sexta-feira, 31 de maio de 2019

Banzo (Conto), de Luís Guimarães Júnior



Banzo
CAPÍTULO 1
Baixinho e seco, curvado em gancho, carapinha em maçarocas, ralas falripas de bigode amarelo de sarro, tufos de barba híspidos como parasitas, este era Sabino, o negro mais velho daquelas redondezas, desde a Barra até o Pati.
Em passo lerdo, com o urucungo e o cajado, um saco de couro a tiracolo, o pito nos beiços, corria tudo, descansando à sombra das árvores ou nos ranchos e tijupares dos caminhos, quando não se sentava no meio dos campos, ao sol, entre o gado solto.
Aparecia nas vilas e nas cidades em tempo de festa e, como conhecia todos os sítios e fazendas, ia entrando às porteiras como em terra própria, falando a todos, sempre risonho.
O urucungo anunciava-o; saíam crianças a recebê-lo, davam-lhe comida, molambos. O saco ia bojando e o negro, numa alegria servil, bamboleava o corpo em dança de urso, com gatimonhas ridículas, picando as aspas da combuca, grato à bondade das crianças que se ajuntavam em círculo, rindo, batendo as palmas.
Às vezes ia para a estação esperar os trens. Cochilava no banco, e, à chegada dos comboios, arrastava-se à beira dos carros, de mão estendida, jeremiando a sua miséria, e o que recolhia era para fumo e cachaça.
Não tinha casa. Casa para quê? o mato é grande. Mas o seu ponto predileto era na fazenda das Lajes, à sombra duma gameleira, num cômoro. Nas Lajes fora escravo, ali vivera desde que chegara d'África, passando dum senhor a outro, até "nhô Roberto" que ele carregara à "cacunda", ensinara a andar a cavalo, levara ao colégio, vira casar, envelhecendo no trabalho, à sombra da casa.
"Nhô Roberto" era mau, enfezado, sempre de cara amarrada, gritando por tudo e "agarrado" como ele só.
Um dia, já depois da Lei, "nhô Roberto", que andava nervoso, entrou na horta e achou-o sentado perto do rego, chupando uma laranja. Foi um tempo quente, não quis saber de desculpa — pô-lo fora. "Que fosse para o inferno! Estava livre, os canalhas que o sustentassem."
Saiu sem rumo, andou muito tempo à toa, passou fome, bateu os dentes de frio, teve febre, pensou morrer; mas a gente acostuma-se com tudo. Sempre achou caridade.
Um dia soube da morte de nhô Roberto (Nosso Senhor não dorme!) e, como a fazenda fosse comprada pelo coronel Chico Amaral, homem de bom coração, ele, que já andava com muita saudade daqueles fundões, botou o pé no caminho.
Achou tudo mudado: casas novas, de telha, máquinas, gente branca na roça. A gameleira lá estava, cada vez mais bonita.
Receberam-no bem — os conhecidos festejaram-no, mesmo o coronel Chico Amaral, espantado de ele ainda estar vivo, mandou dar-lhe comida e presenteou-o com um capote velho que lhe chegava aos pés. Homem bom. Nosso Senhor há de ajudá-lo! Bom mesmo! Volta e meia lá estava: virava, mexia, levava tempos sem aparecer, mas um dia lá o encontravam debaixo da gameleira, cantarolando à beira dum foguinho de folhas secas, entre burundangas: latas velhas, pão duro, embrulhos de farinha, restos de comida, feixinhos de taquaras e uma garrafinha de cachaça.
Ali passava os dias e a gente da fazenda, de pena, mandava-lhe de comer, e os que passavam, à tardinha, vendo-o encostado ao tronco, ofereciam-lhe um canto em casa para dormir. Ele ria agradecido e ficava sob a galharia verde tocando e cantando, até que o sono o prostrava.
Às vezes, de manhã, quando o procuravam havia desaparecido: "Tio Sabino já foi, coitado! Volta..." E voltava.
