na qual havia muitas cidades.
E passou por onze cidades. E algumas delas eram em vales, e outras nas margens de grandes rios, e outras sobre colinas. E em cada cidade encontrava um discípulo que o amava e que o seguia, e de cada cidade grande multidão de gente também o acompanhava, e o conhecimento de Deus se espalhou pela nação, e muitos dos governadores se converteram, e os sacerdotes dos templos, nos quais havia ídolos, verificaram que metade de seus benefícios se perdera, e que, quando tocavam os tambores ao meio do dia, ninguém, ou muito poucos, vinha com pavões e oblatos de carne, como era costume da terra antes do chegada do outro.
Todavia, quanto mais o povo o seguia, quanto maior se fazia o número de seus discípulos, maior se tornava a sua tristeza. E ignorava por que era tão grande a sua tristeza. Pois que ele sempre falava de Deus, e da plenitude daquele perfeito conhecimento de Deus, que o próprio Deus lhe concedera.
E, certa tarde, ele passou pela undécima cidade, que era a cidade de Armênia, e seus discípulos e uma grande multidão de gente o acompanhavam. E ele subiu a uma montanha, e seus discípulos se puseram ao seu redor, e a multidão se ajoelhou pelo vale.
E ele apoiou a cabeça nas mãos e chorou, e disse a sua alma: "Por que será que me sinto tão cheio de tristeza e de temor, e que cada discípulo meu é corno um inimigo que ande à luz do dia?"
E sua alma assim lhe respondeu: "Deus dotou-te com o perfeito conhecimento dele, e tu desperdiçaste esse conhecimento com outros. A pérola de preço tu a dividiste, a túnica inconsútil tu a fendeste. Aquele que dissipa sabedoria rouba a si mesmo. É como quem entrega o seu tesouro a um ladrão. Não será Deus mais sábio do que tu? Quem és tu para alienar o segredo que Deus te confiou. Fui opulenta, outrora, e tornaste-me pobre. Tive outrora a visão de Deus, e agora tu a escondeste de mim."
E de novo ele chorou, porque sabia ser verdade o que sua alma lhe dizia, e que tinha dado a outros o perfeito conhecimento de Deus, e que estava como alguém que se agarrasse às vestes de Deus, e que sua fé já o deixava em razão do número dos que nele acreditavam.
E disse, então, a si mesmo: "Não mais falarei de Deus. Aquele que dissipa sabedoria rouba a si próprio."
E, passadas algumas horas, os discípulos vieram a ele e prosternaram-se e disseram: "Mestre, fala-nos de Deus, pois que tens o perfeito conhecimento dele, e só tu tens esse conhecimento”.
E ele assim respondeu: "Eu vos falarei de todas as outras coisas que no céu e na terra existem, mas de Deus não vos falarei. Nem agora, nem em tempo algum vos falarei de Deus."
E todos se encolerizaram contra ele e disseram-lhe: "Trouxeste-nos ao deserto para que te ouvíssemos. Mandar-nos-ias embora com fome bem como à grande multidão que fizeste seguir-te?"
E ele assim respondeu: "Eu não vos falarei de Deus". E a multidão murmurou contra ele e disse-lhe: "Trouxeste-nos ao deserto, e não nos deste de que comer. Fala-nos de Deus e isso nos bastará."
Mas nenhuma palavra ele respondeu. Pois sabia que, se lhes falasse de Deus, alienaria seu tesouro.
E os discípulos se foram tristemente, e a multidão de gente tornou a seus lares. E muitos pereceram no caminho.
E quando ele ficou só, levantou-se e contemplou a lua, e por sete luas fez jornada, a ninguém falando e a ninguém respondendo. E quando a sétima lua se extinguiu, ele alcançou o deserto chamado de Grande Rio. E tendo achado uma caverna onde habitara outrora um Centauro, tomou-a para morar, e fez para si uma cama de caniços para se deitar; e fez-se Ermitão.  E a cada momento o Ermitão orava a Deus, que lhe tinha permitido ter algum conhecimento dele e de sua sublime grandeza.
Ora, certa tarde, achando-se o Eremita sentado diante da caverna que tinha tomado por habitação, avistou um jovem de feições em que havia maldades e beleza, o qual passava malvestido e de mãos vazias. Todas as tardes o jovem passava de mãos vazias para tornar todas as manhãs com as mãos recheadas de púrpura e de pérolas. Pois que era um Ladrão e roubava as caravanas dos mercadores.
