quinta-feira, 22 de setembro de 2016



Poemas em prosa de Oscar Wilde

Poemas em formato de prosa, traduzidos para o português por Walter Benevides, e publicados na revista “Illustração Brasileira”, em sua edição de julho de 1928. A pesquisa, a transcrição e a adaptação ortográfica é de Iba Mendes

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O Artista

Certa tarde penetrou-lhe o espírito o desejo de plasmar uma imagem do “Prazer que dura um Momento". E atirou-se pelo mundo em busca de bronze. Porque ele só podia pensar em bronze.

Porém todo o bronze do universo desaparecera, nem em parte alguma havia bronze para se encontrar, salvo o bronze da imagem da “Dor que vive Eterna".

Ora, essa imagem ele mesmo e com suas próprias mãos tinha plasmado e posto no túmulo do único ser que em vida ele amara. No túmulo do ente morto que mais amara ele colocou essa estátua de sua própria moldagem, para que pudesse servir como sinal do amor humano que não morre, e como símbolo da dor humana que vive eterna. E no universo outro bronze não havia, salvo o bronze dessa estátua.

E ele tomou a imagem que plasmara, e atirou-a numa grande fornalha, e ateou fogo.

E do bronze da imagem da "Dor que vive Eterna" ele plasmou uma imagem do “Prazer que dura um Momento".

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O fazedor do bem

Era noite e Ele estava só.

E ele viu ao longe as muralhas de uma cidade circular e dirigiu-se para essa cidade.

E quando Ele se aproximou ouviu dentro da cidade o ruído dos pés da alegria, e o riso da boca do contentamento e o grave rumor de muitos alaúdes. E Ele bateu na porta e um dos guardas abriu-a para Ele.

E Ele avistou uma casa que era de mármore e tinha belas colunas de mármore na frente. As colunas estavam ornadas de guirlandas, e tanto dentro como fora haviam archotes de cedro. E Ele entrou na casa.

E quando Ele passou pelo vestíbulo de calcedônia e pelo vestíbulo de jaspe, e atingiu o grande vestíbulo das festas, Ele viu deitado num leito de púrpura alguém cuja cabeleira estava coroada de rosas escarlates e cujos lábios estavam vermelhos de vinho.

E Ele chegou-se para trás do outro e tocou-o no ombro e lhe disse, "Porque vives Assim?"

E o jovem voltou-se e reconheceu-o e assim respondeu: "Mas eu era leproso e tu me curaste. Que outra vida viveria eu?"

E Ele retirou-se da casa e volveu à rua.

E depois de algum momento, Ele viu alguém cujo rosto e cujo indumento estavam pintados e cujos pés eram calçados de pérolas. E de trás dela vinha vagaroso como um caçador, uma jovem que trajava um indúsio de duas cores. Ora, o rosto da mulher era como a bela face de um ídolo, e os olhos do jovem estavam brilhantes de desejo.

E Ele seguiu suavemente e tocou na mão do jovem e lhe disse: "Porque olhas esta mulher e de tal maneira?"

O jovem voltou-se, reconheceu-se e disse: "Mas eu era cego e tu me deste a vista. De que outra maneira olharia eu?"

E Ele avançou e tocou nas vestes pintadas da mulher e a ela lhe disse: "Não há outro caminho a seguir que não seja o caminho do pecado?"

E a mulher voltou-se e reconheceu-o, e riu e disse: "Mas tu me perdoaste os pecados, e este caminho é um caminho que agrada".

E Ele se retirou da cidade.

E quando se retirava da cidade Ele viu sentado à beira da estrada um mancebo que chorava.
E Ele avançou para o outro e tocou nos longos cachos do seu cabelo e lhe disse: "Porque choras?"
E o mancebo ergueu os olhos e reconheceu-o e assim respondeu: "Mas eu tinha morrido e tu me ressuscitastes dentre os mortos. Que outra coisa faria eu senão chorar?"

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O mestre

Então, quando a treva desceu por sobre a terra José de Arimateia, tendo acendido um archote de pinho, desceu da colina para o vale. Pois que ele tinha ocupações em casa.

E ajoelhado nos xistos do Vale da Desolação ele viu um jovem que estava nu e chorava. Eram cor de mel os seus cabelos, e seu corpo como uma alva flor, mas ele tinha chagado seu corpo de espinhos e nos cabelos tinha posto cinzas como coroa.

E aquele que tinha grandes propriedades disse ao jovem que estava nu e chorava: "Não me admira ser tão grande a tua tristeza; pois de certo Ele era um justo."

E o jovem respondeu: "Não é por ele que choro, mas por mim mesmo. Eu também transformei água em vinho, e eu curei o leproso e dei vista ao cego. Eu andei sobre as ondas e expulsei os demônios dos que viviam nos sepulcros. Eu alimentei os esfomeados no deserto em que não havia o que comer, e ressuscitei os mortos de suas augustas moradas, e sob o meu comando, e diante de uma grande multidão, uma figueira estéril secou. Todas as coisas que esse homem fez eu as fiz também. E contudo eles não me crucificaram."

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O Discípulo

Quando Narciso morreu o lago de sua predileção transformou-se de uma taça de águas serenas que era numa taça de lágrimas amargas, e as Oréades que se chegaram a chorar pela floresta vieram para cantar ao lago e confortá-lo.

E quando viram que o lago se tinha transformado de uma taça de águas serenas que era numa taça de lágrimas amargas, elas soltaram as verdes tranças dos seus cabelos e dirigiram se ao lago e assim lhe disseram: "Não nos causa espanto que de tal maneira chores Narciso, tão belo era ele."

"Mas era Narciso belo?" o lago perguntou.

"Quem o saberia melhor cio que tu?" responderam as Oréades. Por nós ele apenas se dignava passar, mas a ti ele te procurava, e gostava de deitar-se em tuas margens e contemplar-te, e no espelho de tuas águas refletir sua própria beleza."

E o lago respondeu: "Mas eu amava Narciso porque, quando ele se deitava em minhas margens e baixava os olhos para mim, no espelho de seus olhos eu via minha própria beleza refletida."

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