quinta-feira, 22 de setembro de 2016

O Gigante egoísta (Conto infantil), de Oscar Wilde



"O Gigante egoísta", de Oscar Wilde

Conto infantil de Oscar Wilde, de uma tradução de 1939, publicado na revista "Eu Sei Tudo". A pesquisa, a transcrição e a adaptação ortográfica é de Iba Mendes (2016)


Todas as tardes, quando saíam da escola as crianças costumavam ir brincar no jardim do Gigante. Era um formoso e imenso jardim, atapetado de grama verde e suave. Aqui e ali, entre as árvores muito altas, cresciam flores brilhantes como estrelas e havia plantas que, na primavera, floresciam em delicadas corolas de rosa aljôfar e que, no Outono, se carregavam de belas frutas. Os pássaros pousavam nas árvores e cantavam tão docemente que as crianças a todo momento suspendiam seus divertimentos para ouvi-los.

—  Como tudo aqui é bom e bonito! — costumavam exclamar, deliciados.
Um dia, o Gigante voltou. Tinha ido visitar seu amigo, o Ogre de Cornwailles, e com ele permanecera sete anos.
Ao chegar, viu as crianças brincando no jardim.
— Que fazeis aqui? — vociferou, áspero e rubro de cólera, assustando terrivelmente os pequeninos, que fugiram correndo.
— Meu jardim é meu jardim! — continuou gritando. — Que todos saibam! A ninguém permitirei que nele penetre e se divirta!
Com efeito, ergueu uma elevadíssima muralha e nela pregou um cartaz: “É terminantemente proibida a entrada, sob as consequentes penas!”
Era, realmente, um gigante muito egoísta!
As pobres crianças já não tinham onde brincar. Trataram de procurar distração na rua. Esta, porém era cheia de poeira e semeada de rude cascalho. Não servia... Frequentemente rondavam o alto paredão, relembrando as delícias do jardim, que havia além desse obstáculo.
— Como era bom e como éramos felizes! — diziam.
Quando chegou a Primavera, toda a região se povoou de pássaros e se encheu de flores. Só no jardim do Gigante egoísta reinava ainda o inverno. Os pássaros, como as crianças, não cantavam e as árvores se esqueciam de florescer.
Certa vez, uma formosa flor ergueu a cabeça dentre as plantas; porém mal viu o cartaz, ficou triste, pensando nas crianças. Logo voltou a se esconder na terra, tornando a adormecer. Os que se sentiam bem felizes eram a Neve e o Granizo.
A Primavera esqueceu este jardim - diziam jubilosas e nele vamos viver o ano inteiro.
A Neve cobriu a terra com seu grande manto branco e o frio pintou de prata as árvores. Depois, convidaram o Vento do Norte... Que fosse passar uma temporada em sua companhia!
E o Vento do Norte compareceu. Vinha envolto em peles e esteve rugindo, todo o dia, através do jardim, derrubando as chaminés.
 — Que deliciosa paragem! — exclamou entusiasmado. — Temos que prevenir o Granizo, para que também aproveite.
E o Granizo surgiu. Todos os dias, durante três horas tocava seu tambor sobre os telhados do castelo, até quebrar a maioria das telhas e vidraças, ao fim do que, dava voltas, tudo varrendo com violência. Chegara vestido de cor de cinza e seu hálito era como gelo.
— Não compreendo por que Primavera tarda tanto a chegar... — pensava o Gigante egoísta, quando ousava se aproximar de uma janela, protegido por muitos cobertores e via seu jardim completamente branco. — Mas o tempo há de mudar, breve!  
Porém a Primavera não apareceu nunca mais, nem o Verão. O Outono deu frutos dourados a todos os pomares e jardins, porém o jardim do Gigante não viu um só sequer.
— É demasiado egoísta! dizia o Outono.
Assim, ali, sempre foi Inverno, enquanto o Vento do Norte, o Granizo, Chuva e a Neve dançavam continuamente entre as árvores.
Uma manhã, estava o Gigante ainda na cama, quando ouviu música, sumamente agradável. Tão meigamente soava em seus ouvidos, que pensou ser o rei dos músicos quem passava. Na realidade, era apenas um pardal que piava junto de sua janela. Porém havia tanto tempo que ouvia cantar um pássaro em seu jardim, que aquela simples sucessão de pios lhe pareceu a música mais bela do mundo. Então, o Granizo suspendeu sua infernal dança e o Vento do Norte cessou de rugir. Logo um delicioso perfume entrou pelas madeiras rachadas e as vidraças partidas.  
— Parece que enfim chegou a Primavera — disse o Gigante; e, saltando da cama, correu a uma janela.
