domingo, 28 de maio de 2017

Oliveira Martins: aspectos biográficos

Oliveira Martins

Publicado originalmente em 1896, (In: "Pelo Mundo Fora"), pela escritora portuguesa Maria Amália Vaz de Carvalho.  Pesquisa, transcrição e atualização ortográfica  de Iba Mendes (2016)


ITrês meses decorreram já desde que a negra terra do cemitério o encobriu aos olhos dos que o amavam, e não está de molde o mundo moderno, que tumultua desvairadamente anárquico para chorar os seus mortos ou para comemorar os seus heróis!

Desde que ele morreu, esta pobre nacionalidade portuguesa que a sua alma soube tão bem estudar, compreender, amar nos momentos típicos da sua grandeza, chorar nos espasmos convulsivos ou no torpor comatoso da sua longa agonia, desde que ele morreu, já esta pobre pátria, tão sua amada, se tem deixado afundar mais alguns graus no abismo de uma decadência para que não há cura. Quase todos o esqueceram, a ele, ao grande melancólico que, durante mais de vinte anos, se não cansou de avisar os despreocupados, de acusar os cínicos, de analisar cruamente ou desalentadamente o lento processo por que uma nação se desagrega e esfacela e para quem a história foi mais uma obra de moralista do que um trabalho de laboriosa e minuciosa erudição. 
Quase todos o esqueceram, ou se recordam apenas do que mais efêmero e contingente houve no seu espírito, e uma das coisas que mais dói é este silêncio, mortalha pior que todas as mortalhas, que na hora seguinte ao desaparecimento de um grande espírito lhe envolve nas funerárias dobras o nome que parecia tão brilhante em vida! 
Depois, mais tarde, é certo que a posteridade vinga esse nome da indiferença da geração a que ele devia ser mais querido, mas isso não impede que a impressão geladora de tão duro esquecimento faça sofrer algumas almas raras que não esquecem o que amaram... 
Para mim, a morte de Oliveira Martins foi um golpe dolorosíssimo... 
Feridos os dois por uma doença traiçoeira que se apresentava no empobrecido organismo de ambos, igualmente ameaçadora de morte próxima e que para ele tão cedo realizou a negra ameaça, ambos tínhamos partido com diferença de dias apenas para Cascais. 
Eram contiguas as casas que habitávamos, davam ambas para o lindo parque que o falecido Visconde de Gandarinha ali plantou luxuosamente. 
A primavera tinha desdobrado pelo parque todo em viço e pela extensão dos campos um enorme estendal das flores mais frescas, mais vivas, mais cheias de mimo e cor. Inundavam-nos as salas os lírios amarelos, as rubras papoulas, os malmequeres brancos e dourados, as verdes espigas, toda essa divina e inofensiva flora dos campos que consola os doentes sem os envenenar. 
Através das rendas transparentes do arvoredo em que todos os tons, todas as nuances do verde se casavam em uma gama opulenta e maravilhosa, avistava-se, das janelas dos dois convalescentes, o mar, o grande mar azul, em que Oliveira Martins lera tão comovedoramente a lenda do nosso destino nacional, a história gloriosa e trágica da vida e da morte da Pátria Portuguesa. 
Barcos de vela passavam a cada instante, e ele sabia conhecer cada tipo de embarcação.