Quando lhe perguntavam quantos anos tinha, encarquilhava o rosto amarfanhado, sumia os olhos em rugas, aproava o queixo ciciando um risinho frouxo e sacudia a cabeça branca num gesto abandonado que parecia atirá-la pelo tempo dentro.
Então revolvia as fundas reminiscências. Falava do rei D. João VI, dos "manatas" que vira na Corte, dos senhores que tivera, das lindas donas d'antanho, de casas que haviam sido demolidas, de árvores mortas, ribeiros desaparecidos, matas devastadas, tudo que vira na correnteza da vida onde ficara, como aquelas pedras que lá estavam no Paraíba velho olhando o passar das águas.
Idade, sabia lá! No seu tempo — e corria um gesto que abarcava o horizonte — tudo aquilo era mato. Bicho assim! e apinhava os dedos. Casa, uma aqui, outra acolá! Cidade, era uma rua só com a igreja lá em cima. Mas então é que era festa! Semana Santa, São João, Natal, Espírito Santo... Eh! Largo ficava de a gente não poder andar — eram carros de bois, liteiras, cavalhada chibante arreada de prata, cada mula que fazia gosto, escravatura limpa, tudo gente moça. Fazenda, não vê que era como agora! Mesa ficava posta, comida boa. Fartura era aí.
Cativeiro era brabo, isso... ahn! mas também, quando o senhor ganhava, negro tinha o seu gancho. Tempo bom l E, descrevendo, dramatizava pitorescamente os episódios imitando: a música: tchumba! tchumba! tchumba! o espocar dos foguetes e o estrondar dos morteiros: tró to ró bum! o bimbalhar dos sinos: bem, de len den bem, bom! o rebuliço dos carros rinchando: cheeeem... hiiiim... os cavalos resfolgando: rrru! o rumorejo do povo: aaaah! os pregões dos doceiros, dos leiloeiros de prendas, o batuque africano ao som dos tambores: pru eu tu! pru eu tu!
A negrada, que o cercava atenta, ria dos racontos. Pediam-lhe minúcias, recordavam-lhe episódios, lendas, casos que a tradição conservava e ele, sentado no chão, estirando as pernas, com os pés a prumo, de solas chatas, encoscoradas como patas de paquiderme, narrava.
Trem de ferro... isso era de ontem. Vira chegar a turma dos engenheiros, cada mocetão! botas, chapéu largo, pagodistas como eles sós; e para andar no mato nem tatu podia com eles — furavam tudo. Depois os trabalhadores abrindo picadas, gente onça na enxada e no machado, cavando, faxendo caminho; morro não era nada para eles.
Vira estender os trilhos, cruzar as pontes e o dinheiro naquele tempo andava à toa. As mulatas é que aproveitavam.
E um dia — eh! dia grande! gente na estrada fervia que nem procissão — o trem berrando numa fumaceira de coivara: tchá! tchá! tchá! oooô! Ahn! Boi corria espantado, ficava olhando de longe, bestas, cavalos rebentavam cabrestos disparando por esses matos, cachorro zunia: cain! cain! cain! nem que tivesse apanhado! galinhas voavam que nem patos na lagoa quando um tiro estronda e o bicho passou rabeando, embandeirado, cheio de gente graúda: fazendeiros, generais, moças... ahn! e foi-se embora! Muita gente rezou de medo.
Eu vi tudo de cima duma barranca, o coração batendo assim: pu pu, pu! Bonito mesmo!
E o bicho passou danado, fervendo; a fumaça espocava da chaminé em cachimbada grande. Eh! trouxe tudo! trouxe cidades e foi deixando por aí, trouxe maquinismos, gente branca...
Parecia coisa de encanto. A gente deixava de ir uns poucos de meses num lugar e quando aparecia lá ficava de boca aberta vendo tudo mudado: casas novas, negócios sortidos como os da Corte, igreja, circo de cavalinhos, botica e o mato, que é dele? Trem de ferro ia comendo tudo, tal e qual como na terra brava depois do roçado quando a plantação brota.
