segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O amigo urso (Conto), de Coelho Neto


O amigo urso
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Lorsqu'on voit deux grands peuples se faire une guerre longue et opiniâtre, Cest souvent une mauvaise politique de penser qu'on peut demeurer spetateur tranquille; car celui des deux peuples qui est le vainqueur entreprend d'abord de nouvelles guerres, et une nation de soldats va combattre contre des peuples qui ne sont que citoyens.
MONTESQUIEU.


Mestre urso, senhor de toda a parte da montanha que olhava para o norte, fez constar aos seus vizinhos do sul que resolvera e jurara, à fé inquebrantável de urso, não permitir que pisassem a montanha, senão como hóspedes, quaisquer animais de outras regiões, ainda que lhe fosse preciso, para manter a independência daquelas altitudes, deixar a última felpa nas garras do estrangeiro, porque entendia que Deus criara aquela eminência maravilhosa para os animais que nela haviam nascido.

Logo que foi conhecida a resolução do urso poderoso reuniram-se todos os animais da vizinhança e, em festa estrondosa, proclamaram a nobreza e a valentia do senhor do norte, que ousava lançar ao mundo tão atrevido cartel.

Pouco tempo depois um dos animais, cuja toca (que tinha a forma perfeita de um tonel e por tal lhe chamavam — a cuba) fora descoberta por um caçador do ultramar que a cercara convenientemente para garantir-lhe a posse e manter em obediência o morador, resolveu revoltar-se contra as continuas vexações e pôs-se a roer o cercado pondo abaixo o tapigo. Veio, porém, o caçador e o animal, posto que fraco, não mostrou arreceiar-se do inimigo e esperou-o de frente, com audácia tão grande que mais parecia loucura.

Lutavam os dois quando o urso, que espiava de longe, lambendo as patas, notou que o cansaço e as muitas feridas, pelas quais escorria o sangue de ambos, ia-os enfraquecendo; sorriu, então, e levantou-se descendo vagarosamente para os lados da toca onde o caçador e o animal brigavam com desespero.

Ficou à espreita e, em dado momento, levou sorrateiramente para o lugar do combate uma malga de leite e lá a deixou, recolhendo a pata.

Sucedeu o que era de esperar: o caçador, que não dera pelo urso e muito menos pela sua traça, no furor da peleja, deu com o pé na malga e lá se foi o leite.

Levantou-se a fera aos urros protestando contra a afronta. O caçador quis ainda provar-lhe que não vira a malga, escondida, como estava, entre as ervas do campo, mas o urso a nada atendeu e, vendo o adversário arquejante, vermelho de sangue, com as roupas em frangalhos, achou a ocasião excelente para cair-lhe em cima e, assim pensando, logo executou.

O caçador, que era brioso, apesar de reconhecer a grande superioridade do antagonista inopinado, não desertou a liça; travaram-se. Mas que podia fazer o desgraçado, já esgotado e consumido por um longo combater, contra aquele que vinha, fresco e bem nutrido, dos alcantis da montanha subjugado e teve de abandonar o campo onde o urso logo espichou o corpo a pretexto de descansar um bocado.

Os animais vizinhos alvoroçaram-se de alegria vendo que o urso cumpria a promessa que fizera, só o da cuba não via com bons olhos aquele corpanzil imenso estirado ali, logo à entrada da sua moradia, tirando-lhe o ar e a luz. Foi então que resolveu falar, primeiro para agradecer-lhe o socorro, depois para pedir que lhe deixasse livre o terreno.

Ouviu o urso a reclamação lambendo vagarosamente as patas, ao fim disse:

Amigo, se eu aqui não viesse, tu ainda estarias a lutar com o caçador. Para livrar-te dele sacrifiquei uma malga de leite e tu não levas em conta o meu prejuízo. Queres que me vá embora e se o caçador tornar? São, deixa-me ficar por aqui, e dá-me alguma coisa, porque estou com fome". E dizendo assim, espichou-se mais diante da cuba, como senhor na varanda da sua casa.

Entraram, porém, os vizinhos a murmurar contra aquela ocupação:

Afinal, que lucrava o animal? passar de um senhor a outro; isso pouco valia e, se o urso não se intrometesse na luta, talvez que o animal já se houvesse libertado do caçador que o mantinha sob o seu domínio, não porque dele tirasse proventos, que só despesas lhe dava, mas por amor próprio e hábito”.

O urso não andava bem e, crescendo as murmurações, resolveu a fera arredar-se da cuba, antes, porém, de partir, chamou o animal e disse-lhe:

Eu parto, volto à minha montanha, mas fico de lá com os olhos em ti; não te movas, não vás longe — não quero histórias com vizinhos nem negócios sem o meu consentimento. O mundo está cheio de perfídias e tu és ainda inexperiente. Eu cuido de ti, descansa”. E foi-se.

