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7/06/2019

Glória latente (Conto), de Raul Pompeia



Glória latente
Até que, sentindo no pensamento as ideias nítidas, recortadas como arabescos em aço e a grande vida da paixão como um tumulto de asas de águia num entalho de escarpas; delineada a pauta da meditação; a harmonia geral do poema como preludiada em sinfonia; o ardor nervoso, que precede a composição, mordendo o freio de ouro do metro e da disciplina planejada, sôfrego como um cavalo de guerra num começo de balada: – plenamente possuído da obra, ele resolveu-se a tomar a pena.
No papel em branco, lustroso, iriava-se por uma zona estreita um reflexo do claro dia. Ele deixou-se fascinar pelo brilho da folha. Era como um rio de luz infinitamente.
O primeiro canto celebraria a Vontade e o Amor, inteligência e instinto, as feições primordiais da existência poeticamente delimitadas e o encontro destas energias, distintas, confundindo-se como sexos, ou divergindo violentamente para promover os dramas da natureza e da humanidade. A Vontade agita o caos; o Amor encaminha a agitação; a Vontade cria o mundo, o Amor perpetua.
Concluiria por um quadro do terror dos homens pré-históricos, nas vésperas de um grande cataclisma...
Ao alcance da mão tinha o tinteiro, algumas gotas do sangue negro dos livros.
– Era aquilo a forma. Bastava colher habilmente no cristal o fio líquido e desfiar na página.
Ali dormia o estilo na síntese fluida do bocal, a cor, o desenho sábio da palavra.
Palavra?... Sim, o veículo da vaidade de que o escritor depende, palavra, o mesmo vil instrumento das permutas do interesse e do apetite.
Uma dúvida de repugnância paralisou-lhe a pena.
– Escrever: formular, comunicar. Mas que pretendemos dos outros? Aplauso? A arte que vive do aplauso rebaixa-se, prostitui-se; as chamas ardem para cima. Critério? A arte que não tem apoio na convicção da própria força sucumbe; a hesitação atrofia e anula; a arte forte cresce de si mesmo, organicamente. De que lhe podia valer a eleição do vulgo?
Formulem os músicos ambulantes da expressão, os mercadores de espírito, que vão de feira em feira, pelas cidades da tolice humana, mostrando o próprio talento como um asno douto, ou um macaco esperto, os mercadores de plástica, que despem em público a imaginação, pobre escrava palpitante, e oferecem a pura carne à fome grosseira de quem a compre, a flor da epiderme cultivada ao dente brutal das feras do prazer. Formulem os pregoeiros de opinião, pagos a preço de renome, em moeda corrente de lisonja, e os outros, os que vencem, os grandes homens do ventre, mordomos do consumo dos povos, chamados políticos, supostos governos, preciosamente agaloados por maior brilho de ucharia, às ordens do Vulgo poderoso...
O canto segundo resumiria a construção histórica da Vontade: sociedade, impérios, as corrupções, as guerras acabando pelo espetáculo de Roma espavorida, estalando as calçadas de mármore das praças sob o galope da cavalaria dos bárbaros.
– Podia escrever, admitiu. E molhou a pena. Uma lágrima mais grossa da tinta voltou ao tinteiro. Podia escrever. Findo o trabalho, perfeito de grandiosa inutilidade, entregá-lo-ia ao fogo. Ninguém saberia daquela existência artística ali começada, ali destruída: ele só, depois da alegria da criação, sem apreço, sem desdém, assistindo, de alto, ao perecimento da obra, como a divindade indiferente que visse esgotar-se a vida emprestada a um meteoro.
Que sublime poder, esta imolação da vaidade ao orgulho! O livro em retorno ao não-ser original, independente de estranho juízo, glória bravia de estrela, vivida, consumida num recanto insondado do espaço, longe da admiração, longe do olhar, virgem da crítica, alheia aos homens como a fatalidade!...
O canto terceiro seria a notícia épica dos fatos do Amor, religiões, com o argumento das filosofias, perseguições, martírios, num quadro da Idade-Média. Serviria de remate à agonia do último Cruzado em São João d’Acre, velho, esquecido desde muito da sua dama, negando Deus, prevendo e lamentando um futuro a chegar em que a Vontade predominaria inteiramente, vestida na frase de todos os disfarces, saudando enfim a Morte, a terrível amiga e conselheira, que havia de sugerir um dia a verdade da vida como sugeriu as crenças váquas e as meditações inanes...
– Mas escrever fora provar: a consciência perfeita não ensaia. Demais, que pretendia escrevendo? Castigar na tortura da fórmula a ideia livre, encadear as ondas do pensamento, a tormenta infrene da paixão, escravizar à norma a sua força, feliz inteiramente, sobre aquele mundo incriado, como espírito do Gênesis sobre as águas.
Bastava-lhe sentir e pensar intensamente a alma dos homens, vibrar como um eco o sofrimento, o entusiasmo dos semelhantes. Para que transmitir? Poder é a força em si.
Realizar é somente a expansão ocasional, a expansão é o suicídio da força. O vocábulo define a ideia; a encarnação limita o Verbo. Amesquinha-o.
Não! Gozaria no íntimo o egoísmo ignorado da pujança. Seria a sua alma para ele o próprio espetáculo. Ser uma alma completa: que mais? O seu poema aprofundaria os seus amores, servir-lhe-iam as ideias para a visão lúcida das cousas: seria poeta como um forte na barbaria primeira, antes da linguagem. Que sólido descanso repousar a mediocridade obscura sobre a força que produziria um universo! Tranquilizar a inércia sobre a glória de poder!
O poema voltaria ao cristal como a gota escapada à pena. Não baixaria à fórmula. Ignorá-lo-ia o mundo. Ignora-se também o diamante primitivo na obscuridade compacta das minas negras. Far-se-ia o sepulcro do seu orgulho, satisfeito de conservar inviolada a psique no mistério da renúncia...
Renunciou.