O mal era o fogo. Bastava uma faiscazinha da máquina para levar um canavial. E era uma campanha! a gente toda fazendo aceiros e o fogo lambendo, cada labareda que fazia medo.
Muita gente nem queria ver o trem de ferro, quanto mais entrar nele. Nhá Joaninha Junqueira, do Palmeiral, moça prendada, que tocava e cantava, essa nunca quis saber do bicho. Quando teve de ir à Corte, para a operação, quem disse! foi e voltou de carro de bois. Povo custou a acostumar-se.
Depois os padres diziam que era o trem que trazia as febres e os pecados, e então é que foi medo mesmo.
"E no tempo da guerra?" perguntavam.
Eh! mato comeu gente! Eu estive vai, não vai... Barnabé ficou lá, Brás ficou lá, um bandão deles. Desse tempo só Venâncio mina, coitado! está no Quatis, cego de todo. Não sabe nada, pergunta só. Lei grande já apanhou ele sem vista, para quê? Tinha senhor, vivia na fazenda... e agora? está lá morrendo no escuro, come hoje, amanhã não come, conforme Deus quer. Liberdade... pois sim! Gente anda morrendo à toa, urubu é que gosta.

CAPÍTULO 2
Tudo mudara para Sabino. A terra, outrora rica, frondosa de matas, estava toda nua, escalvada, mostrando lanhos de pedra, lombos de rochas, grotas sem água. Num ponto e noutro tocos assinalavam derrubadas, lanços de morros ofereciam o aspecto lúgubre de borralhos enegrecidos de toros carbonizados. Nas plantações vasqueiras raro uma árvore copada — era tudo ralo, tolhiço: um fim de vida.
O Paraíba, dantes caudaloso, barulhento nas pedras cm cachões borbulhantes, às vezes crescendo tanto que transbordava alagando extensamente as margens, de onde os moradores fugiam abandonando as casas — ali estava secando.
Barcos carregados iam e vinham e agora as leves pirogas, se os canoeiros não eram destros, iam batendo nos cabeços, roçando nas coroas de areia, tão raso corria o rio, escuro, em lameiro grosso, como todo ele feito das barrancas esboroadas, que fossem rolando derretidas para o mar.
O próprio céu descorado esmaecia, cada vez mais pálido.
Sabino sentia a morte da natureza. Tudo estava acabando.
Em certa fazenda, que tivera fama pelo esplendor da sua capela, seguindo uma trilha entre culturas novas, parou relanceando o olhar compadecido. Reconhecia o sítio, mas notava mudanças, falta de alguma coisa.
De repente lembrou-se de uma árvore grande que ali houvera e, d'olhos parados, como que a viu levantar-se esgalhada, folhuda, espalhando sombra larga. E era um mundo de gente embaixo: carreiros, crioulas com os filhos de mama, rapaziada da roça, tudo junto, enquanto o sol amolecia languidamente as ervas, estralava na estrada, quente que nem fogo, e lá longe, no campo, o monjolo batia.
O cafezal, dum verde escuro, reluzia no alto, tão cerrado que não se via um vulto de negro, nem sinal de palhoça — e lá estava o serro seco, agreste, com o sapezal amarelento cobrindo-o como uma grenha de velhice.
Entrava nas capoeiras, direito a um rumo: desiludia-se.
A fonte... isso foi uma tristeza! era bem no mato, escondida. O seu gosto, em moço, era ficar ali, à fresca, tomar o seu banho ouvindo os pássaros, à espera de alguém que aparecia sempre de supetão, assustada, pedindo pressa, com medo de ser apanhada, desde, porém, que se lhe atirava nos braços esquecia tudo. Eh! corpo de rapariga!
Com a lembrança o sangue estuava-lhe nas veias gastas, o coração batia-lhe com força, um fluido de volúpia eletrizava-lhe os nervos. O silêncio era doce, a sombra fresca: só a água fazia um leve ruído e as lavadeiras voavam por entre os juncos. E a fonte? dela apenas restavam pedras secas, areia atorroada e o ervaçal.
