sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Decadência (Conto), de Coelho Neto


Decadência
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Da vida de duas princesas — uma alemã, outra russa — que caíram em miséria, deram os jornais o triste romance. A primeira, fugindo na mesma noite do casamento, preferiu ao marido, um príncipe, certo boêmio desabalado que, depois de a haver empobrecido, abandonou-a com uma filha pequenina e enferma nos braços.

A desgraçada, repelida pela família, cuja coroa ficara indelevelmente mareada, errou, faminta e tiritante, pelos campos até que a criança lhe morreu achegadinha ao colo mirrado e, sem lar e sem pão, com uns sórdidos andrajos sobre o esqueleto, foi, uma noite, bater à porta dum hospital pedindo, a chorar, que a recebessem por misericórdia. Receberam-na tomando-a por uma pobre mulher, viúva de algum operário e, só na hora extrema, quando a desvairada se desprendia do mundo, os enfermeiros souberam quem ela era.

A outra, menos romântica, perdeu-se em operações financeiras: atirou-se à jogatina da bolsa sacrificando milhões de rublos, empenhando as joias, o mobiliário, a seda, os linhos, até que se achou, uma manhã, sem um azinhavrado kopeck. Como não era mulher frágil e conservava no coração um resto de esperança, preferiu continuar a viver, mesmo com sofrimento, a mergulhar no Neva ou a queimar os miolos, se os tinha, com um tiro.

Procurou emprego como a Krotkaia de Dostoiévski e, como não lhe foi fácil encontrá-lo em uma repartição do Estado, aceitou, com resignação, o lugar de servente de pedreiro e, como no tempo do fastígio subia, com peliças caras sobre os ombros, as escadarias de mármore dos palácios moscovitas, pôs-se a subir as escadas oscilantes que levavam aos andaimes equilibrando na cabeça, sobre a rodilha dos cabelos louros, que haviam, em tempos prósperos, sustentado uma coroa, o cocho acogulado de barro.

Acabou em negra miséria, envelhecida, calejada naquele rude trabalho, ao sol e à neve.

Entre nós há de ser difícil aparecer um desses casos lamentáveis, porque não temos príncipes, mas podemos apontar muitos decaídos que, se não têm nas veias o sangue azul, tiveram nos cofres ouro bastante para, com habilidade, se quisesse, arranjar o colorido ciânico que é um nobre privilegio dos descendentes de reis. Um desses decaídos acabou, no Hospício Nacional de alienados. Eu o conheci já na miséria, mas ainda são, íntegro de espírito. Chamava-se Pinheiro, por antonomásia — Chicote.

Fui-lhe apresentado, uma noite, por um acadêmico, em cuja casa ele costumava pernoitar. Era um homem simpático, distinto, dotado de uma voz insinuante, conversando como um gaulês.

Nessa noite, minutos depois da sua apresentação, falando-se do passado, o sempre bon vieux temps, ele, que se achava sentado em uma canastra, levantou-se e, sacudindo os cabelos, compridos e soltos como uma juba, pôs-se a passear pelo quarto acanhado, em silêncio, estalando os dedos. De repente, detendo-se, cravou em mim os olhos que fulguravam, e disse com um momo:

— Meu amigo, no Brasil ninguém vive, isto é uma ocara, compreende? uma ocara insípida. Para quem nunca atravessou os mares o Rio tem encantos, mas para quem viveu lá fora, isto não passa de uma aldeia sórdida e triste, com um lindo céu e algumas árvores.

E, inspirado, entrou a descrever a vida alegre, agitada, em Paris — os boulevards iluminados, o Bois, à tarde, os lagos no inverno recortados pelos patinadores que deslizam graciosamente sobre a neve rutila, os teatros, os cabarés...

Depois Londres com o seu movimento e o seu nevoeiro, as costas azuis do Mediterrâneo, Nice e toda essa Itália artística e lânguida, as ilhas clássicas, a Grécia, Constantinopla, Jerusalém, os desertos, que sei! Falou-me do mundo descrevendo pitorescamente, e com saudade, toda a sua longa e lenta viagem — noites em Govent Garden e noites à beira do Mar Morto, numa tenda, entre beduínos.

Depois o Egito, depois a Espanha com amores e serenatas. Agitava-se, ia e vinha sacudindo, de instante a instante, a cabeça, com os olhos muito brilhantes. Eu ouvia pasmado e, como não conhecia a estranha história da sua vida, tomava-o por um louco.

