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9/24/2016

Esfinge sem segredo (Conto), de Oscar Wilde



 Esfinge sem segredo, de Oscar Wilde

Tradução publicada na "Revista da Semana", em sua edição de 22 de abril de 1945. A pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Achava-me, uma tarde, sentado no terraço do café da Paz, contemplando o luxo e as intimidades da vida parisiense.
Enquanto tomava um vermute entretinha-me a estudar, com curiosidade, aquele estranho desfile do orgulho e da miséria, quando ouvi que me chamavam por meu nome.
Voltei-me e deparei com lord Murchison.
Não nos tínhamos tornado a ver desde que estivemos juntos no colégio, e isto fazia dez anos.
Assim é que me encantou aquele encontro.
Abraçamo-nos afetuosamente.
Em Oxford tínhamos sido muito amigos.
Eu o estimava muitíssimo.
Era tão bom, tão comunicativo, tão cavalheiresco! Dizíamos frequentemente, referindo-nos a ele, que seria o melhor rapaz do mundo sem a sua mania de dizer sempre a verdade; mas, realmente, creio que o admirávamos mais ainda pela sua franqueza.
Encontrei-o um pouco mudado.
Parecia inquieto, perturbado. Adivinhei que aquele estado não provinha do moderno ceticismo, porque Murchison era um dos conservadores mais intransigíveis, e acreditava no Pentateuco com a mesma firmeza que na Câmara dos Pares.
Deduzi que andava rabo de saia em tudo aquilo, e perguntei-lhe se tinha casado já.
— Ainda não compreendo bem as mulheres — respondeu.
— Meu caro Geraldo — disse-lhe eu — as mulheres foram feitas para ser amadas, e não para ser compreendidas.
— Eu não poderia amar sem ter absoluta confiança — replicou.
— Parece-me que você tem um mistério na vida, Geraldo. Conte-me, conte-me tudo.
— Vamos dar um passeio de carro — me respondeu. — Aqui há muita gente... Não, esse carro amarelo, não; qualquer um de outra cor. Olhe, esse, que é verde-escuro, nos convém.
E alguns minutos depois descíamos a trote pelo boulevard em direção à Madalena.
— Aonde vamos? — perguntei.
— Oh! Aonde você quiser; ao  restaurante do parque. Cearemos lá e você me contará coisas da sua vida.
— Primeiro quero ouvi-lo.
Conte-me seu mistério.
Tirou do bolso um porta-cartões de tafilete com fecho de prata e o estendeu a mim.
— Abre-o.
 Dentro havia um retrato de mulher.
Era alta e esbelta, de aspecto singular, com seus grandes olhos misteriosos e sua cabeleira esvoaçante. Tinha fisionomia magnetizada e estava envolta por luxuosas peles.
— Que diz você dessa cara?  — me perguntou. — Acaso inspira confiança?
Examinei-a atentamente.
Deu-me a impressão duma criatura que tem um segredo; porém o que não podia dizer era se aquele segredo era bom ou mau.
Aquela beleza parecia feita de muitos mistérios reunidos; era realmente uma beleza psicológica, mais que plástica, e ademais o velado sorriso que flutuava sobre seus lábios era demasiado sutil para possuir verdadeiro encanto.
— Quê? — exclamou impaciente. — Que diz você?
— Que é a Gioconda de negro  — respondi. — Conte-me tudo o que a ela se refira.
— Agora não; depois da ceia.
E pusemos-nos a falar de outra coisa. Quando o garçom trouxe o café e os cigarros, lembrei a Geraldo sua promessa.
Levantou-se de sua cadeira e passeou durante alguns instantes pela sala.
Depois se acomodou numa poltrona e me contou a seguinte história:
— Uma tarde, aí pelas cinco horas, descia eu por Road-Street.
Havia uma grande aglomeração de carros e o trânsito estava completamente impedido.
Encostado à calçada estava um " brougham" amarelo, que, não sei por que atraiu mil atenção.
Ao passar por ele vi assomar, para espiar, a cara que há pouco mostrei a você.
Fascinou-me instantaneamente.
Durante toda a noite não pensei em outra coisa, o mesmo acontecendo no dia seguinte.
Subi e desci várias vezes por aquela rua, ao longo daquela maldita fila, lançando um olhar furtivo dentro de todos os carros, esperando o " brougham" amarelo, mas não consegui descobrir minha "bela desconhecida", de modo que acabei por me convencer de que só a tinha visto em sonhos.
Uns oito dias depois ceei com madame de Rastail.
A ceia estava marcada para as oito, mas eram oito e meia e ainda estávamos no salão.
Súbito, o criado abriu a porta e anunciou: Lady Alroy.
Era a mulher a quem eu procurava.
Entrou andando muito devagar. Parecia um raio de luar com seu vestido gris, e tive imensa vontade de que me rogassem levá-la à mesa.
Quando nos sentamos, disse com a maior inocência do mundo:
— Parece-me, lady Alroy, tê-la visto ao passar por Road-Street há algum tempo.
Pôs-se muito pálida e disse-me em voz baixa:
— Não fale tão alto, suplico-lhe; poderiam ouvir-nos.
Senti-me infelicíssimo por ter tido tão mau começo, e me envolvi cegamente numa dissertação sobre o teatro francês.
Ela falava muito pouco, e sempre com a mesma voz baixa e musical. Dir-se-ia que tinha medo de ser ouvida por alguém.
Sentia-me apaixonadamente, estupidamente enamorado, e a indefinível atmosfera de mistério que a envolvia excitava minha curiosidade até mais não poder.
Quando se ia embora, o que fez quase em seguida à refeição, perguntei-lhe se podia visitá-la.
Vacilou um momento, olhou em redor de si para ver se havia alguém perto de nós, e depois me disse:
— Sim; amanhã, às cinco e quinze.
Pedi a madame de Rastail que me falasse dela, porém o único que pôde dizer-me foi que aquela senhora era viúva e que possuía uma linda casa em Park Lane.
E como naquele momento um palerma da classe dos cientistas iniciou uma dissertação acerca das viúvas, para manter a tese da supervivência das mais inte-ligentes, despedi-me e regressei, a minha casa.
No dia seguinte, à hora combinada em ponto, dirigi-me a Park Lane, porém o criado me disse que lady Alroy acabava de sair havia um instante.
Muito desiludido e intrigadíssimo, fui até o clube, e depois de muitas reflexões lhe escrevi uma carta, rogando me permitisse confiar em que outra vez seria mais afortunado.