Ramo da esperança (Conto), de Raul Pompeia



Ramo da esperança

Um deles ergueu-se e olhou pelo mar...
– Terra?
– Não... não... Apenas o gume afiado e limpo do horizonte e o claro céu depois... Os náufragos recaíram na morna prostração do desânimo.
Três dias eram passados já que o incêndio e o oceano lhes haviam devorado
o navio e os companheiros. Só eles restavam. Eles e o pequeno batel que os levava.
O batel e o largo mar imenso...
Em roda, o sol quente e o medonho silêncio solene da calmaria morta.
À vista, nem um pano branco!... Nem a fumaça do continente, além!...
Guiavam-nos os cansados remos e a aventura; não havia mais pão; a água ia faltar.
O quarto dia despontou brumoso.
Ah! que o digam os marinheiros; o nevoeiro é triste como os sudários alvos.
O nevoeiro amortalha a coragem.
Perdidos!...
Mas alguma cousa avizinha-se sobrenadando. Todos olham.
Um braço mergulha sôfrego e levanta vitorioso ao ar um ramo verde...
Verde como a esperança!
Salvos!
Ali, ali mesmo na bruma, adivinha-se a terra firme, com as palmeiras verdes da pátria!

6/25/2019

Amor divino (Conto), de Brito Camacho


Amor divino
Todas as noites, antes de se meter na cama, ajoelhava sobre uma almofada, em frente do oratório, a rezar as suas devoções. Não dormiria tranquila, se urna vez só que fosse deixasse de cumprir essa espécie de penitência, a que se habituara desde pequenina, quando apenas sabia gaguejar o padre nosso, e raramente deixava de fazer na testa a cruz que devia fazer no peito. Por maneira que todas as noites, antes de se meter na cama, ajoelhava sobre uma almofada, em frente do oratório, a rezar as suas devoções, parecendo-lhe que os santinhos lhe sorriam, amorosos, por entre flores de papel, onde ela via com mágoa a irreverência das moscas. A todos adorava e queria muito, mas o Cristo ocupava um lugar privilegiado nas suas devoções e nas suas simpatias. Era, na verdade, uma linda imagem em bronze escuro, pregada numa cruzinha de pau preto, suspensa duma fitinha benta, que o seu noivo lhe tinha dado, numa romaria, antes de partir para África. As cartas que dele recebia, muito solicito em escrever-lhe, lia-as fechando-se no seu quarto, ajoelhada em frente do oratório, sobre uma almofada de suma-à-uma, e era como se as lesse ao seu adorado Cristo, pregado numa cruz. Tinha por certo que ele havia de preservar o seu noivo dos variadíssimos perigos de África, deferindo os seus rogos fervorosos, as suas enternecidas suplicas. Parecia-lhe, às vezes, que ele ia descerrar os lábios para lhe dizer que tivesse confiança, para lhe assegurar que os seus votos seriam exalça- dos, que as suas orações seriam ouvidas. E então lhe vinha um desejo louco de o beijar, de o meter no seio, do lado do coração, quase dentro do peito, a sentir queimar-lhe as carnes, como a Santa Tereza, uma chama lubrica, embora divina.
Muito pudica, muito decente, quando acabava de rezar as suas orações, ajoelhada sobre uma almofada, à hora de se deitar — o quarto frouxamente iluminado por um candeeiro de azeite, tapava o oratório com uma toalha de rendas simples, e só então se desembaraçava das roupas brancas, metendo-se entre lençóis, com a camisa de dormir.
Ora sucedeu que uma noite, já tinha voltado de África o seu noivo, são e escorreito como para lá partira, ela deixou de ajoelhar sobre a almofada, rezando as suas devoções, e como se esquecesse, no seu sonho de noiva que se entrega, de cobrir o oratório com a toalha de rendas simples, que fizera pelas suas próprias mãos, e não servia para outra coisa, apenas metida na cama, louca de amor, cortando o silêncio do quarto pequenino, que uma lâmpada sem vigor alumiava frouxamente, ouviu o Cristo gritar dentro do oratório, numa fúria de possesso:
— Ó que grande pouca vergonha!
Durante o dia não se atreveu a entrar no quarto, retinindo-lhe aos ouvidos aquela apostrofe violenta que o seu adorado Cristo soltara, e que seria talvez a condenação da sua alma, apanhada em flagrante pecado de luxuria.
Como fora possível toldar-lhe assim o juízo a embriaguez de um gozo que não seria menos intenso pelo fato de ser mais recatado, a volúpia de um prazer que ainda seria doce se o temperasse um bocadinho de pudor?
Nunca se despojava da roupa branca para se meter na cama, tendo rezado as suas devoções, sem tapar o oratório com uma toalha de rendas, e esta pratica era sem dúvida agradável ao Cristo, porque ela bem via que ele tinha o ar de lha agradecer, prestes a descerrar os lábios para lhe dar as boas noites. Perante a sua consciência reconhecia-se duplamente pecadora; mas seria possível que lhe não perdoasse o Cristo, ele que perdoara à Madalena, pecadora toda a vida, fazendo do pecado a sua profissão?
Na outra noite, quando ajoelhou sobre a almofada, a rezar as suas orações, os olhos mortificados do muito que chorara, a face macerada do muito que sofrera, pareceu-lhe que o Cristo se tinha deslocado na sua cruzinha de pau preto, e como o fixasse muito, a querer adivinhar na sua inalterabilidade de bronze o sentimento que lhe inspirava agora, desfolhada a sua coroa de inocência, bem via que ele já não lhe sorria como antigamente, e quis-lhe parecer que os outros santinhos, mais livres que Jesus, escondiam a cabeça para traz das flores de papel, onde ele nem via agora a irreverência das moscas.
E nunca mais se meteu na cama, tendo rezado as suas devoções, sem cobrir o oratório com uma toalha branca de rendas, que não servia para mais nada, e ela fizera por suas mãos.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

