10/26/2017

Reis (Conto), de Valdomiro Silveira


Reis

Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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O melhor presépio que se fez, esse ano, em Lorena, foi com certeza o da casa do João do Santo, um home que não era rico mas arremediado, e tinha uma filha de mão boa demais pra um serviço fino assim, chamada Ginerosa. Já de longe, reparando no jeito em que estavam postas as flores, armada a arve de bacupari, cheinha de frutas doiradas, e arranjados os três reis e o Senhor Menino (que por sinal era gordo e corado, muito alegre) e nossa senhora e São José e a jumentinha e o burrico, todos diziam:

— Qual! Pra estes perparos não há mesmo outra que nem a Ginerosa!

Ela então andava numa dobadoura, vai pra aqui, vai pra ali, atendendo às visitas, recebendo os presentes, dando as lembranças que cada um queria do natal, e rindo, rindo, que era só aquela alegria!

Quando foi sendo meia-noite, o João do Santo repontou o povo todo pra missa do galo: algum piá que estava meio morrinhento de sono, saía um tanto atropelado, que ele assobiava no ouvido do tal, e não havia como o piá não levantasse; a nhá Rita, mulher do dito João do Santo, redonda de graxa, a coitada, via-se num tipiti, pra caminhar a par de tamanha gentarada, e (com perdão da palavra!) ia bufando que nem um redomão que acabou de tomar um galope decidido. A Ginerosa, com sua saia de balão entusiasmada, estava de matar.

Assistiram à missa, que acabou ali por volta de uma hora da madrugada, porque seo padre vigário, um velhinho já cata-cego e rouco, mal podia enxergar as letras do livro santo e falava numa voz baixica mesmo. E já iam indo de volta pra casa na virada de uma esquina...

... quando rebentou de uma outra o bando dos cantadores de reis, pedindo esmolas pra última festa do nascimento de Nosso Senhor. E que bando destorcido! Não contando o povaréu do acompanhamento, que estava duro deste feitio, lá se via bem à frente, todo concho c’a sua viola marchetada, em cuja cravelheira tremia uma fita vermelha comprida, o Antoninho Cabo Verde, pisando em lã e em ovos, e o Chico Pintassilvo, c’o machetinho na mão, olhando por cima de tudo, serenando de contente.

Senão quando o machetinho picou e a viola foi só rasgando, ao passo que aquele mundão de caboclada cantava num coro alto:

“Ó de casa nobre gente,
escutai e ouvireis:
lá da parte do oriente
são chegados os três reis.”

E verso e mais verso, um em riba de outro, numa cantoria tão bonita que, depois que o barulho tinha acabado, muito tempo, a gente inda cuidava estar c’os ouvidos encantados de tão linda toada!

Assim que o bando fronteou a casa do João do Santo, o Chico Pintassilvo, que vivia numa paixa desapoderada pela Ginerosa, percurou aproximar-se dela e, com todo o respeito, a bem dizer até um pouco enleado da língua, pediu-lhe qualquer coisa pra festa de reis. A Ginerosa, Cristo Deus − ficou atada dos pés e das mãos, naquele instante: mas sossegou, mal e malzinho, foi pra dentro, voltou pra fora, trouxe uma moeda de ouro, das de meia dobra ainda, e disse-lhe estas palavras:

— Olhe, nhô Chico: a única coisa que eu pissuo de meu é esta moedinha, que vai dada de coração.

Ele agradeceu, afastou-se cada vez mais atrapalhado, deu adeus, foi-se embora.

E o bando dos cantadores ia pintando o caneco pelas ruas, fazendo um rumor desesperado. Começava a arruivar-se um ladinho do céu, que depois ficou vermelho, e depois amarelo, p’r amór de o sol. A rapaziada, que estava tonta de sono, sumiu como por acaso: a Lorena caiu logo num sossego, num sono também que, mal comparando, parecia de ares de çumitério.

O peditório ia desde o Natal até os Reis, todo dia. Formou-se aquele ano um terno que então sabia folgar direito, com cada peito limpo que não tinha corage de negar uma dávida qualquer. Mas não podiam receber dinheiro em nota, porque, segundo a voz geral nunca houve notas lá por Belém; outra: quem não tinha de seu um vintém, um quarenta, um cobre paraguaia, entregava frangos, leitoas, frutas, bobages que servissem pra se venderem no dia último das festas.

Amanheceu o legítimo dia dos Reis. Povo estava assim no largo da igreja. Nem bem foi ouvida a missa, já todos se esparramaram por ali fora, pra verem o bando uçu de cantadores. Seo padre vigário, o pobre! — assim que passou entre eles, arcado por via da idade, murcho do rosto, fraco dos olhos, não teve mão em si que não deixasse duas lágrimas correrrem-lhe pelo rosto abaixo. Decerto seo vigário, no tempo de moço, também foi do chifre urado com argolinha na ponta, decerto gostava bem de suas patuscadas e folias: agora, acarcanhado e preso por aquele vestido preto, o único remédio que lhe sobejava era mesmo chorar, o pobre!