A resposta demorou vários dias a chegar, mas por fim recebi um cartãozinho anunciando-me que estaria em sua casa no domingo, às quatro, cartão no qual havia esta extraordinária advertência:
"Não me escreva mais, par favor; explicar-lhe-ei o motivo quando nos virmos."
No domingo esteve encantadora, porém, ao despedir-me, disse-me que se alguma vez tornasse a escrever-lhe, o fizesse com estas indicações: "Mr. Wittaker, editor, Green Street, para entregar à senhora Knox".
— Razões particulares — ajuntou — me impedem de receber qualquer carta em minha própria casa.
Durante toda a temporada vi-a com frequência e sem que jamais deixasse de rodeá-la aquela, atmosfera de mistério.
Algumas vezes pensei que estaria em poder de algum homem, mas   parecia   tão   dificilmente atingível, que tive de abandonar essa hipótese.
Realmente, era-me quase impossível chegar a uma conclusão qualquer, pois aquela mulher se parecia a esses estranhos cristais expostos nos museus e que são transparentes umas vezes e embaciados outras.
Por fim, decidi-me a pedir sua mão; atacavam-me os nervos e cansavam-me as incessantes precauções que me impunha para tornar misteriosas minhas visitas e as poucas cartas que lhe dirigia.
Escrevi-lhe para a livraria, perguntando se podia receber-me na segunda-feira seguinte às seis horas.
Respondeu-me que sim, e aquilo me transportou de prazer até ao sétimo céu.
Estava loucamente apaixonado por ela, apesar do mistério, segundo acreditei então; porém, em realidade, eu agora o reconheço, por aquele próprio mistério.
Não, eu não amava nela a mulher.
O que me perturbava, o que me fazia perder a cabeça, era aquele mistério.
Por que o acaso me fez encontrar a pista?
— Então você tudo descobriu? — exclamei.
— Receio-o muito. Avalie por si mesmo. .
Chegada a segunda-feira, almocei com meu tio, e por volta das quatro horas estava em Marylebore Road.
Meu tio, como você sabe, mora em Regents Park.
Pretendia ir ao Piccadilly, e tomei o caminho mais curto, passando por uma infinidade de vielas de aspecto miserável.
Súbito vi frente a mim lady Alroy, embuçada com um véu espesso e andando muito depressa.
Quando chegou à última casa da rua subiu os degraus, tirou de seu bolso uma chave e entrou.
— Cá está o mistério — disse comigo mesmo, avançando rapidamente para ver o número e o aspecto da casa.
No último degrau havia um lenço que ela deixou cair; apanhei-o, guardando-o no bolso.
Então me pus a pensar o que deveria fazer. Cheguei à conclusão de que não tinha o direito de espioná-la; tomei um carro e fui para o clube.
Às seis apresentei-me em sua casa.
Encontrei-a estendida num sofá, em traje de chá, isto e, com vestido de fio de prata amarrado com uns broches dessas estranhas pedras lunares que usava sempre.
Esteve muito afável comigo.
— Tenho imenso prazer em vê-lo — disse-me. — Não saí em todo o dia.
Olhei-a estupefato, e tirando de meu bolso o lenço, entreguei-lho.
— Caiu-lhe esta tarde em Cummor Street, lady Alroy — disse-lhe com muita naturalidade.
Dirigiu-me um olhar de terror, mas não fez o menor gesto para tomar o lenço. 
__ Que ia fazer ali? — perguntei-lhe.
— Que direito tem o senhor de me interrogar?
— O direito de um homem que a ama — repliquei. — Vim para lhe pedir que seja minha esposa.
Escondeu o rosto entre as mãos, desfeita em pranto.
— Tem que me responder — insisti.
Levantou-se, e olhando-me frente a frente respondeu:
— Lord Murchison, nada tenho a dizer-lhe.
— Foi lá para se entrevistar com algum homem — exclamei.
— Esse é seu segredo.
Empalideceu atrozmente e contestou:
— Não fui ver pessoa alguma.
— Por que não me diz a verdade? — exclamei.
— Mas se já lha disse! — replicou.          
Eu estava louco, angustiado. Não sei o que lhe disse, mas deve ter sido algo de terrível.
Por fim, precipitei-me fora de sua casa. Escreveu-me no dia seguinte, mas devolvi-lhe a carta sem abrir. Parti para a Noruega com Alan Colville.
Regressei ao cabo dum mês, e a primeira coisa que vi no "Morning Post" foi a notícia da morte de lady Alroy.
Apanhou um resfriado ao sair da ópera, falecendo cinco dias após, de congestão pulmonar.
Fechei-me em casa e não quis ver ninguém.
Amei-a tanto, amava-a ainda tão perdidamente! Oh, Deus meu, como amei essa mulher!
— E você foi a essa rua, a essa casa? — perguntei-lhe.
— Sim — respondeu. — Um dia dirigi-me a Cummor Street. Não pude deixar de fazê-lo. Estava atormentado pela dúvida. Bati, e uma mulher de bom aspecto me abriu a porta.
Perguntei-lhe se tinha algum quarto para alugar.
— Ah, cavalheiro! — respondeu. — Creio que há um quarto para alugar, porém não vi mais a senhora que o tinha alugado há três meses, e embora os recibos continuem se acumulando é-me impossível alugá-lo.
— Refere-se a esta senhora? — perguntei-lhe, mostrando a fotografia.
— Sim, é ela; estou bem certa — exclamou.  — Quando voltará?
— Esta senhora morreu — respondi. 
— Oxalá não seja verdade! — disse a mulherzinha. — Era a melhor de minhas inquilinas. Pagava-me três guinéus por semana só para vir aqui de vez em quando.
— Recebia alguém aqui? — perguntei.
A mulher assegurou-me que não, que ia sempre sozinha e que não era vista com ninguém.
— Então, que diabo vinha fazer aqui? — exclamei.
— Pois, simplesmente para ficar na sala, cavalheiro. Lia livros, e alguns dias tomava chá — respondeu-me a mulher.
Eu não sabia que dizer. Dei-lhe um "soberano" e afastei-me.
— E agora, diga-me você, que significava tudo aquilo? Você não pensará que a mulher me disse a verdade.
— Pois eu creio que sim.
— Então, que ia lady Alroy fazer naquela casa?
— Meu caro Geraldo — respondi-lhe — lady Alroy era simplesmente uma mulher atacada da mania do mistério. Alugava esse quarto pelo prazer de ir a ele de véu posto e imaginar que era uma heroína. Sentia uma louca atração pelo mistério, embora fosse, simplesmente, uma esfinge sem segredo.
— Assim opina sinceramente?
— Estou convencido disso — respondi.
Lord Murchison tirou o porta-cartões de tafilete, abriu-o e ficou observando a fotografia.
— Pois eu continuo indagando a mim mesmo — disse finalmente.