As ditaduras (Conto), de Brito Camacho



As ditaduras
 As oposições vão intensificar o seu combate ao governo por ter violado a Constituição.
(Dos jornais)
Chamava-se Constituição por ter nascido em 29 de abril, aniversário da outorga da Carta pelo sereníssimo duque de Bragança, o Sr. D. Pedro IV. O avô andara nas lutas contra D. Miguel, e andou mais tarde nos movimentos da patuleia, furioso contra os Cabrais, a quem atribuía todas as calamidades da Nação.
Já velho, ainda se abrasava em ódio quando narrava episódios das batalhas em que entrara, sem nunca ser ferido, como se tivessem medo dele as balas. De modo que ao nascer-lhe a neta, num amanhecer fresco de abril, ele notou logo a coincidência, e disse para o filho, apontando a cachopita — há de chamar- se Constituição.
O prior da freguesia, descendente de miguelistas, era ele próprio miguelista, sem rebuço dizendo por toda a parte que o constitucionalismo fora uma das dez pragas do Egito, a pior de todas, que caíra sobre a Nação.
Quando, a lavrar o termo do batismo, na sacristia, preguntou como se havia de chamar a menina, o avô usurpando os direitos do padrinho, respondeu— Constituição.
Serenamente o padre, interrompendo-se, colocou a pena no livro dos assentos, com o bico para fora, e encarando com firmeza o contumaz e impenitente liberal, disse-lhe, quase a soletrar as palavres:
— Este lugar não é próprio, sr. Batista, para se fazer política. A menina não pode chamar-se Constituição, porque nome semelhante não figura no fios sanctorum, e nunca houve santa, que eu saiba, que se chamasse assim.
— Sei muito bem que neste lugar se não deve fazer política, e muito lamentável é que a faça quem menos devia fazê-la — o prior da freguesia. Eu não pretendi ofender o seu miguelismo, e o senhor, negando-se a inscrever a menina com o nome de Constituição, não podendo basear o seu procedimento em qualquer disposição da lei civil ou do direito canônico, sequer ao menos em qualquer provisão vinda de Roma, propositalmente agrava os meus sentimentos liberais, e insulta gratuitamente a memória de quantos morreram nos combates travados contra o usurpador, fanáticos duma religião que o senhor não compreende, a Liberdade, porque lha escurenta o negrume da batina.
— Se em vez de uma menina fosse um menino, com o ataque de brotoeja política que lhe chegou fora de tempo, era capaz de querer que se chamasse Liberal.
— Não, senhor. Se em vez de uma menina fosse um menino, queria que se chamasse Torquemada, para lhe ser agradável. Seria como se na Arvore da Liberdade, se o não ofendo, se fizesse um enxerto de Figueira do Inferno.
Por feliz acaso, encontrava-se ali, na qualidade de convidado, o juiz de direito, homem de uma grande austeridade, por todos respeitado, nunca tendo lavrado uma sentença, condenando ou absolvendo, que a opinião pública não reputasse justa. Era absolutamente neutral em política; seu pai fora soldado de D. Pedro, e um irmão do pai andara nos bandos de D. Miguel. Ele confundia a memória de um e outro no mesmo respeito, porque ambos tinham sido valorosos combatentes, cada um deles honestamente convencido que a sua causa é que era justa.
Sabendo que das palavras facilmente se passa aos atos, e vendo eminente o escândalo de uma cena de pancada, quase nos degraus do altar, o juiz interveio, por todos escutado em silêncio.
— O Sr. padre há de desculpar, mas quer-me parecer que lhe não seria possível justificar perante a autoridade eclesiástica a recusa de fazer o registro nos termos em que se pretende que ele seja feito. A lei permite tudo quanto não proíbe, e não há disposição legal, no profano e no religioso, que proíba registrar- se uma criança com o nome de Constituição.
Calaram estas palavras no ânimo do prior, fazendo-se o registo da menina à vontade do avô.
Filha de gente pobre, teve uma educação abandonada, sempre metida com os rapazes da vizinhança, escondendo-se pelos cantos, aprendendo palavrões, iniciando-se em deboches.
Ainda não era mulher e já conhecia toda a ladainha das vielas, espreitando à porta dos bordeis, numa grande ânsia de curiosidade.
Um dia abandonou o lar paterno e foi viver em casa própria. Cedo perdeu a frescura, aquele viço de mocidade que é uma forma especial da beleza. Entrava um, entrava outro, e com todos ela tinha as mesmas condescendências, a todos prodigalizava os mesmos favores. Era uma baixa clientela a sua — fadistões cadastrados na polícia, souteneurs de profissão, alguns com maneiras de gente fina e susceptibilidades fidalgas.
Na vizinhança toda a gente sabia quem era a Constituição, mas raramente ela aparecia à janela, e quando se apresentava na rua — afetava tais ares de senhora, que nem sombras de escândalo provocava a sua passagem. Nunca a polícia se intrometeu na sua vida, e de uma vez que a chamaram aos tribunais, foi posta a exceção de incompetência, e ela recolheu a sua casa, a continuar o seu fadário. Se fora educada com mais recato, em criança, e a tivessem livrado das más companhias, já mulher, outra seria a sua conduta, que o seu natural, diziam as pessoas que de perto a conheciam, não era vicioso nem era mau. Por isso, e porque na rua afetava ares de senhora, não provocando o menor escândalo, os que a não lamentavam, eram-lhe indiferentes.
Ora sucedeu que uma noite, quando no bairro todos-dormiam a sono solto, e o guarda noturno meditava, encostado a um candeeiro, com a sua lanterna à cinta, de repente ouvem-se gritos aflitivos, desesperados, pedindo socorro — quem acode! quem acode!
Tudo acordou na vizinhança, e muita gente saltou para o meio da rua, em fralda de camisa, supondo que tinha fogo no prédio, embora não visse fumo nem chamas.
Os gritos vinham justamente da casa onde morava a Constituição, um prédio velho, que fora convento de frades, e como o guarda noturno, mais vigilante que a polícia, fosse o primeiro a acudir, foi ele o primeiro a saber do que se tratava. Prendeu o homem contra o qual a Constituição pedia socorro, e a. ela deixou-a em paz. Segurando-o por um braço, dispunha-se a levá-lo para a esquadra mais próxima, a não ser que no caminho encontrasse um guarda a quem o entregasse. O homem não oferecia resistência, e a todos dava a impressão de um cinismo revoltante, calmo depois do crime que praticara... e que ninguém sabia qual fosse. Assediado de perguntas, vendo que o não deixariam caminhar se não desse as informações que lhe pediam, o guarda no- turno explicou:
— Foi este sujeito que violou... que violou aquela menina — disse sacudidamente, apontando a Constituição, que assomara à janela...
O pânico converteu-se em troça, uma destas troças que ficam na memória dos homens, pelas gerações adiante,
— Olha a Constituição violada!... Olha a Constituição violada!
Retiniam as gargalhadas quebrando a serenidade daquela noite luarenta; cruzavam-se no ar os comentários picantes, os ditos apilarados, dum realismo canalha, que faria corar, à luz do dia, um carregador da alfandega, e já o sol assomava na fimbria do horizonte, doirando os pontos altos da cidade, e ainda os habitantes do bairro, os que tinham vindo para a rua aos gritos de socorro, exclamavam uns para os outros, rindo descompassadamente:
— A Constituição violada! Esta nem lembrava ao diabo!...