Cada vela que atravessava o mar longínquo, palpitando ao vento fresco de abril, tinha para ele uma sugestão viva, uma lembrança saudosa ou pitoresca. 
A luz, a luz embriagante da primavera de Portugal, derramada em caudais da côncava safira dos Céus, reanimava-o dia a dia, dava-lhe aspirações frementes de vida, de alegria, de trabalho, de atividade mental. 
Ouvi-lo era um encanto. 
Menos abatido de espírito, e mesmo de corpo, que eu, era ele quem, descendo a escada da sua casa e subindo a da minha, vinha sentar-se na pequenina sala onde eu quotidianamente esperava aquela visita deliciosa. 
E de sua voz lenta, cheia de pausas, de uma doçura como que abafada, modulando-se em tons de íntima melancolia, de acre desprezo, de tolerante e passivo desdém, e às vezes, raras vezes, de alegre e despreocupada ironia, ia preguiçosamente escorrendo toda uma filosofia da Vida, triste sim, mas não desesperada nem crua... 
Místico de temperamento, místico de sentir, o seu ceticismo das coisas era temperado sempre por aquele instinto tão raro na alma peninsular, positiva até na sua fé, o instinto do mistério ambiente, o pressentimento de alguma coisa ignorada que nos cerca, acompanha, domina, nunca revelada, nunca explicada, nunca tangível, mas tão impossível de definir como de eliminar... 
“There are more things in heaven and earth, Horatio.
Than are dreamt of in your philosophy.”
Estas palavras do Hamlet lembravam-me quando o ouvia discorrer de vagar, sempre muito de vagar, olhos de sonho fitos vagamente no espaço, como que vendo nele coisas que nós lá não víamos... 
Falávamos de tudo. Mais, no entanto, do presente que do passado. Era nobre, glorioso, épico o passado? De certo! 
Mas que importava, se estava inteiramente extinto para nós. O presente causava à grande alma especulativa e triste de Oliveira Martins um tédio inenarrável. Esta agonia sem grandeza; esta luta de mesquinhos, de baixos interesses, lembrando a germinação e o fervilhar de vermes na putrefação de um cadáver querido; esta inconsciência de perigos iminentes; esta ignorância universal de todas as forças e elementos que, ou conjugados ou antagônicos, hão de fatalmente ter uma influência capital no modo de ser orgânico da sociedade portuguesa; este risonho cinismo que anima as classes dirigentes e lhes inspira todas as manifestações da sua atividade ou da sua inércia; este quadro desolador de um país que luta pela vida, é verdade, mas que perdeu todas as energias materiais ou ideais, por meio das quais uma vida se conserva ― arrancava-lhe expressões de uma tão inconsolada tristeza, como eu me não recordo de as ter ouvido a mais ninguém. 
II
Outras vezes, nas horas mais calmas, mais doces da conversação, quando o crepúsculo ia envolvendo a paisagem marítima, tão doce, sugestiva e melancólica, em uma espécie de ideal neblina azul ― era pelo seu trabalho passado que os olhos do grande morto se espraiavam. 
Dizia-me então a comoção intensa, dolorosa, extenuadora, com que ele vivera, por assim dizer, algumas cenas da sua História, revelando essa profunda e hiper-aguda sensibilidade intelectual que é talvez a feição predominante, a faculté maitresse do seu gênio... 
Em momentos sagrados, destes que serão um eterno segredo entre o artista que sente e o Deus que o inspira, ou antes em momentos em que o artista se sente um deus, isto é, um Criador, e em que o elemento divino, de que o seu gênio é a revelação suprema, o levanta acima de si próprio e da sua pobre existência efêmera, fugitiva, mortal, o grande artista, que havia em Oliveira Martins, vivia séculos de gozo extenuante, de volúpia ideal incomparável... 
 ― “Saía desses momentos alagado em lágrimas e como que exausto, envelhecido” ― contava ele, deixando transparecer na palavra e no gesto um vago assombro. 
É por isto que o trabalho lhe exauriu a mais pura seiva do seu sangue, não porque fosse nem excessivo, nem brutalmente aturado, como por exemplo o de Balzac.

Outras vezes ainda a saudade levava-o docemente, talvez sem dar por isso, a evocar a memória do querido amigo morto, de Antero de Quental. Oliveira Martins fora o companheiro, o confidente, o amigo dileto do poeta dos Sonetos, em quem Souza Martins, num magistral estudo psíquico-patológico, acaba de descobrir uma ascendência escandinava, que explica e justifica a essência de sonho nebuloso e místico de que o seu talento parece haver sido elaborado. 
Falando de Antero, era inesgotável a memória de Oliveira Martins. O íntimo drama daquele coração e daquele espírito ninguém melhor o conheceu e interpretou.