O Rouxinol e a Rosa, de Oscar Wilde


O Rouxinol e a Rosa,  de Oscar Wilde 

Tradução: Sylvia Patrícia. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)


 "O Rouxinol e a Rosa" (Conto), de Oscar Wilde

"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas" — exclamou o jovem Estudante — "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."
Do seu ninho de verde carvalho ou­viu-o o Rouxinol, e olhou-o através da folhagem e se espantou.
"Nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim", exclamou o Estudante, e seus belos olhos se encheram de lá­grimas. "Ah, como a felicidade de­pende de pequenas coisas! Li tudo quanto escreveram os sábios, e são meus todos os segredos da filosofia: no entanto, por causa de uma rosa ver­melha, desventurada é toda a minha vida."
"Eis enfim um verdadeiro apaixonado", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o cantei, embora não o conhecesse; noite após noite narrei às estre­las a sua história, e agora o vejo. Sua cabeleira é sombria qual a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos qual a rosa de seu desejo; mas a paixão tornou-lhe o rosto semelhante ao páli­do marfim e o desgosto marcou-lhe a fronte."
"O Príncipe dá um baile amanhã à noite", murmurou o jovem Estudante, e meu amor estará presente. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, ela dançará comigo até pela madrugada. Se eu lhe levar uma rosa vermelha, eu a terei nos braços e ela reclinará a cabeça sobre o meu ombro, e minha mão aper­tará a sua mão. Mas não há rosas vermelhas no meu jardim, e assim fi­carei sentado sozinho e ela passará diante de mim. Ela não me dará nenhuma atenção e o meu coração se par­tirá."
"Eis realmente um verdadeiro apai­xonado", diz o Rouxinol. "O que eu canto, ele sofre; o que para mim é ale­gria, para ele é dor. Por certo, o Amor é maravilhoso. É mais precioso que as esmeraldas e mais caro do que as finas opalas. Nem pérolas, nem rubis podem comprá-lo, não é exposto nos mercados. Os negociantes não podem adquiri-lo e também não pode ser pe­sado na balança."
"Os músicos estarão sentados em sua galeria", diz o jovem Estudante, "e tocarão sobre seus instrumentos de cordas, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Ela dançará tão levemente que seus pés não tocarão o chão, e os cortesãos de alegres roupa­gens hão de rodeá-la. Mas comigo ela não dançará, porque eu não tenho uma rosa vermelha para dar-lhe" — e ele atirou-se no gramado e ocultou o ros­to nas mãos e chorou.
— "Por que chora ele?", indagou o pequeno Lagarto verde, passando rá­pido ao seu lado, o rabinho para o ar.
— "Por que, com efeito?", disse uma Borboleta que revoava perto de um raio.
— "Sim, por quê?", murmurou a Margarida à sua vizinha, numa voz baixa e doce.
— "Ele chora por uma rosa ver­melha", disse o Rouxinol.
— "Por uma rosa vermelha?", ex­clamaram todos — "que coisa ridí­cula!"
E o pequeno Lagarto que era ligei­ramente cínico, riu alto.
Mas o Rouxinol compreendia o se­gredo da dor do Estudante, e perma­neceu silencioso no carvalho, e pensou no mistério do Amor.
De repente, estendeu suas asas es­curas a fim de voar, e rumou para os ares. Atravessou o bosque qual uma sombra, e qual uma sombra revoou so­bre o jardim.
No meio do gramado erguia-se uma bela roseira, e logo que ele a viu foi pousar sobre um galho.
— "Dá-me uma rosa vermelha!" exclamou, "e eu te cantarei a minha mais linda canção."
Mas a Árvore sacudiu a cabeça.
— "Minhas rosas são brancas", res­pondeu; "brancas como a espuma do mar e mais brancas do que a neve so­bre a montanha. Mas vai procurar minha irmã que cresce junto ao velho quadrante solitário, e talvez ela te dê o que desejas."
Voou o Rouxinol para a Roseira que crescia junto ao velho quadrante solitário.
— "Dá-me uma rosa vermelha", exclamou, "e eu te cantarei a minha mais doce canção."
Mas a Árvore sacudiu a cabeça.
— "Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas qual a cabe­leira da sereia sentada sobre o trono de âmbar, e mais amarelas do que o asfódelo que floresce no prado antes que os ceifadores venham com suas foices. Mas vai procurar minha irmã que cresce sob a janela do Estudante e talvez ela te dê o que desejas."
E o Rouxinol voou para a Roseira que crescia sob a janela do Estudante.
— "Dá-me uma rosa vermelha", exclamou, "e eu te cantarei a minha mais doce canção."
Mas a Árvore sacudiu a cabeça.
"Minhas rosas são vermelhas", respondeu, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas do que os grandes leques que se agitam sem ces­sar na caverna do Oceano. Mas o in­verno gelou-me as veias, e o granizo murchou meus botões e a tempestade quebrou-me os galhos, e não terei ro­sas todo este ano."
— "Uma única rosa vermelha é tudo quanto eu desejo", exclamou o Rouxinol, "uma única rosa vermelha! Não há um meio pelo qual a possa ob­ter?"
— "Há um meio", respondeu a Ár­vore, "mas é tão terrível que nem ouso dizê-lo."
— "Dize-o", tornou o Rouxinol, "não tenho medo."


