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5/04/2019

Temas Poéticos: MÃE - XIII


À MINHA MÃE

No teu viver cruel, de dor cheio de abrolhos
És qual o viajor a bordejar sem norte
Em densa cerração perdido nos escolhos

Daria minha vida inteira, num transporte
P’ra te restituir a luz aos tristes olhos.
Mas... quem sabe! talvez eu te apressasse a morte!...

Talvez te amargurasse os últimos instantes!...
Sem me veres, ver tudo... Oh! que suprema dor!
Que os nossos corações se juntem, queres antes
Qual de asas um sentir de tépido calor.

Seguiremos assim... cansadas e anelantes
D'árdua senda a vencer o intérmino labor
Na vida eu guiarei teus passos vacilantes
E o meu guia há de ser o teu sublime amor.

ÁUREA M. DE SIQUEIRA
(1901)

***

À MINHA MÃE

Suspiros e prantos, gemidos, lamentos,
Dos negros tormentos d'ausência penosa
Oh! mãe carinhosa, definham-me a vida
Em uma iludida esperança, enganosa!

Um canto sentido,
De mágoa nascido
Eu, mãe, anelava
Aqui te ofertar;
Mas, neste momento
Debalde eu intento,
Apolo mo nega,
Não quer me inspirar.

Debalde eu intento, é em vão meu almejo,
E já antevejo que em vão tentarei,
Que nunca serei bem ou mal inspirado.
Meu plectro forçado jamais tangerei.

Findou-se a alegria
Que dantes havia,
Oh! mãe adorada,
Que sempre senti,
Quando essas delicias
De tuas carícias,
Que ou hoje recordo,
Mui lodo frui.

E oh! mãe carinhosa, meus lábios gelados
Do peito, coitados, não sabem contar
O duro penar, a saudado amargosa!
Ai! mãe bondosa! Não posso acabar!

ANASTÁCIO JOSÉ DOS SANTOS JÚNIOR
( 1857)

***

MATER

Mater amabilis
Mater admirabilis,
Mater dolorosa:

Chega-me o pranto, foge-me a calma,
Quando suponho teu termo breve:
Antes eu quero que Deus me leve,
Mãe de minha alma!

Tu, que és da lágrima o ermo diamante.
O solitário cristal da Dor,
Vives cravada, pura e brilhante,
No meu Amor!

És do que foste quase que nada:
Hoje os teus olhos e o teu cabelo
Vivem cobertos de névoa e gelo,
Mãe adorada!

Eu que, não raro, canto a candura,
Tão poucas vezes falo de ti!...
É que eu te tenho como hóstia pura
Guardada aqui...

Porque te afogas em prece tanta,
Lendo os Breviários e os Evangelhos?
Ah! não magoes os teus joelhos,
Que tu és Santa!

Eu — só no estado de Graça Plena
Desenhar posso tua feição,
Sobre uma hóstia, molhando a pena
No coração.

Eucaristia deste sacrário...
Talvez eu beije teus frios ossos,
Quando finarem-se os Padre-nossos,
Do teu rosário!

Fechem-me os olhos na primavera,
Na flor da vida, meu doce Bem;
Fechem-me os olhos!... Oh! mãe, espera,
Que eu vou também.

Vida? — é teu filho junto ao teu seio!
Vem sob as minhas asas ativas:
Eu tudo faço por que não vivas
Do pão alheio.

Ícaro — eu de asas armado saio,
Medindo a face do Céu azul;
Mas se não velas por mim, eu caio
Sobre um paul.

Prefiro ver-te, vaso de afetos,
Em noites frias e merencórias,
De boca murcha, contando histórias
Para os teus netos.

Não sei o que outras criaturas pensam
Da que, dorida, lhes deu o ser...
Mãe, eu só penso na tua bênção
Quando morrer.

Deus te reserva do justo a palma;
Mas eu queria ver-te velhinha,
De touca branca, fiando linha,
Mãe de minh’alma!

B. LOPES

***

MÃE

Dessa palavra augusta é que promana
Da divina criação a pura essência;
Do bem a origem e da Moral a ciência,
Toda a grandeza da existência humana.

Nesta palavra Mãe — quanta eloquência!
Mas, se de havê-la criado, Deus se ufana,
Nossa linguagem áspera e profana
Não enuncia a sua transcendência.

Vencedora na Dor — no Amor vencida,
Mãe, quanto mais te exaltas mais humilho,
Ser mãe é ser glorificada em vida!

