quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Castigo do Céu (Conto), de Valdomiro Silveira


Castigo do Céu

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Mas por que foi que você me ficou querendo tanto bem?

— A falar um pouco de verdade, nem sei: mas cuido que foi porque descobri nos seus olhos a lealdade do seu coração. Você não se lembra que logo logo que tomei conhecimento com você, já contei pra muita gente que ‘tava apaixonado?

 − Lembro muito, demais: até isso aconteceu numa festa do espírito santo que houve em santa cruz; por sinal que você vinha montado num cavalo oveiro, muito feio, que pegou de corcovos assim que os foguetes começaram a chiar.

— É isso mesmo, tal e qual. Você ia saindo da igreja co’a sua mãe, e vestida de chita de ramos cor de rosa, pois não ia?

Ao lusco-fusco da boca da noite, debaixo dum çoita-cavalo de ramadas enormes, conversavam deste modo, sem tirar nem pôr, o Totico e a Rosinha. A voz dos dois era macia e de segredo quase; tanto, que um casal de chanchãs que cutucava o tronco da árvore, nem deu fé, sequer, de que embaixo havia duas pessoas: e não há quem não saiba que os chanchãs são pássaros muito velhacos e mexeriqueiros.

O Totico, afamado pela sua mão de rédea para acertar, ganhara fama também, na Mandaçaia e redondezas, de bicho carpinteiro da alminha das moças. Ele próprio afirmava, a quem quisesse aturar-lhe as gabolices, que, para mula chucra, basta passar a mão no fio do lombo e montar; que tal mula talvez dê seus saltos, um pulo ou outro, mas logo sossega e pode levar-se pela sombra, que já não conta mais histórias: e que a diferença dûa mula chucra para ûa mulher, não é lá tão grande coisa!

Depois de variadas aventuras, encontrou no caminho de suas reinações a Rosinha, a criatura mais carinhosa que Deus pôs neste mundo, e resolveu enfeitiçá-la. A pobre, que morava lá por aqueles fundos da cachoeirinha da boa vista e não maliciava de ninguém, vendo-o tão cheio de bondade e falando palavras tão doces como as que ele sabia, ficou logo entregue. E as coisas foram-se encaminhando de tal jeito, que um dia, quando ela quis precatar-se contra as tentações daquele demônio, já era tarde. Diz que cada um de nós tem seu anjo da guarda, que ensina a estrada certa da vida e livra dos precipícios: o da Rosinha na certeza cansou por então, e dormiu, deixando-a bem acordada, e o inimigo do inferno, aproveitando-se da ocasião, tomou conta daquela criatura desprevenida. Sem dúvida é assim que todas as outras erram o caminho e se perdem: um descuido, um sozinho qualquer do anjo da guarda...

Notícia má corre que é um despropósito. Em poucos dias o povo da Mandaçaia foi sabedor daqueles amores. Mulheres idosas aconselhavam à Rosinha que tivesse tento consigo, porque o Totico era uma alma perdida: e mal sabiam que esses conselhos já chegavam tarde e a más horas. Ela, então, que tiritava de susto ao pensar no futuro, principiou a ficar melancólica e distraída. No meio da melancolia e da distração em que se abismava, constantemente a viam tremer e agitar-se que nem varas verdes: e, se lhe perguntavam porque tremia assim, respondia que eram nervos. A resposta contentava, e ela ia vivendo: e, nem bem o sol entrava, já seu vulto aparecia, à espera do Totico, no lugar marcado de véspera.

Tantos medos lhe pregaram, que entrou a cismar que o Totico podia desampará-la ao Deus-dará, de uma hora para outra. E como não tinha arte nem uma para dissimular os pensamentos que a possuíam, um dia que o Totico desejou saber a razão de ela estar magoada, logo lhe foi dizendo que se atemorizara por certas prosas que ouvira: e todas lhe repetiu.

