sexta-feira, 24 de maio de 2019

Monteiro Lobato: A rosa artificial (Ensaio)



A rosa artificial 

Primo de Rivera, num discurso pronunciado em Alcalar, acaba de dizer grandes coisas.

“Não consulto, disse ele, a vontade popular porque tenho a convicção de estar servindo-a e interpretando-a a contento. Com tais consultas se perderia tempo e a perturbação sobrevinda com as eleições seria inútil. E que iríamos fazer com os eleitos? Para que queremos eleitos? Temos órgãos de consulta para todos os problemas do estado. Por conseguinte é inútil ressuscitar esse artifício chamado Parlamento que os povos, que ainda o possuem, não sabem que fazer para abandonar.”

É a primeira vez que sai dum chefe de estado — Rivera não é outra coisa — a verdade nua, a verdade de amanhã.

O artifício chamado parlamento de fato não passa de um artifício, isto é, coisa inatural, não decorrente dum modo lógico da árvore da nação. Salvo na Inglaterra.

Só lá ele é natural, porque só lá se originou por força de uma contingência orgânica influtável e intraduzível por outra forma.

Abro a interessantíssima Little Arthur’s History of England, de lady Callcott, ingênuo livrinho onde as crianças inglesas aprendem a trágica história do seu país, e leio o trecho relativo às origens do parlamento.

“Às vezes os reis queriam mudar as velhas leis ou fazê-las novas. O povo, porém, se opunha, dizendo que não era direito que se fizessem leis para ele povo sem que ele povo fosse ouvido e dissesse se lhe convinha ou não. Assim, sempre que o rei queria fazer uma lei nova, ou reformar uma velha, reunia os aldermen (os homens mais velhos), os bispos e os thanes (primeiro grau da nobreza por merecimento) para saber deles o que convinha fazer, e conformava-se com o parecer desses homens. Depois também chamava o povo para opinar sobre as leis propostas.

E, se o povo concordava, fazia-se a lei e o povo a respeitava e os juízes puniam os desobedientes.

Mas isto trazia muito incômodo a muitas pessoas e o povo achou melhor escolher entre os seus homens mais avisados três ou quatro dos melhores e mandá-los ao rei para que decidissem pelo povo, que deste modo não se veria perturbado constantemente no seu trabalho dos campos. E então o rei e os nobres e os bispos e os homens do povo passaram a reunir-se, a fim de discutir as leis, num lugar chamado Witena-gemot, palavras do velho inglês que querem dizer “reunião de homens avisados”. Era alguma coisa parecida com o que chamamos hoje parlamento, que também significa “lugar de falar”, porque nele todos falam a respeito dos melhores meios de fazer as leis, antes de fazê-las. Por este processo os anglos e os saxões eram governados por leis que eles mesmos consentiam e ajudavam a fazer.”

Nesta lição em língua ingênua está patenteada, melhor que em qualquer tratado político, a origem natural e a formação orgânica do parlamento na Inglaterra. Nasceu por força da utilidade comum, como nasce a rosa da roseira — a seu tempo, da cor, forma e perfume logicamente predeterminados pela constituição orgânica e funcional da planta.

Mas há macacos no mundo. Há macacos-povos.

Os Bandar-Logs de Kipling não constituem ficção de novelista.

Os povos macacos, vendo o bom resultado do sistema inglês, adotaram-no bananescamente, esquecidos de que imitar o inglês seria, não tomar a rosa da roseira inglesa, mas deixar, como eles, que a planta nacional abrochasse a tempo na sua flor, qualquer que fosse. O resultado desse erro a história o vem registrando.

A rosa artificial que ocupa nos povos macacos o hastil da flor que o macaquismo impediu de abrochar, é rosa artificial. Não tem vida, nem cor, nem perfume — não harmoniza com a planta, não responde à sua organologia.

É o artifício de que fala Primo de Rivera.

Assim entre nós. Que relação tem o nosso parlamento — casa mais de xingar e “engrossar” do que de discutir — com o Brasil, suas gentes e coisas? Nenhuma, absolutamente nenhuma! É um corpo estranho, uma flor de papel, nem sequer de seda, um artifício e como tal nocivíssimo aos interesses da coletividade. Cuida de si, faz negociatas, vende-se a industriais, explora o imposto, agrava de ano para ano o parasitismo que entreva e entrava o país, e atamanca as mais extravagantes, ineptas e absurdas leis que ainda se viram no mundo. Não é um corpo técnico. Ninguém cai ali porque tem mérito, e sim porque sabe entrar por baixo do pano, como os moleques em circo de cavalinhos — pelo suborno, pelo parentesco, pela subserviência aos chefes ou pela eleição, isto é, pelo índice de papeluchos que uma gente ignara chamada eleitores leva a uma caixa chamada urna num dia chamado dia de eleição.

Não são os aldermen dos ingleses, velhos experientes; não são os thanes, homens que pelo mérito se destacam no conceito público; não são os cleverest of our neighbours, como os delegados da plebe inglesa. São negocistas ou títeres — e se não causam maior mal à nação é que têm o bom senso de, em quase tudo, escravizarem-se servilmente a um leader, portador da voz do Chefe do Estado.

Em Espanha a mesma coisa. Lá, como cá, foi o parlamento tomado da Inglaterra, por cópia conforme.

É artifício, é rosa de papel fincada num pé de cacto.

Primo de Rivera disse a grande verdade — para a Espanha. Quem dirá entre nós a nossa grande verdade? Quando o instinto de conservação despertará no Brasil e o fará varrer com o artifício, com a rosa de papel de embrulho, para que surja a flor natural? 

NOTA. O tom deste artigo mostra como estava agudo o ceticismo em relação ao Congresso nos últimos anos da República Velha. O Congresso não impunha o menor respeito e a grita geral tornara-se “varrer com aquilo”...



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In: Na Antevéspera
Pesquisa e atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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