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Paixão fatal (Conto), de Brito Camacho



Paixão fatal
Bem me quer... mal me quer...
Ficou-se, pensativa, os dedinhos em fuso, com unhas cor de rosa, segurando a pétala branca, e os olhos negros, de veludo, pregados na areia seca, quase tão seca como os seus lábios em febre.
Bem me quer... mal me quer...
Vinham as ondas morrer na praia, e o seu confuso marulhar, como um sussurro prolongado, era uma cantilena ao sol poente, a sumir-se no horizonte em chamas.
Bem me quer... mal me quer...
Misteriosa é a linguagem das flores, mas repugna acreditar que mintam, e as pessoas que sabem entendê-las afirmam a segurança dos seus juízos e a propriedade rigorosa das suas palavras.
Bem me quer... mal me quer...
Descia vagarosa a noite, e por sobre o mar infinito estendia-se um longo manto de névoa pardacenta e tênue, que tornava ainda mais confuso o marulhar das ondas levemente túmidas que vinham morrer na praia em espreguiçamentos de odalisca amorosa, a reviver, sonhando, lances de embriaguez voluptuosa.
Bem me quer... mal me quer...
Ergueu da areia seca — quase tão seca como os seus lábios em febre, os olhos negros de veludo, úmidos das abundantes lágrimas que pela face lhe escorregavam, caindo sobre o seu branco vestido de noiva, tão branco como as pétalas que arrancava ao malmequer, com os seus dedinhos em fuso, as unhas cor de rosa...
Bem me quer... mal me quer...
Caminhou, a passos lentos, calcando a areia seca, para uma luzinha que brilhava ao longe, hipnotizando-a sem a adormecer, ouvindo o marulhar confuso das ondas, como um sussurro prolongado, e crendo que uma voz a chamava, lá de longe, de muito longe, de onde brilhava aquela pequenina luz intensa que a hipnotizava sem a adormecer.
Bem me quer... mal me quer...
Teve um estremecimento quando a primeira onda lhe beijou os pés, desfazendo-se em espuma, mas foi caminhando sempre, a passos lentos, os olhos presos aquela pequenina luz que de longe, de muito longe, a hipnotizava sem a adormecer, crendo que era de lá que partia aquela voz que a chamava, entre súplice e prometedora.
Bem me quer... mal me quer...
Aos primeiros clarões da madrugada, quieto e silencioso o mar, diáfano e roto o manto de nevoa pardacenta que a noite lançara por sobre as águas, uns barqueiros que passavam virara o seu corpo, hirto e leve, como se fosse uma grande flor recortada em neve boiando na placidez de um lago adormecido.
Nos dedinhos em fuso, as unhas cor de rosa, segurava a última pétala que arrancara à flor homicida, como se fosse o punhal que vigorosamente cravara no coração, louca de amor, nos desesperos de não ser amada.
Bem me quer... mal me quer...



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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Sangue azul (Conto), de Brito Camacho



Sangue azul
— Vossa excelência há de perdoar, mas há perto de trinta anos que temos contas...
— É certo; há perto de trinta anos que temos contas, e nunca o senhor deixou de ser pontual e correto.
— Mas como é, então, que o senhor conde...
— Eu lhe explico. O senhor é um republicano exaltado, embora, sincero, e eu não quero ter como rendeiro...
— Um republicano exaltado?... Mas bem sabe vossa excelência, que eu sempre fui republicano, já o era quando tomei conta das propriedades que o senhor conde me arrendou!... A minha exaltação republicana nunca se traduziu em prejuízos para vossa excelência quer levando- me a não pagar as rendas com a maior pontualidade, quer fazendo com que não cuidasse das suas propriedades como se fossem minhas. Republicano exaltado, desculpe o sr. conde, nunca fui, a menos que por exaltação se entenda inabalável firmeza de convicções. Republicano, sim, fui-o sempre, sou-o desde que me entendo; já o era quando tomei conta das propriedades que vossa excelência me deu de arrendamento.
— Não há dúvida. Simplesmente antes da República feita eu não acreditava que ela se fizesse, de modo que o seu republicanismo tinha para mim a significação de uma espécie de mania absolutamente inofensiva... Digo-lhe mais — achava bem que houvesse republicanos, porque a ação fiscalizadora que eles exerciam sobre a política e a administração continha os governos dentro de certos limites, evitando desmandos ruinosos. O Sr. era republicano, e eu não ignorava que o fosse; nunca lhe pedi que votasse nos candidatos do meu partido, nem mesmo quando um desses candidatos... era eu. Reputava inabaláveis os fundamentos da Monarquia, tão velha como a própria nacionalidade; era minha convicção que o trono resistiria a todos os embates, porque tinha raízes na alma da Nação. Nestas condições o seu republicanismo, como já disse, tinha para mim a significação de uma espécie de mania absolutamente inofensiva, uma tineta de que não viria mal ao mundo, a menos que se tornasse epidêmica.
— E agora?
— Agora o seu republicanismo é uma afronta ás minhas convicções políticas e ás minhas crenças religiosas, é a negação das tradições que nobilitam o meu nome, e também é, pela extorsão dos impostos, uma ameaça à minha fortuna.
— Não me compete discutir com o sr. conde as vantagens ou desvantagens da Republica. Seria republicano mesmo que os governos na vigência da Monarquia, administrassem com superior inteligência e irrepreensível honestidade; continuaria sendo republicano mesmo que os governos da Republica juntassem a uma incompetência manifesta uma flagrante improbidade. O que eu não percebo, Sr. conde, é o que tem que ver a forma política da Nação com as relações entre rendeiros e senhorios, estatuídas juridicamente em contrato, ou assentando simplesmente, como no meu caso, numa base de confiança mutua.
— É possível que tenha razão; mas dispenso-o de tentar convencer-me, porque perderia o seu tempo.
— De modo que a resolução de vossa excelência?...
— É absolutamente inabalável. No fim do ano eu tomo conta das propriedades, e o senhor arranja a sua vida como julgar mais conveniente.
— Assim será, visto que o Sr. conde quer que assim seja... Se lá no outro mundo o avô de vossa excelência e o meu tivessem conhecimento do que se está passando entre nós, ambos o lamentariam com profunda e sincera mágoa.
— Por quê? O seu avô serviu a nossa casa?
— Não, sr. conde. O meu avô e o avô de vossa excelência foram aprendizes de ferrador na mesma oficina, e a amizade que aí contraíram durou a vida de ambos, estimando-se e ajudando-se como se fossem irmãos.
As voltas que o mundo dá, Sr. conde!...


