segunda-feira, 29 de maio de 2017

Eugênio de Castro: “Um sonho” (Poema)


Eugênio de Castro: “Um sonho” (Poema)

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítólas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaiece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus' morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, b morena! em contatos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

O SIMBOLISMO
Os “mistérios” da realidade não podem ser explicados pelo positivismo ou pelo materialismo: ela (a realidade) não é descrita, mas sugerida. A obra total (l’art pour l’art) deve resistir ao desenvolvimento da técnica. Como afirmou Walter Benjamin: “Os ritos de consagração com que a arte é celebrada são o contrapeso da dispersão que caracteriza a mercadoria”. O Simbolismo é, grosso modo, uma reação contra o objetivismo que conduziu a geração realista. O subjetivismo e a introspecção são imprescindíveis ao novo movimento literário iniciado em Portugal em 1890, com a obra Oaristos, de Eugênio de Castro.
O POETA
Eugênio de Castro é, predominantemente, um “artesão” de imagens. Na sua concepção, todas as impressões e todos os reflexos do universo e da própria vida podem ser transformados em Arte. Para ele, as imagens são vivas, podem sem vistas e sentidas ao mesmo tempo. Embora a tristeza e o pessimismo sejam observados nos seus sonetos e em outras poesias de características amorosas, logo são transformados em pérolas. Como afirmou um desconhecido: “Se sofre, não nos deixa ver crispações violentas, não nos deixa ouvir gritos estrangulados, nem gemidos arquejantes. Assistiremos antes a cortejos de imagens melancólicas de onde apenas se erguem suspiros musicais, acompanhados de atitudes e gestos majestosamente ou graciosamente escandidos. Não fará da lamentação individual, da desvendada confissão das lástimas e das fraquezas próprias o fim ou o interesse capital da sua arte”.
O POEMA
O poema UM SONHO, embora haja quem duvide, pode ser considerado uma espécie de síntese da vertente simbolista. Nele são observadas, se não todas, pelos menos as principais características dessa escola literária: a tentativa de representação e captação dos aspectos fluidos, densos e vagos da realidade; é a questão do significante e do significado.
“O Sol, o celestial girassol, esmorece” dando lugar às estrelas que “brilham com brilhos sinistros”. Se o Sol é o símbolo do dia, e às estrelas é símbolo da noite, há de se concluir que o momento em que ocorre o sonho é o entardecer. Ainda na primeira estrofe, observa-se a predominância de termos relacionados às cores, como por exemplo, a cor amarela em: Messe, enlourece, girassol, sol. O verbo fugir indica a efemeridade das cantilenas (cantiga suave), e o adjetivo fluidas reforçam essa ideia. Também aqui é mostrada outra característica do Simbolismo, que é a predileção por momentos nos quais a luz torna o contorno das coisas menos visível.
A musicalidade é também densa nesse poema. Aliás, não só nesse, mas em todos os poemas simbolistas, cujo lema é “a música antes de tudo”. A aliteração, tão comum entre os escritores simbolistas, pode ser observada com clareza aqui: “Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...”. Nota-se também a presença proposital do eco: “Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...”. É bom ressaltar que, ao fazer uso desses recursos, o escritor reforça a musicalidade dos versos.
O enfoque espiritualista da mulher, envolvida num clima de sonho em que predomina o vago, o impreciso e o etéreo, também aparece nesse poema. A mulher que habita o sonho do poeta é uma flor:
“Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor desses floridos feno...”.
As características essenciais do Simbolismo são, portanto, parte essencial do poema, tais como: tentativa de aproximar poesia e música; evocação de elementos litúrgicos; retrato fiel da realidade; presença do vago, oculto, onírico (do sonho), do concreto e do real; predomínio da sugestão em vez da nomeação das coisas; e, finalmente, vocabulário relacionado a nomes de cores e sensações auditivas. Há aqui, o que afirma Bárbara Spaggiari: “A alma do poeta é como o espelho em que se reflete a aparência superficial das coisas; a tarefa da poesia é evocar a realidade, não só reproduzindo-lhe a beleza exterior mas também captando a trama densa de relações que liga cada parte do universo ao todo”.

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2001.

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