De vez em quando procurava os olhos do acadêmico que mo apresentara e nada neles descobria que denunciasse incredulidade: o rapaz ouvia, com respeito, as descrições fantásticas que ia fazendo aquele homem, cujo casaco estava no fio, cujas botinas gastas iam e vinham pelo soalho sem ruído como se fossem forradas de algodão.

Depois referiu-se à Arte recordando as suas detidas visitas aos mais notáveis museus, com uma opinião sobre cada época e sobre cada um dos grandes mestres da pintura e da escultura. Falava com acerto como se repetisse as palavras de um guia bem compilado. Por fim chegou à mulher e sobre todas teve uma frase — desde a robusta campônia, linda e graciosa no seu vinhal do Douro, com as cores vivas dos seus trajos, que recordavam a fantasia alegre dos sarracenos até à branca e delicada miss, figura mística, duma doçura divina, como anjos das iluminuras medievais. E a todas amara e guardava ainda o sabor daqueles beijos que recebera, uns que sabiam a mosto, outros que deixavam na boca a impressão delicada dum gosto de violeta.

Mas quando, de volta dessa viagem, ele reentrou a barra do Rio de Janeiro, a celebrada barra que não tem rival no mundo, a sua tristeza começou a manifestar-se. O entusiasmo caiu em morna melancolia e ele tornou à canastra, cruzou as pernas e, depois de haver explorado inutilmente os bolsos, pediu-me um cigarro. Dei-lho e isso foi pretexto para que discorresse sobre o fumo, falando de Cuba e das suas ricas plantações. Não era um homem, era a própria geografia.

O grande sino de São Francisco pôs-se a bater vagarosamente as dez horas e o homem levantou-se.

O acadêmico insistiu com ele para que ficasse.

— Não, estava uma noite linda, ia aproveitá-la.

Tomou o chapéu e a bengala, despediu-se e foi-se, cabeça alta, bambaleando o corpo. Quando os seus passos perderam-se na escada eu disse ao meu amigo:

— Esse sujeito é doido, não?

— Não. Esse homem foi um verdadeiro nababo.

Descendente de uma família abastada herdou uma grande fortuna e, logo que entrou na posse dos seus haveres, resolveu satisfazer a ambição da sua mocidade: ver o mundo e saiu a realizar essa viagem admirável da qual nos deu, há pouco, as linhas gerais e, ainda assim, muito apagadas, porque ele hoje está com a melancolia: há luar, é sempre assim.

— É, então, um lunático?

— Não sei, diz que o luar reaviva-lhe as recordações. Pensas, talvez, que foi dormir? não, foi andar e anda até de manhã. Vai a pé a Botafogo, fica horas e horas a passear ao longo do cães, falando só, ou falando ao mar; detém-se diante de certas casas, olha demoradamente, depois segue cantarolando, como para disfarçar tristezas. É sempre assim, quando há luar.

 Chama-se Pinheiro, Pinheiro Chicote. Dizem, que, de volta da Europa, enamorou-se de uma formosíssima senhora e desposou-a. A princípio, por vaidade, abriu os seus salões, recebendo com fausto; levou a mulher aos bailes da corte, aos espetáculos no Provisório, a garden-parties, de repente retraiu-se; nunca mais a senhora foi vista em parte alguma, e entraram a dizer que, numa cena violentíssima de ciúme, o marido levantara contra ela o chicote ferindo-a no rosto e no colo. O povo entrou, desde então, a chamá-lo Pinheiro juntando-lhe ao apelido, como antonomásia Chicote, estigmatizante, o nome do instrumento vil, com que ferira a linda dama.

Nunca se referiu à esposa nas palestras que comigo tem tido, conheço tais fatos por outras pessoas que o alcançaram ainda no tempo brilhante.

A senhora morreu, dizem uns; outros afirmam que o abandonou e que ainda vive; não sei. Ele é o que vês — um misantropo, com essa erudição de viagens e um pouco de poesia melancólica no coração. De resto — bom homem, posto que, algumas vezes, tenha verdadeiras crises de mau humor tornando-se insuportável. É de um orgulho desmesurado: sofre fome para não pedir e, se apanha algum dinheiro, vai, a correr, para a estação das barcas, sentir-se no mar. Tem a nostalgia das águas que o levaram a todos os pontos do mundo onde havia alguma coisa que ver, e admirar; e tem, talvez, um remorso que lhe tira o somo, que o irrita ou que o prostra em longa e muda melancolia, dias seguidos. Fala seis línguas, e é um crítico de arte admirável. Onde mora ninguém sabe, dorme, às vezes, aqui, outras vezes em casa do Rodrigues, e nas noites de luar caminha. É tudo quanto sei.

