sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

As árvores (Conto), de Coelho Neto



As árvores
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Li algures que, na China, quando nasce um infante, os pais plantam uma árvore. À medida que a criança vai crescendo, vai a árvore ganhando vigor e beleza; e quando o petiz, ainda mal seguro nas pernas, sai, arrastando pela cauda um minúsculo papagaio de papel de arroz, pintado a cores, a sua verde irmã, lá de longe, acena-lhe com todos os seus ramos viçosamente cobertos de folhas e, se é precoce, recamados de flores.

Para alentá-lo tem o jovem chim os cuidados domésticos — os pais não o perdem de vista e a ama tártara, solicita e carinhosa, segue-o a toda a parte, protegendo-o, ao sol, com a sua sombra, equilibrando-o com os seus braços, animando-o com o seu canto monótono e, à noite, depois de o adormecer com uma história maravilhosa, deita-se-lhe junto ao berço de laça, em fina esteira e, ao mais leve resmungo, ei-la de pé, debruçada, a examinar a cócedra macia, a sacudir o mosquiteiro ou a balançar, de leve, o berço delicado. De manhã, lá o leva ao ar puro, aos jardins, a correr na relva ainda úmida e, quando o sol aquece, vai ficar à beira dos lagos que parecem dormir um sono doce e eterno e sobre os quais as aves, que se refletem ligeiramente, passando e fugindo no ar, são como iterativos sonhos.

A arvorezinha tem apenas o sol e as chuvas que a vão nutrindo e, nos tempos secos, duas vezes ao dia, ao partir e ao chegar das pombas domésticas, a rega do velho tangia melancólico. Ninguém a agasalha — dorme exposta ao tempo, ao clarão dos luares, e cresce, enfolha-se, frondeja e floresce.

O jovem chim deixa os braços da ama e, seguindo para um quiosque forrado de seda, alto como um tai, agasalhado discreta, silenciosamente num bosque de bambus, entrega-se a um velho letrado que lhe fala dos grandes espíritos do império: Laotseu propagando a doutrina de Tao, Confúcio ditando aos discípulos as tais sábias leis puras da moral dos lamas contemplativos que descem do Tibete, como uma corrente beneficiadora, fazendo crescer nas almas a esperança e, por desfastio, de quando em quando, lá lhe põe ante os olhos uma peça dramática composta por alguma das mulheres do régio liarem para os cômicos da corte.

Depois são as armas — é um espadachim que lhe transmite a sua ágil ciência, manejando uma espada ou enristando uma lança; depois o mestre de equitação que aderência um alfario árdego até que, um dia, moço e lindo, gracioso e robusto, para continuar a glória da sua casa, os pais, depois de muitas consultas, resolvem dar-lhe por esposa uma princesa manchu senhora de terras vastas, ricas em arroz e em árvores de laça.

Contratada a aliança, determinado o dia dos esponsais, é logo chamado um artista perito para construir o leito nupcial. E a árvore que, ia fora, toda se enfeita ao sol, a árvore plantada no dia do nascimento do noivo, alta e forte, verde e em flor, é sacrificada como uma vítima. Recebe no tronco um golpe fundo, outro logo, ainda outro, cava-se uma cinta donde escorre, como sangue novo e sadio, a seiva loura, saltam aparas e a madeira ringe, estrepita, estala, oscila e pende. A fronde ainda resiste, mas a uma leve aragem, derreia-se languidamente e, ao peso da folhagem, inclina-se com fragor atroante e tomba com sonoro farfalhar de folhas e de galhos.

É depois arrastada, entra na oficina, é serrada, acepilhada, torneada e vai, pouco a pouco, sob os ferros do artista, tomando a feição graciosa de um leito. Os embutidos enfeitam-na, os vernizes emprestam-lhe brilho resplandecente, o ouro enriquece-a em filetes de caprichosas voltas e, no respaldar, o dragão emblemático de rútilas escamas, contorce-se, de olhos fuzilantes, com as garras de ouro esmagando crisântemos e lírios sobre um fundo vago, indefinido, onde voam garças.

É nesse leito que se reúnem os membros da nova família. A árvore torna-se assim como um elo humano — o seu destino é nobre, a sua genitora é poética e, à proporção que sobe, vão os pais sentindo que o tempo de cuidar das bodas e ela, toucando-se de flores, parece estar a chamar a linda noiva, que deve repousar nos seus braços e gerar no seu colo.

Eis aí um culto poético que, se não garante a eternidade do vegetal, estabelece, ao menos, a obrigação do replantio. Assim, na China, enquanto nascerem infantes, nascerão árvores. Um pimpolho que engatinha indica que há uma ramaria a dar sombra e flor, um tronco forte, não longe, destinado a ser o tálamo sagrado — e ganha a natureza com essa tradição poética, criada, sem dúvida, por um filósofo budista, defensor de animais e florestas.