A excessiva idealização na esfera sentimental, o abuso do pensamento, a aceitação simultânea das mais contrarias, das mais opostas, das mais irredutíveis teorias, a múltipla concepção da vida que nesse desequilibrado de gênio se transformou na loucura e na morte: tudo ele analisava, estudava, esclarecia com aquela atenção paciente, com aquela agudeza de inteligência, com aquele estranho dom de penetrar e compreender as almas mais diversas, ― e até uma alma diversa segundo os momentos, a influência exterior, as crises mórbidas, a própria temperatura física, ― com aquela extraordinária lucidez crítica, serena, impessoal que assinala os homens verdadeiramente superiores. 
Para ele próprio ― deixem me este orgulho de que aliás tenho recordação escrita pela sua própria mão e confirmado pela sua sublime e dedicada e heróica enfermeira, amiga e esposa ― para ele próprio estas conversações que o capricho de cada momento ia inspirando e movendo, se tinham tornado um prazer subtil e delicado. Eu ouvia, sem muitas vezes fazer mais que sugerir, excitar, conduzir um pouco ao sabor da minha curiosidade intelectual o rumo errante da sua palavra fascinadora... 
Ele pensava alto, e gozava talvez de dar forma concreta às visões fugitivas da imaginação, de prender o peso de uma definição verbal, à asa subtil de uma ideia que ia esmaecer, volatilizar-se, fugir espaço em fora... 
O ardente desejo de Oliveira Martins, sedento de vida, como todos os feridos por aquela doença atroz que escolhe os melhores e os mais delicados organismos, para os fulminar em plena flor de inteligência e vida ― o ardente desejo de Oliveira Martins era partir para Castela e estudar de perto o teatro de cenas que a sua mão magistral ainda deixou esboçadas em rápidas notas. Escrever o seu livro sobre D. João II e depois terminar por D. Sebastião, ― o querido herói lendário, o nosso rei Artur fielmente esperado durante séculos por tantas almas de fé, ― o ciclo da nossa vida nacional; que depois não tem feito mais que arrastar-se, desprestigiada, desformizada, pervertida na forma e na essência, até esta tristeza de hoje amorfa e gelatinosa: eis o sonho concebido pelo escritor glorioso e admirável. 
Foi com o fito de visitar a Espanha e depois de ir trabalhar em algum eremitério bem recolhido, bem arejado e fresco, bem afastado de todo o movimento social, que Oliveira Martins mais robustecido, e na aparência melhorado, deixou Cascais.

Há uma carta sua de Salamanca em que transparece do novo aquela tristeza que na doença o acompanhou como um pressentimento funéreo. Não resisto ao desejo de copiar alguns trechos dela: ― "Aí vão duas linhas do viajante que pisa agora as terras de Santa Tereza. 
Em Alba de Tormes esteve ela; aqui na catedral tem um dedo que eu ontem tive a honra de tocar. 
Dizia a Santa, ardendo em divino amor: muero porque no muero. Eu não digo outro tanto, mas, em verdade, a vida não é realmente senão o desdém de viver e de morrer. Morrer para quê? Para quê viver? Os espanhóis têm uma locução muito frequente e muito expressiva. É uma frase, na qual, como sucede com a música, cada um mete o que tem na ideia. Quien sabe? Quem sabe o que é viver? Quem sabe o que é morrer?” 
Nesta flutuação vaga do pensamento que se comprazia em ver sempre de cada problema as duas faces contrarias, está em racourci muito do que foi a filosofia particular de Oliveira Martins! 
Da viagem a Espanha voltou ele já ferido sem apelo e sem possível cura pelo punhal traiçoeiro da Morte! 
Ainda esperou contra todas as esperanças, ainda a paisagem agreste e idílica a um tempo do convento de Brancanes e cercanias o embriagou como a última estrofe deliciosa desse poema da Natureza, que para a alma dele, como para poucas almas, tinha harmonias, cores, visões divinas, filtros alucinantes e poderosíssimos. E ainda como última exalação do seu querido espírito para o meu, algumas palavras me vieram provar a força pertinaz da sua ilusão e os extremos da sua delicada e preciosa amizade. 
“ ― Ontem, para provar a mão, comecei a trabalhar no meu Príncipe Perfeito. Não imagina a alegria que me deu ver que não tinha morrido ainda. Ainda escrevo. Ainda vivo. Cumpra depressa a promessa da sua visita... 
― Não há calmante como a paisagem e os rumores do campo. Sente-se a gente árvore. Aqui há tudo. Solidão no meio de um campo habitado, pomares nos vales, montes em volta, em frente o mar. Que mais se quer? O convento onde estou é enorme; cabe aqui tudo. Há terraços delirantes. Há árvores verdadeiras; uma mata a valer; pinheiros, sobreiros, medronheiros. Venha depressa...”

