sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Palpites (Conto), de Coelho Neto


Palpites
 
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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— Ó mulher, onde meteste o dinheiro?

— Que dinheiro, homem de Deus?

— Não te queiras fazer fina! Responde e deixa-te de histórias. Que fizeste do dinheiro que estava no pé de meia?

— No pé de meia não havia vintém. O que havia no pé de meia foi-se na barrela.

— No pé de meia havia duzentos e tantos mil-réis em muito boas notas, que eu lá guardei. Vamos, deixemo-nos de brincadeiras: Onde meteste o dinheiro?

— Se eu te digo que não havia vintém...

— Vintém não havia, havia notas, já te disse, onde estão?

— Foram por água abaixo, na lavagem.

— Mau! mau! Olha que não estou disposto a rir. Quem sabe se a senhora quer imitar o ministro? Imitar, digo mal, porque ele queima. Vamos, diga onde pôs o dinheiro, se não quer que eu faça aqui uma das minhas. Depois... Aqui del-rei!

— Homem, queres que eu seja franca?

— Sem dúvida.

— Pois o dinheiro... o dinheiro... levou-o o burro.

— Que burro, senhora? Para que quer um burro duzentos e tantos mil reis?

— Foi o burro. Ele não levou os duzentos mil reis de pancada, foi levando aos poucos.

— Como? Então o burro entrava no quarto, abria a meia, tirava o dinheiro que queria?...

Homem, mulher, tu pensas que eu sou idiota?

— Quem tirava não era o burro, Manoel.

— Então quem era?

— Era eu.

— Tu? Então que história é essa do burro?

— É que era o burro que o levava. Tu nunca jogaste no bicho?

— Eu? A senhora bem sabe que eu não tenho vícios.

— Pois foi o burro do jogo que levou o dinheiro.

O caso foi assim: Conheces a mulher do Cunegundes, uma ruiva, que tem dois filhos pequenos?

— Conheço. Mas que vem cá fazer a mulher do Cunegundes!

— Ouve. Como sabes o Cunegundes está de cama há uns pares de meses. Enquanto teve saúde foi um homem de trabalho, atirava-se a tudo para ganhar a vida — trazia a casa farta, a mulher limpa, os pequenos sempre bem vestidos; a moléstia, porém, acabou com tudo isso. O pobre homem para não morrer à míngua, aprendeu a fazer charutos, mas os charutos dão pouco. Que eram cem charutos por dia para uma família como aquela? A Adelaide andava varada, pálida: os pequenos, rotos, descalços, pediam pão de casa em casa; até fazia pena. Quanta vez eu aqui lhes dei comida. Ah! meu amigo, quando um pai de família cai numa cama...

— Pois sim, mas vamos ao burro.

— Vamos. As coisas estavam nesse pé quando, um belo dia, a Adelaide, que não tinha um casaco decente para chegar à janela e andava sempre a chorar, a lamentar-se, pedindo a morte para ela e para os filhos, apareceu risonha e mais contente do que dantes e, todos os dias, eu, por entre as frechas da janela, via chegar gente com embrulhos para a Adelaide: eram queijos, caixas de vinho, fazendas e a Adelaide a deitar luxo até que um dia saiu de carro como a senhora do doutor.

— E o pobre do marido a fazer charutos.

— A fazer? a fumá-los, e dos bons, deitado em lençóis de linho, com fronhas de renda nos travesseiros: um luxo de príncipe. Eu fiquei a banzar e, como não sou maliciosa, disse comigo: “A Adelaide tirou a sorte.” E um dia, apanhando-a a jeito, disse-lhe em ar de pagode:

— Então, sua felizarda, sempre apanhou um bilhetinho premiado, hein?!

Ela ficou muito espantada e respondeu:

— Então senhora: eu não jogo na loteria. Ah! já sei porque a senhora fala — é porque me vê andar assim, apesar da moléstia do Cunegundes, coitado! Que quer, minha amigai quem não tem cão, caça com gato.

— Que gato?