O Totico faltou só bater-lhe: ficou irado, com os olhos em ponto de fogo e a boca tremendo: chegou a dizer-lhe que, se não o acreditava, tratasse de se esquecer dele, que ele faria o mesmo e jurava e trejurava que tudo aquilo era mentira. Quem vive namorado não põe muita relutância em crer o que a pessoa predileta diz: a Rosinha, apesar de lhe fazer espécie o semblante enfurecido do rapaz, já estava meio cá, meio lá, para se convencer. O que não conseguiram as palavras, um simples agradinho o conseguiu, porque o Totico pô-se a abraçá-la, a Rosinha enterneceu-se, e a discussão não foi por diante: por estas e outras é que ele assegurava que a diferença de ûa mula chucra para ûa mulher não é lá tão grande coisa...

Ora mais dia, menos dia, a Rosinha deu de ficar moleirona e mofina. A princípio sentia umas pontadas de banda, que muito a atormentavam; depois perdeu a fome de uma vez, chegava à mesa e nem bulia nos pratos; olheiras cor de violeta cercaram-lhe os olhos; perdeu a coragem para todo e qualquer serviço; doíam-lhe as cadeiras. A mãe, que vivia na inocência, balanceava entre preparar algûa mezinha ou mandar fazer-lhe qualquer benzedura: pensou, pensou bastante, e resolveu chamar para consulta uma curiosa de muito bom renome, a Joaquina das Pedreiras.

A Joaquina das Pedreiras, tanto que soube da doença, já sentiu a pulga atrás da orelha. Veio, apalpou a Rosinha, deu-lhe palmadas leves no ventre, passou-lhe a mão no pescoço, e declarou, alto e bom som, que aquilo era moléstia de nove meses. A mãe da Rosinha pulou-lhe à goela, chamando-lhe os piores nomes deste mundo: ordinária, desgraçada, caveira do demônio, e outros de maior porte, ao fim dos quais, e sob garras tão frenéticas, a mezinheira começou a soluçar. Abrandou-se o coração da mãe da Rosinha, e a Joaquina das Pedreiras logrou sair, praguejando e com o pescoço a correr sangue. E daí a pouco se verificou que falara verdade...

O Totico fugiu às léguas, mal que soube do acontecido. Bem diziam que ele era uma alma perdida, bem diziam! Ninguém lhe botou mais os olhos em cima: tornou-se num repente sumidiço que nem bicho do mato. Apenas, de vez em quando, aparecia notícia que o tinham visto para os lados do capivara, como capataz de porcada dum tal Maneco de Lellis: até que enfim o silêncio caiu sobre o nome, e quem continuou a ser lembrada e a padecer foi a Rosinha.

E que padecimentos! As mães de família tratavam-na de resto, olhando-a sempre com ares de pouco caso; as antigas companheiras evitavam-na sempre; aonde ela ia como que tudo se desolava na mesma hora; os próprios homens erados a entristeciam, passando-lhe pitos e dizendo indiretas que a pungiam como os espinhos da macaúba com que a gente esbarra à sombra duma touceira, no emaranhado. Achava tão extraordinário o que lhe sucedia, que nem dava tino das desfeitas e como que ficara meio idiota: após tanto choro e prantear, nada mais lhe restava que pedir a Deus lhe perdoasse e a recebesse na santa glória: e não tinha ânimo de dirigir tais súplicas a aquele de quem se desviara pelo pecado.

Chegou o dia de adoecer. Foi no senhor menino. Meio mundo se preparava para ir à missa do galo, quando ela principiou a sentir as dores. Chorava que era uma lástima, queixava-se da sorte e amaldiçoava o momento em que conhecera o Totico; mas apesar de tudo não o amaldiçoava, a ele que lhe dera tais e tantos sofrimentos, deixando-a sozinha com a mágoa e com o desespero. A mãe, que de perto lhe ouvia os gemidos, tinha os olhos amarados de lágrimas: e dava dó ver aquelas duas sofredoras assim.

Quando nasceu a criança, um menino miúdo e sadio, a Rosinha desmaiou na loucura da febre; os olhos pareciam-lhe brasas ardentes, e de brasas ardentes se lhe afigurava estarem circuladas as fontes; o secume dos lábios era-lhe insuportável; o ofegar do peito doía-lhe: e como um espectro que a perseguisse, a todo instante, vagava-lhe em torno o Totico, sem dizer nada, com a expressão de semblante de um gira. Várias vezes ela disse, na tormenta do delírio:

— Nhá mãe, nhá mãe, tire o Totico daqui, porque ele ‘tá louco.