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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Almas benfazejas (Conto), de Brito Camacho



Almas benfazejas
Era dos sócios fundadores.
Não havia memoria de ter faltado a uma sessão, e constava das atas que a sua propaganda era das mais eficazes. Quase não passava um dia, e nunca passava uma semana, sem que ele desse conhecimento à Sociedade de qualquer ado punível, nos termos das leis adotadas para a proteção aos animais. Também era raro que passasse uma semana sem ele fazer a proposta de um ou mais sócios, criaturas que para se verem livres dele — um sarna! — condescendiam! em pagar uma quota e receber um diploma — que também pagavam.
Todos os dias visitava a Praça da Figueira, porque lhe constava que ali maltratavam os animais expostos à venda, chegando a dizer-se que certas mulherzinhas, por estupidez ou por maldade, depenavam galinhas vivas, fato que ele nunca surpreendera, por mais diligências que fizesse.
De uma vez pregaram-lhe com um coelho na cara, um coelho que estava pendurado pelas pernas, e por um triz não há uma desordem sangrenta na Praça, porque o tomaram por gatuno, que andava por ali, com incrível audácia e desvergonhamento, a fazer rapinâncias.
Às  vezes apeava-se dos elétricos para verificar a lotação do Chora, e nunca deixava de chamar um polícia, se o avistava ali próximo, para obrigar os passageiros a mais, a aliviarem o carro.
Usando e abusando da sua qualidade de Sócio da Protetora obrigava os carroceiros a darem conta do peso que transportavam, causando-lhes demoras inúteis, porque não havia maneira de verificar se mentia ou dizia a verdade.
Um dia, na Calçada do Combro, viu um magro cavaliqueques a puxar uma carga, que reputou excessiva para as forças do animalejo, e logo intimou o respectivo carroceiro a aliviar a carga ou pedir reforço de outra cavalgadura, caso fosse mais da sua vontade. O carroceiro, que já o conhecia, e que por causa dele já pagara umas duas multas, furioso por que o cavalo não arrancava, e ainda mais furioso porque lhe moía a paciência, deitou-lhe as mãos ao cachaço, e queria à viva força obrigá-lo a dar uma ajuda, maneira indireta de tornar a carga menos pesada.
Clamava, com fúria, contra as touradas, e quando via, nos jornais, que um toureiro, em Espanha perdera a vida na arena, não se furtava a dizer baixinho, como que envergonhado de si próprio — bem feito — embora soubesse que essa morte tornava mais interessante o espetáculo.
Chamavam-lhe o Roseta, porque em assembleia geral da sua Sociedade propusera, ficando a proposta para ser admitida numa segunda leitura, que as esporas, na cavalaria, não tivessem roseta, fazendo uma larga dissertação, substanciosa e erudita, sobre a educação dos animais, susceptíveis, como as crianças, de se educarem sem pancadas.
A primeira voz que se ergueu contra o uso do aguilhão, foi a sua, propondo que se substituísse o aguilhão pelo chicote, à moda bóer. Quando os jornais deram a notícia de se ter inventado na América um aparelho elétrico para a execução dos condenados à morte, matando instantaneamente e sem dor, ele propôs que se representasse ao Governo, no sentido de em todos os matadouros do país se adotar o maravilhoso instrumento. E ofereceu-se logo, pagando-lhe a viagem, para ir ver, nas mais importantes cidades americanas, como funcionava essa guilhotina de nova espécie, expedita e humanitária, encarregando-se de lá mesmo fazer estudar as modificações que seria necessário introduzir-lhe, adaptando a ao fim proposto.
A seu pedido andava um atuário estudando a organização de um Monte Pio só para cavalos, podendo mais tarde, quando a instituição já estivesse bem dirigida, alterar-se o respectivo Estatuto, sendo admitidos outros animais, todos quadrupedes, pagando joia e quota. Depois, se a experiência desse bons resultados, se procederia da mesma forma para com os outros viventes, ficando desde logo estabelecido que no Monte Pio das Aves não seria permitida a inscrição dos melros.
À sua porta não se dava esmola, e na rua, quando um desgraçado lhe estendia a mão, implorando cincorezinhos, ou fingia que era surdo, ou repelia o pedinte, com modos e palavras grosseiras — vá trabalhar, que tem bom corpo; vá para o hospital, que tem lá casa e mesa de graça.
Não constava que fosse membro de qualquer Associação de beneficência, e proibirá a mulher de fazer parte de uma comissão de senhoras, que se organizai na sua freguesia, para angariar donativos, de qualquer espécie, destinados ás raparigas tuberculosas, incapacitadas de trabalhar.
— Se gastassem menos em luxo e mais na comida, já não se tuberculizavam.
Logo que foi declarado o estado de guerra, constando-lhe que de Portugal iria uma unidade completa de batalha, fez reunir extraordinariamente a Sociedade para tratar dos socorros a prestar em campanha,... aos cavalos, coitadinhos. Nunca fora tão eloquente como naquele dia, a chorar sobre a sorte dos pobres animais que a bruteza humana leva para os campos de batalha, fazendo-os ao mesmo tempo vítimas e auxiliares dos seus crimes. Falou de São Francisco de Assis, narrando alguns dos casos que andam na lenda franciscana, entre eles o do lobo tomou com o Santo o compromisso de honra de nunca mais comer uma ovelha, um carneiro, um borrego, uma cabra, um bode ou um chibo, passeando por entre os rebanhos, ás vezes esfomeado, como se fosse um cão de guarda, perdido o seu instinto carniceiro.
E perorou:
— Todos os seres viventes são obra do Criador, tudo quanto há com fôlego à superfície da terra ou na profundeza dos mares, tudo Deus formou da matéria vil, insuflando-lhe o espírito divino, que outra coisa não é a vida. Por isso São Francisco se considerou irmão de todos os animais, irmão dos lobos e dos peixes, irmão dos pombos e das cotovias. À semelhança do Poverelo, embora sem os merecimentos que o tornaram grande em vida e o santificaram depois de morto; na hora trágica e incerta em que Portugal vai entrar na guerra, regando com o sangue generoso dos seus filhos e dos seus cavalos, os talados campos da Flandres, ergo um brado em favor dos nossos irmãos solípedes, vítimas da iniquidade dos homens.
A assembleia aplaudiu, num delírio, e por aclamação foi votado que se organizasse uma Cruz Parda, destinada a proteger os animais na guerra, não só dando-lhes a assistência de que necessitassem, quando feridos, mas também garantindo-lhes um futuro sem privações, se por motivos da guerra viessem a inutilizar-se para o trabalho. Como houvesse ainda alguns oradores inscritos, pediu licença para se retirar, declarando que daria o seu voto a todas as resoluções que fossem tomadas.
À porta um aleijado, que para mais era cego, pediu-lhe uma esmolinha pelo amor de Deus, e como estendesse a mão, a tocar-lhe no braço, sacudiu-o como se fosse um animal asqueroso, atirando-lhe, em vez da esmola, uma praga.
— Não sei para que serve a polícia! Não dá a gente um passo na rua que não se lhe depare um espetáculo destes, que até faz náuseas.
Quando chegou a casa, radiante como se tivesse ganho uma batalha, esfomeado como se tivesse feito um largo jejum, a mulher não tinha o jantar pronto. Havia um mês que estava sem criada, e a sua compleição franzina mal podia com o trabalho da casa.
— De janela, hein!
Habituada a maus tratos, a pobre quis justificar-se com palavras mansas, mas ele, incendido em cólera, por entre grosserias e insultos, moeu-a de pancadas.
... Ainda ressoavam na sala nobre da Sociedade as suas últimas palavras, eloquentes e enternecidas, orvalhadas de lágrimas na defesa dos animais, coitadinhos!...

