terça-feira, 25 de junho de 2019

Almas benfazejas (Conto), de Brito Camacho



Almas benfazejas
Era dos sócios fundadores.
Não havia memoria de ter faltado a uma sessão, e constava das atas que a sua propaganda era das mais eficazes. Quase não passava um dia, e nunca passava uma semana, sem que ele desse conhecimento à Sociedade de qualquer ado punível, nos termos das leis adotadas para a proteção aos animais. Também era raro que passasse uma semana sem ele fazer a proposta de um ou mais sócios, criaturas que para se verem livres dele — um sarna! — condescendiam! em pagar uma quota e receber um diploma — que também pagavam.
Todos os dias visitava a Praça da Figueira, porque lhe constava que ali maltratavam os animais expostos à venda, chegando a dizer-se que certas mulherzinhas, por estupidez ou por maldade, depenavam galinhas vivas, fato que ele nunca surpreendera, por mais diligências que fizesse.
De uma vez pregaram-lhe com um coelho na cara, um coelho que estava pendurado pelas pernas, e por um triz não há uma desordem sangrenta na Praça, porque o tomaram por gatuno, que andava por ali, com incrível audácia e desvergonhamento, a fazer rapinâncias.
Às  vezes apeava-se dos elétricos para verificar a lotação do Chora, e nunca deixava de chamar um polícia, se o avistava ali próximo, para obrigar os passageiros a mais, a aliviarem o carro.
Usando e abusando da sua qualidade de Sócio da Protetora obrigava os carroceiros a darem conta do peso que transportavam, causando-lhes demoras inúteis, porque não havia maneira de verificar se mentia ou dizia a verdade.
Um dia, na Calçada do Combro, viu um magro cavaliqueques a puxar uma carga, que reputou excessiva para as forças do animalejo, e logo intimou o respectivo carroceiro a aliviar a carga ou pedir reforço de outra cavalgadura, caso fosse mais da sua vontade. O carroceiro, que já o conhecia, e que por causa dele já pagara umas duas multas, furioso por que o cavalo não arrancava, e ainda mais furioso porque lhe moía a paciência, deitou-lhe as mãos ao cachaço, e queria à viva força obrigá-lo a dar uma ajuda, maneira indireta de tornar a carga menos pesada.
Clamava, com fúria, contra as touradas, e quando via, nos jornais, que um toureiro, em Espanha perdera a vida na arena, não se furtava a dizer baixinho, como que envergonhado de si próprio — bem feito — embora soubesse que essa morte tornava mais interessante o espetáculo.
Chamavam-lhe o Roseta, porque em assembleia geral da sua Sociedade propusera, ficando a proposta para ser admitida numa segunda leitura, que as esporas, na cavalaria, não tivessem roseta, fazendo uma larga dissertação, substanciosa e erudita, sobre a educação dos animais, susceptíveis, como as crianças, de se educarem sem pancadas.
A primeira voz que se ergueu contra o uso do aguilhão, foi a sua, propondo que se substituísse o aguilhão pelo chicote, à moda bóer. Quando os jornais deram a notícia de se ter inventado na América um aparelho elétrico para a execução dos condenados à morte, matando instantaneamente e sem dor, ele propôs que se representasse ao Governo, no sentido de em todos os matadouros do país se adotar o maravilhoso instrumento. E ofereceu-se logo, pagando-lhe a viagem, para ir ver, nas mais importantes cidades americanas, como funcionava essa guilhotina de nova espécie, expedita e humanitária, encarregando-se de lá mesmo fazer estudar as modificações que seria necessário introduzir-lhe, adaptando a ao fim proposto.
A seu pedido andava um atuário estudando a organização de um Monte Pio só para cavalos, podendo mais tarde, quando a instituição já estivesse bem dirigida, alterar-se o respectivo Estatuto, sendo admitidos outros animais, todos quadrupedes, pagando joia e quota. Depois, se a experiência desse bons resultados, se procederia da mesma forma para com os outros viventes, ficando desde logo estabelecido que no Monte Pio das Aves não seria permitida a inscrição dos melros.