Por que não havemos nós de imitar, no amor, essa gente bárbara, que vive confinada entre as altas muralhas, além das quais não chega a civilização? Se um bruto mongol entrasse em uma das nossas matas e encontrasse o lenhador derrubando velhíssimos troncos, não para aproveitá-los em úteis construções, mas para reduzi-los a achas, certamente, e com razão, tomá-lo-ia por um bárbaro. Pois esses bárbaros constituem legiões — do extremo Norte ao estremo Sul do Brasil o machado trabalha desapiedadamente, sem descontinuar, devastando.

Quem percorre o interior paulista vê, ao longo das linhas férreas, altas trincheiras de lenha — é o tributo florestal. As locomotivas, como os dragões das lendas medievais, exigem esse repasto cruel. A tarasca de Ehódano reclamava virgens; o monstro de ferro exige o cedro, e a selva despovoa-se em proveito do que chamam — o progresso.

A área esterilizada pelo machado é imensa — o cálculo feito por um distinto engenheiro, o dr. João Pedro Cardoso, assombra e prova, com algarismos irrefutáveis, que se os lavradores não tratarem, em tempo, de sustar a depredação, dentro em breve uma grande área do riquíssimo Estado de São Paulo não será mais que vageiro esmarrido.

Com a morte das árvores desaparecem as fontes: rios que rolavam águas abundantes derivam agora em filetes rasos e tão escassos que uma quente semana de verão à bastante para secá-los; a caça rareia. Estrangeiros, que percorrem o interior, voltam impressionados com a ausência de pássaros — não se ouve um gorjeio, não se vê um ninho — tudo é silencioso, e viaja-se longamente, ao sol, sem um oásis, sem uma árvore, mas os tocos adustos, que apontam à flor da terra, atestam a existência anterior de florestas grandiosas — levou-as o machado, arrasou-as o fogo, e, sobre, o terreno, nu e sáfaro, cresce a erva maninha que apenas serve de abrigo à serpe. O ar vicia-se, o mesmo clima modifica-se, e isso é notado pelos velhos moradores desses lugares, dantes bem regados e sadios, e hoje secos, ingratos e insalubres, onde o homem não vive nem a sementeira vinga.

Além das estradas de ferro, que devoram as florestas, grande número de fábricas não queima outro combustível senão a lenha, e já não falo na que se consome nos fogões domésticos.

O lenhador vive folgadamente, sem preocupações — não tem o cuidado do lavrador que se alarma quando, no tempo da florada, o sol abrasa ou grandes chuvas assolam; não lhe importa a geada, as larvas são-lhe indiferentes — sempre é tempo para destruir e o mercado é sempre lucrativo.

Um ferro de bom geme, o carro e quatro juntas de bois bastam ao que vai à floresta, e quem atravessa as estradas ouve monotonamente os golpes do machado, de repente um grito de aviso e logo o estrondo da queda da árvore talhada.

Parece, entretanto, que já se vai sentindo a necessidade do replantio; os mesmos “fazedores de desertos”, como muito bem lhes chamou Euclides da Cunha, começam a compreender o mal que fizeram, mas não se atrevem a repará-lo, porque é mais difícil construir que destruir — emigram, talvez com remorsos, passam adiante, de olhos compridos, consultando os horizontes rasos, e onde descobrem verduras frondosas, aí ficam, afiam os ferros, armam ranchos e entram em exercício.

Dizem-me que há leis decretadas em favor das árvores, afirmam-me que o Congresso já se preocupou com essas míseras autóctones, mas quem há de fazer respeitar a lei? Onde estão os nossos guardas florestais, a nossa polícia das matas e dos campos? Ninguém os viu até hoje. O homem, que atravessa a trilha com a caçadeira e um cão, é um pobre matuto que vai bater a macega ou o cerrado, ver se levanta uma perdiz. As árvores não têm defensores.

As municipalidades evitam, com esperta prudência, a luta. O fazendeiro declara que as matas lhe pertencem, são seus bens, pôde mandar destruí-las se assim lhe convier. Que lhe importa a manutenção dos mananciais que abeberam a cidade ou a vila? a lenha é tão sua como o café e o milho, a cana e o feijão, o arroz, a batata e a mandioca que ele colhe e manda ao mercado, e o lenhador errante é um voto certo e será um terrível capataz da oposição se a municipalidade lhe sair ao encontro proibindo-lhe a faina cruel.

E, dia a dia, vão os bosques desaparecendo. A região privilegiada e formosa das árvores será, em breve, mais árida e mais nua do que a Líbia estéril. Os mais belos espécimes da nossa flora riquíssima somem-se reduzidos a cinzas e os animais emigram, fogem: uns pela terra, outros pelos ares, buscando novos abrigos, e a terra alhanada, deserta, com uma hirsuta felpa de capins ressequidos, estende-se, plana e solitária, ao sol que a queima, cheia de cepos tostados, que são como fragmentos de colunas, restos de um fastígio morto, escombros de uma glória extinta, ou cipós funerais num cemitério.

O arvoredo é o grande químico de Deus. Felizmente o alarma, que repercute em todo o Estado, vai despertando a atenção dos que ainda se interessam pela sorte desta terra formosa, rica e desgraçada.

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