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

6/24/2019

Nem tudo o que luz... (Conto), de Brito Camacho



Nem tudo o que luz...
Subitamente, dominando o barulho das ruas próximas, produziu-se no pequenino jardim, onde brincavam crianças, um ruído formidável, qualquer coisa de semelhante ao estampido dum trovão seco.
Nenhum prédio desabou, não se partiram vidros, não se desenraizaram árvores, mas quem ouviu o estrondo, sem tempo para refletir, acreditou que alguma coisa ruíra, e tal houve que na alucinação do terror viu a terra fender-se em bocas escancaradas, de onde saíam labaredas.
Havia poucos dias que uma bomba, atirada para um café, tinha produzido umas poucas de vítimas, e a polícia já deitara a mão a perigosos bombistas, andando no encalço de outros por igual perigosos. Recrudescera a febre destruidora dos inimigos da sociedade, começando a formar-se o pânico na população.
Um polícia correu para o único mictório que havia no pequeno jardim, a apitar, e toda, a gente o foi seguindo, instintivamente, estacando quando ele parou, segurando pelas costas um galego, que nem tempo tivera para se compor, e fazia esforços desesperados para não sair em jeitos de ofender a moral.
— Está preso!
Houve uma dificuldade enorme para evitar que o povo linchasse o facínora, pois que, embora ali não houvesse o menor sinal de explosão, era certo para toda aquela gente, e era certíssimo para o polícia, que fora aquele galego quem atirara a bomba.
Quem havia de ser, senão aquele malvado?
Por ali não havia ninguém com ares e modos de bombista, não passara ninguém que suscitasse a suspeita de ser um terrível nivelador social.
Quem sabe?
Talvez aquele galego não fosse, como inculcava, um pobre diabo vindo da Galiza para aqui ganhar honradamente a sua vida, mas sim um legionário disfarçado, um autêntico anarquista já com prática de tais proezas.
Galego aquilo, sem corda nem saco...
A cólera subiu de ponto quando uma voz gritou que estava ali morta, em cima de um banco, uma pobre velhota, de aparência decente, vítima de um estilhaço, que lhe penetrara o ventre. Era verdade que a velhota estava morta, e era também verdade que a vitimara a explosão... de um aneurisma, conforme dissera um doutor que ia passando no momento em que ela expirava.
— Conheço, muito bem esta senhora. Era minha cliente e sofria de um aneurisma da aorta há uns quatro anos. Mora na rua de tal, nº tantos.
Poucas pessoas ouviram a explicação do médico, e dessas, umas impuseram-se o dever piedoso de não abandonar o cadáver, enquanto outros iam chamar um carro que conduzisse a velhota ao hospital ou à Morgue.
Para o grande número, para a multidão que se formara junto do urinol, fora sem a menor sombra de dúvida um estilhaço que matara a pobrezinha, e a respectiva bomba fora aquele talassa, em travesti de galego, que a pusera no mictório.
Um patriota, sócio do Club Sola e Vira, chegando em plena balbúrdia, e informado do que se passava, lançou a hipótese de ser aquele galego um talassa, levado à pratica de tão hediondo crime para comprometer a Republica.
Já se erguiam bengalas, já se abriam navalhas, já se engatilhavam pistolas, quando o galego, apercebendo-se do erro daquela gente, num rasgo de gênio, gritou que se afastassem, porque tinha ali outra bomba. Instintivamente o polícia largou-o, a multidão recuou, e ele então, erguendo as mãos acima da cabeça, contraindo a musculatura forte, bumba! — exatamente como havia instantes, sem que nenhum prédio desabasse, sem que algum vidro se partisse, sem que se desenraizassem arvores.
E foram todos concordes, mais vexados do que furiosos, em que nunca tinham ouvido uma coisa assim.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

