sexta-feira, 24 de maio de 2019

Monteiro Lobato: O “Conto do Petróleo” (Ensaio)



O “Conto do Petróleo”

O “Globo”, do Rio, publicou uma reportagem sobre a excursão feita pelos acionistas da Cia. Petróleos do Brasil às margens do Araquá, onde essa empresa está perfurando um poço de petróleo. Ao lado da notícia o vespertino carioca inseria comentários recordando a opinião sobre as nossas companhias de petróleo, dada àquela folha pela maior autoridade oficial do Brasil — o sr. Eusébio de Oliveira, diretor do Serviço Geológico Federal. “Conforme frisamos então, diz o “Globo”, esse técnico não teve dúvidas em classificar as iniciativas desse gênero entre nós como idênticas aos célebres “contos do petróleo” muito comuns na América do Norte, onde se improvisam e se desfazem grandes companhias para devorar não menores capitais de acionistas incautos”.

Realmente, o sr. Eusébio tem razão. O que andamos a organizar, nós, os petroleiros do Brasil, não passa do velho “conto do petróleo”, conhecido no mundo inteiro tanto quanto por aqui o “conto do vigário”.

Nos Estados Unidos o “conto do petróleo”, consistente em atrair dinheiro de acionistas bobos para perfurar o chão, começou a ser praticado muito cedo, logo depois da descoberta do petróleo na Pensilvânia — e a consequência foi que com o dinheiro assim tomado ao público os piratas abriram até hoje nada menos de um milhão de poços, dos quais jorrou, até a presente data, a brincadeira de 15 biliões de barris, no valor de 22 biliões e meio de dólares. Ao câmbio azul do Banco do Brasil isso corresponde a 292 milhões de contos de réis.

Graças à esperteza desses “contistas”, o “otário” americano, que “caiu” com o dinheiro para as perfurações, beneficiou-se com uma soma equivalente a várias vezes a riqueza nacional do Brasil — apesar de ser apenas uma parte do que essa matéria-prima rendeu depois de desdobrada, pela refinação, na série de produtos sob cuja forma entra no comércio.

Para melhor realçar o fantástico desenvolvimento que tomou o “conto do petróleo” nos Estados Unidos, aqui pomos os algarismos referentes aos anos de 1929, 1930 e 1931. Unicamente nesse triênio o “célebre conto” fez resultar uma produção de 2.761.323.000 barris, no valor, ao pé dos poços, de 54 milhões de contos de réis — ao câmbio azul...

Em vista do excepcional sucesso do “conto do petróleo” entre os ianques, outros países da América principiaram a sentir coceiras, e a pedir pelo amor de Deus, que os espertalhões fossem operar em seus territórios. E os resultados da pirataria insigne não foram menores.

No México, só nesse triênio, o “conto do petróleo” deu como resultado a extração de 118 milhões de barris. O “otário” mexicano hoje esfrega as mãos e olha com muita ternura para os “contistas” que o enriqueceram.

Na Venezuela os “contistas” conseguiram perfurar poços em número suficiente para, nesse triênio, jorrarem 394 milhões de barris. O “otário” venezuelano também esfrega as mãos e lambe as unhas, sorridente.

A Colômbia quis logo entrar no bolo. Abriu a bolsa aos “contistas” e obteve em igual período uma produção de 60 milhões de barris. Ótimo! exclamou o “otário” colombiano, piscando o olho.

Depois veio o Peru. Quis da mesma forma ser “tungado” pelos “contistas do petróleo” — e conseguiu, no triênio em causa, arrancar ao seu subsolo 37 milhões de barris do precioso líquido. Magnífico! grugulejou o Peru, de papo cheio.

Lá em cima, a pequena ilha de Trinidad, invejozinha, deixou que os “contistas” viessem operar em seu exíguo território — e obteve, nesses três anos, a ninharia de 4.600.000 barris. Serviu, serviu...

O Canadá, aflito, chegou a importar da terra de Tio Sam hábeis “contistas” — e graças a eles pôde, nesse período, extrair do solo 4.300.000 barris. O rei Jorge, lá em Londres, congratula-se consigo mesmo.

A Bolívia deixou de puritanismo e entrou no jogo. Está hoje, graças ao “conto”, com os seus “otários” rejubilantes.

A Argentina foi nas águas dos demais. Importou “contistas” e deixou que operassem livremente os “contistas creolos”; tomou muito capital de acionistas incautos e já perfurou 1.600 poços, dos quais, só no período acima, obteve 28.300.000 barris, quase o bastante para o consumo nacional. Está também, essa nossa vizinha, satisfeitíssima com ser “otária” de tal “conto”. Abençoa-o.

Como se vê, na quase totalidade absoluta dos países das três Américas o “conto do petróleo” deu os melhores resultados, sendo que num deles, os Estados Unidos, contribuiu com altíssima quota para fazê-lo mais rico e poderoso país do mundo.