É das virtudes todas ter o brilho,
Do Universo a grandeza indefinida...
Deus também teve Mãe — Deus quis ser filho!

MARIA DE ALMEIDA
O Município, 23 de julho de 1935.

***

OS OLHOS DE MINHA MÃE

Luzes benditas sobre a minha vida obscura,
Que esparge o amor materno — imenso lampadário!
Sendas que me levais à região tão pura
Onde esse amor palpita em amplo santuário!

Notas sentimentais da humana partitura,
Caprichoso labor do Artista extraordinário!
Páginas de orações e fina iluminura,
Minha leitura sã, meu vívido breviário!

Olhos de minha mãe! oh luzes peregrinas!
Vós possuís o dom de irradiar esperança
Entre cintilações de verdes turmalinas!

Nos alcantis da dor, nos crespos torvelinhos,
Em vossa chama encontro eflúvios de bonança,
Vejo estrelas nos céus, flores pelos caminhos...

REGINA GLÓRIA CASTRO ALVES GUIMARÃES
Brasil Feminino, maio de 1932.


Continua...

Temas Poéticos: MÃE - XII


BEATA VISIO

Bendita sejas, ó minha mãe, ó mãe celeste,
Que, no retiro de minha vida atormentada,
Inda apareces, pálida santa angustiada,
Dando-me a bênção daquele olhar com que morreste...

Mas, ai! debalde busco beijar-te a clara veste,
Pois, mal de opala jaspeia o céu a madrugada,
Tu, como Vésper no azul do oriente desmaiada,
Empalideces e, triste, vais como vieste...

Então, de joelhos, braços em cruz, fico rezando,
Como rezava, no alto Carmelo, Santo Elias,
Quando entre arcanjos Nossa Senhora viu passando...

Bendita sejas dos meus pecados na árdua guerra!
Bendita sejas nas minhas tristes alegrias!
Bendita sejas assim no céu como na terra!

WENCESLAU DE QUEIROZ

***

À MINHA

Infante, imaginei ver-te velhinha,
E eu, homem feito, a te amparar na idade;
A mão, trêmula e murcha, presa à minha
Mão farta e cheia de virilidade.

Mas quem do Fado as voltas adivinha?
Seus mil arcanos perscrutar quem há de?
Foi-se-me o sono que contigo vinha
Encher-me as horas de felicidade.

Sei, porém, que, se o páramo estrelado,
Com a bem-aventurança e a luz que encerra,
Desertar, afinal, te fosse dado,

Trocarias o céu, a pompa e o brilho
Pela miséria e escuridão da terra,
Para, na terra, ainda abraçar teu filho!

JORGE JUBIM
(1925)

***

À MINHA MÃE

Não me acodem, agora, inspirações,
P'ra exprimir meu amor para contigo,
Trocar devemos nossos corações,
Porque sou eu o teu maior amigo.

Vivo por ti, oh minha mãe querida;
Juro e prometo só a ti o amor
Pensando assim enquanto a minha vida
For concedida pelo Redentor.

Tu és o meu amor de todo instante.
Amor profundo que me invade o peito.
E o grande orgulho que minh’alma sente,

Juro e prometo sempre ser constante,
Pensando que meu coração foi feito
Para ti, minha mãe, eternamente;.

MÁRIO CARVALHO
(1914)

***

MÃE

Ela velava perto
Do filho, que dormia,
E cândida sorria
Ao lírio entreaberto.

Da lua um raio incerto
No quarto se pendia;
E a mãe olhava o dia
E a luz do seu deserto.

No berço flutuante
Moveu-se agora o infante
E acorda pranteando...

Não há quadro mais belo
Que a mãe, solto o cabelo,
O filho acalentando!

GONÇALVES CRESPO

***

A MINHA MÃE

Bem singela porém grande e pura
É a palavra mãe que tudo diz
Com ela menos forte é a amargura
É também ela que nos faz feliz.

Volvei os olhos bem para o passado
Com cuidado volvei-os para o futuro
Amor como o do ser por nós amado
Jamais encontrareis tão grande e puro.

Se a dor de um sono calmo te sacode
Ainda que também dores sofrendo
A ti verás em breve ela correndo

E solícita ligeira ela te acode
Na parte dorida a mão pousando
A dor mais que ligeira vai passando.

M. OLIVEIRA
Revista Careta, janeiro de 1912.


Continua...