É a última vez que a sua mão traçou linhas que me fossem dirigidas e eu própria infelizmente, preza pela doença em Cascais que nunca deixei, não o tornei mais a ver. 
Mas publiquei trechos destas duas cartinhas preciosas, porque duas faces bem características do espírito complexo de Oliveira Martins estão aqui adoravelmente retratados. Numa a ondulação melancólica e vaga do seu sonho ante o mistério da vida e o mistério da morte. Em outra, na última, o seu ardente amor panteísta da natureza viva, aquela paixão fremente que o fazia dar uma alma à paisagem, comunicar a sua fecunda emoção às árvores e às cousas, sentir no seio delas a comunhão misteriosa que prende em uma cadeia de infinitos elos sem quebra, a pedra à planta, a planta ao animal, o animal sem alma à alma infinita, à alma Universal! 
III
Diante da obra tão vasta e variada de Oliveira Martins não pode ainda a crítica lavrar qualquer juízo definitivo. É cedo de mais para que esse tribunal pronuncie a sentença decisiva que tem de ficar gravada no Panteon das glórias portuguesas. Mas se a crítica impassível e austera tem de adiar ainda o resultado da sua investigação, é lícito a cada um de nós dar a impressão íntima que recebeu do trabalho deveras extraordinário do escritor que se finou. 
Em primeiro lugar a dualidade de aspectos que essa obra apresenta, transforma-a em uma espécie de problema altamente interessante para a psicologia.

Em Oliveira Martins, a par do místico contemplativo, do sonhador filósofo, do moralista desdenhoso, havia ― estranha coisa, tão rara na nossa raça simplista ― um ser inteiramente contrário a esse, um espírito positivo na análise dos fatos, rigoroso nas deduções do pensamento, pratico na administração dos negócios, e em que uma rara sagacidade das coisas se aliava a um método maravilhoso na classificação dos conhecimentos positivos. 
Estes dois homens tão diversos formaram um só, às vezes contraditório até ao enigma irritante, incompreensível ao entendimento médio, ilógico perante a opinião do vulgo. Separados, cada um deles formava um conjunto completo de qualidades harmônicas, uma força intelectual de primeira grandeza. Juntos, havia momentos em que eram capazes de desnortear, de entontecer até o espírito mais perspicaz e mais aberto ao feliz dom da simpatia inteligente. Assim como o seu talento tinha estas duas faces distintas quase inconciliáveis, pois que pressupõem qualidades em absoluto antagonismo e temperamentos em radical oposição, assim também a sua obra parece dividir-se em dois ramos diversíssimos. A um desses ramos, o mais árido para mim, o que nada admira ― pertencem os seus tão notáveis artigos jornalísticos, quase todos compilados nos volumes Política e economia nacional e Carteira de um jornalista, os seus opúsculos e livros sobre o Regime das riquezas, o Socialismo, as Eleições e até o seu magnífico projeto de Lei de fomento rural, que pode bem chamar-se um programa completo de restauração patriótica, uma espécie de sistema de higiene aplicado ao organismo exangue de um país que, primitivamente destinado a uma existência modesta e rudemente tônica de trabalho rural, de obscura felicidade sem história, se gastou nos excessos e nas aventuras desse sonho ultramarino que o fez viver, é certo, e que lhe deu renome, mas que o condenou à longa e incurável anemia de que todos morremos hoje aos poucos... 
É como um homem verdadeiramente pratico que aparece aos nossos olhos, o publicista, o deputado, o político nem sempre feliz, embora sempre perfeitamente intencionado do período que talvez mais do que nenhum outro, ele quereria ter riscado da história, aliás tão nobre da sua vida. É sob essa face que ele assombrou muitas vezes não somente os espíritos da nossa terra mais chãos e mais positivos, mas ainda os homens de negócio estrangeiros com quem teve de tratar tantos assuntos de importância e que ficavam falando dele como de uma inteligência rápida, aguda e fria, absolutamente rara nas nações peninsulares.

