sexta-feira, 14 de junho de 2019

A lenda da Chicória (Lenda), de Eduardo Sequeira



A lenda da Chicória

Chicória era uma princesa tão formosa, que todos os homens ao vê-la ficavam para sempre perdidos de amores. Dourara-lhe o sol os cabelos mais finos que a mais fina seda, o céu emprestara-lhe aos olhos o seu doce azul, e a neve, a branca neve das montanhas, tinha inveja à puríssima alvura da sua cútis.

Era um encanto.

O rei, seu pai, que a estremecia doidamente, satisfazia-lhe todos os caprichos, todos os desejos, de modo que o viver de Chicória deslizava entre afagos e desejos satisfeitos, numa completa e intensa felicidade.

Porém um dia o amor tudo transtornou.

Um belo trovador, um daqueles gentis boêmios que percorriam o mundo de lira no braço, deixando um rasto de paixões no caminho percorrido, chegou ao palácio, onde foi recebido com todo o carinho que então se dispensava ao seguro depositário das antigas tradições guerreiras e das castas e belas lendas d'amor.

Berengère se chamava ele, e nunca até então viera ao palácio real quem melhor soubesse dedilhar a lira, soltar ao vento os magoados queixumes duma alma amorosa ou atingir o ápice do entusiasmo na narrativa dos feitos audazes dos valentes guerreiros imortalizados em campanhas feramente medonhas.

Chicória amou-o perdidamente, e costumada a satisfazer todos os caprichos, pediu ao pai que a casasse com o trovador. O rei, que nada recusava à filha, acedeu constrangido, mas o belo trovador, que não queria perder a estremecida liberdade que tantas várias aventuras galantes lhe proporcionava e tantos constantes prazeres seguros lhe dava, ao saber dos desejos da formosa princesa fugiu do palácio para nunca mais voltar.

A alegria de Chicória desapareceu desde então para sempre. Passava os dias sentada no varandim do palácio olhando pela estrada além a ver se o trovador, condoído do seu profundo amor, voltava arrependido, trazendo-lhe a ventura perdida.

Mas debalde esperou.

Veio o inverno, e de sempre olhar fixamente para os caminhos cobertos de neve, pouco a pouco desapareceu-lhe a luz dos olhos...

Então, não podendo resistir a este último golpe, a princesa morreu de paixão.

Sepultaram-na perto do palácio, à beira da estrada, num local por ela designado, voltada para o sitio donde sempre esperara o regresso do amante; pouco tempo depois, da sepultura da gentil donzela morta de amor, brotaram as plantas que lhe conservam o nome, e que dão uma flor que pelo belo azul que a tinge faz recordar os castos olhos da candidíssima princesa.




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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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