Enquanto todos esses países deixavam que os espertalhões aplicassem livremente o fecundíssimo “conto do petróleo”, consistente em tirar dinheiro de acionistas incautos a fim de perfurar a terra, aqui neste Brasil de imenso território, por si só quase metade da América do Sul, ficamos todos nós — quarenta milhões de bobos — assistindo, de boca aberta, à cômica aplicação do “conto do Eusébio”.

Em que consiste? Em aplicar anualmente uma verba de 2 ou 3 mil contos “na demonstração de que não há petróleo no Brasil” e na barragem sistemática dos “contistas do petróleo”. Com esse dinheiro extorquido ao povo sob forma de impostos dolosos, Eusébio diverte-se abrindo buracos de tatu nas zonas mais indicadas e dizendo: “Não há petróleo; vocês estão vendo que não há petróleo”. E se acaso um desses buraquinhos de tatu atreve-se a dar indícios indiscretos de petróleo próximo, baforando gás, Eusébio, furioso com a irreverência, tapa-lhe a boca com cimento...

Nem fura, nem deixa furar — é sua política geológica.

A desgraça do Brasil e sua derrocada financeira decorrem em grande parte disso — de Eusébio, o Todo-Poderoso, não deixar que se aplique aqui o “conto” que está a enriquecer “todos” os países da América. Mal um grupo de “contistas” se reúne para apanhar dinheiro do público a fim de perfurar (meio único que se conhece de tirar petróleo), o Cérbero de cócoras no pico do Serviço Geológico dá o grito dos gansos do Capitólio e em entrevistas aos jornais previne os possíveis “otários” contra a “marosca”. “No Brasil não há petróleo, diz ele. Eu, que sou onisciente, sei disso. Deus, o Supremo Arquiteto das Anticlinais e Sinclinais, informou-me em nota confidencial”. E o “conto” falha.

Quando o dr. Romero veio ao Brasil, contratado por uma companhia que se formou especialmente para fazer uso do seu aparelho indicador de óleo e gás, o Júpiter Tonante do Hidrocarbureto trovejou do alto da sua pilha de tamancos: “Mistificação! Ignoro tudo a respeito desse tal aparelho — mas é uma guitarra. Adivinho-o. Eu, eu, eu, eu, o Grande, o Infalível Eusébio, o juro de mãos postas sobre uma camada do Devoneano”.

Mas apesar do escabujamento délfico da Vestal Hidrocarbúrica, firmíssima no seu dogma de NÃO HA PETRÓLEO NO BRASIL, acionistas incautos apareceram, e quatro companhias aplicadoras do “conto” estão hoje a perfurar o solo com resultados já bastante promissores.

Mas Eusébio tem razão. O que essas companhias fazem no Brasil não passa de tirar dinheiro de acionistas incautos para perfurar a terra. Logo, “conto do petróleo” perfeitamente caracterizado, do legítimo, do que foi tão intensamente praticado na América do Norte. Sua maldade, porém, esconde o resto, e ele “esquece” de acentuar que justamente por ter sido já comuníssimo esse gênero de “conto” é que Tio Sam conseguiu abrir um milhão de poços e tirar de dentro deles o big stock com que mantém a sua hegemonia do mundo. Se tivesse havido em Washington uma Vestal Anticlínica ao tipo da nossa, com suficiente prestígio oficial para impedir a intensa aplicação do “conto do petróleo”, os Estados Unidos da América estariam hoje no mesmo pé dos Estados Unidos do Brasil — na miséria, com o serviço da dívida externa suspenso pela quarta vez, sem isca de crédito e forçado a sangrar-se fundo no bolso para a aquisição no exterior dum combustível básico que toda a América retira do seu subsolo.

Há treze anos que este senhor Eusébio mantém o Brasil no regime puritano do “dar para trás no conto do petróleo”, impedindo assim, com a sua imensa autoridade de Iluminando-que-sabe-o-que-está-escondido-lá-no-fundo-da-terra, a fecundíssima aplicação do “conto do petróleo”. Graças à sua heroica resistência contra os piratas petrolíferos, o pobre e surrado Brasil teve, só nesse período, de despender 4 ou 5 milhões de contos para a compra do que já devia estar produzindo e exportando.

Por que, santo Deus? Qual o segredo da fúria euzebiana contra todos os que se atrevem a perfurar — isto é, “a fazer aqui o que no mundo inteiro se faz para descobrir petróleo?”

Muito simples. Eusébio dirige a seu bel prazer, e sem controle, uma gorda verba para “investigações de petróleo”, com a qual vai abrindo os seus buracos de tatu e orientando a campanha contra os “contistas”. Se vier petróleo, raciocina ele, não vem para mim — e a verba some-se do orçamento. Ora, entre o Brasil ficar com petróleo e eu sem verba, todo seria se vacilasse. A verba é uma realidade; o petróleo é uma hipótese. Viva quem quiser de hipóteses; eu vivo de realidades.

É este o “conto do Eusébio”.



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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