— E que faz?

— Nada. Já lhe quiseram dar um emprego, rejeitou com desprezo. Quer a sua independência absoluta, não sabe obedecer.

Anos depois, uma tarde, achava-me eu no largo da Carioca, à espera do bonde, quando ouvi uma gritaria e gargalhadas estrondosas que vinham da rua de Santo Antônio. Voltei-me e vi aparecer, à frente de uma grande malta de garotos, roto, brandindo furiosamente um velho guarda-chuva, o Pinheiro Chicote.

Estava envelhecido e magro, o casaco era um trapo, as calças pretas, polidas na barra, reluziam. Caminhava apressado, gesticulando; de repente, sentindo perto os pequenos que diziam chufas, que lhe atiravam imundícies, que o puxavam pelas mangas, pelas abas do casaco, voltou-se e foi um chorrilho de obscenidades. Um polícia interveio defendendo-o e ele lá foi atirando os braços, com acenos ameaçadores, e desapareceu na rua Gonçalves Dias, perdido na multidão que subia apressada. Recolhido ao Hospício foi, enfim, libertado pela morte.

Esse grande desgraçado que, para uns, sofria as torturas de um remorso, e para outros, era apenas um nostálgico da fortuna, vivia do passado: na maior miséria sustentava-o a recordação dos dias felizes que, no dizer do Dante, constitui a provação maior. Para ele era a felicidade.

Olhar as águas verdes e irrequietas do mar era para o infeliz um consolo. Por elas seguira outrora, moço e rico, e elas o viram feliz em tantos portos diversos, gastando a mãos largas; por elas tornara para agasalhar-se na pátria tendo por companheira uma senhora de esmerada educação e de fascinadora beleza. Fora injusto e cruel com ela, as erynias vingaram-na e o mísero Penteu pôs-se a errar pela cidade, pobre e solitário, ao luar e ao sol, revendo os sítios em que fora feliz: aqui certo balcão dum antigo prédio, que fora seu, talvez, de onde ao lado dela, olhara tanta vez aquelas mesmas estrelas do céu; adiante, um jardim onde deixara uma lembrança do sou carinho numa árvore que vira pequenina e que, então, abria uma copa frondosa; os montes, os campos, o mar, o mar sobretudo.

Essa insistência da visão das coisas antigas devia ir abalando o pobre espírito. Não foi a miséria que levou ao desespero a alma orgulhosa, altiva e sofredora do miserando, foi a saudade, foi a lembrança da ventura que, a princípio, o sustentava como a hera sustenta as ruínas, mas que, insinuando-se por todas as frinchas e taliscas, acabou por estalar aquelas fracas resistências dando com a pobre alma na loucura. E que fazia o louco? não vociferava, não investia, não ameaçava — só, monologando, ia e vinha pelos compridos corredores apontando coisas imaginárias, sorrindo, admirando. Às vezes corria — não julgassem que ia praticar alguma maldade, não; ia tomar o comboio para Jerusalém ou o trenó para atravessar a estepe e, sorrindo, acenava adeuses fugindo na loucura para aquele passado, na visão suave do que fora, dentro do eterno sonho.

Nas noites de luar acendiam-se-lhe os olhos, tremia e, pálido, sem poder conciliar o sono, não se aquietava enquanto não lhe permitiam ficar junto a uma janela olhando, através das grades, a lua branca, no céu.

Que lhe recordaria o astro meigo? talvez um amor no deserto ou, quem sabe a sua brutalidade de ciumento.

Que descobriria na lua triste? seria ele um dos predestinados de que fala Raimundo Correia no seu Plenilúnio? Talvez a lua...

Ha tantos olhos nela arroubados,
No magnetismo do seu fulgor?
Lua dos tristes e enamorados,
Golfão de cismas fascinador!

Astro dos loucos, sol da demência
Vaga, noctâmbula aparição!
Quantos, bebendo-te a refulgência,
Quantos por isso, sol da demência
Lua dos loucos, loucos estão!!

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