E a mãe, silenciosamente, rezava, rogando aos poderes do céu que afastassem da infeliz, ao menos agora, aquele satanás que só lhe trazia torturas. Pouco a pouco, porém, serenou o desafortunado espírito da moça: ela dormiu, num sossego semelhante ao da morte, pois mal se lhe escutava a respiração −, e a mãe, aos pés da cama, ficou velando-lhe o sono até as horas mais claras da madrugada.

Ao acordar, sobre tarde, a Rosinha pediu o filho. Contemplou-o largo tempo: e uma enxurrada quente de lágrimas deslisou por suas olheiras abaixo, até cair às faces e à boca da criança, que lhe estranhou o amargor. A Rosinha então falou-lhe, como se a criança pudesse entendê-la:

— Meu choro é muito amargo, filhinho? Veja só quanto aquele home’ de coiração de pedra não me tem feito sofrer! Mas tomara que nada lhe aconteça, porque pode que inda sirva de muito pra você, pra você que é tão desprotegido, meu filhinho!

Foi um inferno, a vida que a Rosinha levou, até que o menino engatinhasse. Vigiá-lo a toda hora, quando o serviço caseiro queria cuidados contínuos, quando era preciso contar a criação, aprontar as rações do curral e do chiqueiro, fazer o almoço e a janta, remendar as roupas velhas, são coisas que só não pesam a quem traz o coração lavado e alegre. Fraca se sentia, a coitada, assim que se deitava para conciliar o sono: e esse mesmo era interrompido sempre pelo chorar noturno.

Pesadelos e maus sonhos apenas esperavam que ela cerrasse os olhos, para angustiá-la: e sucediam-se um após do outro, noite fora, como uma singular penitência. De modo que os olhos se lhe afundavam, as faces iam-lhe tomando a cor das velas de cera e a voz se lhe fazia abafada e baça.

Afez-se a madrugar demais. Nem bem a manhã principiava a arraiar, levantava-se; muitas vezes, ao depois de assear a criança, chegava ao pátio, sentava-se a um banco de peroba, e punha-se a contemplar o filho, com uma tristeza que era também enternecimento e apreensão: vendo bater os primeiros raios de sol naquele rosto mimoso, assustava-se, ideando que um fio de sangue lhe corria pela epiderme, provindo d’alguma grande ferida: erguia-se então de pronto, caminhava para a faina.

Mandava nûa máquina de costura como ninguém; para botar uns pespontos, estava de banda; lidava muito bem na feitura das rendas: e como atravessava quase o dia inteiro junto à máquina, foi um dia remexer moldes antigos para fazer certo vestido. No meio dos panos e papéis havia de tudo: dedais, agulhas de mão de todas as grossuras, linhas de todo número, retalhos de chita, alfinetes. A brilhar e rebrilhar entre aquela trapizonga, apareciam vidrilhos ao lado de carrretéis, contas de pérola espalhadas a parzinho de contas de celulóide. Através da barafunda, movida e removida, tremeu alguma coisa que dava ares de nada valer: uma rosa seca. Pois foi de admirar o estremecimento que a moça teve, ao tocar na triste flor, e ao vê-la murcha assim: era de jurar que a pobre moça imaginava que a pobre rosa, amiga sua, padecia o mesmo desespero que ela!

Rosa que tudo dizia! Uma vez, depois de olhares amorosíssimos trocados de esconso, na igreja, nos pagodes, ao longo das estradas da Mandaçaia, a Rosinha encontrou-se com o Totico por debaixo dum çoita-cavalo, no pasto, e prosearam muito tempo... Foi dessa vez que ela se sentiu entregue e sem defesa, e foi aí que recebeu aquela flor, que passara a suas mãos de uns dedos trêmulos e como febris. Desde então não soubera nunca mais o que é descanso de coração: e sentia-o agora avelhentado e sem esperanças, tal e qual aquela mesma flor, que era impossível revivesse e corasse ainda.

Inclinou-se para a gavetinha onde se amontoavam os guardados; repousou o queixo na mão direita; os pensamentos, cruzando-se-lhe no espírito à semelhança de um bando de passarinhos estonteados, voaram, voaram: e enquanto eles partiam − talvez ficasse saudosa por vê-los partir, talvez medrosa de que voltassem −, de novo o ribeirão das lágrimas correu por aquele rosto meigo, em dois galhos, sobre os leitos escuros das olheiras.

