sexta-feira, 24 de maio de 2019

Monteiro Lobato: Catulo — voz da terra (Ensaio)



Catulo — voz da terra

O Brasil existe e insiste. Tem uma alma caótica, isto é, em formação, caos não significa apenas desordem. Tem a carne sensível, apesar dum sistema nervoso rudimentar, como o das baleias. O Brasil é imenso. Desdobra-se por 8.525.000 quilômetros perfeitamente quadrados, e até já passa disso, em virtude do aplastamento do morro do Castelo. Possui terras feracíssimas, como as roxas de São Paulo, e carrascais piores que os desertos da Líbia. Zonas onde tudo são águas, pirarucus e jacarés truculentos, ao lado de zonas onde a seca periódica só poupa às cactáceas.

“Nesta terra se dá tudo”, disse Vaz Caminha; “mas a formiga come tudo que se planta”, acrescenta o Jeca, de cócoras na filosofia da sua velha experiência. Talvez seja por isso que na terra que dá tudo quem quer uma fruta adquire, a peso de ouro, nas joalherias, pêssegos da Califórnia, maçãs da Argentina, uvas de Alicante.

Mas que dá tudo, dá. Dá café, cacau, coco babaçu, mandioca, besouros enormes, coronéis ainda maiores; dá papo, maleita, revoltosos, legalistas, doutores, anofelinas, casebres de sopapo e arranha-céus, academias de letras e reformas de ensino; dá impostos e carrapatos devoradores de impostos; dá o algodão com o curuquerê ao lado; dá sempre o pró rente ao contra, um pró magro e um gordo contra que o inutiliza.

Só não dá justiça.

Desse, e o grande poeta nacional, esse Catulo que ninguém ouve sem sentir dentro de si o arrepio da raça não estaria de barbas postiças, num teatro, a trocar o arrepio de seus versos pela magra subsistência.

Rosalina Coelho Lisboa, voz harmoniosa desse algo superior que paira sobre os homens, denunciou a profanação e apontou para o Trianon:

— É na Academia de Letras que ele deve estar.

Não sei. As academias têm morgue e Catulo é o que há de mais livre e boêmio. Só mesmo onde deve estar estará bem: no coração dum povo.
Catulo é o grande poeta nacional.

O Brasil possui poetas em barda e alguns magníficos; mas são poetas universais, que jogam com imagens vindas de Anacreonte a Verlaine. Poetas que tanto seriam brasileiros como mexicanos, franceses ou russos,

Catulo, porém, é o poeta da terra, a harpa eólia que ressoa ao menor arfar da terra. Amores, anseios, sofrimentos humildes, cismas vagas, o verdadeiro sentir da nossa gente só nele encontra voz. E que voz! Com que vigor se exprime! Com que inaudita riqueza de imagens novas, sem eiva de reflexo europeu!

Catulo é bem a voz da terra brasílica. Voz das coisas e voz das gentes. Tanto fala nele o amor do vaqueiro como a angústia bracejante da peroba que a queima da floresta deixou semicarbonizada no viso do espigão.

Aos demais poetas ouvimo-los com o cérebro. São filhos da cultura geral, são traduzíveis.

A Catulo ouvimos com o coração, e ouvimo-lo tomados dum estranho transtorno interno. Uma coisa grande, uma coisa vaga, informe, monstruosa cresce dentro de nós, expulsa o moderno de importação que está ali e nos deixa sozinhos com a raça. Nosso peito se enche de avós, como um albergue tomado de assalto por sombras ambientes.

Acodem tupinambás de pedras verdes nos lábios, dos que comiam portugueses com tripas e tudo; acodem velhos lusos de barba em colar; acodem iracemas que se cruzaram com esses barbadões iniciais; acodem avós fazendeiros de açúcar, bandeirantes tropeiros que acabaram barões do império, acodem homens de garimpo, caçadores de onça, senhores de escravos, sinhás-moças e sinhás-velhas — toda essa gente passada que viveu, amou, chorou e com as armas que pôde foi tirando da floresta imensa um país.

Acodem em tumulto para ouvir a língua que foi a deles e ouvir as imagens, únicas que lhes sugerem coisas vistas e vividas. E enquanto o poeta geme seu descante ao violão permanecemos assim, obstruídos de raça, no êxtase de íncubos atravancados de veneráveis súcubos avós.

O Brasil dá tudo, menos justiça. O Brasil recompensa tudo, menos o mérito. Que há de esperar Catulo da sua pátria senão umas barbas postiças?

Há dele um poema lindo onde se narra o amor dum papagaio de estimação pela cachorrinha Sauna. “Mártir, velha, escorraçada, quase no extremo da vida, andava sempre escondida e não morria esfomeada porque às vezes lhe tocava um frangalho de comida que a outro cão sobejava”. Seus olhos, salva a heresia, lembrava os olhos da Virgem Maria. A sua melancolia era saudosa e macia como a sombra do luar. Quanta dor, quanta poesia, quanta filosofia chorava naquele olhar!”

Desprezada por todos, só o papagaio a estimava. “Quando lhe faltava um osso para o jantar era belo, era sublime ver aquele papagaio, como quem comete um crime, às ocultas lhe ofertar alguns bocados gostosos do seu gostoso manjar.” E repetia vinte vezes o nome de Sauna, só porque ela, debaixo do seu poleiro, se quedava extática a ouvi-lo.

Um dia Sauna morreu. Encontraram-na com a barriga inchada à porta do curral, rígida e fria, mas nos seus olhos inda “se lia aquela filosofia da dor irracional. E só porque já fedia foi que o vaqueiro Zé Marco enterrou a pobrezinha ao pé dum velho pau d’arco”.

Quando o papagaio soube da morte da triste sarnenta, emudeceu e nunca mais repetiu o nome de Sauna.

Catulo conclui o poema com um grito d’alma verdadeiramente sublime.

Meu Deus!... Por que não fizeste os homens irracionais?

Quem grita assim, quem atinge tais alturas, merece castigo. Merece como ganha-pão no fim da vida, não uma, mas duas barbas postiças.



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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