— "Se desejas uma rosa vermelha", disse a Árvore, "deves criá-la com mú­sica ao luar e tingi-la do sangue de teu próprio coração. Deves cantar para mim com teu coração espetado num dos meus espinhos. Toda a noite deves cantar para mim, e o espinho deve penetrar-te o coração, e o sangue de tua vida deve correr em minhas veias e tornar o meu sangue."
— "A morte é um grande preço a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e a vida a todos é cara. É agradável permanecer no ver­de bosque e olhar o Sol em sua carruagem de ouro e à Lua em sua carrua­gem de pérola. Doce é o perfume da roseira silvestre e doces são as campânulas que se ocultam no vale, e a relva que ondula sobre a colina. No entanto o Amor é melhor do que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado ao coração de um homem?"
Estendeu pois suas asas escuras e elevou o voo rumando os ares. Qual uma sombra passou sobre o jardim, e qual uma sombra revoou sobre o bos­que.
O jovem Estudante estava ainda estendido sobre a relva, onde ele o tinha deixado, e as lágrimas não haviam ainda secado em seus belos olhos.
— "Sê feliz", gritou o Rouxinol, "sê feliz; terás a rosa vermelha. Eu a criarei com música do luar, e a tin­girei do sangue de meu próprio coração. Tudo quanto em troca te peço, é que sejas um verdadeiro amoroso, por­que o Amor é mais sábio do que a Filosofia, embora seja esta sábia, e mais forte do que o Poder, embora este seja forte. Cor de flama são suas asas, e colorido qual a flama é o seu corpo. Açucarados qual o mel são os seus lábios, e seu hálito assemelha-se ao in­censo."
O Estudante olhou da relva onde estava deitado, e escutou, mas não pôde compreender o que lhe dizia o Rouxinol, porque ele sabia apenas as coi­sas que estão escritas nos livros.
Mas o Carvalho compreendeu, e se sentiu triste, porque muito amava o pequeno Rouxinol que havia construído o ninho entre seus galhos.
"Canta-me uma última canção", murmurou ele, "porque hei de me sen­tir bem sozinho quando partires."
O Rouxinol cantou, pois, para o Carvalho, e sua voz era como a água espalhando-se, cheia de bolhas, numa jarra de prata.
Quando terminou a sua  canção, o Estudante levantou-se e tirou do bolso, um caderninho e um lápis.
"Ele tem forma", disse consigo dei­xando o bosque, "isto não se pode ne­gar; mas terá sentimento? Receio que não. É aliás, como todos os artistas, todo estilo, sem nem uma sinceridade. Não se sacrificaria por outrem. Pensa apenas em sua música, e todo mundo sabe que as artes são egoístas. No entanto, é preciso admitir que ele possui belas notas na voz. Que pena que elas coisa alguma signifiquem, que não façam nenhum bem prático." E ele entrou em seu quarto, e deitou-se na rústica cama, e se pôs a pensar em seu amor, e depois de algum tempo adormeceu.
E quando a Lua brilhou nos céus, o Rouxinol voou para a Roseira, e apoiou seu peito contra o espinho. Toda a noite ele cantou com o peito espetado contra o es­pinho, e a fria Lua cristalina inclinou-se e escutou-o. Toda a noite ele cantou, e o espinho foi penetrando mais e mais em seu peito, e assim expandiu-se o sangue de sua vida.
Ele cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma adolescente. E no mais alto ga­lho da Roseira floriu, pétala por péta­la, uma maravilhosa rosa, à medida que uma canção seguia outra canção.
Era pálida a princípio, qual a bru­ma que se espalha sobre o rio, — pá­lida como os pés da manhã, e pratea­da como as asas da aurora. Assim co­mo a sombra de uma rosa num espelho de prata, assim como a sombra de uma rosa num tanque, era a rosa que flo­ria no mais alto galho da Árvore.
Mas a Árvore gritou ao Rouxinol que se apoiasse com mais força sobre o espinho, e mais sonora ainda tornou-se a canção. E de novo a Árvore gri­tou:
"Apoia-te mais fortemente ainda, pequeno Rouxinol, ou chegará o dia sem que a rosa esteja terminada."
Com mais força apoiou-se o Rouxi­nol; mais sonoro tornou-se o gorjeio, porque ele cantava o nascimento da paixão no coração de um homem e de uma virgem.
Um delicado rubor tingiu as folhas da rosa, qual o rubor no rosto do noivo quando beija os lábios da noiva. Mas o espinho não havia atingido ainda o coração do pássaro, de modo que o coração da rosa permaneceu branco, pois só o sangue vital de um rouxinol pode empurpurar o coração de uma rosa.
E a Árvore gritou ao Rouxinol que se apoiasse com mais força contra o espinho. "Mais força, pequeno Rou­xinol", gritou a Árvore, "ou chegará o dia antes que a rosa esteja termi­nada."
O Rouxinol apoiou-se com mais for­ça contra o espinho, e o espinho tocou-lhe o coração, e dilacerou-o um brutal estremecimento de dor. Amarga, amar­ga era a dor, e cada vez mais selvagem tornou-se a sua canção, porque ele can­tava o Amor que se completa pela Mor­te, o Amor que não morre na campa.
E a rosa maravilhosa tornou-se pur­purina, qual o róseo do céu oriental. Purpúrea era a cercadura das pétalas, e purpúreo qual um rubi era o coração.
Mas tornou-se débil a voz do Rou­xinol, e suas asinhas se puseram a ba­ter, e uma película cobriu-lhe os olhos. Cada vez mais fraco era o seu gorjeio, na garganta sentia ele qualquer coisa que o sufocava.
Exalou então uma derradeira melo­dia. Ouviu-o a Lua branca, e se esque­ceu da aurora, e se demorou no céu. Ouviu-o a rosa vermelha, e de êxtases toda ela estremeceu, e abriu suas péta­las ao ar frio da manhã. Levou-o o Eco até a sua caverna violeta, lá nas montanhas, e arrancou a seus sonhos os pastores adormecidos. Ondulou até aos caniços do rio, que levaram ao mar a mensagem.
"Vê! Vê!", gritou a Árvore, "a rosa está agora terminada"; mas o Rouxinol não deu resposta, porque ja­zia morto na alta relva, o espinho em seu coração.
E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.
"Oh! que sorte extraordinária", ex­clamou, "eis uma rosa vermelha! Ja­mais vi uma rosa igual em toda a minha vida. É tão bela que por certo tem um nome latino." E ele se debruçou e colheu-a.
Então pôs o chapéu e correu à casa do Professor, a rosa na mão.
A filha do Professor estava sentada junto à porta, enrolando seda azul em torno de uma bobina, seu cãozinho es­tava deitado a seus pés.
"Você disse que dançaria comigo se eu lho trouxesse uma rosa vermelha", exclamou o Estudante. "Aqui tem a mais vermelha rosa do mundo. Você a trará esta noite sobre o coração, e enquanto juntos dançarmos ela há de dizer-lhe o quanto a amo".
Mas a moça franziu a sobrancelha.
"Receio que ela não vá bem com o meu vestido", respondeu, "e aliás o sobrinho do Chanceler enviou-me joias verdadeiras, é sabido que as joias custam mais caro do que as flores".
"Como você é ingrata", disse colé­rico o Estudante. E atirou a rosa à rua, onde ela caiu na sarjeta e onde a roda de uma carrocinha passou por ci­ma dela.
"Ingrata?", retorquiu a moça. Você é que é muito grosseiro. E afinal de contas, quem é você? Nada mais que um estudante. Acho mesmo que nem tem fivelas de prata nos sapatos, como o sobrinho do Chanceler." E le­vantando-se da cadeira, entrou em casa.
"Que coisa tola é o Amor", disse o Estudante afastando-se. "O Amor não possui nem a metade da utilidade da Lógica, porque ele nada prova, fala todo o tempo de coisas que não acon­tecem, e faz crer em coisas que não são verdadeiras. Em verdade, o Amor não é prático, e como em nossa época tudo consiste em ser prático, voltarei para a Filosofia, e estudarei a Meta­física."
Voltou pois para o seu quarto, tomou um grosso volume empoeirado e se pôs a ler.

9/23/2016

O Príncipe Feliz (Conto), de Oscar Wilde




O Príncipe Feliz, de Oscar Wilde

Tradução publicada no jornal "A Noite", em sua edição de 11 de novembro de 1941. Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica: Iba Mendes (2017)