E ele pensava no Paraíba, coitado! que ia morrendo à míngua porque as fontes morriam por toda a parte. Quando chovia, sim, o pobre apanhava um fartão d'água, como esmola do céu. Estava acabando!
O próprio cemitério desaparecera — era uma mataria brava! Para achar uma cova — e estava cheio — seria preciso roçar aquilo tudo.
Em certa ocasião, metendo afoitamente pelo caminho funéreo, achou uma cruz de pau. Levantou-a, beijou-a devotamente e, querendo fincá-la, de novo, na terra, partiu-se de podre.
Então, para evitar que fosse profanada, desfez o símbolo e guardou os pedaços no saco para queimá-los quando fizesse fogo. "Cruz de Nosso Senhor não se deixa atirada, e cruz de cemitério então!" E, olhando a terra embravecida em maninho, comentou: "Quanta gente! Isso aqui está que nem paiol."
Tortulhos expluíam nos troncos numa estranha florescência de putrilagem, juás amarelos espalhavam-se como contas de ouro. Tresandava a umidade.
Caminhando no mato alto e emaranhado, dentro da sombra fria, resvalava em caldeirões. "Isso é cova de tatu. Tatu anda aqui: comeu e ficou."
De quando em quando um arrulho dorido passava no silêncio. Que tristeza l E tudo era assim.
Nas Lajes é que ele sentia mais a devastação do tempo: a casa fora reformada, os caminhos mudados, plantações novas, maquinismos. A bem dizer a mesma!  erra era outra, do tempo antigo só ele e a árvore do cômoro, a gameleira, lá em cima.
Os animais não pareciam o que eram: uns touros grandes, lustrosos, quase sem chifres, lerdos, pesados, sentindo-se, nos pastos, sem préstimo, morrendo à toa; cavalos que não aguentavam uma tirada, frouxos, aguando logo; carneiros muito gordos, mas feios. Qual!
E os bichinhos do mato? Até eles. Pois então as garras e passarinhos do seu tempo cantavam daquele modo? A gente entrava na mata e ficava tonta — era uma alegria nas árvores, tudo voando. Marrecas, isso era um nunca acabar à beira d'água e agora? é o caburé de noite e de dia o anum e o urubu tocaiando lá de cima.
Nem sapo! Bacurau, quem vê mais? A gente estava, à noite, sentada no terreiro, olhando a lua, e o bacurau vinha vindo, pula daqui, pula dali, mansinho. E agora? acabou.
Fruta, quem se importava com isso? mato estava cheio, era só apanhar. Hoje tudo tem dono. É cerca de arame por aí fora; um limão custa dinheiro. Folha de laranjeira para remédio, mato, um punhadinho: um tostão.
E lastimava as crianças, nascidas tarde, numa era mesquinha e de melancolia, com o mundo velho, desconsolado e vazio. Atribuía todos os males da terra e a tristeza do céu ao colono branco. Odiava-o. Se avistava algum na estrada, desviava-se, deixava-o passar e voltava-se seguindo-o com o olhar até perdê-lo de vista.
Era o usurpador que entrara apoderando-se de tudo, destruindo o que eles haviam feito, matando a terra, espalhando a tristeza. Gente amaldiçoada! Não podia admitir que um branco entrasse no cafezal de enxada, carpisse, colhesse, rodasse café no terreiro, jungisse bois ao carro e atrelasse mulas ao trole, morasse em palhoças, dançasse nas eiras, rezasse na capela, moesse cana, plantasse mandioca.
Não compreendia que um italiano, como seu Amati, que ele conhecera esfrangalhado, sem vintém, chegasse a ser dono de fazenda.
Não, a terra era deles que a desbravaram e plantaram para os senhores. E os brancos abriam negócios, compravam sítios, montavam oficinas, até governavam como seu Barbosa, um ilhéu, que mandava num mundo de gente no tempo das eleições.