Se essas faculdades sem o auxílio de outras já são suficientes para assinalar o alto valor de um homem, o que fará quando a essas se ajuntam em raríssimo conúbio outras, mais altas, mais nobres, mais reveladoras de uma grandeza ingênita e de um valor moral amplíssimo?!... Quando o mesmo homem, que há pouco parecia versar, com tanta segurança e tão fino critério, questões de que dependem o bem estar material e a ordem administrativa e econômica das nações, se revela de repente um delicado artista vibrante e criador, um entendimento alado, capaz de erguer-se às cumiadas mais altas do Pensamento, um vidente para quem a história é uma contínua revelação de recônditos segredos da alma, uma evocação mágica de figuras vivas, uma palpitante sugestão de moral e de justiça?!... 
Os que tiverem de pôr de pé diante da posteridade a figura inteira de Oliveira Martins, têm de evocá-lo sob estes dois aspectos e fundir ambos na culminação intelectual a que ele atingiu. 
Outros fizeram a história com mais exatidão e mais verdade ― se a verdade histórica é apenas a verificação rigorosa das datas e a decifração lenta dos documentos coevos; outros fundiram em mais brônzeo estilo as cogitações do seu vasto pensamento; outros interrogaram com mais paciente e minucioso escrúpulo os monumentos do passado, legados sob múltiplas formas materiais ou morais, artísticas ou religiosas, à geração sua contemporânea: poucos têm possuído, mais ardente e mais vivo esse poder estranho de penetrar na alma de uma raça e de lhe traduzir as aspirações ocultas ou os sonhos realizados; de ler a sumula completa dos destinos de uma nação na obra truncada que ela tentou em vão consumar; de evocar em plena vibração de vida, em plena intensidade de emoção comunicativa os tipos representativos de uma época remota e finda; de emprestar a sua própria alma à alma dos mortos e de os fazer ressurgir do sepulcro, onde pareciam para sempre esquecidos, à luz fremente do mais belo e claro dia. 
Acusam-no com razão de contradições, de inexatidões e erros de fato, que um espírito inferior meticuloso podia facilmente corrigir ou evitar. Sim. Tudo isso é verdade.

