sexta-feira, 24 de maio de 2019

Monteiro Lobato: O bocejo de leoa (Ensaio)



O bocejo de leoa

O acaso entra por muito nos destinos humanos. Mas há também o cálculo, e se fosse possível estudar a vida de uma criatura como o físico estuda um jogo de forças naturais, quem sabe não se reduzirá a resultado final de um puro cálculo o que chamamos acaso, destino, sorte? Os vencedores da vida seriam neste caso os calculistas exatos, os que não erram no decurso da operação, os que não dão passo sem tirar a prova dos nove fora, os que constroem pedra a pedra e adotam na construção da sua vida os processos friamente exatos de um construtor de casas.

Em 1635 nasceu numa prisão de França uma menina. Seu pai, mau tipo, duas vezes acusado de espionagem, azedou a alma nos cárceres e por fim teve de emigrar para uma ilha da América, onde morreu. A menina volta para a França com doze anos e começa a sofrer os safanões da vida. Vai para a casa duma parenta longe, onde é tratada com rigor extremo.

Querem domá-la, querem torcer-lhe o pepino do caráter num certo rumo, para que não puxe ao patife do pai.

Ela reage, e dizem que sua juventude foi desgraçada, e que da formosa Ninon de l'Enclos recebeu a boa lição da duplicidade da vida — vida “para a Moral ver”, em cima; vida solta embaixo, bem secreta, bem oculta em boas casas de encontros clandestinos.

Aos dezesseis anos surge-lhe um casamento ao qual se agarra como a um presente do céu. Chamava-se Paul Scarron o noivo.

Era velho, cul-de-jatte, poeta e impotente. Mas a menina, já mestra em cálculos, calculou certo ao aceitar a monstruosidade dessa ligação. Libertava-se da tirania da parenta má, adquiria uma situação social e não se comprometia a coisa nenhuma — nem sequer a ser mulher do seu marido.

Scarron vivia de versos e esmolas. Tinha uma pensão da rainha-mãe, a título de “doente da rainha”. “O meu cul-de-jatte”, dizia ela, como hoje dizem certas donas de casa: “o meu pobre”. A uma destas senhoras ouvi falar para outra, recém mudada para a sua vizinhança:

— Não te incomodes com fornecedores. Vou mandar-te o meu padeiro, o meu açougueiro, o meu fruteiro e até te mando o meu pobre, que é um pobre limpo, decente, sem doença feia e muito bonzinho.

Scarron morreu quando sua “mulher de ver com os olhos” entrava nos vinte e cinco anos, e deixou-a na miséria. Francisca — demos-lhe o nome — requereu ao intendente da rainha-mãe que lhe mantivesse a pensão do esposo. Esse intendente era italiano, cardeal e marido oculto da rainha; além disso, um forreta de marca. Recusou em nome da patroa.

“Está doente Francisca? Não. Como quer então suceder ao marido no cargo de doente da rainha? Adoeça e volte”, devia ter sido despachado.

E a viuvinha passou miséria até que conseguiu do rei uma pensão de duas mil libras, arranjo que lhe daria para passar como uma datilógrafa de hoje.

Adoradores, sedutores rodeavam-na de todos os lados, mas o cálculo a defendia melhor que uma cintura de castidade. O cálculo nesta situação é proceder a jeito que nada desfavorável mareie a reputação de vestal, de modo a conservar-se a criatura desimpedida e com os músculos bem trenados para o bote, para o grande bote que é o objetivo final dos grandes calculistas.

Francisca, vira de cá, vira de lá, consegue cair nas graças de Mme. de Montespan, amante oficial de Luís XIV. Faz-se sua criatura de confiança. Torna-se-lhe indispensável. É quem, logo ao nascerem, toma sob o manto os produtos da cruza do Rei-Sol com a outra e foge a ocultá-los em Paris. Sete vezes procedeu assim, fazendo desaparecer de Versalhes sete filhotes de rei. Em Paris organiza uma sábia criação desses entes meio humanos, meio divinos — uma coelheira real, e escreve numerosas cartas ao coelho envergonhado, dando conta dos progressos dos reais coelhinhos. O rei, que a princípio não suportava a presença de Francisca d’Aubigné — digamos-lhe mais um pedaço do nome — e censurava a Montespan por tê-la em casa, interessa-se pelas cartas e as lê com agrado crescente. Fraco em cálculo, o rei se enliçava no estilo do cálculo feito mulher, que era Francisca d’Aubigné. E passa da curiosidade à amizade e da amizade ao amor e do amor ao desejo de posse. Esquece, repudia, afasta a Montespan e estende os braços para a Maintenon — que foi o nome com que entrou na história.

Enganou-se, porém. Pela primeira vez uma mulher lhe resistia, e o Rei-Sol conheceu essa coisa romântica que os franceses chamam languir.

O cálculo vencia. O cálculo é o que é — e o que é o que é vence sempre. Resistir ao rei, coisa que jamais ocorrera a nenhuma mulher de França, era o meio único de conquistar o rei.

E o rei conquistado, já viúvo por esse tempo, aceitou a imposição da calculista insigne:
— Ou casas comigo ou...

Esse ou apavorava o rei. Era um estado vago, incerto; era o langor, espécie de febre do Texas que só não dá nos zebus; era condenar-se a passar o resto da vida com o peso de uma derrota na consciência e a sensação insuportável duma curiosidade não satisfeita em matéria de amor. Luís XIV não teve ânimo para enfrentar o terrível, o misterioso ou, e contraiu com Mme. de Maintenon um casamento secreto. Tinha ele quarenta e oito anos e Mme. Cálculo, cinquenta e dois!

Estava a pobre menina, filha do espião, transfeita em rainha de França e mais poderosa que nenhuma mulher o foi jamais.

Deu-se por satisfeita? Encontrou a felicidade? Não. Um trecho de carta revela o imenso tédio de sua alma:

“Se eu pudesse comunicar-te a minha experiência, escrevia ela a uma amiga, e revelar-te o tédio que devora os grandes, e o penoso que lhes é encher os dias... Não vês que morro de tristeza, no apogeu de uma fortuna que excede aos maiores delírios da imaginação? Fui jovem e bela; gozei todos os prazeres; fui amada. Na vida madura passei os anos no comércio do espírito e alcancei o favor supremo; mas juro-te, filha, que todas estas fases da vida me deixaram n’alma um vazio horroroso!”

Que grito d’alma! Sente-se que ao fazer essa confissão a maior calculista do século deu um pontapé na matemática e abriu o seu coração blindado. A leoa traiu-se. Bocejou...



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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