E os negros morriam de fome nos caminhos, não tinham onde morar, ninguém os queria, eram perseguidos. A própria terra era-lhes ingrata, mas estava morrendo, estava acabando. Era a sua vingança. Quando o Paraíba secasse — e não demorava muito — queria ver.
Sentava-se nos barrancos e ficava olhando os horizontes largos, esquecido de tudo, sem sentir o sol. Picava o urucungo cantarolando. Por fim levantava-se.
Hesitava um momento pensando no rumo e metia pelo primeiro atalho, ao acaso, desse onde desse.
Se tinha alguma coisa, comia, senão era o mesmo, punha-se a caminho vagarosamente, resmungando, cantarolando.
Onde anoitecia, ficava. Escolhia um canto abrigado, estendia-se no chão e, até chegar o sono, olhava o céu. E as estrelas pareciam-lhe mais tristes, quase apagadas, como luzes que vasquejam num fim de vigília, e a lua sem brilho, alumiando baça.
Dantes, isso sim, o luar era uma beleza — tudo aquilo branqueava, claro como dia; o rio ficava como de prata, a gente via longe e era uma pagodeira de viola; nos tempos de festa, samba, cateretê, batuque, baile na casa dos senhores e a negrada contente, solta pelos caminhos, cada crioula que fazia gosto. Agora era a sanfona do italiano, uma coisa enjoada, que nem dava jeito.
Acendia o cachimbo e, fumando, recordava os dias extintos, a felicidade do cativeiro, o bom tempo. Cochilava acordando, a instantes, sarapantado. Noite comprida!
Quando começava a clarear levantava-se. Os pássaros cantavam alegres. Na pureza do azul alumiava-se a madrugada. Fazia frio. E ele saía pelo frescor da i eiva esmaltada de orvalho diamantino, ia andando e, avistando um fumo leve, guiava-se por ele. Sentindo a vida, o despertar alegre, vozes de crianças, tinir de louça, o bom cheiro quente do café coando, a fome apertava com ele: parava à cancela ou à porta, sapateava dedilhando nervosamente o urucungo, e, numa voz que chorava um canto melancólico, anunciava-se à com ânsia de supliciado.

CAPÍTULO 3
Foi na estação que ele soube que o coronel Chico Amaral mandara pôr abaixo a gameleira do cômoro. Estava sentado no banco, à espera do trem, quando lhe deram a notícia.
Quis levantar-se, não pôde, bambo das pernas, com os olhos manando lágrimas, a garganta arrochada.
O pajem das Lajes descreveu a "maldade". A árvore custara a cair. Gente boa no machado, rapaziada direita, levara toda a manhã batendo e a árvore dura, teimosa... nem nada! Os passarinhos voavam em volta, assustados, numa gritaria que atordoava, povo assim para ver a bichona! Um trabalho! Suaram!
Lá para o meio-dia, lanhada, escorrendo sumo, começou a estalar. Fazia pena! A gente fugiu de perto, abriu campo, e começou o puxa-puxa: um cabo grosso, mais de vinte homens. Qual! A bicha balançava, ringia, mas nada de cair.
Meteram o machado de novo até que seu Mamede gritou. Foi uma debandada e a gameleira bambeou, mais um sacalão do cabo e, com um estouro, virou caindo, e o chão estremeceu com o baque. Tomou o cômoro, tudo ficou coberto com a mataria. Grande mesmo! Todo o mundo teve pena. E por quê? cisma de nhá Donga.
Só porque um raio caiu lá em cima e o Dr. Barbosa disse que fora por causa da árvore, a moça começou a pedir, a pedir e seu coronel Chico mandou meter o machado. Fazia dó. Os passarinhos andaram tontos, chorando no ar, ora aqui, ora ali, arranjando casa. Abelhas... eh! até parecia praga e aquilo lá em cima ficou desamparado, triste, vazio... Até parecia que tinha morrido gente.
Sabino ouvira calado, d'olhos no pajem. Acendeu o cachimbo, baixou a cabeça e, descaindo o corpo, com os braços abandonados, ficou imóvel.
