quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Urbano Duarte (Conto), de Coelho Neto



Urbano Duarte
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2017)

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As ideias aparecem-nos como a verdade — nuas; somos nós, os escritores, que as vestimos e, como cada qual tem a sua feição própria, pode a mesma ideia, tratada por várias penas, ser jovial como uma canção, meditativa como um provérbio, gloriosa como um epinício, passional como uma ode sáfica, dolente como uma elegia, lúbrica como uma fescenina, sentenciosa como uma máxima ou cômica como uma tabarinada. Tudo está no gosto do revestimento.

Vejamos, por exemplo, uma caveira que sugere, a quem quer que a veja, a ideia da morte — ponhamo-la sobre uma erma, à beira dum caminho bem trilhado e façamos desfilar por ele um grupo de poetas.

Dirá o primeiro:

“Eis um espelho de bom aço. Se as mulheres o tivessem nas suas câmaras não haveria vaidade.”

Bem inspirada andou a Madalena que o tomou para seu uso quando se fez troglodita arrependida. Este é o espelho que a Verdade deve trazer na mão. Pois sim, senhores — “Não somos lá grandes coisas!” Dirá outro: “Ser ou não ser, eis a questão...”

Outro: “Concha da ideia, saíste do oceano tormentoso da vida, jazes vazia na praia deserta do nada. Dentro de ti, porém, como dentro das conchas, há um rumor constante que é o eco imorredouro da agitação de onde vieste. Na concha é o estuar da vaga, em ti é o referver da ideia. Ondas, maiores que as do pensamento, tormentas, mais deseneadeiadas do que as da consciência, não as tem o mar largo. Vós que passais encostai ao ouvido o crânio tábido e ouvireis o eco da vida que por ele passou — são os espetros dos sonhos, das ambições, das angústias, dos gozos que assombram a ruína. Evoé! pela eternidade da agitação!”

Outro:

— “Poste, talvez, como uma flor de aroma e os beijos procuravam-te ansiosos, hoje, fanada e seca, jazes no esquecimento e no abandono. Onde andarão as abelhas que te buscavam? Que outro nectário as prende? És como um caule seco de onde, uma a uma, todas as pétalas caíram”.

Outro:

— “Pulvis! poeira e só. A carne levou-a o verme, o arcabouço rolará na terra até à reversão total. Eis o que somos. E já que o fim é tão triste, por que nos havemos de amofinar com a ambição e a vaidade?”

Outro:

— “Nichos vazios, que é dos olhos que rolavam ansiosamente dentro do vosso âmbito, como leões em jaulas apertadas? Boca, que é da vossa umidade? que é do vosso perfume? vossa melodia? Ouvidos, que é dos vossos andarilhos que levavam ao cérebro todos os que é da recados?... Ah! pobre crânio, já não te abrasa a paixão, és como uma velha lâmpada sem óleo. Quantas vezes, trazida pela Luxúria, a insônia hospedou-se entre os teus muros! Quantas vezes, como em antro de lâmias, esfervilharam em ti espetros delirantes? Foste, como cafurna orgitica, abrigo de súcubas e todo o corpo que encimaste sofreu agitadamente com os teus delírios. Agora repousas, só os insetos viajam pela abóbada deserta e os ventos silvam atravessando é teu bojo vazio. Mas se o amor viveu em ti e com ventura, foste feliz e eu invejo-te, carcaça”.

Outro: — “Não somos nada neste mundo”.

Finalmente: “Eis, fazes bem; o teu rictus é como um recibo irônico. Durante a vida pagaste caro o teu tributo, foi uma cilada que teus pais armaram-te. Quem eram eles? talvez não os houvesses conhecido. Fazes bem em rir, mas como a vida exige a hipocrisia e tu, sendo caveira, áridas por entre os vivos, dias antes do desastre que te levou os músculos e os outros enfeites, devias ter ido a um dentista para que te arranjasse essa boca... porque, com franqueza, esses molares estão indecentes e tu devias gastar muito algodão nas covas que eles apresentam: não são dentes, são verdadeiros armazéns. Com o algodão com que os tamponavas poderia uma fábrica tecer pano para um regimento. Se é para mostrar os dentes que ris, podes limpar a mão à parede”.

Há disparates nesses comentários, pois são tais disparates que constituem a harmonia. Homens há que se comovem, até às lágrimas, com a claridade pálida da lua cheia, outros dão para o derriço e saem afinando violões à procura de alguma dama descuidada ou paciente que lhes ouça as loas; outros, finalmente, dão para valentias e, ardidos, de sobrecenho carregado, brandindo cacetes, investem provocadoramente desafiando e, se a polícia não açode a tempo, os jornais, no dia seguinte, registram fraturas e contusões e autos de flagrante. Ainda se há de escrever uma monografia sabia com este claro título:

Da influência da lua cheia sobre os espíritas.