"O Príncipe Feliz" (Conto), de Oscar Wilde,

No lugar mais alto da cidade, no topo de uma coluna imensa, erigira-se a estátua do Príncipe Feliz. Recobrira-se o corpo do mais fino ouro, os olhos eram duas safiras e, na espada, brilhava um volumoso rubi vermelho.
Era muito admirada. "É bela como um cata-vento", exclamava maravilhado o prefeito, querendo frisar a sua reputação de artista, "apesar de não ser útil...” acrescentou, temendo que o acreditassem desprovido de senso prático, o que ele possuía em dose elevada.
— Por que não há de você ser parecido com o Príncipe Feliz? — dizia a mãe enternecida ao filhinho que chorava, pedindo a lua. — Ele nunca tem sonhos impossíveis.
— Gostaria de saber se alguém no mundo é feliz... — murmurou desapontado um homem, ao contemplar a estátua maravilhosa.
— Parece um anjo — dizem as crianças ao sair da catedral, nos seus mantos vermelhos e impecáveis aventais brancos.
— Como sabem? — indagou o professor de matemática —vocês nunca viram um anjo...
— Já vimos, sim, em sonhos, responderam as crianças. 
O professor assumiu um ar severo. Não gostava de ver a fantasia entretendo a mente dos discípulos.
Uma noite um passarinho voou pela cidade.
Havia seis semanas seus companheiros tinham voado para o Egito, mas ele ficara, pois se via enamorado de uma belíssima haste de "Reed" (planta delicada, parente do bambu, que cresce nos países nórdicos, à beira dos rios). Encontrara-a, na primavera, ao perseguir uma mariposa amarela e tão fascinado ficara pela sua esbelta silhueta, que parara para falar-lhe.
— Posso namorá-la — dissera, pois não gostava de perder tempo. 
A maviosa "Reed" fizera-lhe então uma linda reverência. Então ele voou à sua roda, a tocar a água com as asas, provocando ondulações prateadas. Assim a cortejou durante todo o verão.
— É um amor grotesco — comentaram os demais pássaros. — Ela não tem posses e o rio está cheio delas. 
E, com a chegada do outono, todos se foram.
Depois que todos partiram, o nosso passarinho sentiu-se muito só e fatigava-se da namorada.
— Ela não sabe conversar e é muito frívola. Está sempre namorando o vento. 
Realmente, toda a vez que o vento passava, a bela "Reed" fazia-lhe as mais graciosas reverências.
— ...Reconheço que é boa dona de casa, continuou o passarinho, mas gosto de viajar e minha mulher deveria acompanhar-me...
— Quer vir comigo? — propôs finalmente à haste, mas esta recusou. Estava demasiado presa à sua casa. — Você divertiu-se à minha custa — gritou indignado. — Vou partir para as Pirâmides. Adeus!
Voou durante toda a noite e afinal chegou à cidade. 
— Onde poderei descansar? monologou. — Espero que alguém esteja preparado para receber-me.
Viu então a estátua no alto da coluna.
— Ficarei por aqui... É um belo lugar.... Posso respirar fundo. 
E acomodou-se aos pés do Príncipe Feliz.
— Tenho um quarto todo de ouro — murmurou, preparando-se para dormir. 
Quando ia meter a cabacinha debaixo da asa, uma gota de água caiu-lhe em cima. 
— Que coisa esquisita! não há nuvens no céu, as estrelas fulgem e contudo está chovendo... O clima no norte da Europa é diferente e horrível. A formosa "Reed" gostava da chuva, parece-me que só por egoísmo.
Então, outra gota caiu.
— Que utilidade tem uma estátua, se nem me pode preservar da chuva? Preciso procurar uma chaminé. 
E resolveu ir-se embora.
 Quando ia levantar voo, uma terceira gota caiu. Então, olhou para o alto e viu grandes lágrimas rolando na face dourada do Príncipe Feliz. Parecia tão belo, iluminado pelo luar que o coração do passarinho se enterneceu.
— Quem é você? — perguntou.
— Sou o Príncipe Feliz.
— Por que, então, está chorando? Quase me inundou...
— Quando eu vivia e tinha um coração humano, respondeu a estátua, nunca soube o que fossem lágrimas, porque morava no palácio Sans-Souci, onde a tristeza não tem licença de entrar. Durante o dia jogava com os companheiros e à noite conduzia as danças. Contornando o palácio havia um grande muro, mas nunca procurei saber o que havia, o que poderia existir por detrás dele. Tudo o que me rodeava era belo e agradável. Meus cortesões chamavam-me o Príncipe Feliz e eu o era, de fato, se é que o prazer faz a felicidade. Assim vivi, assim morri. Agora, que estou morto, colocaram-me tão alto que não posso enxergar a miséria do meu povo. Meu coração é de chumbo, entretanto não faço mais que chorar.
— "Então ele não é feito de ouro puro!" — pensou o passarinho, mas nada comentou, por ser bem educado.
— Longe daqui — continuou a estátua em voz cantante — numa pequena rua, há uma casinha miserável. Nela trabalha uma pobre costureira. Muito pálida e exangue, está a bordar flores no vestido de cetim, que a mais bela das damas de honra da rainha deve usar no baile da corte. Seu filhinho está à morte e ela nada tem para curá-lo. Passarinho, quer ser gentil e levar-lhe o rubi de minha espada? Estou preso a este pedestal e não posso mover-me.
— Esperam-me no Egito — respondeu o passarinho; meus companheiros já estão nessa terra de maravilhas, preciso partir quanto antes.
— Passarinho — disse o Príncipe — só uma noite e nada mais. Quer ser o meu mensageiro? O menino está doente e a mãe, coitadinha, tão cansada!...
— Não aprecio crianças — respondeu o passarinho — costumam atirar-me pedras. Verdade é que não me alcançam, pois sei voar muito alto. Mas, mesmo assim, é falta de respeito.
O Príncipe Feliz, entretanto, parecia tão triste, que o pássaro se comoveu.
— Faz muito frio — disse — mas resolvi ficar e ser o seu mensageiro.
— Muito obrigado, passarinho.
— Então a avezinha, arrancando o rubi da espada, voou através da cidade. Observou muita coisa no caminho e, finalmente, chegou à morada da costureira. A mulher trabalhava e o menino doente gemia no leito. Deixou o rubi em cima da mesa, refrescou a criança com o abanar das asas e partiu.
Voou ao encontro do Príncipe Feliz e contou-lhe o que fizera. 
— É curioso — acrescentou — como sinto calor agora.
— É porque praticou uma boa ação — explicou-lhe o Príncipe.
Quando amanheceu, o passarinho foi tomar banho no rio. Visitou os monumentos públicos durante o dia e, à noite, resolveu partir. Quando a lua surgiu, voou para a estátua do Príncipe Feliz.
— Tem algum recado para o Egito? —  perguntou. — Vou partir.
— Passarinho — disse o Príncipe — podia ficar aqui mais uma noite?