Mas escrevam, se são capazes, a História que ele escreveu, interessem-nos apaixonadamente como ele nos interessou, dêem o vigor, o relevo, a vida que ele deu aos personagens que evocava, façam de cada um dos seus livros o drama agitado que ele fez, transformem a História como ele a transformou, em uma profecia, em um lamento, em uma lição, em uma sugestão ardente, em uma saudade inconsolada do que foi e não pode tornar a ser. 
Outros narram precisamente os fatos, ele comentou-os, esclareceu-os, deu-lhes o sentido oculto, a amarga e profunda filosofia. 
O nosso destino histórico; o papel particular que aos portugueses foi distribuído nessa tragédia épica da península ibérica, que deu mundos ao mundo inconsciente; o preço atroz por que nós pagamos a posse desse ideal que foi nosso um momento e que perdemos justamente por tê-lo realizado completo; ― quem melhor o soube explicar, tornar claro aos olhos ainda os menos penetrantes, tornar palpável aos entendimentos ainda os mais obtusos? 
IV
Na obra que ele deixa tão grande, que revela uma capacidade e um método de trabalho assombrosos, pois só assim se poderia escrever tanto, longe de tudo ser perfeito há muita coisa desigual, muita coisa que ele não teria escrito se a necessidade quotidiana o não houvesse por largos anos espicaçado, ― porque é preciso que se saiba lá fora que este trabalhador incansável foi um chefe de família exemplar, e que, ficando na quase infância órfão de pai, foi ele quem auxiliou nobremente sua mãe a educar e formar uma família numerosa de que até ao último instante foi desvelado amigo. 
Deve também confessar-se que há muito de injusto e de cruel nos juízos que na, temerária mocidade, isolado, e inexperiente ele formulou a respeito dos homens e das cousas. O seu Portugal Contemporâneo foi mais escrito sobre panfletos e artigos de jornal, sempre suspeitos, do que sobre documentos autênticos completados pelo austero e profundo estudo do movimento liberal que iniciou para nós a era moderna. Há capítulos na História de Portugal que os seus livros posteriores, ungidos tão docemente pelo amor dos heróis pátrios, parecem negar, contrariar, anular inteiramente. Ele próprio teve de contradizer, na maturidade do seu grande espírito, no qual um incessante progresso se faz sentir, grande parte das teorias que primeiro enunciara e que tão profundo eco tiveram na sociedade portuguesa e tão irremediável influência exerceram no espírito pessimista e desenganado da contemporânea geração. O culto dos heróis que ele acabou pregando e exemplificando da maneira mais irresistível, mais poderosa e mais bela, foi ele ― força é dizê-lo, porque diante das cinzas de um grande morto, a verdade impõe-se como um dever sagrado ― foi ele quem quase completamente o destruiu na nossa alma, aliás disposta a derrubar todos os ídolos, a escarnecer todas as religiões! 
Mas como estas maculas parciais, mas como estes mesmos enganos do seu entendimento que lentamente se foi formando, aperfeiçoando, cultivando e depurando, desaparecem no conjunto da sua obra! Mas como resgatam amplamente e soberbamente esses senões secundários, livros como a sua Civilização Ibérica tão admiravelmente traçada por um pincel de artista e de pensador, como o seu volume Os Filhos de D. João I, feito todo ele sob uma inspiração soberba da epopéia, como o seu Condestável tão belo, tão puro, em que a sua alma parece entender tão bem os mais íntimos segredos de uma alma de êxtase e de fé, prenunciando deste modo a resignação inefável, a pacificação serena e alta, a submissa doçura ao mistério supremo, no qual todas as contradições se conciliam, a humilde piedade untuosa da sua morte edificante, dessa morte que tantos bálsamos verteu no dilacerado coração da esposa, que nela teve a sua crucificação e a sua coroa, a sua maior dor e o seu consolo mais sublime!