Os nossos cronistas são, em geral, contemplativos (meã culpa! meã culpa!) e vestem todas as ideias de melancolia, torcem o mesmo riso e descobrem em tudo um estigma de dor — poucos são os que riem. Dir-se-á — somos um povo triste e o cronista, que reflete a alma do povo, não pôde andar às gargalhadas. Não sei se somos um povo triste, sei que somos um povo tímido.

O brasileiro é naturalmente expansivo, mas profundamente desconfiado e a verdade da afirmativa, que faço sem receio da contestação, tiro-a do seguinte caso comum:

 Chega-se a uma casa e, pouco a pouco, vêm surgindo os membros da família, todos mais ou menos reservados, de olhos baixos, como receosos; por fim aparece o pimpolho chupando o dedo e trata logo de encolher-se entre os joelhos da mamã. A conversa vai indo arrastada, por monossílabos, com grandes pausas, até que o chefe, vendo o embezerramento do petiz, chama-o à ordem:

— Então, que é isso? Tira o dedo da boca.

O pequeno amua e o hóspede, para dizer alguma coisa, afirma — “ que o menino tem um olhar revelador e parece muito bonzinho..” Espanto dos pais:

— Bonzinho! isto... ahn! É porque o senhor não sabe. Ele é porque está fazendo cerimônias, o senhor há de ver.

Efetivamente, dali a instantes está o pequeno a cavalgar a bengala do hóspede, estão as meninas ao piano, a dona da casa faz o histórico da vizinhança, o chefe reclama as chinelas e todos, à vontade, riem, galram, mostram que têm sangue e que não são mudos, muito pelo contrário, como dizia o outro.

O brasileiro é isso: “um povo que faz cerimônias” e os cronistas sempre o apresentam em momentos cerimoniosos, raros são os que no-lo mostram como ele verdadeiramente é — em calças fofas e largas chinelas, rindo de mãos nas ilhargas, como riam os bons velhos de Brantôme e Des Periers.

Desses raros cronistas um dos mais fiéis era Urbano Duarte, o excelente, o alegre companheiro que se finou na estação do riso.

Conversávamos uma vez, no bom e guloso tempo do Babélais, aqueles opíparos e intelectuais jantares! a propósito de crônicas, era do grupo o torturado Pompeia, que então andava a burilar os seus rendilhados períodos das Canções sem metro, quando, a propósito de estilo, alguém lembrou-se de fazer a apologia da Forma. Urbano, encarquilhando as pálpebras, sumindo, ainda mais, os olhinhos miúdos, sorria; de repente, pondo-se de pé, disse peremptoriamente: — não concordo. A crônica deve ser um flagrante da vida, e eu desafio a todos vocês a que me apresentem um homem, seja uma besta ou um gênio, que, na intimidade, fale essa linguagem que vocês lhe emprestam. Eu tomo os meus burgueses nos dias comuns, no trabalho ou na cadeira de balanço da sala de jantar, com as calças brancas e o paletó de alpaca ou em mangas de camisa, à fresca, enquanto esperam o jantar, ouvindo os seus canários. Vocês só apresentam tipos endomingados, num estilo de sobrecasaca e cartola, com muita água de Colônia no lenço e muita severidade nos modos. Vocês não conhecem o homem — o homem é isso que eu descrevo; o resto, meus amigos, arranjo. Vocês inventaram essa história da “tristeza do povo “ e aferram-se a ela. O brasileiro não é triste; o brasileiro é o povo mais pândego do mundo. Querem a prova? Sempre que eu conto uma das minhas anedotas encontro um sujeito que me diz, sorrindo maliciosamente; “Seu maganão, aquilo foi com o F.... hein? “ Protesto — que não, nem conheço o F... e o homem, sempre com o risinho malicioso: “Não conhece, hein? ora morda-me o dedo se é capaz”. Isso prova que o fato que relatei foi um reflexo da realidade. "Eu não invento — transcrevo. Tristes... tristes somos nós".

Efetivamente... tristes somos nós e ele era dos nossos. Atravessou a vida a fazer rir, que ele não ria, as suas crônicas eram verdadeiras máscaras e, com a atroada carnavalesca, como se a morte quisesse, em homenagem a esse dispensador de prazer, dar-lhe a extrema ilusão no derradeiro momento, ele volvia os olhos úmidos para a esposa e para os filhos, que era para esses entes que ele, calando as dores, ria através das páginas, incessantemente, com a regularidade de uma máquina hilariante e, para não entristecer a meiga companheira... talvez ainda sorrisse.

A sua própria dor saía disfarçada e quem diria que era um gemido de moribundo que vinha, às vezes, com tão ruidoso tintinabulo pelas colunas dos jornais afora?

Bem podia ele dizer com Stecchetti:

Ben ritornato carneval gioeondo;
Eccomi serio: ecoo repiglio il mondo,
La maschera bugiaria.
Oa! non tradire il mio dolor segreto.
Pallido aspetto mio! Mostrati lieto,
Che Ia folia ti guarda.

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