— Esperam-me no Egito! Lá estão as maravilhas; verei coisas extraordinárias.
— Passarinho — insistiu o Príncipe — muito longe daqui, vejo um jovem trabalhando num sótão. A mesa está coberta de papéis. Num copo, um ramalhete de violetas murchas. Ele tenta terminar uma peça para o diretor do teatro. Mas a sua mão gelada recusa-se a escrever. Não há fogo na lareira e ele quase morre de fome.
— Esperarei mais uma noite — disse o generoso passarinho. — Devo levar-lhe outro rubi?
— Infelizmente já não possuo rubis, gemeu o Príncipe. Meus olhos são todo o meu tesouro. São de preciosas safiras da Índia, trazidas há milhares de anos. Tire-me uma delas e leve-a ao rapaz. Quando vendê-la, ele poderá aquecer-se e terminar a peça.
— Meu caro Príncipe, não posso fazer isso — disse o passarinho, começando a chorar.
— Passarinho — disse-lhe o Príncipe — faça o que lhe digo.
Então o passarinho tirou a safira e voou para a casa do estudante. Entrou facilmente, por um buraco no telhado. O jovem não lhe ouviu o rumor de asas. Tinha as mãos nos ouvidos. Ao erguer a cabeça, deu com a belíssima pedra entre as violetas murchas.
— Começo a ser apreciado — murmurou — isto, com certeza foi-me enviado por alguma admiradora. Agora terminarei a minha peça.  
Parecia imensamente feliz.
Então o passarinho decidiu-se partir definitivamente.
— Passarinho — retrucou o Príncipe — quer estar comigo só mais uma noite? 
— O inverno aproxima-se e a neve não tardará. No Egito faz calor e um lindo sol está à minha espera. Querido Príncipe, sou forçado a deixá-lo, mas nunca o esquecerei. Na Primavera trarei joias maravilhosas para substituir as que perdeu. O rubi será mais rubro que uma rosa vermelha e a safira mais azul que o oceano.
— Vejo daqui — disse o Príncipe — uma pequena vendedora de fósforos. Deixou-os cair na rua e estragou-os todos. O pai, muito zangado, com certeza ralhará se ela não levar algum dinheiro para casa. A coitadinha chora, em desespero. Tire-me a outra safira dos olhos e leve-a para à pobre menina.
— Ficarei contigo mais uma noite, mas não tirarei à outra safira. Não quero vê-lo cego.
— Avezinha — suplicou o Príncipe — faça como lhe digo.
O passarinho obedeceu; tirou a última safira dos olhos do Príncipe e colocou-a nas mãos da vendedora de fósforos.
— Que lindo vidro! — exclamou a menina encantada, encaminhando-se para casa.
O passarinho regressou para junto do Príncipe e disse-lhe: 
— Agora que está cego não quero deixá-lo mais.
— Não, passarinho — replicou o Príncipe cego — você precisa é partir para o Egito.
— Permanecerei a seu lado para sempre. 
E dormiu a seus pés.
No dia seguinte posou-lhe ao ombro e narrou-lhe lindas histórias de países estranhos. Falou das aves do Nilo, da Esfinge que mora no deserto e sabe todas as coisas, dos pigmeus que navegam em grandes folhas e guerreiam com as borboletas.
— Meu querido passarinho, você contou-me coisas interessantes, mas há na vida algo de muito mais sério: o sofrimento humano. Não há mistério maior do que a dor. Avezinha, por favor, voe pela cidade e volte para dizer-me o que viu.
Então o passarinho voou pela cidade e contemplou os ricos, felizes em suas lindas vivendas, enquanto os mendigos imploravam esmolas pelas ruas. Viu crianças maltrapilhas e esfomeadas. Entre elas, dois meninos tiritantes, sob o arco de uma ponte, procurando se agasalhar; mas um guarda mandou-os embora e eles partiram sob a chuva impiedosa.
O passarinho, entristecido, voltou e descreveu tudo ao Príncipe.
— Sou todo coberto de ouro, disse-lhe este. Quero que você reparta pedaço por pedaço dele ao meu povo. Os homens julgam que o ouro pode torná-los felizes.
Pedaço por pedaço, o ouro do Príncipe Feliz foi entregue ao povo. E as crianças passaram a brincar, alegres e descuidadas.
Enquanto isso, o Príncipe ia-se tornado escuro e cada vez mais feio.
E veio a neve. E as ruas brilharam como se fossem de prata. E finas agulhas de cristal adornaram as casas. 
A pobre avezinha estava quase gelada, mas não podia abandonar o Príncipe; amava-o demais. Roubava migalhas aos padeiros e procurava aquecer-se, batendo as asas.
Finalmente, sentindo que morria, pousou mais uma vez no ombro do amigo: 
— Adeus, meu caro Príncipe, posso beijar-lhe a mão?
— Alegra-me saber que vai partir para o Egito — disse o Príncipe — mas beije-me os lábios, você bem sabe que o quero muito.
— Não vou para o Egito e sim para a morte. A morte é irmã do sono, não é verdade?
Assim falando, beijou o Príncipe nos lábios e caiu morto a seus pés.
Nesse momento ouviu-se um estranho ruído dentro da estátua. Como se alguma coisa tivesse quebrado. E assim foi. O coração de chumbo partiu-se exatamente em dois pedaços.
Na manhã seguinte, o prefeito que passeava com os homens importantes da cidade, ao passar pela estátua, exclamou:
— Meu Deus, como o Príncipe está feio!  
— É mesmo! — concordaram os companheiros. 
E subiram a ver a estátua de perto.
— O rubi da espada desapareceu, os dois olhos de safira se foram e da coberta de ouro nada mais resta — comentou o delegado. — Parece um mendigo...
— Parece um mendigo... — observaram os outros em eco.
— Vejo um Passarinho morto a seus pés — continuou o prefeito. — Precisamos baixar um decreto proibindo que os pássaros morram em lugares assim. 
E todos tomaram nota da sugestão. E resolveu-se derrubar a estátua do Príncipe Feliz.
— Se perdeu a beleza, já não tem serventia — sentenciou o professor de arte da Universidade.
Mandaram derreter a estátua e convocaram uma assembleia para resolver o destino do metal.
— Faremos outra estátua — sugeriu o prefeito. — E por que não reproduzir a minha própria imagem?
Mas os outros protestaram, indignados. Todos se achavam dignos da mesma honra. E até hoje estão brigando...
— Coisa esquisita! — comentaram os operários na fundição. — Este coração de chumbo partido ao meio, não derrete como o resto do metal. Só há um remédio, jogá-lo fora. 
E atiraram-no num monte de lixo, onde também jazia o cadáver do passarinho.
***
— Tragam-me da terra duas coisas preciosas, disse o Todo-Poderoso aos seus anjos, no céu.
E estes conduziram-lhe o coração de chumbo do Príncipe Feliz e o passarinho morto.
— Escolheram bem — disse o Onipotente — pois o passarinho cantará eternamente nos jardins do Paraíso e o Príncipe Feliz será aqui verdadeiramente feliz e abençoará para sempre o meu nome, pelo que fez na terra.

