segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Um sábio (Conto), de Coelho Neto


Um sábio
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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Foi em meados de março de 1883, numa triste, lutuosa noite de quaresma, que cheguei a São Paulo.

As ruas estavam apinhadas de povo que esperava, com ânsia devota, a passagem de uma procissão. A espaços, dobravam sinos plangentes e mulheres, sob negros biocos, passavam à pressa, surdamente, como sombras que desusassem.

O carro, depois de fazer grandes voltas lentas, deixou-me à porta do Hotel da Boa Vista, na esquina da ladeira do Porto Geral. Os hóspedes desse casarão taciturno eram, quase todos, estudantes e, escusado é dizer que me fizeram as honras da casa, não como os árabes costumam acolher nas tendas aqueles que os procuram, mas como os galos antigos dos poleiros recebem os frangos novos.

Não me demorei muito tempo no salão onde o agudo Érico, de mãos para as costas, os óculos brilhando no nariz afiado, ia e vinha criticando, com furor, aquela “miséria moral” — toda uma população abalada pelo fanatismo, a entupir as ruas, pondo no ar puro um fartum insuportável de suor e de banha. Não, o Estado devia intervir energicamente opondo-se àquelas cenas ridículas e impróprias de uma cidade civilizada. Outro acadêmico, esguio e louro, saiu em defesa da religião e do sem ritual, demonstrando a necessidade desse culto externo. Érico fitou o adversário e fulminou-o com um dito violento que provocou verdadeira conflagração.

Alguém, rompendo, então, o grupo, lembrou-se de pedir a minha opinião. “Sim, concordaram todos: que fale o calouro!...” Tremi e teria, certamente, de sofrer a pena ridícula que me impunham se o Érico não houvesse anunciado sisudamente:

— Lá vai a procissão, senhores. Vamos ver as pequenas.

E o bando de hereges abalou, deixando-me naquela sala imensa e obscura a ouvir os tristes sons da marcha fúnebre que lá ia. Recolhi ao meu quarto com a minha saudade.

No dia seguinte, cedo, Érico, que era meu vizinho, bateu à minha porta, chamando-me:

— Ó amigo, é sol nado; venha contemplar o grande Buda ebúrneo!

Não compreendi àquelas palavras misteriosas, mas saí e Érico, muito grave, levou-me pelo corredor, em silêncio, até à sala. Ali, fazendo-me chegar a uma das janelas, disse, mostrando-me a casa fronteira:

— Vê você esse pardieiro fechado? é o templo de Buda, o grande Sabedor, o Sete Chaves, o Homo Sapiens. O vulgo ignaro chama-lhe Justino, o conselheiro Justino. Celibatário e civilista, esse homem conhece todas as leis, menos as naturais — é assim que detesta a mulher e o vinho, a música e as flores, a retórica e a salada de pepinos. Vive ali com os livros como São Jerônimo vivia em Belém. E, fitando-me com pequeninos olhos, agudos estiletes: Conheces São Jerônimo? Pensas, talvez, que é o marido de Santa Bárbara, por que aparecem sempre juntos nas invocações? Não, criatura serôdia, essa aliança é iníqua — o santo nunca quis saber desse sexo comprometedor e, se escreveu à Paula, não passou disso. Mas deixemos as divagações. Olha, espera o Buda e, se tens relógio, acerta-o pela sua saída; nove e meia, nem mais, nem menos um segundo.

Efetivamente eu olhava quando vi sair da casa indicada um homem amarelo, magro, seco e rijo, de preto; os mesmos óculos que, de longe, lhe escaveiravam o rosto como duas órbitas fundas e vazias, eram escuros.

Grave, sem olhar para o nosso lado, seguiu com um bamboleio de corvo, dobrou a esquina e lá foi.

— Viste? pois, meu amigo, se anotas a tua vida, registra no teu diário este grande acontecimento. Esse homem sombrio, que parece um inquisidor, é o grande, o incomparável Justino, mais sábio que Hermes, mais virtuoso que Santo Antônio, mais seco da alma do que um arenque defumado. É lente; um dos mais respeitados da academia pelo seu grande saber. As suas preleções são verdadeiras derrubadas de bibliotecas. Se um novo cataclismo fizesse desaparecer o mundo e tudo que nele existe, esse homem, recolhido a uma arca, quando as águas baixassem, recomporia toda a ciência do Direito, desde as leis mais profundas até à mais reles chicana.