Amores trágicos (Conto), de Brito Camacho



Amores trágicos
Tinha dezessete anos.
A noiva, um pouco mais nova do que ele, morrera havia dois meses.
Aos dezessete anos não é licito ter uma noiva, mas apenas uma namorada, duas ou três namoradas, porque os jovens corações, à semelhança das borboletas, pousam aqui e além, sempre enternecidos, mas livres sempre.
Certo é que, desde que lhe morreu a noiva, uma encantadora rapariga que aliava aos mais desejáveis dotes físicos os mais excelentes predicados morais, nunca mais teve uma hora de sossego, baldadamente procurando diluir em lágrimas a dor imensa que o torturava.
Todos os dias, ao cair da tarde, rigorosamente vestido de luto, ia ajoelhar sobre a sua sepultura, atapetada de flores.
Ali ficava, horas esquecidas, ás vezes colando o ouvido à pedra tumular como para recolher um segredo, uma palavra carinhosa, um juramento de amor, uma promessa de felicidade com que ela, a morta querida, pretendesse suavizar o seu incomportável sofrimento, a sua dilacerante saudade.
Tivera a coragem, que se lhe afigurava agora covardia, de não se matar quando a viu morta, não obstante ter-lhe dito, pouco antes, perguntando-lhe ela, numa crise de sofrimento pré-agônico, o que faria se ela morresse:
— Se fu morresses, o que Deus não permitirá, matava-me.
Só abandonara o cadáver por breves instantes, em- quanto o vestiam, e até fecharem o caixão, como que hipnotizado, os olhos fitos no seu rosto lindo, que a morte não transtornara, parecia querer surpreender o mais leve, o mais apagado sinal de vida, um imperceptível tremelicar das pálpebras ou dos lábios, um estremecimento de letárgico que se não ouvisse, como a harmonia das esferas, que se não visse, como o movimento da luz.
Quando a metraram na cova, ainda alto o sol, a atmosfera ligeiramente turva, o céu de um azul desbotado, quase sem nuvens, dois rouxinóis puseram-se a trinar, pousados no mesmo cipreste, ali perto, e ele teve a impressão de um coro divino que se organiza para acompanhar a alma da sua querida morta aos paramos infinitos.
A partir de então, todos os dias, àquela hora, rigorosamente vestido de preto, ia ajoelhar sobre a sua sepultura, atapetada de flores, e ás vezes, colando o ouvido à pedra tumular, parecia-lhe que lá de dentro vinham sons, vozes mal articuladas em que ele adivinhava promessas de felicidade, juramentos d'amor.
Naquele dia, como nos outros, rigorosamente vestido de preto, chegou à hora em que ela fora enterrada e ajoelhou sobre a sua sepultura, atapetada de flores, colhidas de fresco. Um moço do cemitério, generosamente retribuído, tinha o encargo piedoso de não deixar que houvesse flores murchas sobre aquele cofre sagrado.
Pareceu-lhe, na alucinação que o dominava, que ela se revolvia na cova e o chamava para junto de si, para os divinos esponsais.
— Eu vou! Eu vou!
Um guarda que andava ali perto, em serviço de ronda, ouviu uma detonação, e correndo para o local donde lhe pareceu que ela partira, encontrou-o morto, o revolver na mão crispada e nos lábios o esboço dum sorriso triste e feliz, expressão trágica dos que morrem de amor, certos de que noutro mundo, certos de que noutra vida encontrarão a felicidade que na terra não encontraram.

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Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019)