O amigo fiel (Conto), de Oscar Wilde


O amigo fiel, de Oscar Wilde

Tradução publicada no jornal "A Noite", em sua edição de 25 de fevereiro de 1941. Pesquisa, transcrição e adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2017.


 "Amigo fiel" (Conto), de Oscar Wilde

Era uma vez um jovem trabalhador e honesto... Chamava-se Hans. Vivia em uma pobre e pequena casa de campo e todos os dias trabalhava em seu jardim.
Em todo o povoado não havia jardim tão bonito quanto o seu. Encontravam-se aí as mais variadas espécies de flores que cresciam ao lado das mais lindas rosas.
O pequeno Hans tinha muitos amigos, mas o seu maior amigo, o "amigo fiel" era Hugo, o rico moleiro. Realmente, o rico moleiro era tão amigo de Hans que não visitava nunca o seu jardim sem inclinar-se sobre os craveiros para admirá-los de perto, ou sem colher um bom punhado de flores que levava para casa.
— Os amigos verdadeiros repartem tudo entre si — costumava dizer o rico moleiro.
E o pequeno Hans colhia aquelas palavras com um sorriso nos lábios, sentindo-se orgulhoso e feliz por ter um amigo que pensava tão nobremente.
Às vezes, porém, os vizinhos achavam estranho que o rico moleiro nunca concedesse coisa alguma ao pequeno Hans. Conquanto possuísse cem sacos de farinha armazenados em seu estabelecimento comercial, seis vacas leiteiras e uma boa criação de galinha, jamais compensava o pequeno Hans pelas flores que colhia de seu lindo jardim. O jovem, no entanto, jamais se preocupava com isso.
Nada o encantava tanto como ouvir as belas coisas que o moleiro costumava dizer sobre a solidariedade dos verdadeiros amigos.
Assim, pois, o pequeno Hans cultivava o seu jardim. Na primavera, no verão e no outono, sentia-se muito feliz; mas quando chegava o inverno e ele não tinha flores para levar ao mercado, chegava a sofrer frio e fome, deitando-se, à noite, muitas vezes, sem nada ter comido durante o dia.
Além disso, no inverno, sentia-se muito só, porque o rico moleiro jamais o visitava durante essa estação.
— Não convém visitar o pequeno Hans enquanto dure o inverno — dizia, às vezes, o rico Moleiro a sua mulher. — Quando uma pessoa está em apuros, não devemos atormentá-la com visitas. Essa é a minha opinião, e estou certo de que tenho razão. Por isso, esperarei a primavera e, então, tornarei a visitar o meu amigo. Poderá dar-me um cesto de flores e o alegrará muito.
— És realmente muito bom, querido — afirmava sua mulher, sentada em um cômodo divã perto de um bom fogo de lenha. — Gosto imensamente de te ouvir falar sobre a amizade. Estou certa de que o padre da comarca não diria sobre ela tão belas coisas como tu.
— E não poderia convidar o pequeno Hans a vir à nossa casa? — perguntava o filho do moleiro. — Se o pobre homem está em dificuldade, dar-lhe-ei metade do que é meu, e, assim, já não sofrerá fome:
— Como és tolo! — exclamou o moleiro. — Na verdade, não sei para que serve mandar-te para a escola. Parece que não aprendes nada. Se o pequeno Hans viesse cá, e visse o nosso bom fogo, e comesse da nossa excelente comida, e tomasse do nosso ótimo vinho tinto, poderia sentir inveja. E a inveja é uma coisa terrível que prejudica os melhores caracteres. Realmente, eu não poderia consentir em que o caráter de meu grande amigo se prejudicasse. Estarei sempre atento para que o pequeno Hans não se desvie do bom caminho. Além disso, se ele viesse cá, poderia pedir-me um pouco de farinha, e eu não a poderia dar. A farinha é uma coisa e a amizade é outra; não devem confundir-se, portanto.
— Que inteligente és, querido! Como falas bem! — disse a mulher do moleiro, servindo-lhe um grande copo de cerveja. — Sinto-me tão bem quando falas como quando estou na igreja.
— Muitos sabem agir — replicou o moleiro. — Poucos, porém, sabem falar com elegância e aprumo, o que prova que falar bem é não só mais difícil do que agir, como mais bonito.
E fixou tão severo olhar no filho que este sentiu vergonha de si mesmo, baixando a cabeça e chorando baixinho.
Era tão jovem, que bem podem vocês desculpá-lo!
Logo que passou o rigor do inverno e os botões começaram a abrir-se em rosas, o moleiro disse a sua mulher que já era tempo de visitar o pequeno Hans.
— Ah, que bom coração tens! — exclamou a mulher. — Estás sempre pensando nos outros. Não te esqueças de levar o cesto grande para trazeres as flores.
O moleiro, então, desceu à colina com a cesta no braço.
— Bom dia, Hans! — disse o moleiro.
— Bom dia! — respondeu Hans, todo sorridente e feliz.
— Como passaste o Inverno?
— Bem, bem — contestou, prontamente, o jardineiro.  — Muito obrigado pelo seu interesse. Houve alguns momentos duros, mas, agora, chegou a primavera e sinto-me quase feliz... — Ademais, as flores estão muito bonitas.
— Em casa, falamos muito a teu respeito, Hans — disse-lhe o moleiro. — Pensávamos no que seria de ti, em pleno inverno.
— Quanta amabilidade! — exclamou Hans. — Pensei que me tivessem esquecido.
— Hans! Francamente... Como podes falar desta maneira?... — disse o moleiro. — Na verdadeira amizade não há esquecimento. É isso que há de mais admirável; temo, porém, que não compreendas a poesia da amizade... Mas, voltando às flores, que belas estão!
— Sim, estão muito bonitas — replicou Hans. — Vou levá-las ao mercado, onde as venderei à filha do burgo-mestre e com esse dinheiro comprarei outra vez o meu arado.
— Queres dizer que o vendeste, então? Foi uma tolice.
— Certamente. Mas o fato é que me vi obrigado a fazê-lo. O inverno foi muito rigoroso... e eu fiquei sem dinheiro para comprar pão. Vendi, primeiramente, os botões de prata de meu trajo dos domingos; depois, me desfiz da corrente de prata que recebi do vovô e, em seguida, vendi a minha flauta. Por último, vendi o meu arado. Agora, porém, vou resgatar tudo.
— Hans — disse o moleiro — dar-te-ei o meu arado. Não está em muito bom estado. Um dos lados está precisando de reparo, mas, apesar disso, te darei. Sei que é muita generosidade de minha parte e que a muita gente isso parecerá uma loucura, mas não sou como os outros. Estou em que a generosidade é a essência da amizade e, além disso, comprei um arado novo. Portanto, podes ficar tranquilo... dar-te-ei o meu arado.
— Obrigado, você é muito generoso — disse o pequeno Hans. — Posso consertá-lo muito bem porque tenho aqui uma tábua.
— Uma tábua! — exclamou o moleiro. — Muito bem! Isso é juntamente o que necessito para o teto do meu estábulo. Há uma brecha que é preciso tapar. Muito bem, eis uma bela oportunidade de me prestares um serviço. Realmente, uma boa ação é sempre bem recompensada. Dei-te o meu arado e, agora, dás-me a tua tábua. É claro que o arado vale muito mais que a tábua, mas a amizade sincera não olha estas coisas. Dá-me, pois, a tua tábua e hoje mesmo consertarei o teto do meu estábulo.