O machetinho gritou só no fundo do largo, e daí a um baque a viola repinicou buliçosa e sirigaita, acompanhando, e a moçada reuniu-se perto do Antônio Cabo Verde e do Chico Pintassilvo. E lá foi o povão, cantando.

Tinha umas moças que apareciam, de vez em vez, e pediam festas por este modo, enjoadas demais:

“Moço formoso e cortês,
eu quero o meu Reis.”

Quando o sol estava querendo morrer lá pra umas serras grandes que pareciam espetar o céu, de tão finas na ponta, a moçada foi pras casas onde tinha presépios, porque era a hora de leilões de tudo quanto havia. Vendia-se tudo: as folhages, as flores, as frutas, os animais: só a Santa Família, os Reis, a jumentinha e o burrico não se vendiam, ficavam pro presépio do ano que vinha. Apareciam uns ovos da ascenção, enfeitados de fitas, e o leiloeiro gritava, a mó’ que esbaforido até:

— Afronta faço que mais não acho! Um ovo da ascenção, ovo que não apodrece, que dá felicidade, que traz fortuna! Dou-lhe uma, dou-lhe duas! E lá vai o ovo da ascenção por vinte mil réis!

E ia às vezes por mais, cada ovo! Também, quem arrematava um daqueles, guardava-o bem, com todo o carinho, porque é certo que faz ventura e tem o cheiro perfeito do benjoim com que a pecadora banhou os pés de nosso senhor, quando ele já era home e ela era morena muito fermosa, conforme dizem aqueles livros que têm a vida de Nosso Senhor.

Chegou a hora da casa do João do Santo; pra lá se dirigiu a rapaziada, que levava um cesto macota de dinheiro e quanta criação e coisa de mesa se pode imaginar. Foi o presépio arrematado, pedaço por pedaço: e a Ginerosa, que já se acostumara com ele e beijava toda hora o Menino Deus (porque contam que quem tem fé c’o Menino Deus consegue tudo quanto quer) viu ir saindo tudo: os carneiros, a graminha da manjadoura, os jasmins de um lado, os cajus de outro, e os anjinhos pendurados das folhas de caeté com flor que ali faziam figura, tão engraçados com suas asas de cor!

Por derradeiro, assim que tudo se entregou aos lançadores, no leilão, o capataz do bando que era o Antônio Cabo Verde, foi mandar fazer a ceia co’aquela dinheirama, e aprontar quanto pato e marreco e veado e paca tinham ganhado.

O Chico Pintassilvo, esse não quis saber de mais nada: folgar por folgar, antes ali perto da Ginerosa, seu tanto escondido, confessando tudo que sentia por ela, tal e qual um que está aos pés do padre, em segredo. E a Ginerosa, que lhe percebeu o jogo, logo-logo achou talho de conversar com ele, junto da arvinha de bacupari que inda balançava a um canto. Quanta coisa não conversaram, quanta! E foi depois de muitas horas, quando já estava roncando na sala dum vizinho o realejo do baile pra depois da ceia, que o Chico, assim c’a voz quase presa, receoso, contou pra Ginerosa:

— Ginerosa, amanhã, se vancê me der licença e Deus me ajudar, eu vou falar pra seu pai no casamento.

— Fale, nhô Chico − ela respondeu: fale, e fique na certeza que a melhor festa que vancê me podia dar é esta mesmo.

Depois, assim que não se via mais viv’alma na sala do João do Santo, além do Chico, e o baile inda não tinha principiado, a Ginerosa foi pro quarto, puxou o Menino Deus da caixa dos vestidos, abraçou-o, uniu-o bem aos peitos, e pegou a murmurar como se fosse às orelhinhas dele:

— Bem se diz, meu abençoado Menino Deus, que quem se apega com vós consegue o que deseja. Bem se diz!

E como já a tinham chamado umas par de vezes, saiu do quarto cantando.

O realejo roncava na casa do vizinho. Daí a pouco principiaram a dançar o baile, c’um estrépito danado. E o Chico Pintassilvo, distraído na sala do João do Santo, fazia que estava olhando as flores doiradas do bacupari, mas o que estava o que estava era olhando a porta da varanda pra não perder nem um pouco de tempo de contemplar a Ginerosa.

Ela apareceu, daí a bocado, e tanto que entraram no baile (isso é que foi a gana das moças e dos moços!) deram logo nas vistas, de tão jeitosos que iam. Seo padre vigário, que se sentara um momento ali na sala, por comprazer aos donos da casa, foi logo pra perto deles: e com a mão aberta, explicando não se sabe o que, aos dois, parecia estar já abençoando-os...

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