quarta-feira, 31 de maio de 2017

As traduções da Bíblia para o Português



As traduções da Bíblia para o Português
A Bíblia (plural grego de biblion: “livro”) é o livro mais lido e conhecido em todo o mundo.
Em 1534, quando Martinho Lutero traduziu sua Bíblia alemã, circulavam entre os povos 15 traduções. Em 1800 esse número aumentou para 75. Em 1900 subiu para 567 traduções. Atualmente, a Bíblia completa ou em partes, foi traduzida para mais de 2000 línguas e dialetos.
A primeira tradução da Bíblia inteira para o idioma português é a de João Ferreira de Almeida, datada de 1748. No Brasil, além das tradicionais versões Corrigida e Atualizada, há inúmeras traduções ou versões. Por exemplo: Nova Tradução na Linguagem de Hoje, Nova Versão Internacional, Bíblia Viva, Bíblia de Jerusalém, entre outras.
Qual delas, afinal, melhor reflete o texto original?
Inicialmente, faz-se mister ressaltar (para decepção de alguns) que não há nenhum manuscrito original da Bíblia. Os que existem são cópias de cópias, feitas ao longo dos séculos. Todavia, trata-se (para confortos dos decepcionados) de verdadeiras cópias dos antigos manuscritos originais.
Através da crítica textual (comparação das diversas traduções) descobre-se que menos de 1% dos textos apresentam contradições ou variações. Portanto, 99% do conteúdo da Bíblia têm o seu sentido preservado. Vale lembrar que a crítica textual é um dos métodos usados com eficiência para se avaliar a autenticidade de documentos históricos, tais como os de Aristóteles, Homero, Platão etc.
As diferenças de vocábulos entre as diversas versões não altera em nada o sentido original. Vejamos esse exemplo extraído do Livro de Isaías, capítulo 1, versículo 18:
Corrigida: “Vinde, então, e argui-me, diz o Senhor” (Is. 1:18a);
Atualizada: “Vinde, pois, e arrazoemos, diz o Senhor”;
Bíblia na Linguagem de Hoje: “O Deus Eterno diz: ‘Venham cá, vamos discutir este assunto”;
Bíblia do Pão: “Vinde, debatemos - diz o Senhor”.
Bíblia Ave Maria: “Pois bem, justifiquemo-nos, diz o Senhor.”
Bíblia Tradução Ecumênica: “Vinde e discutamos, diz o Senhor”.
Os verbos arguir, arrazoar, discutir, justificar e debater são equivalentes, isto é, possuem sentido comum.
Ainda cerca deste mesmo versículo, na Corrigida lê-se: “Ainda que os vossos pecados sejam vermelhos como o carmesim, se tornarão brancos como a lã; na Bíblia Viva: “Mesmo que os seus pecados sejam vermelhos como sangue, Eu os deixarei brancos como o cal. Numa tradução africana, numa região onde não havia neve, traduziu-se “brancos como a neve” por “brancos como a polpa do coco. Ou seja: as expressões branco como a neve, branco como o cal e branco como a polpa do coco transmitem igualmente a ideia original, ou seja, que Deus pode tirar toda a mácula do pecado.
Ao traduzir a Bíblia para uma nova língua, os tradutores muitas vezes levam em conta o contexto cultural do povo que a fala. Por exemplo, numa determinada língua indígena, na qual o nosso pãozinho era alimento desconhecido, na passagem bíblica em que Jesus é chamado “o pão da vida”, empregou-se “mandioca da vida”, uma vez que a mandioca era o alimento principal da tribo.
Algumas traduções ou versões, no entanto, são consideradas tendenciosas, pois foram adequadas aos fins doutrinários de determinados grupos religiosos ou ideológicos. Há algum tempo, por exemplo, foi publicada nos EUA uma versão bíblica denominada “politicamente correta”, em que se extraiu a palavra “escuridão”, substituindo-a por “noite”, pois segundo os seus organizadores, o sentido “pejorativo” da palavra “escuridão” poderia ser associado a pessoas de pele negra. Nesta mesma versão, Deus não é chamado Pai, e sim Pai-Mãe, por causa do suposto sentido autoritário e machista do termo Pai. Outro caso recai sobre a famigerada Tradução do Novo Mundo, na qual, por exemplo, extraiu-se a palavra “cruz”, que foi substituída por “estaca de tortura”: “Se alguém quer vim após mim, repudie-se e apanhe a sua estaca de tortura, dia após dia, e siga-me continuamente” (Lc. 9:23). Nesta mesma versão traduziu-se João 1:1, da seguinte forma: “No princípio era a palavra, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era um deus”. Note-se o uso do artigo indefinido “um” (um deus), bem como o “d” minúsculo do nome DEUS (deus).
E, para finalizar, faço menção do famoso Salmo 91, o qual, dependendo da tradução ou versão, assume diferentes estilos, porém, sem alterar o seu sentido “original”. Vejamos quão belíssimas são essas variedades de vocábulos...
Edição Revista e Corrigida (Tradução de João Ferreira de Almeida): “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Onipotente descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu Deus, o meu refúgio, a minha fortaleza, e nele confiarei”.
Edição Revista e Revisada (Tradução de João Ferreira de Almeida): “Aquele que habita no esconderijo do Altíssimo, à sombra do Todo-Poderoso descansará. Direi do Senhor: Ele é o meu refúgio e a minha fortaleza, o meu Deus, em quem confio”.
Versão Vida Nova: “O que habita no esconderijo do Altíssimo e descansa à sombra do Onipotente, diz ao Senhor: Meu refúgio e meu baluarte, Deus meu, em quem confio”.
Bíblia na Linguagem De Hoje: “Aquele que procura segurança no Altíssimo Deus e se abriga na sombra protetora do Todo-Poderoso pode dizer ao Deus Eterno: ‘Tu és o meu defensor e o meu protetor. Tu és o meu Deus, e eu confio em ti”.
Bíblia de Jerusalém: “Quem habita na proteção do Altíssimo pernoita à sombra de Shadai, dizendo a Iahweh: Meu abrigo, minha fortaleza, meu Deus, em quem confio”.
Tradução da Vulgata (Padre Matos Soares): “O que habita no esconderijo à sombra do Altíssimo, na proteção do Deus do céu descansará. Dirá ao Senhor: tu és o meu amparador, e o meu refúgio. É o meu Deus, nele esperarei”.
Tradução Ecumênica: “Aquele que habita onde se esconde o Altíssimo e passa a noite à sombra do Deus Soberano. – Do Senhor eu digo: ‘Ele é o meu refúgio, minha fortaleza, meu Deus: nele eu confio”.
Tradução de André Chouraqui (Judaica): “Sentado no segredo do Supremo, ele passa a noite à sombra de Shadaï. Digo a IhvH: Meu abrigo, meu alçapão! Elohaï, nele confio”.
Bíblia Ave Maria: “Tu que habitas sob a proteção do Altíssimo, que moras à sombra do Onipotente, dize ao Senhor: Sois meu refúgio e minha cidadela, meu Deus, em que eu confio”.
Como Você deve ter percebido, não obstante a ideia transmitida ser idêntica em todas as versões ou traduções, verifica-se uma enorme variedade de estilo e de vocabulários. Contudo o importante aqui é que a integridade dos manuscritos principais permanece inalterada em todos os textos.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 1998.

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