As aparências enganam (Conto), de Brito Camacho


As aparências enganam
Sempre tivera a paixão das mulheraças, importando-se pouco que fossem bonitas ou feias. Todos os encantos femininos eram redutíveis, segundo o seu critério e gosto, a gramas e centímetros. Bem entendido, a mulher comprida, esgalgada, expressa numa só dimensão, o comprimento, embora lhe chamasse a atenção, não lhe perturbava os sentidos. O mesmo lhe sucedia com as mulheres baixas e repolhudas, as madamas estilizadas em abobora, com mais de noventa quilos, peso limpo.
Era capaz de correr a cidade inteira, em todas as direções, atrás desses Himalaias de saias, e por mais de uma vez lhe sucedeu continuar a viagem, em comboio, muito para além do seu destino, atraído por qualquer Eva de um metro e setenta e cinco de altura, não levando em conta os saltos, e a largura correspondente.
Era um fetichismo burlesco, no gênero de muitos outros que andam descritos em certos livros de medicina e constituem um dos capítulos mais interessantes da psicopatologia dos sexos, Sobre a maior parte dos outros fetichismos amorosos, que ele nem conhecia de leitura, jamais tendo prendido a sua atenção a essa ordem de estudos, este tinha a vantagem de não o sujeitar a percalços graves, sempre a respeitosa distância das madamas que seguia, a menos que um olhar acariciador caísse sobre ele, como um convite.
Falava do Oriente com muito desdém, por causa da pequenez das mulheres, talvez estimáveis bibelôs, cheios de frescura e de graça, mas bibelôs em todo o caso. Lera, algures, que as crianças são mulheres pequeninas, e logo invertera a máxima, para seu uso, dizendo que as mulheres pequenas são crianças grandes. Ora as crianças, na sua minusculidade de bonecas, eram indiferentes, absolutamente indiferentes aos seus apetites amorosos, eminentemente sexuais.
Fosse como fosse, as mulheraças exerciam sobre ele, bonitas ou feias, uma atração irresistível, a tal ponto que algumas vezes lhe sucedeu continuar a viagem, em comboio, muito para além do seu destino, prezo aos encantos de uma Vênus culatrona, comprida e larga.
Entrou no baile sem nenhuma intensão de se demorar; mas viu aquela enorme máscara, dominando a multidão, e ficou talqualmente como um saloio que dando uma topada numa pedra, encontrasse um tesouro. Tinha um rebolar de ancas como têm geralmente as varinas, e era de uma elegância tamanha a dançar, que dir-se-ia uma estrela coreográfica aplaudida e consagrada pelas mais exigentes plateias. Véstia de Judite de Betúlia, segundo a narrativa bíblica, e ele não se importava de ser o Olofernes, com tanto que antes de lhe cortar a cabeça, ela se lhe tivesse entregado sem restrições.
Pôs-se a segui-la devorando a com os olhos, lamentando-se de não saber dançar, o que tornaria fácil a abordagem, aliás nunca extremamente difícil num baile de máscaras, com entradas pagas.
Notou que ela andava em completa liberdade, dançando com este, dançando com aquele, conversando com uns, conversando com outros, mas livre como um passarinho na eira ou como um cabrito na pastagem.
Tanto fez que ela o notou, demorando se a fitai-o por detrás da máscara, naquele momento atrelada a um cavalheiro que lhe dava pelo ombro, e era dos homens mais altos que havia na sala.
Já perto da meia-noite, vendo-a no bufete, encheu-se de coragem e convidou-a para cear, se quisesse dar-lhe esse prazer — ali mesmo ou n’um gabinete reservado.
Agradeceu, fazendo uma reverencia, e voltou para a sala do baile, alta como a Torre dos Clérigos, ancha como o zimbório da Estrela.
Continuou a persegui-la, agora com mais insistência, às vezes perdendo-a de vista, no turbilhão dançante, e então farejando-a como um podengo, no mato, fareja um coelho.
Passou revista à carteira, e verificou que tinha bagagem suficiente para empreender uma batida àquela peça de caça grossa, que certamente não era uma ressurreição da Lucrécia romana, e a ser uma Imperatriz, seria a famosa Catarina da Rússia, cantada pelo Bocage.
Nunca se vira assim enternecido, fascinado por uma mulher, talvez bonita, talvez feia, o que pouco lhe importava, porque o seu critério de beleza feminina era o quilo e o metro.
Na verdade, era uma grande mulher, uma enormíssima mulher, as ancas largas como se fosse o cavalo de Troia antes de parir todos aqueles guerreiros que lhe atafulhavam o ventre.
Pediu a um amigo que fosse dançar com ela, para ele ter um bom pretexto para se aproximar, entabulando uma conversa que tivesse resultados decisivos.
Assim foi.
O amigo retirou-se logo que a conversa pegou, e ele então, mais animado que no bufete, a ver que as horas iam passando, e o baile acabaria antes do sol fora, não esteve com grandes cerimônias — propôs-lhe saírem, indo acompanhar à casa.
Houve a inevitável resistência, começando pelo desdém, vindo a seguir o protesto mais afetuoso que violento, acabando numa enternecida condescendência, guardadas as devidas cautelas — mulher casada, com filhos...
Morava longe, era muito conhecida no Bairro, e aquela hora, já quase dia, algum vizinho podia estar à porta ou à janela, ou recolher de uma noitada carnavalesca, encontrando-se na rua, de nada lhe servindo a máscara.
O porteiro do hotel, quando os viu entrar, estacou diante d’aquela bisarma de saias, tendo a impressão de ver na sua frente uma baleia mascarada. Ele então, radiante, parecendo ainda mais pequenino ao pé daquela mole gigantesca, tinha o ar babado de um serviçal que a patroa admite na sua intimidade.
— Haverá quarto?
O porteiro, já velhote, permitindo-se uma liberdade que, em qualquer outra época, não teria com o hospede da mais humilde condição, disfarçando um riso velhaco sob a espessura d um bigode branco pela idade e amarelado pelo cigarro, respondeu:
— Quarto ha, com certeza; agora cama que dê a conta...
E servindo-se dos olhos como de um compasso, mediu-os de alto a baixo, primeiro o cavalheiro, depois a dama, mal resistindo à tentação de lhes dizer que no Hotel não havia leito onde pudesse estender-se tão agigantada pessoa sem ficar com as pernas dependuradas.
Subiram, e logo ao cimo da escada lhes apareceu um criado, o de vela, perguntando o que desejavam. 
— Um quarto, se há.
— Sim senhor, há quarto. É só para dormida?
— É. Por que faz essa pregunta?
— É porque o quarto só para dormida paga-se adiantado.
Tirou dinheiro da carteira e pagou — dando logo gorjeta.
O criado desapareceu, levando um castiçal na mão; voltou daí a pouco, e disse para o cavalheiro, muito atencioso:
— Façam favor acompanhem-me.
Ninguém soube, ¡amais, o segredo daquele tête-à-tête, mas daí a nada o homenzinho, deixando no quarto a mulher himalaica e mascarada, saía em pé de vento, murmurando esta imprecação raivosa:
— Malandro!... Grandíssimo malandro!



---Pesquisa e adequação ortográfica: Iba Mendes (2019