terça-feira, 25 de junho de 2019

Sangue azul (Conto), de Brito Camacho



Sangue azul
— Vossa excelência há de perdoar, mas há perto de trinta anos que temos contas...
— É certo; há perto de trinta anos que temos contas, e nunca o senhor deixou de ser pontual e correto.
— Mas como é, então, que o senhor conde...
— Eu lhe explico. O senhor é um republicano exaltado, embora, sincero, e eu não quero ter como rendeiro...
— Um republicano exaltado?... Mas bem sabe vossa excelência, que eu sempre fui republicano, já o era quando tomei conta das propriedades que o senhor conde me arrendou!... A minha exaltação republicana nunca se traduziu em prejuízos para vossa excelência quer levando- me a não pagar as rendas com a maior pontualidade, quer fazendo com que não cuidasse das suas propriedades como se fossem minhas. Republicano exaltado, desculpe o sr. conde, nunca fui, a menos que por exaltação se entenda inabalável firmeza de convicções. Republicano, sim, fui-o sempre, sou-o desde que me entendo; já o era quando tomei conta das propriedades que vossa excelência me deu de arrendamento.
— Não há dúvida. Simplesmente antes da República feita eu não acreditava que ela se fizesse, de modo que o seu republicanismo tinha para mim a significação de uma espécie de mania absolutamente inofensiva... Digo-lhe mais — achava bem que houvesse republicanos, porque a ação fiscalizadora que eles exerciam sobre a política e a administração continha os governos dentro de certos limites, evitando desmandos ruinosos. O Sr. era republicano, e eu não ignorava que o fosse; nunca lhe pedi que votasse nos candidatos do meu partido, nem mesmo quando um desses candidatos... era eu. Reputava inabaláveis os fundamentos da Monarquia, tão velha como a própria nacionalidade; era minha convicção que o trono resistiria a todos os embates, porque tinha raízes na alma da Nação. Nestas condições o seu republicanismo, como já disse, tinha para mim a significação de uma espécie de mania absolutamente inofensiva, uma tineta de que não viria mal ao mundo, a menos que se tornasse epidêmica.
— E agora?
— Agora o seu republicanismo é uma afronta ás minhas convicções políticas e ás minhas crenças religiosas, é a negação das tradições que nobilitam o meu nome, e também é, pela extorsão dos impostos, uma ameaça à minha fortuna.
— Não me compete discutir com o sr. conde as vantagens ou desvantagens da Republica. Seria republicano mesmo que os governos na vigência da Monarquia, administrassem com superior inteligência e irrepreensível honestidade; continuaria sendo republicano mesmo que os governos da Republica juntassem a uma incompetência manifesta uma flagrante improbidade. O que eu não percebo, Sr. conde, é o que tem que ver a forma política da Nação com as relações entre rendeiros e senhorios, estatuídas juridicamente em contrato, ou assentando simplesmente, como no meu caso, numa base de confiança mutua.
— É possível que tenha razão; mas dispenso-o de tentar convencer-me, porque perderia o seu tempo.
— De modo que a resolução de vossa excelência?...
— É absolutamente inabalável. No fim do ano eu tomo conta das propriedades, e o senhor arranja a sua vida como julgar mais conveniente.
— Assim será, visto que o Sr. conde quer que assim seja... Se lá no outro mundo o avô de vossa excelência e o meu tivessem conhecimento do que se está passando entre nós, ambos o lamentariam com profunda e sincera mágoa.
— Por quê? O seu avô serviu a nossa casa?
— Não, sr. conde. O meu avô e o avô de vossa excelência foram aprendizes de ferrador na mesma oficina, e a amizade que aí contraíram durou a vida de ambos, estimando-se e ajudando-se como se fossem irmãos.
As voltas que o mundo dá, Sr. conde!...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

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