Já transmontara o sol, quando surgiu da abstração em que se embrenhara. Acumulavam-se nuvens extravagantes, ao longe, como se houvessem nascido do seio das montanhas e agora crescessem apavorantemente na meiga luz tristonha do crepúsculo. Os urutaus gritavam de pedaço a pedaço, os xintãs davam os derradeiros pios. O ar estava carregado de um cheiro forte de cambarás-de-lixa. Os sabiás-unas cantavam cantigas apaixonadas.

Rosinha pôs-se em pé, serena que nem um fantasma: e por virem os últimos raios do sol avermelhar a janela a que se recostara, seu rosto ainda inculcou mais sofrimentos, dentre o fogo triunfal que a circundava. 

Mais tempo, menos tempo, ia passando pela estrada o Totico, algum tanto arrependido da feia ação que praticara. Vinha montado num tobiano uçu, bracejador e engraçado como poucos: e como a estrada tinha muito estrepe, o tobiano dava muitas topadas: e como a alma do Totico se achava deveras apreensiva, cada abalo do animal lhe era um abalo no fundo da alma.

Ao chegar em frente à porteira do pátio, conheceu a Rosinha; conheceu-a, e ficou duro no socado, tal e qual como se tivesse tido um acidente, porque a viu magrinha e pálida a causar pena: e sentiu forte pena, realmente, acompanhada às surdas de um remorso muito agudo, que ele ainda se não confessava, mas que o deixava todo amargurado.

Quis voltar por algum desvio, mas já não pôde, que a mão não teve forças para torcer a rédea: e permaneceu larga temporada a vizinhar com a porteira, tendo os cabelos em pé e o corpo frio. Não lhe vinha uma ideia salvadora. Botaria o tobiano a galope? Faltava-lhe coragem. Abriria a porteira? Não tinha modos de falar à Rosinha, à pobre a quem perdera, e de cuja existência negra tivera notícias lá pelo capivara. Ela, porém, saiu ao pátio: e o poente desmaiava a pouco e pouco, no momento em que deu a mão ao Totico para ajudá-lo a apear. A voz paralisava-se-lhes na garganta; o grito longínquo dos urutaus infundia um pavor indizível à quietez da natureza sonolenta: − e podia-se pensar, olhando-os, que o que sobremodo lhes tolhia a voz e os magoava tanto era o lamento sugestivo dos urutaus.

O Totico, de repente, montou de novo. Impulsava-o um sentimento desconhecido, talvez o medo de si mesmo, da sua consciência pecadora e baixa. Cravou firme as chilenas nas ancas do cavalo.

E enquanto Rosinha lhe perguntava:

 − Pois você nem ao menos quer ver o filhinho, desnaturado? − a imagem do pampa sumia na poeira do caminho, clareada do luar nascente. O Totico soluçava; seus soluços, levados pelo vento, confundiam-se com os dos curiangos: e não se sabia bem quais eram os mais doloridos.

Ninguém o esperava em casa, e foi uma festa o verem-no chegar assim de surpresa. Cercaram-no todos os seus, a abraçá-lo; mas, reparando-lhe nas esquisitas feições do rosto, assustaram-se e murcharam como por encanto. Cada qual queria saber a razão de tamanho banzo: e as confidências apareceram na conversa, recatadas e segredosas. Explicava o Totico a cena acontecida, e seu falar parecia nublar-se de um nevoeiro de incertezas: pois dizia, o infeliz, que outras mulheres também tinham choramingado um eito, mas afinal todas se consolaram e aí andavam pintando a moringuinha pelo mundo de Deus.

Todos se arrepiaram, recordando-se da Rosinha: que essa, qualquer podia jurá-lo em cima duns evangelhos, não procedera por tal forma.

E, para realçar a constância da roceira da Mandaçaia, não faltou quem narrasse os delírios que ela teve, e as frases que dissera através dos delírios. Foi repetida a história de que ela falara à mãe, uma vez, lhe tirasse de perto o Totico, porque ele estava fora do juízo.

Mal que lhe soaram as últimas palavras da narrativa, o Totico estremeceu como um broto de assa-peixe à ventania; enveredou por um cogitar complicado e cheio de labirintos, do qual só rompeu muito tarde depois, quando os galos já estavam amiudando.

