sexta-feira, 24 de maio de 2019

Monteiro Lobato: “Em pleno sonho” (Ensaio)



“Em pleno sonho”

Outrora, no Brasil de anquinhas, ser poetisa era suspirar. Viera a moda do reino. “Desde 1848 a 1866, diz Camilo, contavam-se por dúzias as cantoras que em Portugal pousavam gorjeando nos periódicos do tempo, com grande riqueza de charadas e muitíssimos Suspiros dignos dos círculos mais lacrimosos do Dante”. Assim, mulheres lá, cá homens e mulheres — todos suspiravam de cortar o coração, quando a musa lhes tumescia o estro.

Hoje, tudo mudou. Se há suspiros é em casa das doceiras: clara de ovo batida com açúcar e assada em pingões ao forno.

Suspiro poético, arrancado do imo d’alma, à força de contrações do diafragma e sibilo de nariz, isso morreu, saiu da moda, acabou. E é pena. Se não tinha graça num marmanjão de cabeleira que morria hético aos 20 anos, tinha-a demais nas representantes do sexo hoje ex-frágil, cujos corações não eram consultados nem para o negócio supremo das suas vidinhas: casar.

A poetisa de hoje emparelhou-se com o poeta moderno. E assim como este perdeu a cabeleira, a caspa, as atitudes fatais, e veste-se, come, bebe e lava-se como todo o mundo, assim também a poetisa desfatalizou-se e não há mais discerni-las à janela pelo negror das olheiras, nem à noite pelo modo canino de ferrar o olho na lua.

Compuseram-se. Alçapremaram-se a nível superior. Emparelharam-se às demais criaturas finas de elegância mental, distinção e sobriedade de maneiras.

Quem lê uma Francisca Júlia tem a impressão duma eleita da linha, no caráter e na mentalidade.

Gilka Machado dá a sensação nobre de quem está afeita a partir cristais com martelo de ouro.

Albertina Berta documenta a capacidade feminina para voos elegantes sobre cumeadas alpestres onde esvoaçam d’Annunzios.

E agora Maria Eugênia Celso revela em livro a maneira galharda com que neta e filha podem empunhar um cetro de nobreza moral legado pelo avô, e uma pena refulgente que inda maneja o pai.

Nem resquício da poetisa à antiga, aves cômicas que “pousavam gorjeando nos periódicos do tempo”. Mas a criatura de fina sensibilidade e larga cultura, de nobilíssimo caráter e suave equilíbrio, à qual apraz traduzir em versos os mais sutis estados d’alma.

Surge em campo com um livro — Em pleno sonho — carruagem da rainha Mab que permite ao leitor um passeio inesquecível através duma alma. Passear pelas alamedas duma alma!

Pervagar, virgilinamente, pelo jardim das suas impressões, descortinando paisagens psicológicas, florestas palpitantes de anseios, riquíssima de tons emotivos!...

Prazer de encanto redobrado quando nos conduz mão de mulher. Abençoados os livros assim — cartões de ingresso permanente à nobre intimidade das almas encantadoras.

Sentir tais livros, sentem-no todos: é questão apenas de pertencer ao gênero homo. Já criticar, só os críticos. Fale pois o crítico. Venha um, com sua maleta de cirurgião, seus instrumentos de dissecar, seu olho de lince. Tome o livro; submeta-o à autópsia; desarticule-o; pese; meça; corte; prove; cheire, apalpe e fale. O operador é moço. Tem nariz adunco e olhos cansados da muita leitura. Incuba em si um déspota de amanhã. As nossas letras hão de curvar-se à sua férula como se curvaram as francesas ao bolo de La Harpe. Vai abrir a boca. Tosse, pigarreia e diz assim:

— “É a crítica a manifestação de arte que mais reformas tem sofrido em seus processos. Os estalões estéticos”...

— Não poderá o amigo saltar por cima desse nariz e ferrar logo o assunto?

— “Paciência. Somente Rodin atrevia-se a esculpir corpos sem cabeça. Comecemos do princípio. Os estalões estéticos, aferidores da obra d’arte, por mais firmes que pareçam em certas épocas, sofrem constantes reformas. Guerrilhados sem dó nem folga pelos iconoclastas, caem os padrões como caem os ídolos. E poucos vingam transpor o tempo que medeia entre uma geração de ideias e outra. Há, entretanto, ideias que sobrenadam e resistem às mais rudes provas. Dou um exemplo com a ideia de que em toda a obra d’arte a parte do sentimento é sempre maior que a parte puramente pensada. Disfarcem-no como o quiserem, humilhem-no à lamúria, dilatem-no à revolta, subjuguem-no à lógica: ele subsiste e predomina”.
— Até aí...

— “Espere. Em face dessa verificação força é convir que as mulheres são mais artistas que os homens, devendo, portanto, ser femininos os tipos mais superiormente representativos da arte. A conclusão é lógica”.