Lá trepou à montanha e, deitado, tem os olhos no animalejo que vai e vem timidamente como o ratinho que o gato deixa em liberdade, mas que lhe sente o peso bruto das patas e os ferrões das presas se vai a entrar no buraco ou se se aproxima de alguma fresta.

Um dia o guanaco, que vivia em lítio com o tapir por causa de uma nesga de terra, estava a pensar nas suas finanças desbaratadas, quando avistou mestre urso no viso da montanha. O guanaco, que não é covarde, mas que é prudente, desconfiou daquela visita e pôs-se em guarda; o urso, porém, sorrindo, chamou-o com um aceno da pata, pedindo que chegasse à fala, porque tinha a dizer-lhe grandes coisas, coisas de alto interesse. O guanaco foi indo, vagaroso e matreiro, e, corno havia um fundo abismo na montanha, deixou-se ficar à margem, pedindo ao urso que falasse. E o urso disse:

— Amigo guanaco, eu sei que andas muito preocupado com essa questão de terras que o teimoso tapir insiste em afirmar que são dele. Não sei se são, sei que tens os olhos nelas porque te convém e como eu simpatizo contigo, que és um, excelente guanaco, venho dar-te um conselho. Tu não podes entrar em contenda com o tapir que, apesar de andar entresilhado, é ainda animal de força; há um meio, porém, e magnífico, de arranjarmos isso. Os meus ursinhos são muito expansivos, nem há no mundo animais tão expansivos como eles e, como a borracha é também expansiva, eles andam com a mania da borracha. Pois bem, a pretexto de expansão, eu organizo uma companhia que arrendará as ditas terras litigiosas. Depois de arrendadas e habitadas pelos ursos, tu lavas as patas e eu fico à espera. É natural que o tapir invoque os seus direitos, silve, dê saltos; não te importes — eu estou lá em cima para o que der e vier. Se a coisa for por diante — o que não é provável, porque eu conheço o tapir: aquilo é só parola e guincho — descerei dos meus alcandores e procurarei acalmar a questão, mostrando que os meus ursos empataram grossos cabedais na empresa e que não os podem perder. Demos que o tapir se enfune e queira reagir — contra um guanaco um tapir é um tapir, mas que é um tapir quando lhe surge pela frente um urso? Pensa e resolve, mas não digas que falaste comigo. Torno para o cimo da montanha e lá fico às tuas ordens. Adeus, respeitos à senhora.

E bambo, lá se foi mestre urso sorrindo, muito contente com a sua ideia. Mestre guanaco desceu para os seus campos pensando na proposta generosa ao vizinho quando, detendo-se a margem de uma clara fonte, ouviu uma voz que o chamava:

— Guanaco amigo.

Guanaco levantou a cabeça e deu com um grande e alteroso condor pousado no píncaro de um penedo.

— Que queres de mim, irmão condor?

— Ouvi toda a conversa que tiveste com o vizinho da outra banda e venho dar-te um conselho: Não te fies no urso. O que ele te propôs, a título de benefício, é uma traição e não queiras servir de porta à ganância insaciável desse animal que, por muito jurar, já nos não merece confiança. O que ele quer é meter uma cunha nos domínios que nos pertencem para depois, facilmente, separá-los e absorvê-los. Juntos poderemos resistir à sua ambição desmedida e ai de nós! porém, se ele conseguir colocar em nossas terras um só urso! No dia seguinte os campos que percorres, os alcantis, em que tenho o meu ninho, serão fojos de feras e nós não teremos terras nem águas, tudo será do urso que lá tem cativo, preso por uma corrente à sua penha, o animal que ele pretendeu libertar das mãos do caçador.

Se o tapir não tem razão vamos chamá-lo à razão, mas com calma e estou certo de que virá; não queiras porém que, mais tarde, quando a montanha despejar sobre os nossos vales e campos a avalanche ambiciosa, os nossos irmãos bradem contra o traidor que franqueou as terras livres ao invasor insaciável.

Diz o urso que a montanha ó dos montanheses...  Acautela-te, guanaco! palavras de urso não aproveitam a guanacos. Lembra-te da fábula do leão. Hoje será a companhia estabelecida nas terras litigiosas, amanhã serão os teus terrenos, depois os meus, depois os dos nossos irmãos e ele ficará senhor da montanha e nós seremos escravos vis dentro da pátria que pretendes trair. Eu falo como condor: vejo longe. Lá da altura passeio os olhares pela terra e sei o que nela se faz. Se queres o cativeiro deixa entrar o urso.

Ouviu o guanaco e ficou a pensar mirando-se na corrente e mirava-se quando do alto o urso, que espreitava, rugiu:

— Então, guanaco amigo? vai ou não vai? E o condor, que levantava o voo, bradou do espaço:

— Olha o trust do território! Olha o trust da montanha, amigo guanaco. Não abras a fenda à cunha da perfídia. Cuidado!

Foi-se e o urso, lambendo as patas, ficou a olhar o guanaco, que pensava.

— Então, amigo guanaco?

— Espera um instante, amigo urso.

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