Temas Poéticos: MÃE - XI


CASTIGO REDENTOR

Não te envergonhes nunca do teu crime!
Por mais que te ele de remorsos vare.
Beija-lhe o fruto, e, à luz que te redime,
Despreza o modo porque o mundo o encare!

Ser mãe — é um poema que se não exprime:
E muito embora um sol de amor o aclare,
Não há inverno que se lhe aproxime
Nem primavera que se lhe compare...

Deixa que, sobre ti, chovam ápodos!
— Da Sociedade os preconceitos todos
Bem pouco valem, de banais que são!

Mãe — ninguém pode macular-te o brilho.
— Pecaste... Porém, Deus, dando-te um filho,
Deu-te o castigo e deu-te a redenção...

LUÍS PISTARINI
O Momento, 28 de novembro de 1938.

***

LENDA MALAIA

Ela era pobre, ela era velha e feia,
Mas seu filho queria-lhe. Uma fada
Lhe disse, certa vez: — A Água encantada
Do Padã tudo aclara e aformoseia.

E ela, na água lavando-se, em sereia
Aparece, de súbito, mudada.
E a pele que trazia, encarquilhada,
Tira e despreza, inútil, sobre a areia,

Corre ao casebre. Mas seu filho a estranha
Diante daquela mutação tamanha.
Não a conhece mais, logo a repele.

E ela despiu a que era de ouro e rosa,
E voltou a vestir a antiga pele,
Preferindo ser mãe a ser formosa.

MARTINS FONTES

***

O CANTO DA INDIGÊNCIA

Como um terrível açoite
O vento zurze, esfuzia,
E aumenta o horror à invernia
— Negra, insondável — a noite.

Pelas frinchas da cabana
Penetra, aos flocos, a geada.
E a ventania, arrojada,
Acomete, arruína, dana.

A palhoça, a que mal cobre
Teto de colmo, vacila.
Não existe em toda Vila
Outra choupana mais pobre.

Uma menina, que a fome
Abate, linda e trigueira,
Está sentada à lareira,
De onde o fogo já se some.

A miséria transparece,
Desoladora, maldita,
Na enxerga onde a mãe se agita,
No berço onde o irmão fenece.

E o pobrezinho, que verga.
A suplícios raladores,
Chora. E a mãe, ante essas dores,
As próprias dores posterga.

— “Filha!” chama. Prontamente.
Corre a filha ao pobre leito,
Onde, o semblante desfeito,
Em ânsias, se estorce a doente.

— “Teu irmãozinho é quem chora?
Podes dizer sem receio...
Quisera dar-lhe o meu seio,
Como te fazia outrora.

Mas não consigo, querida,
Levantar-me. Tu me ajudas?
Meu Deus, que penas agudas!
Que sofrimentos! Que vida!"

Mas, terna, diz a criança:
— “Mãezinha, não te incomodes!
Pois tu não vês que não podes
Erguer-te? que isto te cansa?

Olha: vou vê-lo, mãezinha.
Repousa, sim? Eu te rogo.
Dorme!” E, solícita, logo
Para o berço se encaminha.

Um sofrimento infinito
Prostra-a. No entanto, chorando,
Põe-se a cantar, embalando
O berço do pequenito.

HEITOR LIMA
O Malho, 11 de novembro de 1905.

***

SER MÃE

Ser mãe, é desdobrar fibra por fibra
O coração! Ser mãe é ter no alheio
Lábio que suga, o pedestal do seio,
Onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
Sobre um berço dormindo! É ser anseio,
É ser temeridade, é ser receio,
É ser força que os males equilibra!

Todo bem que a mãe goza é bem do filho,
Espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

COELHO NETO

 ***

MÃE

Carinhosa! visão, reflexo verdadeiro
Do mais sagrado amor — humanidade e santo,
És para todos nós (exceto os que, no entanto,
Como eu já não te vêm) — amparo hospitaleiro!

Encarnação do bem, ao teu mavioso canto
A dor se lenifica; o teu olhar fagueiro
Esparge em nosso ser — um fraternal luzeiro
Que desfaz o sofrer que nos maltrata tanto!

No teu regaço amigo e acolhedor, propício,
Recebes com prazer — no mais estoico exemplo
Um filho pervertido, ingrato ou adventício!

Sem ti, sem leu amor... Ó Mãe! eu te contemplo
Ai! de mim, sofredor, que vivo orfandade,
Pela imaginação, no prisma da saudade!

ULISSES DINIZ