Um trem chegou. Passageiros saltaram, os pobres correram à esmola alrotando, gemendo, uma moeda caiu-lhe aos pés, atirada de longe e ele na mesma atitude.
Outros trens e nada: o velho não tinha forças nas pernas, não podia consigo.
À tardinha, quando começaram a fechar o armazém e acenderam a agência, levanto-n-se a custo e saiu. Pela linha, da estação às Lajes, era menos de légua, dum lado, o rio, do outro lado, além da cerca, lavouras, o brejal do Mosqueiro, sempre aberto em lírios, o sítio do Fabiano, o canavial de seu Amati, a vendinha do Esteves, num alto, e as Lajes.
Foi indo, devagarinho, parando a espaços para descansar à beira dos bueiros ou nas rampas da estrada. A lua subia grande e clara, redonda e os trilhos alumiavam como dois regos d'água. Lá embaixo o rio tremeluzia. Os sapos faziam um vozeiro de agouro. Ninguém!
Às vezes, na distância, um cão ladrava. À frente, rente da terra, uma luz vermelha olhava solitária. Por entre os matos aqui, ali cortava a sombra uma nesga de claridade.
Sempre que via uma árvore alta, com a fronde luzindo ao luar, o negro parava contemplativo e, maquinalmente, picava o urucungo. O som triste como que o despertava: então gemia, meneava a cabeça e, levantando os olhos, fitava o céu estrelado.
Noite linda! A voz do rio era como uma prece na solidão.
Perto da turma, para que o não vissem na linha, desceu a barranca agarrando-se às ervas, arrimando-se ao cajado e foi beirando o rio merencório. Às vezes um peixe saltava batendo d'estalo n'água. Corujas voavam surdamente e na sombra da espessura acendiam-se vaga-lumes.
Passada a casa da turma tornou à estrada, atravessou cautelosamente o pontilhão.
Pareceu-lhe ouvir o estridor longínquo de um comboio. Parou à escuta, levantando a cabeça serenamente, sem medo. Adiante, num corte, era tudo escuro; atrás, nada, não descia trem àquela hora. Era o rio roncando. Foi-se.
Reconhecendo o viçoso canavial do Amati parou: era como um mar dourado e marulhava ao vento. Na colina, entre eucaliptos, alvejava a morada, tão branca como a própria lua.
Era um dos donos da terra. Quem diria! Começara na estrada, trabalhando de picareta. Desaparecera uns tempos, voltara, anos depois, com um macho carregado de fazendas e quinquilharias. Batera aquilo tudo, até Valença e um dia, com a marte de seu Mariano, indo à praça o sítio, quem havia de aparecer para comprá-lo? o italiano.
Seu Carlos da botica garantia que ele arranjara a vida passando notas falsas. O caso é que comprou a terra e lá estava: tinha engenho a vapor, uma boiada limpa, cafezal novo e prédios na cidade. No seu tempo andava roto, descalço, carregando ferramentas, comendo em marmitas, dormindo ao relento, pior que escravo. E estava ali! Ficou olhando. Era assim. Sorte de cada um.
Adiante, a venda do Esteves, outro. Ainda estava aberta, tinha luz. Era o ponto dos colonos, jogo fervia lá dentro até de manhãzinha. Às vezes saíam brigas, facadas, tiros. Mas seu Esteves era homem, zangado ninguém podia com a vida dele. Quando via a coisa malparada, entrava, apartava os parceiros, botava tudo para fora e fechava a porta.
Só um espanhol quis pegar com ele, mas o português não deu tempo: zuniu o cacete e o outro tombou na estrada, com garrucha e tudo, quase morto.
Estava rico, só em compras de café aos colonos fazia um negocião e ainda emprestava dinheiro e no jogo era uma vassoura.
No tempo de Manezinho aquilo não era nada, um ranchinho à toa, de sapé, com uma pipa de cachaça, umas garrafas de cerveja, uma barrica de bolachas e latas de sardinhas. Lá estava: negócio grande. Mas Manezinho era mulato, não tinha sorte. Português chegou, mudou tudo.
