quarta-feira, 22 de maio de 2019

Monteiro Lobato: País de tavolagem - O grande mal: A pobreza



País de tavolagem: O grande mal — A pobreza

Quem olha d’alto para o nosso país apreende logo a causa última de todos os seus males: pobreza. No entanto vivemos a entoar loas às nossas fabulosas riquezas. Confundimos infantilmente riquezas com possibilidades.

O café de São Paulo é uma riqueza. As jazidas de ferro mineiras, uma possibilidade. Da confusão desses termos nasce a vesguice indígena.

O Brasil é pobre, e tirante as poucas regiões em que as possibilidades naturais foram realizadas é paupérrimo. E por ser pobre não consegue resolver nenhum dos seus problemas elementares.

Nada mais elementar que a instrução e a higiene. Se o Brasil é analfabeto e doente, consequência é isso exclusiva da sua pobreza. Nas zonas que se vão enriquecendo a instrução cresce por si, automaticamente, e o índice da saúde avulta.

Tomai um analfabeto do interior, doente de opilação. Instrui-o e curai-o. Depois largai dele, deixando-o entregue a si mesmo. Esse homem, vítima da pobreza, recairá em estado de doença; seus filhos, por falta de recursos, recairão no analfabetismo. A solução do seu caso falhou porque foi uma solução direta — e só as soluções indiretas resultam eficazes.

Aplicai a solução indireta, enriquecei-o. Que acontece? Automaticamente esse homem tratará de curar-se e, como tem meios, não se reinfectará jamais. Seus filhos ele os educará, porque o primeiro pensamento de um pai, quando resolve o seu problema econômico, é dar aos filhos uma instrução mais alta do que a que teve.

E de quantidade negativa passa esse homem a quantidade positiva, na economia social.

Vejamos o inverso. Lançai na miséria um homem culto. A primeira consequência será a perda da saúde: a segunda será o regresso da sua prole a um nível de instrução inferior ao seu. Em pouco tempo estará criado um valor negativo para o progresso social.

É evidente, pois, que só uma solução existe para todos os problemas nacionais: a indireta, a solução econômica. Só a riqueza traz instrução e saúde, como só ela traz ordem, moralidade, boa política, justiça.

— Enriquecei-vos! deve ser a senha dos nossos estadistas. 

Mas para que um povo possa enriquecer é preciso que o Estado crie um regime de estabilidade, visto como a riqueza não passa do lento acúmulo dos bens filhos do trabalho. Este acúmulo, sedimentação que é, só se opera quando há estabilidade. Em águas agitadas não se formam depósitos. Estabilidade na ordem social pela paz, e na ordem econômica pela ausência de oscilações dos valores. Um país eternamente convulsionado pelas revoltas não pode enriquecer: a guerra desfaz. Também não pode enriquecer-se um país eternamente convulsionado pelas bruscas oscilações dos valores: a crise desfaz. Um país nessas condições passa a vida nesse trabalho de Sísifo, a fazer e a desfazer — permanecendo na desordem e na pobreza.

O dever primeiro dos estadistas é pois criar condições adequadas ao enriquecimento do país, caminho único que leva à ordem social, à cultura, à higidez.

Mas como pode o Estado criar estas condições, se tudo depende da operosidade dos indivíduos? Da maneira mais simples: não criando obstáculos a essa operosidade. Os grandes homens de Estado não são os que reformam: são os que tiram do caminho os embaraços com que a má-fé, o espírito de parasitismo e a estupidez embaraçam os movimentos do povo.

Logo, está nas mãos dos homens de governo promover ou retardar o progresso de uma nação. 

Dentre os embaraços que a estupidez cria há um que avulta sobre todos os demais: o que resulta da incompreensão da vida econômica. Esse embaraço é mortal, porque deflete para todos os rumos e vai afetar a vida do povo até no que aparentemente nada tem que ver com a economia, como é a sua moral.

A vida do homem moderno se resume num perpétuo jogo de compra e venda. Todos compram e todos vendem, desde que o sol nasce até que a luz dos lampiões se acenda.

O operário vende seu labor e compra mercadorias. O patrão compra trabalho e vende o produto dele. Se vender e comprar é a ocupação permanente dos homens, quer isso dizer que a vida gira em torno do valor.

O jogo dos valores, pois, cria o ritmo da vida, e tanto menos oscilam eles, tanto mais em segurança se sente o homem, tanto mais feliz, tanto mais animado de espírito criador. Vem daí que a estabilidade dos valores é tão necessária para o bom funcionamento do organismo social como a estabilidade do clima o é para o bom funcionamento do organismo animal.

Se o trabalho se desvaloriza, sofre o trabalhador. Se oscila o valor dos produtos, sofre o industrial. O ideal seria uma estabilidade completa: como, porém, o valor está em função de uma férrea lei econômica, qual seja a da oferta e da procura, não é possível atingir esse ideal absoluto.

Temos que nos contentar com o possível, isto é, com a oscilação reduzida ao mínimo. Este oscilar mínimo é perfeitamente suportado pelo homem e dentro da sua órbita um povo pode prosperar indefinidamente. 