Como em Nuno Álvares o interessa mais ainda que o guerreiro audaz o asceta e o santo! Que trechos aqueles em que ele, subindo a uma altura onde não tinha subido ainda e que representa a culminação suprema a que o seu engenho chegou, nos conta os arrebatamentos, as visões, as ascéticas delícias em que a alma do santo Condestável se dilata até aos céus! 
Neste livro, mais que em nenhum outro, o estilo de Oliveira Martins pode ser apreciado na sua complexidade e nas suas modalidades tão várias! 
É um estilo único, inconfundível, atormentado, desigual, feito de imagens propriamente suas, de torneios de frase inimitáveis e que o põem a cem léguas do classicismo aceito e consagrado. Ora se levanta em uma espécie de sonambulismo vago a alturas enevoadas e insondáveis, ora cai de chofre na vulgaridade de um realismo voluntariamente plebeu; à ironia transcendente de umas páginas opõe o amargo pessimismo de outras; à cólera convulsa que o espetáculo das cousas lhe acorda no coração, segue-se o desdém benévolo e superior de quem julga este mundo todo ilusórias aparências, que umas nas outras se esvaem e se transfiguram; o seu grande poder de sugestão vem menos dos vocábulos empregados, menos dos epítetos escolhidos, do que da repercussão indefinida e infinita que certas frases que ele emprega nos acordam na alma. Às vezes, há uma limpidez serena e correntia neste estilo mágico; outras vezes, é obscuro erriçado de símbolos, enredado em labirintos em que a mente se perde e desnorteia! 
Se o estilo deve traduzir todas as nuances de uma dada individualidade e ser o transunto claro e fiel de um temperamento artístico nunca houve ninguém que tivesse um mais acentuado estilo do que Oliveira Martins! 
De cada uma das maneiras do escritor eu queria dar ideia, transcrevendo um trecho que lhe correspondesse, mas não será melhor que cada leitor procure na obra tão complexa e tão variada, aquilo que melhor quadre ao seu gosto especial, à sua concepção artística, à índole do seu espírito... 
Recomendo-lhe, porém, as últimas páginas da mais transcendente e ideal beleza da História de Nun'Alvares, as descrições que esmaltam ora com o colorido brilhante de uma tela de Veroneze, ora com a melancolia pungitiva de uma paisagem de Ruisdael, ora com a luz aérea, docemente unreal de um trecho de floresta pintado por Corot, esse livro de todos o mais admiravelmente escrito que o historiador nos legou. 
Recomendo-lhe a análise do caráter de Nuno Álvares, de João I, dos Ínclitos Infantes, principalmente de D. Pedro, páginas de uma psicologia tão delicada, penetrante e subtil, em que o fundo místico da imaginação de Oliveira Martins se alia à sua profunda intuição dos segredos da alma humana! E o quadro magistral feito a duas pinceladas rápidas da Corte de D. Fernando, ai de nós! tão parecida com a sociedade de hoje que não sei mesmo dizer se não foi ela que serviu de modelo ao artista para chegar a conseguir tais efeitos de realismo brutal e de frisante e juvenalesca ironia! 
Não farei comparações sempre inexatas entre Oliveira Martins e outros escritores que o precederam. Acho que essas comparações não são em alguns casos mais do que erros palmares de crítica que desconcertam e irritam! Um escritor que se parece com outro, é raras vezes um artista de raça. Não pode um talento grande deixar de supor uma personalidade acentuada, forte, isto é, diferente. De resto não conheço em Portugal escritor algum, cuja índole, cujas tendências, cuja compreensão das cousas se possa comparar com as de Oliveira Martins.

Ele nunca poderá ser considerado como um representative man, nem do tempo nem da raça a que pertenceu. Daqui a sua originalidade viva e talvez o principal característico do seu talento. 
À viveza, à meiguice, à sensibilidade vibrante do meridional, ele juntava a profunda melancolia, o simbolismo vago, a flutuação de sonho do germano, e como ele tantas vezes se comprazia em ler os vestígios de antigas influências étnicas, no caráter dos seus personagens históricos mais diletos, pode também dizer-se que no seu gênio tão complexo, tão estranho, tão cheio de meandros, complicações e antagonismos inconciliáveis se casam o poético elemento celta, o positivismo calculista do fenício, a profundidade e o pessimismo semita, a viva paixão do árabe, e o sentimento da Natureza que o bárbaro do Norte primeiro sugeriu ao coração seco do civilizado latino! 

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