quarta-feira, 24 de maio de 2017

Camilo Castelo Branco por Fialho de Almeida


Camilo Castelo Branco

Escrito Fialho de Almeida. Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica de Iba Mendes (2017)

Na data de amanhã, em 1890, pôs, como sabem, termo à vida, com uma bala no ouvido, o trabalhador glorioso que foi Camilo Castelo Branco.
Poucos meses antes, quando o artista foi buscar a Lisboa o desengano da ciência à sua cegueira, Fialho o recebeu com o artigo que agora transcrevemos, dando-lhe o propósito de uma homenagem comemorativa à memória do grande escritor.
Está em Lisboa há quinze dias o ilustre grande homem, e nenhum sinal de festa, nenhum movimento efusivo e unânime da opinião e da imprensa ainda foram acordar por debaixo das janelas da casa em que ele habita, rastro sequer de ovação que traia o aplauso dum povo culto, duma geração literária ou duma simples cotterie, pelo espírito torturado e imortal de quem não é só um cultor das letras e das artes, um grande e férreo chefe, sem discípulos nem soldados — mas uma literatura completa, inconfundível e extraordinária:
Nem os simples estudantes dos cursos superiores, prestes sempre, pela espontânea efervescência do seu entusiasmo, a fazerem justiça à misantropia destes grandes forçados da arte, como Camilo; nem os homens de letras, muitos dos quais há uns poucos de anos chouteiam na esteira da língua que ele fez, e da poderosa ironia que ele cinzelou; nem os admiradores, nem os íntimos, souberam na hora da velhice, quando o mártir escabuja nas atrocíssimas angústias da cegueira e da nevrose, refrigerar-lhe a alma trucidada, erguer-lhe a vencida coragem, com uma manifestação coletiva de apreço que o fizesse-, voltar à aldeia, enternecido ao menos por este grande uníssono de justiça.
E, todavia, escritor algum português melhor bem-mereceu ainda das nossas homenagens, pela veemência da sua obra, pelo travor mordente da sua ironia e da sua arte, pelo teclada de riso e lágrimas que há ferido, pela naturalização eminentemente portuguesa do seu gênio, e impressiva lucidez da sua afetividade. Ao lado deste homem, Deus me perdoe, mas cuido que a trilogia romântica empalidece.
Garrett, por exemplo, é o poeta petit-maitre, o lírico cético, o romancista dilettanti, cujo gênio só no Frei Luiz consegue eximir-se às preocupações de dandismo literário que o conspurcam. Como um monge medievo, o rude Herculano (falo do artista), quase só fere duas notas com grandeza — atingir na poesia o grave tom dos hinários do catolicismo primitivo, e explicar a história visionando-a através a contextura quase sempre enfática dos seus romances. Castilho afunda-se, e dele sobrenada apenas o retórico de força, que não tendo ejaculado vida na sua arte, para logo debandou da simpatia das turbas, começando a ressequir nas páginas das Seletas, e a amarelecer nas citações dos compêndios de gramática elementar.
Só este nome de Camilo parece desafiar o tempo e o carnaval das escolas literárias que se sucedem e desfilam, hoje radiantes, desfloradas e murchas amanhã, qual mais da moda, e todas em breve esparsas e sepultas, apenas servindo a revelar na fereza magnífica da obra dele, mais uma aresta, um pormenor, uma arcaria, uma portada; e através desses cento e trinta volumes, perspectivas profundas, horizontes de arte incomparáveis, vortilhões de trágicos desfechos, gargalhadas e súplicas: e por espaços, entre as imprecações e os soluços, as brutalidades e os sarcasmos, algum doce perfil que rasteja, como a filha do ferrador no Amor de Perdição, arcanjo e vítima, até aos umbrais da mais extreme dedicação.
***
Vi ontem, numa carruagem, Camilo. Era a primeira vez que essa figura me aparecia, oh diversa, muito diversa da que a minha adoração tinha sonhado! É uma fisionomia estranha, extinta, imóvel, quase trágica, onde o cabelo põe brumas de velhice, e o bigode branco, grande, caído, faz sobre a boca como a cortina dum leito onde estivesse a dormir uma grande voz. A emaciação da doença cobre-lhe dum livor esverdinhado a pele flácida do rosto — que socavado, tem da caveira a expressão sardônica e sofredora — e por todo ele nem um lampejo da devoradora chama do gênio, que se lhe concentra talvez no fundo do crânio, abandonando a superfície, como a alma desses vulcões que resfriam, cicatrizando a cratera com as escórias da sua última erupção.
Toda a figura adquiriu agora uma expressão de courbature alcachinada, lassa e desfeita, que só se desmancha nos raros momentos de revolta contra a dor, e só de longe se alumia por algum daqueles flamejantes doestos contra a impotência dos clínicos, na arte de rejuvenescer para a labuta da escrita esse doutor Fausto que não pôde resignar-se à ideia de ser velho, e a quem a morte horroriza, não pela ideia do aniquilamento, mas pela repulsa atroz da podridão.
Como o romântico Flaubert, este poderia ter soltado o grito d'alma: — O est étrange, comme je suis né avec peu de foi au bonheur!
A filosofia dos seus romances está talvez neste conceito: a falta de fé na felicidade: neste conceito que pôs no seu espírito um tão amargo travor das coisas da existência. Mais ou menos, ele tem sido toda a vida um revoltado. A sua mesma alegria sabe a fel. A mesma sua serenidade era uma espécie de madorna, em que não raro se estava preparando uma tormenta. A sua bondade chegava a espavorir os próprios que dela sugavam benefícios, tão coriscante a sua feição de revelar-se.