À sua porta não se dava esmola, e na rua, quando um desgraçado lhe estendia a mão, implorando cincorezinhos, ou fingia que era surdo, ou repelia o pedinte, com modos e palavras grosseiras — vá trabalhar, que tem bom corpo; vá para o hospital, que tem lá casa e mesa de graça.
Não constava que fosse membro de qualquer Associação de beneficência, e proibirá a mulher de fazer parte de uma comissão de senhoras, que se organizai na sua freguesia, para angariar donativos, de qualquer espécie, destinados ás raparigas tuberculosas, incapacitadas de trabalhar.
— Se gastassem menos em luxo e mais na comida, já não se tuberculizavam.
Logo que foi declarado o estado de guerra, constando-lhe que de Portugal iria uma unidade completa de batalha, fez reunir extraordinariamente a Sociedade para tratar dos socorros a prestar em campanha,... aos cavalos, coitadinhos. Nunca fora tão eloquente como naquele dia, a chorar sobre a sorte dos pobres animais que a bruteza humana leva para os campos de batalha, fazendo-os ao mesmo tempo vítimas e auxiliares dos seus crimes. Falou de São Francisco de Assis, narrando alguns dos casos que andam na lenda franciscana, entre eles o do lobo tomou com o Santo o compromisso de honra de nunca mais comer uma ovelha, um carneiro, um borrego, uma cabra, um bode ou um chibo, passeando por entre os rebanhos, ás vezes esfomeado, como se fosse um cão de guarda, perdido o seu instinto carniceiro.
E perorou:
— Todos os seres viventes são obra do Criador, tudo quanto há com fôlego à superfície da terra ou na profundeza dos mares, tudo Deus formou da matéria vil, insuflando-lhe o espírito divino, que outra coisa não é a vida. Por isso São Francisco se considerou irmão de todos os animais, irmão dos lobos e dos peixes, irmão dos pombos e das cotovias. À semelhança do Poverelo, embora sem os merecimentos que o tornaram grande em vida e o santificaram depois de morto; na hora trágica e incerta em que Portugal vai entrar na guerra, regando com o sangue generoso dos seus filhos e dos seus cavalos, os talados campos da Flandres, ergo um brado em favor dos nossos irmãos solípedes, vítimas da iniquidade dos homens.
A assembleia aplaudiu, num delírio, e por aclamação foi votado que se organizasse uma Cruz Parda, destinada a proteger os animais na guerra, não só dando-lhes a assistência de que necessitassem, quando feridos, mas também garantindo-lhes um futuro sem privações, se por motivos da guerra viessem a inutilizar-se para o trabalho. Como houvesse ainda alguns oradores inscritos, pediu licença para se retirar, declarando que daria o seu voto a todas as resoluções que fossem tomadas.
À porta um aleijado, que para mais era cego, pediu-lhe uma esmolinha pelo amor de Deus, e como estendesse a mão, a tocar-lhe no braço, sacudiu-o como se fosse um animal asqueroso, atirando-lhe, em vez da esmola, uma praga.
— Não sei para que serve a polícia! Não dá a gente um passo na rua que não se lhe depare um espetáculo destes, que até faz náuseas.
Quando chegou a casa, radiante como se tivesse ganho uma batalha, esfomeado como se tivesse feito um largo jejum, a mulher não tinha o jantar pronto. Havia um mês que estava sem criada, e a sua compleição franzina mal podia com o trabalho da casa.
— De janela, hein!
Habituada a maus tratos, a pobre quis justificar-se com palavras mansas, mas ele, incendido em cólera, por entre grosserias e insultos, moeu-a de pancadas.
... Ainda ressoavam na sala nobre da Sociedade as suas últimas palavras, eloquentes e enternecidas, orvalhadas de lágrimas na defesa dos animais, coitadinhos!...

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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