Para o jogo dos valores, entretanto, há necessidade da adoção de uma medida. Ninguém pode comprar ou vender sem medir o valor. Essa medida é a moeda. Mas, medida que é, a moeda não pode variar. Moeda que varia é coisa tão absurda como um litro que mudasse, um metro que ora tivesse 50 centímetros ora 100, um quilo sujeito a câmbio, hoje valendo 700 gramas, amanhã 650.

Logo, a primeira coisa que um estadista tem que criar é uma medida de valor que o seja, que não varie, que não seja elástica. Porque assim fazendo removerá da vida do povo o embaraço maior de todos, o obstáculo que jamais permitirá que esse povo acumule riqueza.

A experiência da humanidade resolveu o problema da medida do valor com a adoção do ouro. As coisas valem em relação ao ouro, ele não vale em relação a coisa nenhuma, visto que é o padrão.

E todos os povos se foram passando ao regime do padrão ouro, único que provou bem de quantos experimentados. E sob o seu regime erigiu-se a economia moderna e possibilizou-se o comércio internacional. O sonho da língua única para todos os povos foi precedido pela unicidade do padrão monetário. E ficou axiomático: o metro do valor é o ouro.

Para comodidade das transações inventou-se a moeda papel; em vez de circular o ouro, que é pesado e incômodo, circularia uma cédula do Tesouro, um vale contra a caixa. O portador, no momento em que o desejasse, trocaria esse cheque por metal. Isto vinha resolver com rara felicidade os problemas determinados pelos inconvenientes da circulação manual metálica.

Mas há povos trapaceiros, ou melhor, povos guiados por estadistas trapaceiros. Estes piratões imaginaram uma falcatrua que fez época, deu resultados aparentes e por fim arrastou os países à ruína.

Essa falcatrua era fazer em ponto grande o que os moedeiros falsos fazem em pequeno. Era substituir a moeda papel por papel moeda. Era mentir no cheque dizendo: “No Tesouro Nacional se pagará ao portador desta a quantia de tanto”, e não pagar coisa nenhuma, ou pagar menos que o valor especificado nos lindos algarismos de bela gravação em aço. 

O Brasil teve a desgraça de enveredar por este caminho. Passou à categoria de povo trapaceiro e ingênuo. Os povos sérios, de moeda honesta, olharam-no de soslaio, riram-se do pobre bugre e começaram a fazer preço cada vez mais irrisório para as suas cédulas do Tesouro. Para cada mil réis, para cada milhão de réis com que procurávamos deslumbrar os povos sérios, eles nos ofereciam ora um shilling, ora um pedacinho de shilling, ao sabor de um termômetro que o brasileiro não tira diante dos olhos, chamado câmbio sem que o bugre saiba por que.

Os males que a camuflagem da moeda causaram ao nosso povo não têm conta. O primeiro foi relegá-lo à categoria dos desonestos e chamar para nós o desprezo universal. O segundo foi impedir que nos enriquecêssemos. O terceiro foi impedir que, em virtude da miséria crônica, pudéssemos resolver os nossos problemas internos, a principiar pelo da instrução.

Nossa vida se transformou em pura jogatina. Ninguém sabe quanto possui. O negociante que faz um pedido para o exterior não tem base para calcular o quanto vai pagar pela mercadoria quando a tiver na alfândega. Os governos, quer da União, quer dos Estados, não têm base para organizar um orçamento de receita. O serviço das dívidas pode absorver 50 mil contos, como pode absorver 100. E o Brasil se transformou numa casa de tavolagem onde todos, queiram ou não, se veem forçados a jogar.

Herbert Casson tem um livro em que prova que o negócio é uma ciência, regida por axiomas e leis tão duras como as leis naturais. Esses axiomas, entretanto, falham no Brasil. Para deduzi-lo Casson estudou a vida comercial dos povos de moeda ouro. Está claro, pois, que não valem para um país cuja moeda nunca foi moeda, e sim vergonhoso conto do vigário. De modo que aqui em vez de ciência, o negócio é um jogo.

Além do estado de pobreza que o uso do “paco” nos acarreta, não têm conta os seus funestos reflexos no caráter nacional. A sífilis monetária não deixa célula do organismo sem infecção — nem sequer as células da matéria cinzenta do cérebro.

No entanto vivemos nesta lazeira sem dar por ela, com uma resignação de árabe na kabila. As crises se sucedem, e o brasileiro olha para o céu, consulta cartomantes, faz promessas a Santo Antônio. E todos os dias corre ao jornal para ver o câmbio — isto é, para ver quanto os outros povos entendem de nos dar pelo nosso ridículo mil réis...

Crise significa ruptura de um estado de equilíbrio econômico seguida de convulsões para o encontro dum equilíbrio novo. As oscilações da nossa moeda determinam um rosário de crises sem fim, funestíssimas. Se a temperatura do Rio oscilasse diariamente de 40 graus a 10, que organismo resistiria ao desequilíbrio resultante? Nenhum. No entanto é num regime idêntico que o nosso país vive em matéria econômica.


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In: Na Antevéspera
Atualização ortográfica: Iba Mendes (2019)

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