segunda-feira, 29 de maio de 2017

Padre Antônio Vieira: "Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda"



Padre Antônio Vieira: "Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda"

O “Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda” insere-se no contexto histórico da monopolização do comércio açucareiro pelos ibéricos, e o início da concorrência européia, especificamente, pelos holandeses. Ao organizar a Companhia das Índias Orientais, a Holanda aparelhava-se para enfrentar a concorrência de Portugal e Espanha que, em 1580, uniram-se formando a União Peninsular sob o domínio dos Habsburgos. O Sermão, portanto, foi escrito no último ano da dominação espanhola, ou seja, em 1640.
Em 1624 houve a primeira tentativa de invasão por parte dos holandeses na Bahia, contudo, um ano após foram vencidos pelos portugueses. Em 1630, os holandeses empreenderam um novo esforço e conquistam Pernambuco.
Em 1640, pela segunda vez, os holandeses tentaram penetrar na Bahia. Foi em meio à grande alvoroço, e a uma iminente invasão dos ‘‘hereges’’ que o Padre Antônio Vieira pregou, na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda (nome bastante sugestivo para a ocasião) este belíssimo sermão, do qual se segue esta breve análise.
De início o Sermão faz alusão a um trecho dos Salmos da Bíblia, em que o autor, pressionado pelas circunstâncias, muito mais que clamar, ‘‘exige’’ de Deus um livramento imediato: ‘‘Desperta! Por que dormes, Senhor... Levanta-te em nosso auxílio, e resgata-nos por amor das tuas misericórdias’’. Vieira utiliza a mesma passagem bíblica para fazer um paralelo à situação enfrentada pelos portugueses com a invasão holandesa.
Prosseguindo o Sermão, Vieira menciona outra passagem das Escrituras, na qual se faz menção às vitórias conquistadas pelos hebreus no passado, como a Conquista de Canaã e a libertação da escravidão egípcia: ‘‘Ó Deus, nós ouvimos com os nossos ouvidos, e nossos pais nos têm contado os feitos que realizastes em seus dias, nos tempos da antiguidade’’. Vieira elabora assim um confronto entre o texto bíblico e os grandes feitos ou às proezas e conquistas dos portugueses, das quais o Brasil é uma consequência. Ele atribui a Deus todas as vitórias de Portugal, o que remete a uma comparação com as conquistas que os antigos israelitas empreenderam para se estabelecerem na Terra Prometida: ‘‘Vossa mão foi a que venceu e sujeitou tantas nações bárbaras, belicosas e indômitas, e as despojou do domínio de suas próprias terras... e estendeu em todas as partes do mundo, na África, na Ásia, na América’’. Desta forma, é possível deduzir que, na visão de Vieira, foi Deus quem colaborou o tempo todo com os portugueses e, por conseguinte, foi Ele (Deus) quem auxiliou Portugal a expulsarem os mouros da Península Ibérica; foi Ele quem contribuiu para que Portugal conquistasse Ceuta, a Ilha de Madeira, Açores, Cabo Bojador, Guiné, Calicute... e o Brasil ‘‘a miserável província do Brasil’’. E se foi Deus quem os ajudou, então é perfeitamente justificável a expulsão dos ‘‘nativos indômitos’’, a sujeição das ‘‘nações bárbaras’’ e o despojo do domínio de suas próprias terras. É a ideia de que Deus ofereceu Portugal ao mundo, para que esse concedesse ao mundo o próprio Deus. Deste modo, a colonização é justificada como sendo a vontade de Deus, pois estariam assim levando ‘‘a verdadeira’’ religião “aos bárbaros e ingênuos indígenas, ao negro e ignorante etíope desprovido de conhecimento”.
Coteja os portugueses com Israel, quando em peregrinação no deserto, e utiliza, para exemplificar a situação de seu povo, outra passagem bíblica na qual os israelitas questiona os desígnios de Deus, afirmando ser melhor ter permanecido como escravos no Egito a morrerem pelos próprios egípcios no avassalador deserto: ‘‘Dirão que, cautelosamente e à falsa fé, nos trouxestes a este deserto, para aqui nos tirares a vida a todos e nos sepultares’’. E queixando-se perante Deus, declarou de maneira ousada, que melhor fosse nunca ter conquistado o Brasil para o próprio Deus a ter que padecer cruelmente nas mãos dos pérfidos, dos insolentes, dos excomungados e ímpios hereges, como chamava os protestantes, especificamente os holandeses. E conclui a sua indignação, quase que obrigando Deus a agir a favor dos portugueses: ‘‘...antes da execução da sentença repareis bem, Senhor, no que vos pode suceder depois, e que o consulteis com vosso coração, enquanto é tempo; porque melhor será arrepender agora que quando o mal passado não tenha remédio’’.
Mais do que questionar a vontade de Deus, Vieira o ironiza: ‘‘Holanda vos dará os apostólicos conquistadores que levem pelo mundo os estandartes da cruz?...os pregadores evangélicos que semeiam nas terras dos bárbaros a doutrina católica?... defenderá a verdade de vossos Sacramentos e a autoridade da Igreja Romana?... Edificará altares?... consagrarás sacerdotes?... ’’
O conceito de supremacia da Igreja católica em relação às demais religiões, é evidenciado em todo o Sermão. Os portugueses não só detinham o monopólio das terras brasileiras, como desejavam ardentemente manter o da fé: ‘‘...só a fé romana que professamos, é fé, e só ela a verdadeira e a vossa’’. Apresenta-se diante de Deus, contrapondo a excelência da religião católica sobre as religiões protestantes. O ataque aos holandeses é a reação contra os calvinistas que, por serem protestantes, colocavam sob suspeitas muitas das doutrinas católicas.
Ante uma iminente invasão dos hereges, dos inimigos da ‘‘verdadeira igreja’’, o Padre Vieira sente-se abandonado por Deus: ‘‘...parece que nos deixastes de todo e nos lançastes de vós, porque já não ides diante das nossas bandeiras, nem capitaneais como dantes os nossos exércitos’’. Os portugueses estavam tão habituados às conquistas, que a ideia de serem vencidos pelos inimigos significava o abandono por parte de Deus, que os entregou ‘‘às mãos da crueldade herética’’, ‘‘dos hereges insolentes’’.
É interessante observar que ao se dirigir a Deus, Vieira não o faz com súplica e deprecações, mas com protestos e repreensões: ‘‘... Em tudo parece, Senhor, que trocais os estilos da vossa providência e mudais as leis da vossa justiça conosco...’’. Deus é posto como uma espécie de árbitro da futura contenda entre portugueses e holandeses. Em muitas situações, volta-se piedosamente atrevido diante de Deus: ‘‘...Parece-vos bem, Senhor, parece-vos bem isto?’’
Em síntese, o Sermão pelo bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, é uma espécie de incitação, um convite para que o povo combata os infiéis holandeses, e discorre sobre os horrores e depredações que os protestantes fariam caso invadissem a Bahia. Avalia-se, portanto, que o efeito moral deste Sermão produziu resultados muito positivos nos ânimos de seus ouvintes. Os holandeses foram expulsos, e a estrela de Maurício de Nassau, que brilhou durante muitos anos em Pernambuco, esvaiu-se, e os portugueses mantiveram seu imperialismo.
Venceu, por fim, Deus, a Santa Igreja e os portugueses.... Venceu Vieira...

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2001.

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