— Não é muito grande — disse o moleiro, examinando-a; — creio que só dará para o reparo do teto do estábulo; não sobrará madeira para consertares o arado, mas, é claro que a culpa não é minha... E, agora, que te dei o meu arado, penso que me poderás dar em troca umas flores. Aqui tens o cesto; procura enchê-lo quase por completo.
— Quase por completo?! — perguntou aflito, o pequeno, vendo que o cesto era muito grande e, se o enchesse, não teria mais flores para levar ao mercado.
— Francamente! — exclamou o moleiro. — Uma vez que te dou o meu arado, não julguei que fosse muito pedir-te algumas flores. Talvez eu esteja equivocado, mas acreditava que a amizade, a verdadeira amizade, estava isenta de toda classe de egoísmo.
— Meu bom amigo, meu maior amigo! — protestou o pequeno Hans — todas as flores do meu jardim estão à tua disposição.
E correu a colher os cravos perfumosos e encher a grande cesta do moleiro das mais lindas flores de seu jardim.
— Adeus, Hans! — disse o moleiro, subindo novamente a colina com a sua tábua ao ombro e a costa cheia de flores ao braço.
— Adeus! — respondeu o pequeno Hans.
E pôs-se a cavar alegremente: estava tão contente de possuir um arado!
***
Na manhã seguinte, quando novamente estava cultivando o seu jardim, ouviu a voz do moleiro que o chamava da estrada. Trazia ao ombro um grande saco de farinha.
— Hans — disse o moleiro — queres levar-me este saco de farinha ao mercado?
— Oh, é pena! — disse Hans; — mas estou hoje muitíssimo ocupado. Tenho de regar ainda todo o jardim, de podar muitas roseiras, enfim, de fazer ainda quase todo o serviço.
— Francamente! — exclamou o moleiro. — Acreditava que, em consideração a te haver dado o meu arado, não te negarias a fazer-me um favor.
— Oh, sim! não me nego! — protestou o pequeno Hans: — jamais deixarei de agir como um verdadeiro amigo.
E correu a buscar o seu gorro, partindo, em seguida, com o grande saco ao ombro.
Era um dia de calor e a estrada estava muito poeirenta. Antes de alcançar o posto que marcava a sexta milha, Hans já estava tão cansado que teve de sentar-se para poder continuar depois. Chegou ao mercado, vendeu toda a farinha e voltou quase contido à casa, porque temia encontrar-se com algum salteador, se se demorasse pelo caminho.
— Que trabalho árduo! — disse consigo mesmo ao deitar-se, à noite. — Mas estou contente por não me haver negado, porque o moleiro é o meu melhor amigo e, ademais, vai dar-me o seu arado.
Na manhã seguinte, muito cedo, o moleiro chegou para receber o dinheiro do saco de farinha, mas o pequeno Hans estava tão fatigado que ainda não havia deixado a cama.
— Palavra! — exclamou o moleiro. — És muito preguiçoso. Quando me lembro de que te dei o meu arado, acho que devias trabalhar com mais ardor.
— Sinto-o muito — respondeu o pequeno Hans. — Eu estava tão fatigado que pensei que me havia deitado há pouco. Agora, porém, já me sinto bem.
— Bravos! — exclamou o moleiro, dando-lhe uma palmada no ombro. — Preciso que faças o reparo no teto do estábulo.
O pequeno Hans tinha grande necessidade de trabalhar no seu jardim, porque havia dois dias que não regava as suas flores, mas não quis negar-se a fazer a vontade do moleiro, que era o seu melhor amigo.
Vestiu-se, apressadamente, e acompanhou o rico moleiro ao estábulo.
Trabalhou o dia todo. Ao anoitecer, o moleiro veio verificar como iam as coisas.
— Terminaste o serviço? — perguntou ele, alegremente.
— Está quase pronto.
—  Não há trabalho melhor do que o que se faz por outro! — exclamou o moleiro. — E agora que reparaste o teto do estábulo, é melhor que voltes para casa, a fim de descansares, pois amanhã necessito de que leves os meus carneiros à montanha.
No dia seguinte, quando o pequeno Hans voltou da montanha, estava tão cansado que adormeceu em uma cadeira.
— Que tempo bom para as minhas flores — pensou ele, ao acordar. E ia trabalhar quando chegou o moleiro e lhe pediu que fosse trabalhar no seu cercado, que precisava ser cultivado. O pobre jardineiro lembrou-se de suas flores; precisava tanto de trabalhar no seu jardim... Mas acompanhou o moleiro, consolando-se em pensar que ele era o seu melhor amigo.
— Além disso — dizia consigo mesmo — vai dar-me o seu arado.
O pequeno Hans continuou trabalhando para o moleiro, e este dizia muitas coisas belas sobre a amizade, coisas que Hans copiava em seu livro verde e que relia à noite, pois amava a leitura.
***
Certa noite, estava o pequeno Hans sentado janto ao fogo, quando bateram à porta.
 A noite era negríssima. O vento soprava forte. Era intenso o frio.
— Será algum pobre viajante? — disse consigo Hans, e correu a abrir a porta.
Era o moleiro que estava com uma lanterna em uma mão e sustinha com a outra, as rédeas de seu belo cavalo.
— Querido Hans! — gritou ele. — Estou muito aflito. Meu filho caiu da escada. Está ferido. Preciso do médico. Mas ele mora tão longe daqui e a noite está tão escura, que me lembrei de que era melhor que você fosse em meu lugar.
— Certamente! — exclamou o pequeno Hans. — Alegra-me muito que se tenha lembrado de mim. Irei imediatamente. Peço-lhe apenas a lanterna, pois está tão escuro que eu temo cair em algum pântano.
— Sinto-o muitíssimo! — respondeu o moleiro. — Mas é a minha lanterna nova e seria uma grande perda se você voltasse sem ela.
— Bem, não falemos mais nisso! Irei sem lanterna.
A noite era tão negra que o pequeno Hans quase nada via. No entanto, depois de caminhar durante cerca de três horas, chegou à casa do médico, batendo à porta.
— Quem bate? — gritou o doutor.
— Sou eu, doutor! Hans!
— E que desejas, Hans?
 — O filho do moleiro caiu de uma escada e machucou-se. Por isso, é necessário que o doutor vá até lá.
— Muito bem! — replicou o médico.
Montou o seu cavalo e dirigiu-se à casa do moleiro, sendo seguido por Hans, que caminhava a pé.
Começou a chover, porém Hans já nada via. Finalmente, perdeu o caminho. Vagou pelo terreno baldio. A chuva aumentava mais e mais. Havia muitos lugares, pantanosos e, na escuridão, Hans caiu em um pântano, afogando-se.
Todo o mundo assistiu ao enterramento de Hans porque ele era muito querido.
— Era eu o seu melhor amigo — dizia o moleiro. — É justo, pois, que também assista a tudo. A morte do pequeno Hans é, sem dúvida, uma grande perda para todos nós — e acrescentava baixinho — sobretudo para mim. Na verdade, fui muito generoso ao oferecer-lhe o meu arado velho e agora não sei o que fazer com ele. Está em tão mal estado que de nada me serve. Também não encontrarei a quem vendê-lo. — E voltando-se para os amigos, afirmou: — E eu que lhe havia prometido o meu arado! Asseguro-vos que, para o futuro, jamais darei nada a alguém. Pagam-se sempre as consequências de se ter sido generoso...