sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Balões (Conto), de Coelho Neto


Balões
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Dizia-me, uma tarde, com muita gravidade, o conspícuo comendador Juvêncio, lamentando o desastre de que foi vítima Augusto Severo:

— Meu amigo, a verdade é que todos nós temos o nosso balão. Aqui nesta sala só há aeronautas.

Vendo o ar de espanto com que recebi a sua afirmação, o comendador, tirando estrondoso pigarro da formidável goela — que é um abismo, segundo dizem na praça — avançou a poltrona juntando aos meus os seus joelhos enormes onde as rótulas são verdadeiras sacadas.

— Ouça, meu amigo. O senhor é ainda muito novo, vê o mundo através de ilusões; eu tenho vivido muito, conheço todos os segredos da vida. A alma não tem mistérios para mim. Eu é porque não tenho tempo, senão o senhor havia de ver o belo estudo que me saía da pena, apojado de notas, farto de observações, com os nomes, com as datas, completo e irrefutável. Todos nós temos o nosso balão. Vê aquela criança que ali está ao eólio da ama, toda enfolhada em rendas! tem o seu balão.

— Aquela criança!

— É como lhe digo; e lá está ele, ou antes, lá estão eles túmidos, retesando o corpinho da rapariga, não vê?

— Os peitos da ama?

— Naturalmente. O pai tem um balão e há quem afirme que é obra fina: tem dado excelentes resultados nas experiências — é a tal máquina de chocar.

— De chocar!?

— Pois não. Ele entende que tudo pôde ser chocado, é uma simples questão de estufa: choca pintos, carneiros, bichos de seda, café, crianças...

— Como crianças?...

— Sim, senhor: crianças. O filho do Amadeu é um produto da sua máquina, pelo menos é o que dizem. Como foi, não sei, mas a coisa é pública.

— E o Amadeu?

— O Amadeu está também às voltas com o seu balão, que é uma história de pesca na Amazônia para exploração do charque do peixe-boi.

— É extraordinário!

— É natural, meu amigo. Vê ali a menina Alice a conversar com o Lino? está a encher o seu balão e Deus queira que lhe não saia hoje mesmo dos lábios o famoso Lachez tout. Não vê a quantidade de gás que ela está para ali a consumir? a falar, a sorrir, a mostrar o pé, a descobrir os dentes? Tudo aquilo é gás e do bom e o Lino começa a oscilar. Eu daqui estou a ouvir as pulsações do motor. O amigo há de ver, em breve, a ascensão.

— Mas o Lino não é partido para a menina Alice.

— Por quê? No casamento, como em política, não há partidos, há conveniências: casa? elege? é quanto basta.

— O Lino é impetuoso, violento...

 — Já sei, o amigo receia a explosão? Mas o senhor não sabe que o marido é um baião cativo! Hão há perigo. Demais, a menina Alice é segura, não é das que alijam o lastro: quando ela vir as coisas mal paradas...

— Apela para o divórcio.

— Qual divórcio! Apela para os próprios encantos e... Mas vamos adiante. Conhece aquele calvo que ali está, no vão da janela?

— E o Simas, tem também balão!

— Político; tem cabido muito, volta e meia é uma queda, já até caiu uma vez no ridículo, quando pronunciou na câmara aquele famoso discurso afirmando que a crise do açúcar era uma consequência natural da crise do café, e propondo, como medida atilada, que se desse o café de graça ao estrangeiro porque, como não se bebe café sem açúcar, ele seria forçado a vir buscar esse gênero ao mercado e então far-se-ia a alta do açúcar, alta que daria para indenizar o fazendeiro.

— O plano não deixa de ser engenhoso.

— Mas é idiota. Temos ali outro aeronauta. Está a insuflar um aparelho que, se nada vale na aparência, é uma preciosa máquina, de construção muito sólida e com excelente motor.

— Quer falar da baronesa?

— Sim! a baronesa vai para os sessenta anos.

— É um balão prático.

— Tem duas ascensões: a primeira com o Pimentel, coitado! Ela tinha dezoito anos e uma beleza de atordoar e o Pimentel era maduro, resultado? veio lá de cima pondo sangue pela boca, deixando um lastro de quinhentos contos e duas fazendas no oeste. A segunda foi com o barão que, apesar de mais cauteloso, não pode, ainda assim, evitar a queda.

— Mas dizem que...

— Que ele caiu de outro balão. Sim, pode ser, porque fazia experiências com diversos. Não afirmo — o certo é que, apesar dos precedentes desastrosos, o nosso amigo está a querer meterse na barquinha.

— Diga antes: barcaça.

— Ou isso. E todos aqui, sem exceção...

— Quer dizer que o senhor também?...

— Pois não, não fujo é regra: também tenho o meu.

— E qual é, comendador?

— É... a imbecilidade humana.

— E, releve a minha indiscrição: como consegue equilibrar-se?

— Facilmente: manobrando. Se tenho contra mim um poderoso, humilho-me; se tenho um fato, lisonjeio-o; se é um tímido, apavoro-o; se é um ousado, acorçoo-o; se é um pobre, desprezo-o; se ó uma mulher, louvo-lhe a beleza e assim me vou mantendo sempre a favor do vento, buscando a corrente da simpatia, que é corno um mar de leite para navegar-se.

— E nunca caiu, comendador?

— Sim, sim, já levei um tombo: meti-me num balão vagabundo que anda agora pelos teatros e cai na cama onde estive três meses, entre a vida e a morte. Felizmente curei-me.

— E está pronto para outra?

— Isso não: a experiência foi rude. Contento-me agora com os balões práticos.

— Pois eu confesso que não tenho balão algum.

— O senhor?

— Eu mesmo, comendador.

Mas chamaram-nos para o chá. Íamos pela galeria vagarosamente, respirando o perfume que entrava, com o luar, pelas janelas abertas. O comendador insistia em demonstrar-me que todo o homem tem o seu balão, quando ouvimos um sussurrar que parecia vir da sala. Voltamo-nos e vimos o Lino de braço com a formosa Alice que parecia mais linda, com uma cor mais viva nas faces finas. Detivemo-nos à janela. Os dois passaram e eu fiquei a olhar o plenilúnio imenso e branco, que brilhava.

— Ouviu o Lachez tout!? sussurrou ele com malícia, mostrando-me, com o beiço esticado, o jovem casal que lá ia.

— Sim. Pareceu-me um beijo. Mas que linda noite, comendador. Ele lançou um olhar indiferente ao céu, e, encolhendo os ombros, disse, arrastando-me pela galeria clara:

— A lua não é balão que preste. E quer o amigo saber? não se meta com ela — os que de lá cabem vão dar com os ossos no hospício. Arranje, de preferência, uma estrela... mesmo de café concerto. E, rindo, entramos de braço no grande salão iluminado, onde resplandecia a mesa florida, carregada de pratas e cristais. E, sempre malicioso, o comendador segredou-me:

— Parece que o Lino usa carmim nos lábios?

— Porque!

— Veja as faces da Alice. Efetivamente: eram duas rosas.

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