Abriu a porta que dava para a estrada, e olhou a noite de lua.

Viam-se bem as sinuosidades das serras e os recortes fantásticos dos caminhos, por onde, a quando e quando, avoaçavam os purrutuns, numa perseguição lasciva que falhava com a sumidura das companheiras para o outro lado da aguada. O acertador sentia-se perturbado: se aquilo saísse certo? Se ele ficasse doido, agora?

Aturdia-lhe as fontes e ouvidos em extraordinário fragor; ficaram-lhe as pernas bambas, sem resistência, a badalejar uma contra outra; o coração galopava-lhe desesperado na caixa do peito; o olhar enchia-se-lhe de avassaladora umidade... Tornou-se necessário que o chamassem, para afastar-lhe do espírito aquela obsessão; deitou-se, dormiu um sono entrecortado de pisadeiras e súbitos despertares, ao fim do qual viu-se fatigado como depois de um serão trabalhoso. E a lembrança do delírio da Rosinha voltava-lhe à mente, a todo instante, com uma insistência vivíssima.

Perguntaram-lhe, à hora do almoço, porque não casava duma vez com a Rosinha, que era tão boa, e lhe queria tanto, e lhe fora tão fiel, e por ele topara tanto padecimento na vida? Era o desejo que ele tinha agora, mas faltava-lhe ânimo para mandar um recado àquela desditosa. Ir, bem podia ir sozinho, para ninguém presenciar a choradeira lastimosa que havia de haver: ela por um lado, ele por outro. Mas, pensava, ao mesmo tempo, que seria até capaz de ficar sufocado e não poder dizer coisíssima nem uma, por amor da comoção. E só a ideia do quanto se lhe iria aumentar o remorso, ao pé da Rosinha, atenuava-lhe sobremaneira a força da resolução. Por último, quase que se resolvia a ir em pessoa procurá-la.

Pensava no meio de se dirigir à malfadada criatura, quando viu em torno de si rodopiar tudo à semelhança de milhares de piões; vergaram-lhe os joelhos; as mãos tactearam-lhe, em desvario, o arredor: e caiu com os olhos em alvo e a boca espumante, num ataque convulsivo.

Escabujava como um possesso, arqueando e distendendo o corpo, tornando a arqueá-lo e distendendo-o logo em seguida; agitavam-se-lhe, num frenesi tremendo, os cantos da boca, donde a par da espuma, rompiam estrias de sangue arrancado, com a fúria nervosa, dos rebordos da língua; os braços, que durante momentos apenas tinham acompanhado ao de leve os movimentos de todo o corpo, barafustavam desesperadamente, dando cotoveladas e punhadas terríveis pelos móveis.

Depois, com gradações de mais em mais espaçadas, foi sossegando; o arquejar acelerado do peito diminuiu, ao passo que o corpo se inteiriçava em decúbito dorsal; as mãos caíram-lhe sobre o ventre, enclavinhadas já sem crispações; os olhos deixaram de tremer, tomando ares de olhos de idiota; quietou a boca: − e um suspiro prolongado deslisou pelos lábios cheios de espuma e de sangue.

De roda dele diziam que aquilo era um ataque de gota, feito os que o pai também tivera em vida, tal e qual: decerto pelo exagero da viagem. As vozes eram cochichadas com resguardo, sucediam-se os gestos e os sinais. E a mãe do Totico, aloucada de pavor, fizera-se branca que nem um bugarim, dizendo que aquilo não passava de castigo do céu. Foi então que apareceu a Rosinha, chamada às carreiras: aproximou-se do Totico, pôs-lhe a mão na testa suarenta, e, como ele fitasse nela um olhar assustado e longo, falou-lhe:

— O que é isso, Totico? Aqui ‘tou eu, a Rosinha, que te perdoo e te quero bem como toda a vida!

Ele custou a erguer-se, mas ergueu-se. Pôs-se de joelhos, ali no chão mesmo, em frente à Rosinha, com os membros ainda mordidos de tremuras repentinas, quase calafrios. E enquanto ela se abaixava para abraçá-lo, febricitante e chorosa, o filhinho começou a brincar com os cabelos de ambos, rindo perdidamente. 

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