— Espera, homem. “Enquanto o Cunegundes tinha saúde e força eu não me preocupava, mas veio a doença e, a senhora sabe, as crianças têm fome e o homem da venda não fia, principalmente quando sabe que o dono da casa está entrevado no fundo de uma cama. Procurei trabalho. Só me apareciam charutos; desanimei. Foi então que uma comadre minha, cujo marido anda longe, apanhando borracha nos sertões do Amazonas, disse-me que eu aventurasse alguma coisa no touro. Aventurei. A primeira marrada custou, isso custou, mas hoje... E desatou a rir, só para que eu lhe visse os dentes obturados a ouro, como lá diz o outro. Piquei a olhar para ela e, com franqueza, estranhei aquela alegria, porque a Adelaide era alegre, mas agora dá umas gargalhadas... “Então a senhora vive à custa do touro?”

— É verdade, respondeu ela.

— E seu marido?

— Ah! meu marido não sabe. Para uma mulher ser feliz no jogo do bicho deve guardar segredo, principalmente para o marido. A senhora porque não tenta? Tu sabes que não gosto de bois, não gosto de touradas. Boi só vaca, essa mesma cozida. E disse-lhe:

— Não, D. Adelaide, eu não gosto de bois.

— Não gosta! A senhora diz isso porque ainda não experimentou. Eu também não gostava e hoje não posso passar sem ele. Experimente, experimente — e dobrou-se toda noutra gargalhada. Fiquei pensando e depois que ela saiu resolvi experimentar.

— Tu?

— Então? No primeiro dia mandei pedir porco; deu o burro; no segundo dia mandei buscar elefante, deu outra vez o burro. Desconfiei de tanto burro. Diabo! isso não é um jogo, é uma estrebaria! Quem sabe se não é Deus que me está mostrando o caminho da felicidade! pensei. À noite sonhei que estava agarrando um burro pelo rabo. Foi naquela noite em que te agarrei, não te lembras?

— Sim, mas eu não sou burro.

— Nem eu te agarrei pelo rabo. De manhã, muito cedo, fui ao pé de meia e mandei comprar no burro... coice! E... de coice em coice, meu velho, fiquei a tinir. A Adelaide vive regaladamente à custa do touro, eu com o burro só consegui amofinações e misérias.

— Então os duzentos e tantos mil-réis foram todos no burro?

— Todos.

— Muito bem.

— Antes eu tivesse jogado no touro — ainda ontem deu.

— Se a senhora tivesse jogado no touro ia agora mesmo, como um fuso, para o olho da rua, entende? O touro dá todos os dias, mas se me constar que a senhora joga em semelhante bicho eu faço um banze dos diabos nesta casa. Touro não é bicho que entre em casa de família, está ouvindo?

— E a Adelaide?

— Que tenho eu com a Adelaide?

— Ela não joga em outro.

— Por que o marido está entrevado, mas eu não estou, com a graça de Deus. Enfim — no burro pode jogar uma ou outra vez, pouco, com touros é que não quero negócios. Se eu souber que me entrou touro aqui em casa a senhora vai para o olho da rua em dois tempos. É o que lhe digo. (E foi; todos os jornais noticiarem o caso comentando-o). O homenzinho, que apertara os cordões à bolsa, levando para a Caixa Econômica o que dantes deixava nas meias, começou a desconfiar dos lautos jantares que a mulher lhe apresentava — eram verdadeiros festins — e, farejando os pratos, perguntava desconfiado:

— Mulher, isto é burro?

— Tudo é burro, pelo moderno.

— Então agora não dá coices?

— Qual! está manso como cordeiro.

— Pois sim, mas não te fies.

Depois apareceram sedas, chapéus, costumes de pano francês, joias, camarotes do lírico.

— É burro?!

— Então! que há de ser?

— Olha lá, mulher — acho muita carga para um burro só.

— A culpa não é minha... se ele dá.

Um dia, porém, o homem entrou em casa justamente na ocasião em que a mulher fazia jogo e viu. Que viu ele! Sei apenas o que os jornais disseram: que ele travou dum pau e desancou a mulher. Sem razão disse a coitada ao delegado, explicando o caso: na ocasião em que o marido entrou no quarto ela abria a porta de espelho do guarda casaca e o homem tomou por uma desobediência o que era a sua própria imagem.

 — Eu permiti que ela jogasse no burro, senhor doutor, mas o que lá vi de burro não tinha nada.

— Então que era?

— Ora! que havia de ser? palpites da Adelaide.

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