Érico, o fecundo Érico, que, pela sua grande força de generalização, não conseguira sair do curso anexo, onde era considerado o “ancestral maior”, deu uma volta pela sala, chuchando um dente, e tornou ponderoso, resumindo numa expressão, já usada por Ésquines com relação a Demóstenes, toda a sua admiração pelo civilista: “É um monstro!” Mas, vê tu, continuou com intimidade, espalmando a mão no meu ombro: é um rochedo, não produz uma linha, não tem um conceito, ninguém lhe atribui uma frase. E explicou: O homem é como a planta. Queres esterilizar uma árvore? aduba-a em demasia; cresce-lhe basta ramagem, multiplicam-se-lhe as folhas, mas as flores rareiam e quase nunca vem fruto.

O acúmulo de ciência mata as fontes da imaginação e da crítica. Quase que estou a dizer que a ignorância é preferível. Um homem como aquele vale por uma congregação e, que deixa? a memória rápida de uma vida, nada mais. Toda a gente afirma que tem um grande talento e eu afirmo como toda a gente, mas afirmo por afirmar, porque do talento desse homem vejo apenas os livros, às centenas, muito bem arrumados nas imensas estantes. É um carregador de ideias, um estivador de pensamentos: transporta-os dos compêndios, dos tratados, para as memórias dos alunos. Ou melhor: é uma alfândega, entende você? uma alfândega onde os autores estrangeiros descarregam as suas mercadorias e onde os jovens estudantes as vão buscar. É isso! Não, a ciência não é a esterilidade. Sábio não é simplesmente o que estuda, o que armazena, entesoura — é o que produz. O que é, em verdade, é um excelente método, isto sim, um método de vida e de estudo: honra e memória, ascetismo e rijeza. Érico deixou-me apressado ao ouvir tinir a campainha que anunciava o almoço, mas, a meio do caminho, voltou dizendo-me:

— Olha, é verdade — hoje não há aula, mas o homem, para não transigir com o hábito, lá vai a um passeio de uma hora, certamente fazendo uma preleção erudita, à meia voz, para os botões da sua sobrecasaca. Vem almoçar, são horas.

O Justino que eu vi nessa memorável manhã de quaresma, encontrei, dez anos depois, uma tarde, à porta de um ourives da Rua Quinze de Novembro — muito grave, de preto, óculos escuros, o cabelo muito empastado e luzente, a tez cor de velho marfim. Vendo-o, passou-me rapidamente pela imaginação esse tipo tão fielmente retratado pelo incomparável Queiroz na Correspondência de Fradique Mendes — o conselheiro Pacheco, o do imenso talento.

Não julguem, porém, os admiradores do grande mestre, em cujo rol me inscrevo, que eu seja capaz de medir o seu alto valor moral pelo estalão do Pacheco da sátira, não! O que eu analiso é o tipo físico, é aquele vulto severo e ríspido do homem de negro, metódico, reservado, taciturno.

O saber de Justino lampejava nas suas preleções e, se ele não deixou, em corpo perfeito, uma obra que leve o seu nome mais longe do que o levará a memória ingrata dos homens, aí estão as suas apostilas, que serviram a quase todos os que legislam para o país, como clarões passageiros do seu espírito, mas não sei porque, acho que o grande Pacheco devia ser como o finado Justino e, na assembleia, espetando o dedo para confundir com uma frase forte a oposição rumorosa, devia ter aquela mesma grave figura que dava, nas aulas, ao grande mestre o ar divino e ornitoide de um Thot venerável silvando ciência do alto de um poleiro, com o bico muito curvado e as negras azas encolhidas e imóveis. Ninguém o respeitou mais do que eu e, quando foi imposta a sua jubilação, provocada por um as somo irrefletido e injusto da mocidade, a minha pena, que sempre foi fiel aos moços, traiu-os nesse dia aliciando-se ao mestre, porque do seu lado, sobre estar a Razão, estava também a tradição do prestigio do velho convento.

E agora venho trazer veneradamente ao seu túmulo o meu preito de antigo aluno e de admirador do grande estudioso, do enérgico disciplinador e do homem exemplar que viveu moralmente fechado num programa rígido e seco, só comparável à velha casa em que acabou e que, no meio das construções modernas da cidade, parecia um protesto forte do passado, último remanescente ferrenho do arcaísmo, achatado entre as construções esbeltas do presente.

Como a casa era o homem, que Deus tenha.

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