Quando passou o córrego pelas alpondras o coração bateu-lhe d'esbarro. Estava nas Lajes. Entrou mui de passo, espreitando.
A fazenda dormia na alvura do luar.
Embaixo, em renque, os paióis, a casa das máquinas; a um lado o moinho. Em cima, na extrema da alameda de palmeiras, a casa senhorial vasta, estendida em janelas, com um largo portão sobre a varanda coberta de trepadeiras.
Os terreiros branqueavam como areais e funda, obscura, luzindo em reflexos metálicos, a mata ainda fazia ressair mais claro o casario silente.
O negro subiu a rampa devagarinho, aos bocados, parando para respirar: sentia o peito oprimido, uma angústia no coração, como se lho apertassem.
Um vulto de animal passou lentamente na estrada desaparecendo na sombra. Os sapos faziam na horta um estrupido azoinante e no meio do caminho que levava ao pomar uma poça reluzia como um pedaço de céu com estrelas.
No silêncio pairava um férvido ruído, um som vago, retininte como o que se escuta nas conchas. O rio, ao longe, murmurava.
Sabino olhava — era toda a sua vida, toda! Instantaneamente um bando de figuras lépidas revoluteou na sombra. Lá no fundo surgiu a casa antiga, senzalas por ali fora, o engenho, o curral no outeiro — foi um momento, tudo sumiu no luar.
Era o passado que subia do tempo numa evocação da saudade. Caminhou.
Um cão saiu debaixo duma carreta, acuou a distância, rosnando. O negro intimou-o e o animal, agachando-se, a dar à cauda, veio, de rojo, festejá-lo, seguiu-o um instante, mas retrocedeu ladrando. Foi indo. As pernas tremiam-lhe, a cabeça enchia-se-lhe como de fumo, aturdida, sombras empanavam-lhe os olhos.
Quando enfrentou com a casa-grande era tão doce o aroma do jardim que esteve um instante encostado à cerca, gozando-o. Ali mesmo — mas não era assim — costumava ficar até tarde, os olhos na porta da cozinha, à espera de Maria Rosa. Quantos anos! Tempo voa! Mas parecia que fora ontem, a modo que ainda sentia o cheiro do corpo.
Olhava: tudo em silêncio. No seu tempo, não vê! Àquela hora a rapaziada andava furando os matos, uns atrás de mulheres, outros capiangando e quem não levava a sua rapariga ia encolhido pelas bibocas com sacos de café para a venda.
Onde estava essa gente toda? na terra, com o mato em cima.
A água, correndo por um canal, passava por ele com um murmúrio leve.
Dali ao cômoro era um instante, caminho bom. Mas estava cansado. Sentou-se numa pedra e ficou banzando.
Quanta coisa! Reviu tudo como em sonho, gozando a morte. Por fim levantou-se.
Os galos cantavam, uma cigarra chiou na ilusão do luar.
Quando chegou acima a árvore caída parecia amortalhada em luz: as folhas avultavam em monte, o tronco estendia-se como enorme coluna.
O negro ficou estatelado, olhando, com lágrimas silenciosas. Teve um arquejo. Tomou o urucungo a mãos ambas, estendeu os braços como se oferecesse o instrumento à morta. Um som partiu, lúgubre. Não pôde mais: amoleceu as pernas, caiu entre as folhas, de' bruços.
De manhã, quando a gente subiu para talhar a árvore e limpar o cômoro, Mamede, que ia à frente, interrompeu a algazarra alegre dos companheiros com uma exclamação espavorida:
— Uai! Cruz! Correram todos curiosos:
— Que é? Que é?
E o capataz, que recuara, mostrou um vulto entre as folhas murchas.
— A modo qu'é tio Sabino. Aproximaram-se, examinaram.
— É mesmo.
Era o negro — deitado entre as folhas da árvore, com o urucungo no peito, os olhos ainda abertos, morto.


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Digitalização, pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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