sexta-feira, 24 de maio de 2019

Monteiro Lobato: O perigo de voar (Ensaio)



O perigo de voar

A insistência com que foram aclamados no Pará os aviadores argentinos acabou por apavorar os pobres homens. O entusiasmo da população de Vigia e outros lugarejos transitados a pé pelos heróis aéreos tornou-se asfixiante — sobretudo vindo de mistura com o calor, que é lá um caso sério, e as nuvens de carapanãs, caso seríssimo. Isto prova mais uma vez que o Brasil é bom para voar por cima, mas derrancador para ícaros que põem pé em terra.

O Brasil admira a gritos, a discursos inflamados e abraços de quebrar ossos o homem que voa. Está no sangue. Quando Dumont, depois da sua vitória em Paris, veio cá a passeio, tanto o maltrataram a marretaços de retórica, discursos e vivas que ele regressou a Paris correndo, e a fazer cruzes. E mais tarde, se amigos lhe perguntavam porque não vinha ao Brasil matar saudades, respondia:

— Vontade não falta de ir respirar os ares pátrios. Mas apavoram-me as manifestações!

Sacadura e Gago, idem. Foram massacrados pelo entusiasmo popular, vindo um deles a falecer em consequência do traumatismo psíquico. Tanto o vivaram e abraçaram que o homem se desarranjou de nervos, perdeu o controle das faculdades e na primeira ocasião em que voou foi a pique.

O Brasil ignora — e é natural visto como não lê coisa nenhuma — que a aviação já se tornou comezinha na América do Norte e nos grandes países europeus a ponto de industrializar-se como meio de transporte regular. Linhas normais de aviões e aeronaves funcionam ligando entre si cidades e capitais com a mesma regularidade das estradas de ferro. De Berlim e New York, por exemplo, todas as manhãs a tantas horas partem avejões ou charutões sem que o público dê ao fato maior importância que à partida dos trens diários. E à tarde chegam outros, no horário, como a coisa mais natural do mundo. Voar nesses países tornou-se, depois da guerra, uma forma de viajar perfeitamente equiparável ao deslizar dos trens ou ao correr do automóvel.

Mas nós aqui ignoramos isso, e quando um jornal qualquer traz notícia a respeito, dizendo que a empresa tal fez no ano tantas mil viagens com um infinitesimal zero vírgula de acidente, rimo-nos da piada.

— Estes ianques, que blefistas!

Não acreditamos, positivamente, e se um Sacadura, um Ramon, um Duggan passa por aqui, desconjuntamo-nos na epilepsia dos aplausos, convencidos de que o homem é no mínimo encantado.

Vem daí a impossibilidade de estabelecer-se uma linha regular aérea no Brasil, entre Rio e São Paulo, por exemplo. O entusiasmo popular impediria o funcionamento dela. Ponhamos o caso na Central. Imaginemos que a cada trem que parte de São Paulo o povo se aglomerasse na estação para vivar o maquinista e o foguista, e aclamá-los como os reis do rail, os Napoleões do apito, etc., e abraçá-los e coroá-los de flores. E que ao chegar ao Rio o trem outra catadupa de delírio fosse de encontro a esses homens cansados e só desejosos de um bom banho e melhor cama. Seria possível que a Central continuasse a funcionar? Claro que não. Pois esse nosso entusiasmo pela aviação, que não arrefece nunca, impede-nos de ver adotado aqui um meio de transporte já normal no velho mundo e na parte civilizada do novo.

Precisamos educar a nossa gente nesse sentido. Começar nas escolas a ensinar aos meninos que isto de voar não é novidade; que a guerra deu um tal empurrão ao invento de Dumont que hoje já se contam por dezenas de milheiros as máquinas de voar em uso lá do outro lado do mundo onde há dinheiro e civilização; e que a boa política quando um aviador passa sobre nossas cabeças, ou aterra, é segurarmos o abraço incômodo e engolirmos os vivas que incoercivelmente nos sobem da tripa à boca, pois isso é condição para que também aqui se aclime... a única invenção brasileira.

Porque a continuar como vai o certo é os aviadores de raids esportivos riscarem o nosso país das suas rotas, ou espetar no Brasil dos mapas-múndi um alfinete com papeleta:

— Zona perigosa, assolada de ciclones de entusiasmo e trombas de retórica. Passar de largo, ou a 5 mil metros de altitude.

Quer Antônio Torres que Minas não está convencida de que D. Maria Primeira já morreu. Diz que todos lá a têm como ainda reinante na corte de Lisboa, sendo os senhores Artur Bernardes, Melo Viana e outros simples criaturas de sua real nomeação.

Mas será só Minas que pensa assim? O Pará, o Piauí, a Bahia, o país todo não pensará do mesmo modo?

Tudo leva a crer que sim. Só São Paulo sabe que a boa velha já não existe — e o sabe porque os milhares de imigrantes que lhe chegam da Europa falam de Mussolini, Rivera, etc., e juram que em matéria de rainhas Marias só há hoje a da Romênia, que é linda.

Se houvesse um meio de convencer o país de que esses imigrantes estão bem informados e sabem o que dizem...



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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