sábado, 4 de maio de 2019

Temas Poéticos: MÃE - XI


CASTIGO REDENTOR

Não te envergonhes nunca do teu crime!
Por mais que te ele de remorsos vare.
Beija-lhe o fruto, e, à luz que te redime,
Despreza o modo porque o mundo o encare!

Ser mãe — é um poema que se não exprime:
E muito embora um sol de amor o aclare,
Não há inverno que se lhe aproxime
Nem primavera que se lhe compare...

Deixa que, sobre ti, chovam ápodos!
— Da Sociedade os preconceitos todos
Bem pouco valem, de banais que são!

Mãe — ninguém pode macular-te o brilho.
— Pecaste... Porém, Deus, dando-te um filho,
Deu-te o castigo e deu-te a redenção...

LUÍS PISTARINI
O Momento, 28 de novembro de 1938.

***

LENDA MALAIA

Ela era pobre, ela era velha e feia,
Mas seu filho queria-lhe. Uma fada
Lhe disse, certa vez: — A Água encantada
Do Padã tudo aclara e aformoseia.

E ela, na água lavando-se, em sereia
Aparece, de súbito, mudada.
E a pele que trazia, encarquilhada,
Tira e despreza, inútil, sobre a areia,

Corre ao casebre. Mas seu filho a estranha
Diante daquela mutação tamanha.
Não a conhece mais, logo a repele.

E ela despiu a que era de ouro e rosa,
E voltou a vestir a antiga pele,
Preferindo ser mãe a ser formosa.

MARTINS FONTES

***

O CANTO DA INDIGÊNCIA

Como um terrível açoite
O vento zurze, esfuzia,
E aumenta o horror à invernia
— Negra, insondável — a noite.

Pelas frinchas da cabana
Penetra, aos flocos, a geada.
E a ventania, arrojada,
Acomete, arruína, dana.

A palhoça, a que mal cobre
Teto de colmo, vacila.
Não existe em toda Vila
Outra choupana mais pobre.

Uma menina, que a fome
Abate, linda e trigueira,
Está sentada à lareira,
De onde o fogo já se some.

A miséria transparece,
Desoladora, maldita,
Na enxerga onde a mãe se agita,
No berço onde o irmão fenece.

E o pobrezinho, que verga.
A suplícios raladores,
Chora. E a mãe, ante essas dores,
As próprias dores posterga.

— “Filha!” chama. Prontamente.
Corre a filha ao pobre leito,
Onde, o semblante desfeito,
Em ânsias, se estorce a doente.

— “Teu irmãozinho é quem chora?
Podes dizer sem receio...
Quisera dar-lhe o meu seio,
Como te fazia outrora.

Mas não consigo, querida,
Levantar-me. Tu me ajudas?
Meu Deus, que penas agudas!
Que sofrimentos! Que vida!"

Mas, terna, diz a criança:
— “Mãezinha, não te incomodes!
Pois tu não vês que não podes
Erguer-te? que isto te cansa?

Olha: vou vê-lo, mãezinha.
Repousa, sim? Eu te rogo.
Dorme!” E, solícita, logo
Para o berço se encaminha.

Um sofrimento infinito
Prostra-a. No entanto, chorando,
Põe-se a cantar, embalando
O berço do pequenito.

HEITOR LIMA
O Malho, 11 de novembro de 1905.

***

SER MÃE

Ser mãe, é desdobrar fibra por fibra
O coração! Ser mãe é ter no alheio
Lábio que suga, o pedestal do seio,
Onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
Sobre um berço dormindo! É ser anseio,
É ser temeridade, é ser receio,
É ser força que os males equilibra!

Todo bem que a mãe goza é bem do filho,
Espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

COELHO NETO

 ***

MÃE

Carinhosa! visão, reflexo verdadeiro
Do mais sagrado amor — humanidade e santo,
És para todos nós (exceto os que, no entanto,
Como eu já não te vêm) — amparo hospitaleiro!

Encarnação do bem, ao teu mavioso canto
A dor se lenifica; o teu olhar fagueiro
Esparge em nosso ser — um fraternal luzeiro
Que desfaz o sofrer que nos maltrata tanto!

No teu regaço amigo e acolhedor, propício,
Recebes com prazer — no mais estoico exemplo
Um filho pervertido, ingrato ou adventício!

Sem ti, sem leu amor... Ó Mãe! eu te contemplo
Ai! de mim, sofredor, que vivo orfandade,
Pela imaginação, no prisma da saudade!

ULISSES DINIZ
(1951)

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