Por isso, entre as manifestações da sensibilidade moderna em literatura, a obra de Camilo é uma das que na Europa mais característicos espécimenes oferece, e aquela em que a interferência autobiográfica do escritor no drama idealizado, ressai completa, vibrante, alastrando raízes por toda a psicologia artística dos tipos que nesse drama conflagrem e escaramucem.
Vindo a público já numa época de transição e derrocada, quando o ideal romântico, com a sua alucinação de grandezas, e a sua febre de heroico e de anormal, fugia às azagaias dos primeiros mercenários naturalistas, Camilo haveria soçobrado como tantos outros, cujos volumes perdidos ainda há trinta anos eram reputados obras primas, se não tivera a sanear-lhe os ímpetos criadores um espírito de análise fértil, e uma ironia de grande raça, que derivada em sarcasmo, nos seus últimos panfletos, há de ecoar por séculos na literatura portuguesa, sendo talvez preciso nomear Rabelais, para que o sarcasta de Seide definitivamente encontre o seu irmão mais velho.
Ele, entretanto, como todos os grandes, não pertenceu jamais a escola alguma: nem Hugo, nem Flaubert; nem papá Dumas, nem Zola. É ele mesmo, é camillesco. Criou um gênero de graça e linguagem que se lhe cola ligeira ao temperamento, como um maillot que revestisse o tronco dum Hércules Farnésio, traindo as arestas dum espírito, a arquitetura dum sonho interior, o formidando rictus duma emoção — E aquela indomável, aquela extraordinária epilepsia do seu desprezo por tudo quanto, escabujando-lhe aos pés, queira mordê-lo.
***
Era trinta e seis anos, cinquenta e quatro romances publicados, o primeiro dos quais, Anátema, tenda vindo a lume em 51, ainda agora se lê com simpatia, ao cabo de tantas e tantas revoluções na arte de narrar e de escrever. Em todos esses livros, o poeta dá o braço ao analista: e a análise, posto que incisiva, não viviseca os tipos até aos seus últimos pormenores de histologia, nem decompõe o trabalho duma cabeça, como faz Zola, ideia por ideia, e impulsão por impulsão. Neste luxo de ciência, que é um dos mais hábeis artifícios do romance moderno, muita vez o sábio prejudica as qualidades inventivas do artista, reduzindo a obra de arte a uma monografia seca, a uma espécie de história clínica, em que o rigor do detalhe expulsa o sonho, substitui à arte a medicina, abdica da fantasia em favor da fórmula, e dispensa a criação do talento individual, para produzir romances como quem cozinha pasteis, segundo uma receita doseada; monótona, e sempre a mesma. A isto chegaram os descendentes do flaubertismo em França, como Paulo Bonnetain, J. K. Huysmans, Camilo Lemennier, e o sobrevivente dos. Dois Goucourt, que ao sentir-se estancar, proclama a monografia, no prefacio da Cherie, como a fórmula assinalada ao romance do futuro.
É ver como Camilo triunfa em todas estas preocupações alambicadas e leva ao romance as exigências da sua paixão ardente e sempre nova, e nos visiona o seu mundo através os sobressaltos cruéis da sua fantasia. Para a reconstituição dum tipo, dois ou três fatos lhe bastam, como a Cuvier bastava uma maxila e uma vértebra, para a reconstituição dum antediluviano.
Entre esses fatos, vem o poeta intercalar o que falta para a completa remodelação dum personagem. E é admirar-lhe a sobriedade e a precisão! Por vezes, no enxadrezar dos caracteres, há singulares revelações de psicologia individual: o homem fala por detrás das suas figuras, como nas Novelas do Minho, e naquele extraordinário romance do Esqueleto: exaspera-se da sua angústia, entenebrece-as da sua melancolia negra e irreparável; e sem querer vai-nos contando os anos da sua mocidade, as misérias sofridas, traições, desgraças, ilusões e sonhos desmanchados. A sua nervosidade compraz-se em dramas curtos e precisos, cuja catástrofe se precipita, entre os granizos da ironia ou da cólera, sempre justa e animada dum sopro que por vezes chega a ser miguelangesco.
***
Não vai, porém, o tempo a sabor de apoteoses espontâneas, nem a sociedade portuguesa agora tem momentos lúcidos para atentar nos imortais que não hajam subido a pedestal, pelas escadarias sebosas de São Bento.
Mas se entre os homens de agora — eu dirijo-me aos novos — houver ainda um vislumbre da antiga integridade, se ainda houver na alma da mocidade portuguesa, emotividades que lhe alumiem o caminho da justiça, ousaria eu propor fôssemos todos, de chapéus ao vento e braçadas de flores, passar por diante da casa de Camilo, como Paris, no dia em que Victor Hugo completava oitenta anos.
Oh, como seria doce a Camilo, cuja obra resume, como a de Herculano e a de Garrett, a genuína literatura portuguesa; como lhe seria doce o escutar de bocas amigas, numa ovação suprema, palavras de afeto que lhe enchessem de paz os últimos dias! e como havia de resignar-se a entrar na grande noite, esse rebelde, que sendo o maior escritor português do nosso século, ainda achou meio de ser também, entre os homens de gênio, o maior desgraçado!
E daí quem sabe! Com um pequenino esforço mais, poderíamos assentar cúpula de ouro, sobre o edifício desta generosa iniciativa. Solicitaríamos do público auxílio coletivo para uma grande edição nacional das obras de Camilo, para a qual todos os nossos artistas dessem ilustrações, e que assim ficaria entre as memórias do tempo, como um protesto às apoteoses por aí feitas, na política e na arte, aos Judas de semestre, que enquanto fingem beijar na face a pátria, o mais que pensam é em receber o ouro dos fariseus.

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