E viu um maravilhoso espetáculo. Através de uma brecha da muralha as crianças vinham e já estavam trepadas nas árvores. Em cada árvore havia um menino e as árvores se sentiam tão contentes, tendo-os novamente entre seus ramos, que se cobriram de flores e, suavemente, com cuidado, balançavam seus braços sobre as cabecinhas infantis. Os pássaros, inúmeros, voavam, cantando com alegria e as flores surgiam radiosas entre as plantas novamente verdes e macias. Apenas num cantinho reinava ainda o Inverno. Era o mais apartado recanto do jardim e nele se achava um menino. Era tão pequeno que não alcançava os ramos das árvores e volteava junto delas chorando amargamente.
A pobre árvore ainda se achava completamente coberta de granizo e de neve e o Vento do Norte soprava, rugindo contra ela.
— Sobe, menino! — dizia a árvore — e baixava seus ramos, tudo o que era possível. Mas o menino era realmente muito pequenino...
O Gigante sentiu derreter o próprio coração, enquanto olhava.
— Quão estúpido fui! — exclamou com voz rouca e difícil. — Sei agora porque a Primavera recusava aparecer. Eu ajudarei esse pobre menino a subir; depois derrubarei a muralha e meu jardim será para sempre o lugar de brincadeira das crianças.
Desceu correndo a escada, abriu com cuidado a porta principal e se embrenhou pelo jardim.
Porém, quando o viram aparecer, as crianças tomaram tão grande susto que correram atropeladamente e o jardim ficou de novo sob os caprichos do Inverno. Somente o pequenino, o menor de todos, não fugiu, pois seus olhos estavam tão cheios de lágrimas que ele não viu a chegada do Gigante. Este se aproximou e, levantando-o suavemente entre os braços, colocou-o no galho mais confortável. Logo a árvore floresceu e os pássaros a encheram, cantando. Então o pequenino lançou os braços em redor do poderoso pescoço do Gigante e beijou-o. Quando os outros meninos viram que o gigante não era mau, voltaram correndo e com eles voltou a Primavera.
— O jardim desde hoje é vosso... — disse o Gigante. E empunhando um tremendíssimo machado, derrubou o muro.
O dia todo, as crianças brincaram, enchendo o jardim com seus risos cristalinos no louco zigue-zague de suas correrias. Quando anoiteceu foram se despedir do Gigante.
Mas onde está o menino pequeno? — perguntou o Gigante, impaciente e assustado. — Aquele, que eu ajudei a subir na árvore? Onde está o garotinho?
O Gigante o queria mais do que aos outros, porque ele o beijara.
— Não sabemos — responderam os meninos. — Já foi...
— Dizei-lhe que volte amanhã pediu o Gigante.
Porém os meninos explicaram que não sabiam onde ele morava e que nunca o tinham visto antes; então o Gigante ficou muito triste.
Todas as tardes, ao sair da escola, os meninos iam brincar no jardim. Porém o pequenino, que o Gigante mais queria, não voltou a aparecer. O Gigante era muito bom para todas as crianças, mas não podia esquecer seu amiguinho.
— Quanto me alegraria se voltasse! — costumava repetir.
Passaram os anos. O Gigante envelheceu e suas forças enfraqueceram. Já não podia tomar parte nos divertimentos dos meninos. Sentado em enorme poltrona, ficava observando suas brincadeiras para que não se excedessem e se machucassem, quando corriam por seu belo jardim.
***
Numa manhã de inverno, olhou pela janela, enquanto se vestia. Já não odiava o Inverno, pois sabia que era tão somente a Primavera adormecida e que as flores estavam descansando.
Repentinamente esfregou os olhos deslumbrado e olhou mais uma vez...
Era certamente maravilhoso o que via. No recanto mais afastado de seu jardim, havia uma árvore totalmente coberta de flores brancas. Seus ramos eram dourados, frutos de prata pendiam deles e... e junto dele, de pé, estava o pequenino que ele tanto estimava!
Cheio de alegria, desceu correndo as escadarias, chegou ao jardim e quando se aproximou do menino, seu rosto enrubesceu de cólera. Com voz sufocada pela emoção, perguntou:
— Quem se atreveu? Quem se atreveu a te ferir assim?
Porque nas palmas das mãos do menino havia os rasgões de dois pregos, como de pregos eram os dois rasgões de seus pezinhos.
— Quem se atreveu a te ferir assim? tornou a gritar. — Dize-me para que eu o mate!
— Não! respondeu o menino. — Estas são as feridas do Amor.
— Quem és tu? — perguntou o Gigante. E um estranho temor se apoderou dele, fazendo-o dobrar os joelhos diante do pequenino.
O menino sorriu e disse:
— Tu me deixaste, uma vez, brincar em teu jardim; hoje brincarás comigo em meu jardim, que é o Paraíso.
E quando os meninos voltaram, naquela tarde, encontraram o Gigante morto, debaixo da árvore, todo coberto de flores brancas.

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