quarta-feira, 31 de maio de 2017

Shmuel Yosef Agnon: “Ferenheim”



Shmuel Yosef Agnon: “Ferenheim 
E Arão lançará sortes sobre os dois bodes; uma pelo Senhor, e a outra pelo bode emissário. Então Arão fará chegar o bode, sobre o qual cair a sorte pelo Senhor, e o oferecerá para expiação do pecado. Mas o bode, sobre que cair a sorte para ser bode emissário, apresentar-se-á vivo perante o Senhor, para fazer expiação com ele, a fim de enviá-lo ao deserto como bode emissário” (Lv. 16:8-10).
Não sei exatamente o que diz a psiquiatria sobre o sentimento de culpa nas relações entre as pessoas. Também não quero saber, ou melhor, não preciso saber, ou mais exatamente, é melhor não saber. Portanto, não irei a Freud. A mim me basta Agnon e seu “Ferenheim”.
É fato inconteste que todos nós estamos envolvidos direta ou indiretamente em alguma situação relacionada a sensação psíquica de culpa. Em havendo uma pessoa que nunca foi acusada de algum ato repreensível praticado contra a moral ou a lei, mesma esta, ainda que inconscientemente, mete-se dentro deste “invólucro”. Acusando ou acusado, sempre se há de conviver com a culpa. Agnon, em “Ferenheim”, parece escancarar esta realidade. Obviamente não sei se foi esta sua intenção, mui provavelmente não tenha sido. Mas, vá lá, importa que encontrei alguns indícios os quais, se não comprovam esta duvidosa conjectura, podem, a custo de algum esforço, trazer alguma luz à questão. Ademais, sou eu quem superficialmente faz a “crônica” do texto. E, como se sabe, no EU reina o subjetivismo, impera a tendência de reduzir a existência à existência do sujeito. Não devo, portanto, ser culpado por este suposto erro. Culpemos o Ferenheim! Certamente alguém, um outro EU qualquer, há de encontrar neste conto uma abordagem sobre o amor? Ou sobre a morte? Ou sobre a felicidade? Ou sobre a guerra? Ou sobre a traição? Ou sobre os dissabores da vida? Ou sobre a inutilidade da luta humana? Ou sobre... Deixa pra lá... Nem todos creem que Capitu traiu Bentinho! E Kafka? Uns viam nele um pensador metafísico; outros, um profeta do absurdo; Sartre e Camus o concebia como a síntese da incongruência do existir; psicólogos acreditaram que sua obra era reflexo de sua relação com um pai autoritário e na sua própria condição de celibatário; marxistas entendiam seus escritos como a suma do caos burguês; os surrealistas o incorporou na esfera do fantástico etc. Quem está com a razão??? Tratemos, pois, da culpa de Ferenheim...
O senhor Werner Ferenheim, que não era uma pessoa tão distinta quanto o senhor Hans Steiner, e que não tinha “negócios tão sérios” quanto este outro, não foi, por este motivo, isentado dos deveres militares. Mas, que culpa tinha se sua nação embrenhou-se numa guerra? Que culpa deveria assumir por ter deixado sua esposa e seu filho, para ir lutar contra a própria vontade por seu povo o qual sequer sabia de sua existência? Quiçá nenhuma, contudo, não fora por isso eximido dela. A culpa – intrometidamente – o acompanhou para o estrangeiro. E mesmo depois de tudo, quando retornou à sua terra natal, ela ainda o seguia de perto. Então seria ele culpado pela morte do único filho? A zeladora acreditava que sim: “Pobre pequenino, foi emagrecendo, emagrecendo até a morte”. Seria a culpa a responsável pela sua ida ao cemitério, ao túmulo de seu filho? Talvez mero intento da convenção humana. E por que sua mulher o trocou por outro? Porventura seria também culpado disso? Steiner pensava afirmativamente: “O mundo que você deixou para trás, quando foi para a guerra, transformou-se; e o objeto principal do nosso assunto também mudou”.
Se ele não tivesse ido para guerra, se se recusasse a lutar pela pátria, provavelmente deveria estar nestes dias ao lado da mulher, e talvez não com um, mas com vários filhos e vivendo uma vida de grande felicidade! A mulher não poderia ser considerada culpada, afinal ouvira dizer que ele fora capturado e feito prisioneiro de guerra; além disso, todos, principalmente o senhor e a senhora Steiner acreditavam que ele não mais voltaria: “nós confiamos em que você não iria continuar opondo obstáculos”. Se ao menos o senhor Ferenheim tivesse enviado notícias, dizendo que voltaria, neste caso sua mulher certamente haveria de aguardá-lo com ansiedade, como naquelas aventuras românticas em que o herói, depois de muito padecer distante do lar, volta rejubilosamente para os braços da amada; como um Ulisses que, depois de inúmeras agruras, retorna triunfante para sua Penélope. Mas ele nada avisou. Simplesmente apareceu do nada, e o pior, sem nada. Literalmente, sem nada. Nem ao menos um presentinho para sua mulher ele trouxe! Além disso, ela, que ainda era jovem, não poderia se submeter a um martírio, tendo de passar a vida inteira esperando alguém que ao certo não se sabia que estava vivo. Sabia ou não sabia?
O senhor Karl Neiss também não pode ser considerado culpado. Absolutamente. Ele encontrou a porta escancarada, apenas entrou como qualquer outro o faria. É certo que alguém, que “obviamente” não sou eu, poderia acusar o senhor Neiss de uma certa dose de interesse. Esta pessoa justificaria sua desconfiança pelo fato de ser Inge, como afirmou o senhor Steiner: “filha de uma abastada família”. Diria ainda, para confirmar sua tese, que ela, ainda no momento, deveria ser dona de uma bela fortuna. Daí todo o interesse de Karl Neiss. Pura ignorância! Tudo aconteceu naturalmente, sem a mínima influência dos Steineres! O senhor Werner Ferenheim não poderia ser isentado da culpa, não deveria ser livre dela. Sim, como um judeu errante, ele deveria ser condenado a errar pelo mundo, com a lembrança de um país natal distante que já não existe mais, de dias felizes que se foram como o caloroso verão, de momentos prazerosos ao lado da amada. Porque, quando deixou o seu lar, ele fechou – simbolicamente - a porta para a felicidade. E quando voltou encontrou-a literalmente trancada. E o mesmo aconteceu após o longo diálogo que teve com Inge: “Ele ainda permaneceu um pouco no aposento que Inge havia deixado. Depois voltou-se na direção da saída. Deu ainda uma olhada ao redor do quarto. E partiu, fechando a porta”. Mas, para onde será que partiu?...
Deve ter partido como Azazel, o bode emissário do Levítico, para expiar pelos desertos da vida suas eternas culpas...

É isso!
Iba Mendes
São Paulo, 2002.

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