sexta-feira, 24 de maio de 2019

Monteiro Lobato: A feminina (Ensaio)



A feminina

Não pode ser mais feliz, com este calor, a ideia da fundação duma academia feminina de letras. Já que a masculina, contrariando a opinião unânime dos fisiologistas, embirra no erro de dar sexo à inteligência não admitindo em seu seio mulheres, lógico se torna o revide da saia, o qual, para ser completo, devia ainda expressar-se à porta numa tabuleta de moer: homem aqui não entra.

Resta agora que o novo grêmio se organize por moldes autônomos, libérrimos, que deem boa medida da invenção guanabarina.

Para isto faz-se mister que as fundadoras antes de mais nada se esclareçam no relativo ao que é, foi e poderá vir a ser uma academia, coisa na aparência fácil, mas na realidade dificílima. Tão difícil, que um mesmo homem as define pela tabela A, enquanto as namora, e pela tabela Z, depois que as possui.

Ao caso não servem definições masculinas; as fundadoras hão de consultar as femininas, entre as quais ressalta a de Mme. de Linange.

Disse esta aguda Madame: Academia é uma sociedade cômica onde se guarda o sério.
Pergunta-se: conformar-se-ão nossas damas de letras com a rigidez de tal programa? Terão a linda coragem, não digo de ser cômicas, o que seria lamentável, mas de guardar o sério?

Parece-nos difícil. Na fotografia do grupo das fundadoras, publicada pelos jornais, uma há que ri — e ri lindamente.

Vemos nisso um vício de constituição. Riso intestino, assim de começo, lembra cavalo de Troia dentro da Praça — e a sombra de Príamo poderá dizer como são perigosos tais presentes de grego!

Tudo muda, porém, se o riso fica de fora. É neste caso inócuo, pois não consta que riso algum, amarelo ou rabelesiano, jamais haja morto nenhum acadêmico.

Se existissem entre nós editoras, fora lógica a esperança de uma Mecenas, que à vara mágica dum legado resolvesse para sempre a questão.

Não consta que as haja, e fora daí não parece possível que venha herança.

É verdade que em França já houve um precedente.

Clemência Isaura, formosa dama de Toulouse, tomou-se de singular paixão pela Academia dos Jogos Florais, e vendo que por escassez de fundos a olorosa instituição definhava, teve a ideia feliz de legar-lhe sua fortuna.

Tudo mudou, como aqui. Foi um derrame de primavera no esfaimado inverno da academia moribunda. Restaurou-se incontinenti o brilho da festa anual em que, como prêmios às melhores flores poéticas apresentadas, o vencedor recebia uma violeta de ouro.

Que mimo! Em vez de prosaicos prêmios em vil papel moeda, uma violetinha de ouro!
A renda proporcionada pela interessante Clemência possibilizou a criação de novos prêmios: uma sempre-viva, para as odes; uma eglantina, para as charadas; um amor-perfeito, para os acrósticos; um lírio, para os poemas — tudo de ouro, com exceção do lírio, que seria de prata dourada. Larousse não o diz, mas está no caráter francês. O lírio é flor muito grande para ser reproduzida em ouro...

Essa Clemência teve estátua no salão nobre do Trianon de Toulouse, estátua que os “maitres és” jogos florais, no 3 de maio de cada ano, revestiam de flores e diante da qual um deles, emergindo de enorme corbelha de rosas, fazia o panegírico da padroeira.

Há que notar aqui a gratidão dessa gente. Gozavam-se do dinheiro de Clemência, mas não deixavam passar ano sem festa ditirâmbica em sua honra.

E como apesar de tudo inda sobrasse dinheiro, a academia floral agregou às festas simbólicas banquetes lautíssimos. Banquetes que degeneraram em orgia e fizeram intervir, com denúncia ao rei, um marquês de Maricá da época (não ganhara violetinha, com certeza...).

O qual rei, abespinhado, restabeleceu policialmente o sério próprio de academias inda que florais.

Nutrirá esperanças duma Clemência Isaura a nova Academia Feminina? Não estará acaso convicta de que sem fundos não é possível viver decente nesta era mais que nunca idólatra do Boi de Ouro, que ingenuamente Moisés abateu no deserto?

Outro ponto a estudar é o sistema eletivo, ou, melhor, o critério da escolha. Dada a notória implacabilidade da morte para com os imortais, terão nossas acadêmicas de reunir-se várias vezes ao ano a fim de completar a equipe desfalcada. E surge o problema tremendo: qual o critério da escolha?

Ponto melindroso, tanto varia o critério humano na apreciação dos valores exorbitantes ao quadro métrico decimal.

Entre os inúmeros existentes há um, o de Guizot, que se revela profundamente sábio (da boa sabedoria, a pragmática!).

Perguntaram-lhe se votava em N. N.

— Sim, respondeu o acadêmico que apesar de ex-ministro tinha sal; dar-lhe-ei meu voto porque N. N. possui todas as qualidades dum perfeito acadêmico. Veste-se bem, escova os dentes, é polido, condecorado e não consta que tenha nenhuma opinião. É verdade que publicou umas obras... Mas, que querem vocês? Não há ninguém perfeito...

Sob forma de blague há no critério de Guizot uma altíssima sabedoria. O fim último dum grêmio, de parte as belas palavras do programa, é um viver amável em boa sociedade. Erra, pois, quem atende mais à obra do candidato do que ao seu feitio social. Obra vale para o uso externo; internamente a amenidade do convívio só exige os formosos dotes do N. N. de Guizot.

Arquitetada nestas bases, a nova academia terá vida longa e amena. Nossas damas se reunirão todas as semanas para conversar sobre modas, fatos sociais, casamentos, divórcios, etc., isto antes da sessão. Durante a sessão uma lerá versos de poetisas esquecidas, como a Nísia Floresta; outra dissertará sobre o absurdo do sapato das chinesas; outra deitará apóstrofes fulminantes contra o tráfico das brancas; outra provará que a inteligência humana não tem sexo.

Finda a assembleia irão todas para casa, muito contentes da vida, ansiosas por lerem o compte-rendu da festa nos jornais do dia seguinte.

E a harmonia do universo em nada se perturbará. Nísia Floresta continuará esquecida; os proxenetas continuarão a escravizar as brancas; as chinesas continuarão a torturar os horrendos pedúnculos e a inteligência humana continuará dividida em dois sexos, o masculino que leva Newton a descobrir a lei da gravitação e o feminino, que nos leva a fazer asneiras.

— Ou a escrevê-las... dirá mordendo os lábios dona Mercedes Dantas.



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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