E o Eremita olhava-o, e ele se compadecia. Mas nenhuma palavra dizia. Porque sabia que quem fala perde a fé.
E, certa manhã, como o jovem voltasse com as mãos cheias de púrpura e de pérolas, parou e o franziu a fronte e bateu com os pés na areia, e disse ao Eremita: "Por que me olhas de tal modo quando passo por aqui? Que vejo nos teus olhos? Pois nenhum homem me olhara antes de tal modo. E isso me mortifica e me perturba."
E o Eremita assim lhe respondeu: "O que vês nos meus olhos é piedade. Chame-se piedade isso com que te observam meus olhos".
E o jovem riu com desdém, e exclamou: "Eu tenho púrpura e pérolas em minhas mãos, e tu só tens uma cama de caniços para te deitares. Que piedade terás de mim? E por que razão essa piedade?”
“Tenho piedade de ti", disse o Eremita, "porque não tens o conhecimento de Deus."
"Será esse conhecimento de Deus algo precioso?" — perguntou o jovem.
E chegou-se mais perto da boca da caverna.
“Mais precioso do que toda a púrpura e todos as pérolas do mundo", — respondeu o Eremita.
“E tu o alcançaste" — indagou o ladrão.
E aproximou-se mais ainda.
“Outrora, na verdade", retrucou o Eremita, cheguei a possuir o perfeito conhecimento de Deus. Mas, na minha leviandade, desfiz-me dele, e dividi-o com os homens. Todavia, mesmo hoje, esse conhecimento, tal como ainda me resta, é mais precioso para mim que púrpura e que pérolas.
E, ouvindo isso, o jovem ladrão deitou fora a púrpura e as pérolas que trazia nas mãos, e, sacando uma espada de aço recurvado, disse ao Eremita: "Dá-me, sem demora, esse conhecimento de Deus que tu possuis, ou te matarei. Por que não hei de matar quem tiver um tesouro maior que meu tesouro?"
E o Eremita abriu os braços, e disse: "Não seria melhor para os mais altos domínios de Deus a Ele orar, que viver no mundo e não ter conhecimento dele? Mata-me, se for do teu desejo. Mas não darei a ninguém meu conhecimento de Deus!"
E o jovem ladrão ajoelhou-se e implorou-lhe, mas o Eremita não lhe quis falar de Deus, nem dar-lhe o seu Tesouro. E o jovem ladrão levantou-se e disse-lhe: "Seja como quiseres. Quanto a mim, irei à Cidade dos Sete Pecados, que só se encontra três dias daqui, e em troca da minha púrpura eles me darão prazer, e pelas minhas pérolas eles me darão alegria”.
E o Eremita chamou-o, e seguiu-o e implorou-lhe. Durante três dias ele seguiu o jovem ladrão pela estrada e rogou-lhe que voltasse, e que não entrasse no Cidade dos Sete Pecados.
E, de quando em quando, o jovem ladrão voltava-se para o Eremita, chamava-o e dizia-lhe: "Queres dar-me esse conhecimento de Deus, mais precioso que púrpura e pérolas? Se me deres, não entrarei na cidade."
E o Eremita respondia sempre: "Tudo que eu tiver te darei, menos isso, porque isso não é justo que eu dê."
E no crepúsculo do terceiro dia chegaram perto das portas vermelhas da Cidade dos Sete Pecados. E vinha da cidade o som de muitos risos.
E o jovem ladrão riu por seu turno, e procurou bater na porta. E, ao fazê-lo, o Eremita se arremessou e agarrou-o pelas abas do vestuário, e disse-lhe:
"Estende as mãos, coloca os braços em volta do meu pescoço, e o ouvido junto aos meus lábios, e eu te darei o que me resta do conhecimento de Deus." E o jovem ladrão parou.
E quando o Eremita se desfez do seu conhecimento de Deus, caiu no chão e chorou, e profunda escuridão o escondeu da cidade e do jovem ladrão, de modo que ele não mais os viu.
E como ficasse ali prostrado e chorando, apercebeu-se de que alguém lhe estava ao lado; e Aquele que lhe estava ao lado tinha os pés de bronze e os cabelos como lã. E Ele ergueu o Eremita, e disse-lhe: "Tiveste até agora o perfeito conhecimento de Deus. Agora terás o perfeito amor de Deus. Por que choras?" e beijou-o.

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