— Mas não tem sido verdadeira.

— “Perfeitamente. A causa dessa anormalidade, desse contrassenso residirá talvez no próprio excesso de sensibilidade muliebre, que redundaria assim numa sensível quebra de equilíbrio estético e numa consequente, não direi incapacidade, mas inadaptabilidade de poder de expressão artística”.

— Perfeitamente. Puxe, agora o “mas”...

— “Mas há casos em contrário. Neste livro, por exemplo, noto o milagre de conjugar-se o poeta com a mulher, isto é, noto um caso onde coexistem extrema sensibilidade feminina e forte poder de expressão artística.

Toda a poesia não passa duma confissão do que vai de anseios, torturas, desejos, frêmitos e volições na alma do poeta. E esta nova poetisa sabe ajoelhar-se ao confessionário da Poética e ir desfiando aos nossos olhos o rosário inteiro das vibrações emotivas de sua vida de moça: — seus sonhos. Já nos versos liminares declara que não fará senão confessar-se. E pelo livro a dentro confessa-se. Sua alma é cândida e ardente. Daí o tom pessoal e subjetivo da sua arte, a ternura repassada de nostálgicas tristezas que não chegam até o pessimismo. Isso enubla o livro na deliciosa névoa de melancolia e suavidade que lhe dá ambiente.

Sincera, seus versos brotam límpidos, duma fonte sempre feminina, sempre despida da preocupação de mascarar o próprio temperamento à força de preciosismos, atitudes de escola ou arrebiques falsos, tão do agrado do sexo.

Divide-se o livro em duas partes: Devaneios e Aquarelas e Sonho Interior. Se para intitular a primeira houvesse escolhido o título de Th. Gautier, não teria errado. São essas composições pequenos esmaltes de muito brilho e lindos camafeus de acabado lavor. As mesmas qualidades de fatura caracterizam-nos a todos. Finura de lavor, desembaraço, vivacidade, elegância nos recortes, riqueza de filigranas e em muitos deles grande pureza de traços.

É uma estreante. Por isso surpreende-nos umas tantas medalhas de ouro vivo, cunhadas dum golpe — desses golpes de que só têm o segredo os velhos ourives de mão trenada.

Cito O Cipreste, Crepúsculo, o Ruço, Os bambus, Canção do rio na serra. E cito Musmé, que se me revela aparentada na família dos camafeus de Heredia”.

— Parentesco próximo, ou...

— “Parentesco em primeiro grau. Nas baladas quero ver quase um gênero seu dileto, um tanto influenciadas algumas por mestre Rostand. Todas revelam riqueza de expressão, de cor e ritmo.

Sonho Interior é, como em toda obra lírica, a confissão do amor. Gênero escorregadio, hoje. Tropeçam nele até mestres, tais exigências lhe impõe o saturado paladar moderno. Se o poeta não possui um finíssimo senso do equilíbrio, ai dele! ou cai na pieguice ou rola pela rampa do ridículo. E por esse motivo o lirismo constitui hoje a prova suprema, a que o poeta só vence à força de tato e senso da medida. Ainda este passo, vence-o a sra. Maria Eugênia Celso com grande desembaraço. Revela-se artista seguríssima ao serviço de valente psicóloga. Destaco a poesia Antes do Amor. Devaneio de todas as moças na época em que deliram sob a pressão torturante do amor, estado d’alma por que todas passam, ela o interpreta com extrema habilidade:

E penso em ti, desconhecido amante,
abro-te os braços sem saber porque”...

Esta composição é um poema de sinceridade e de verdade psicológica, e está burilado com suma elegância. Aliás é a elegância uma das melhores características deste livro encantador”.

— Donde concluis...

—...“que temos no campo das letras uma poetisa nova de singular valor pessoal, bastante para imprimir aos seus versos um cunho inconfundível e universal, o suficiente para fixar o sonho vago dum milhão de criaturas”.

Parou aí o crítico, para tomar fôlego e concertar o pigarro. Que prazer demonstram eles depois que anatomizam um livro, jogando com o tal arsenal de chavões revelhos que aplicam a todos os casos concretos! Alguém, entretanto, torceu o nariz ao La Harpe.

— Terás razão. Espetaste na tala de cortiça, com o teu alfinete de entomólogo, uma linda borboleta azul. Mas perdoa-me. Eu cá me fico a pensar que não homenageia em nada a um poeta a autópsia da sua arte, como nada de bem faz à borboleta o alfinete espetado e o latim classificatório em baixo. O que vale, a um e a outra, é ouvir ao passante que o lê ou a vê exclamações simples como esta:

— Inda há belas coisas na vida!

E esta homenagem rendem ao livro de D. Maria Eugênia, todos quantos abrem uma pausa no torvelim da vida, para nele repousar o espírito durante uma boa hora.



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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